
LONGA
ESPERA -- Verjovski, no laboratório de pesquisas sobre câncer da USP:
"Nossos estudos estão sempre defasados" (Foto: Egberto Nogueira)
Reportagem de Nathália Butti publicada em edição impressa de VEJA
BEM PREPARADOS. E AGORA?
Cientistas que se aperfeiçoaram nas melhores
universidades do mundo, patrocinados pelo governo, voltam para casa e
deparam com o de sempre: burocracia e falta de verbas
Até 2015, 100000 estudantes brasileiros, patrocinados pelo governo
federal, terão vivido a experiência de trabalhar lado a lado com os mais
preeminentes cientistas do mundo, nas melhores universidades
estrangeiras.
Esses jovens estão sendo garimpados entre os mais talentosos dos
cursos de graduação ao pós-doutorado das universidades para fazer parte
do Ciência sem Fronteiras, programa criado para preparar gente
capaz de produzir conhecimento e inovação à altura dos melhores centros
de pesquisa do mundo – e assim contribuir para reduzir o histórico
atraso do Brasil nesse campo.
Desde 1951, quando o país passou a enviar alunos ao exterior, nunca
se viu um plano tão ambicioso. Parte da primeira leva de quase 6000
bolsistas que embarcou para o exterior começa a voltar agora. E aqui
começam os problemas.
Não se sabe como nem onde esses jovens cérebros – e tudo o que eles
absorveram em sua temporada fora – serão aproveitados. Certo é que, como
seus pares – mesmo aqueles que compõem a nata da academia -, eles terão
de enfrentar obstáculos que há tempos vêm refreando os avanços
científicos no país.
Um grupo de especialistas ouvidos por VEJA chama atenção para o fato
de que o esforço e o dinheiro empreendidos pelo governo (o projeto deve
consumir 3,4 bilhões até 2015) de pouco adiantarão se as cabeças em que
ele investiu não tiverem o mínimo necessário para dar o desejado salto
agora, na volta.
A maior dificuldade que espera os bolsistas é conseguir que, como
eles, material e equipamentos também atravessem a nossa fronteira e
cheguem aos lugares certos. “Esbarramos sempre em um problema
burocrático recorrente. É preciso superá-lo de uma vez por todas para
que possamos competir de igual para igual com as potências científicas
do mundo”, reforça a bióloga Mayana Zatz, à frente do Centro de Estudos
do Genoma Humano da Universidade de São Paulo.
Desde 2010, ela e seu grupo tentam trazer da Índia para o Brasil
moléculas de DNA que permitiriam aprofundar o conhecimento de uma rara
doença degenerativa do sistema nervoso, ainda sem cura. Mas a remessa já
foi e voltou duas vezes sem que a alfândega brasileira a liberasse nem
tampouco desse explicação alguma a respeito. A importação de reagentes é
outra epopeia: leva até quatro meses, enquanto nos países da OCDE o
processo se conclui em, no máximo, uma semana. “Por causa disso, nossos
estudos estão sempre defasados”, lamenta Sergio Verjovski, que lidera
pesquisas sobre câncer no Instituto de Química da USP.
As ideias que circulam no meio acadêmico para avançar nessa área são
simples. Sugere Mayana: “Nos Estados Unidos, o país mais inovador do
mundo, há um canal especial para que pesquisadores e fornecedores de
reagentes negociem diretamente, usando um cartão que autoriza as compras
sem imposto nem burocracia. Não seria difícil adotar um sistema
parecido aqui. O governo já tem todos os dados”.
Garantir o mínimo de condições para que a ciência evolua é apenas o
ponto de partida para tornar o Brasil atraente para os melhores alunos. A
experiência mostra que é preciso ir muito além. É fundamental dar
incentivos concretos aos pesquisadores para que permaneçam no país, como
fizeram China e Coreia do Sul.
Nos anos 1960, 97% dos cientistas coreanos formados em universidades
americanas se recusavam a retornar à Coreia, destroçada pela guerra
civil que havia se encerrado anos antes. O governo então investiu para
trazê-los de volta, oferecendo-lhes altos salários e posições de
prestígio nos centros de pesquisa e tecnologia que começavam a ser
criados.
As grandes empresas também fizeram movimento semelhante. Funcionou.
Em vinte anos, 70% dos que haviam debandado já faziam o motor da
economia coreana girar.
Um programa com a dimensão do Ciência sem Fronteiras – que
promete quadruplicar o número de bolsas no exterior – impõe desafios
inéditos e complexos, que não podem ser enfrentados com improviso.
Apesar da magnitude do projeto, o quadro de funcionários do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por
exemplo – as duas instituições encarregadas de selecionar os alunos,
distribuir e monitorar as bolsas – continua inalterado.
Não é surpresa, portanto, que alguns estudantes tenham recebido o
dinheiro da bolsa com atraso (problema já resolvido) e que outros se
queixem de não conseguir obter informações básicas nesses órgãos (ainda
uma dor de cabeça).
Outro sinal de que o programa saiu do forno sem estar completamente
maduro: os acordos com as universidades que encabeçam o ranking mundial,
como Harvard e Stanford, ainda não haviam sequer sido selados quando a
presidente Dilma Rousseff rompeu a fita inaugural.
Só agora começam a ser firmados – e é essencial que sejam. Como
lembra o economista Claudio de Moura Castro, especialista em educação e
articulista de VEJA: “Não se pode baixar a régua. Para dar certo, é
preciso que nossos cérebros convivam realmente com os melhores do
mundo”. Investir neles – na ida e na volta – é pavimentar o futuro do
Brasil.
