Priscilla Borges - iG Último
Segundo - 05/02/2013 - São Paulo, SP
“O ambiente
escolar me dá fobia, taquicardia, ânsia de vômito.
Até os enfeites das paredes me dão nervoso. E eu era a pessoa
que mais gostava de enfeitar a escola. Cheguei a um ponto que não
conseguia ajudar nem a minha filha ou ficar sozinha com ela. Eu não
conseguia me sentir responsável por nenhuma criança. E eu
sempre tive muita paciência, mas me esgotei.”
O relato é
da professora Luciana Damasceno Gonçalves, de 39 anos. Pedagoga,
especialista em psicopedagogia há 15 anos, Luciana é um
exemplo entre milhares de professores que, todos os dias e há anos,
se afastam das salas de aula e desistem da profissão por terem
adoecido em suas rotinas.
Para o pesquisador
Danilo Ferreira de Camargo, o adoecimento desses profissionais mostra o
quanto o cotidiano de professores e alunos nos colégios é
“insuportável”. “Eles revelam, mesmo que de forma
oblíqua e trágica, o contraste entre as
abstrações de nossas utopias pedagógicas e a
prática muitas vezes intolerável do cotidiano escolar”,
afirma.
O tema foi
estudado pelo historiador por quatro anos, durante mestrado na Faculdade de
Educação da Universidade de São Paulo (USP). Na
dissertação O abolicionismo escolar: reflexões a
partir do adoecimento e da deserção dos professores , Camargo
analisou mais de 60 trabalhos acadêmicos que tratavam do adoecimento
de professores.
Camargo percebeu
que a “epidemia” de doenças ocupacionais dos docentes
foi estudada sempre sob o ponto de vista médico. “Tentei
mapear o problema do adoecimento e da deserção dos
professores não pela via da vitimização, mas pela
forma como esses problemas estão ligados à forma naturalizada
e invariável da forma escolar na modernidade”, diz.
Luciana
começou a adoecer em 2007 e está há dois anos
afastada. Espera não ser colocada de volta em um colégio.
“Tenho um laudo dizendo que eu não conseguiria mais trabalhar
em escola. Eu não sei o que vão fazer comigo. Mas, como essa
não é uma doença visível, sou
discriminada”, conta. A professora critica a falta de apoio para os
docentes nas escolas.
“Me sentia
remando contra a maré. Eu gostava do que fazia, era boa
profissional, mas não conseguia mudar o que estava errado. A escola
ficou ultrapassada, não atrai os alunos. Eles só estão
lá por obrigação e os pais delegam todas as
responsabilidades de educar os filhos à escola. Tudo isso me
angustiava muito”, diz.
Viver sem escola:
é possível?
Orientado pelo
professor Julio Roberto Groppa Aquino, com base nas análises de
Michel Foucault sobre as instituições disciplinares e os
jogos de poder e resistência, Camargo questiona a existência
das escolas como instituição inabalável. A
discussão proposta por ele trata de um novo olhar sobre a
educação, um conceito chamado abolicionismo escolar.
“Criticamos
quase tudo na escola (alunos, professores, conteúdos, gestores,
políticos) e, ao mesmo tempo, desejamos mais escolas, mais
professores, mais alunos, mais conteúdos e disciplinas. Nenhuma
reforma modificou a rotina do cotidiano escolar: todos os dias, uma
legião de crianças é confinada por algumas (ou muitas)
horas em salas de aula sob a supervisão de um professor para que
possam ocupar o tempo e aprender alguma coisa, pouco importa a
variação moral dos conteúdos e das estratégias
didático-metodológicas de ensino”, pondera.
Ele ressalta que
essa “não é mais uma agenda política para trazer
salvação definitiva” aos problemas escolares. É
uma crítica às inúmeras tentativas de reformular a
escola, mantendo-a da mesma forma. “A minha questão é
outra: será possível não mais tentar resolver os
problemas da escola, mas compreender a existência da escola como um
grave problema político?”, provoca.
Na opinião
do pesquisador, “as mazelas da escola são rentáveis e
parecem se proliferar na mesma medida em que proliferam diagnósticos
e prognósticos para uma possível cura”.
Problemas
partilhados
Suzimeri Almeida
da Silva, 44 anos, se tornou professora de Ciências e Biologia em
1990. Em 2011, no entanto, chegou ao seu limite. Hoje, conseguiu ser
realocada em um laboratório de ciências. “Se eu for
obrigada a voltar para uma sala de aula, não vou dar conta.
Não tenho mais estrutura psiquiátrica para isso”, conta
a carioca.
Ela concorda que a
estrutura escolar adoece os profissionais. Além das doenças
físicas – ela desenvolveu rinite alérgica por causa do
giz e inúmeros calos nas cordas vocais –, Suzimeri diz que o
ambiente provoca doenças psicológicas. Ela, que cuida de uma
depressão, também reclama da falta de apoio das
famílias e dos gestores aos professores.
“O professor
é culpado de tudo, não é valorizado. Muitas
crianças chegam cheias de problemas emocionais, sociais. Você
vê tudo errado, quer ajudar, mas não consegue. Eu pensava: eu
não sou psicóloga, não sou assistente social. O que eu
estou fazendo aqui?”, lamenta.