Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo
ELEIÇÃO JÁ, PARA NÃO TER DE TRABALHAR
Todas as estradas que levam aos portos de Santos (SP) e Paranaguá
(PR) estão bloqueadas por filas de caminhões carregados com a supersafra
de 38 milhões de toneladas de soja esperando para descarregar o produto
em terminais portuários incapacitados para embarcar tanto grão.
A China, a maior compradora do mundo, está desistindo, à medida que o
tempo passa, do que adquiriu e, por causa disso, o minério de ferro não
foi ultrapassado pela leguminosa como o maior produto de exportação da
nossa Pátria amada, idolatrada, salve, salve!
Enquanto tudo isso ocorre, a presidente Dilma Rousseff põe Antônio
Andrade, peemedebista mineiro, no lugar de Mendes Júnior, peemedebista
gaúcho, no Ministério da Agricultura. Mas não por causa do apagão da
logística ou pelo colapso da infraestrutura, e sim porque trata de
acomodar mais partidos em seu superpalanque da eleição de 2014.
A soja tinha de ser entregue faz tempo, mas a maior responsável pela
operação desastrosa dos nossos portos só pensa no que vai ter de
enfrentar em outubro do ano que vem – daqui a um ano e sete meses. Pode?
Pois é! Diante da expectativa de os paulistanos não conseguirem passar o
feriado da Páscoa no litoral ao pé da Serra do Mar porque a rodovia
Piaçaguera-Guarujá está intransitável, não há um líder oposicionista
empenhado em entender, explicar, traduzir e criticar o absurdo.
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) não foi solidarizar-se com os
caminhoneiros paralisados, mas gastou todo o seu tempo e seu latim para
apagar o fogo ateado com as manifestações de apreço de José Serra
(PSDB-SP) pelo adversário Eduardo Campos, governador de Pernambuco e
presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Assim como o
governo, a oposição só pensa naquilo para depois da Copa.
Os meios de comunicação não ficam atrás. Apesar de noticiarem o
absurdo de uma burocracia que culpa o excesso de produtos a exportar, e
não o descalabro dos portos mal administrados e das estradas
esburacadas, dão destaque mesmo às potencialidades (se é que há alguma)
da Rede de Marina Silva.
Na semana passada, o governo anunciou que a Petrobras não venderá
mais a refinaria de sua propriedade em Pasadena, no Texas (EUA), por
causa do prejuízo que teria. Ora bolas, o prejuízo já foi dado! Agora a
questão se resume a ter um prejuízo de US$ 1 bilhão, se a estatal
brasileira conseguir passar adiante o mico que comprou dos belgas, ou
US$ 1, 180 bilhão, se mantiver em sua contabilidade a atividade gravosa
da empresa mal comprada.
Não consta que haja um agente da republicana Polícia Federal do dr.
José Eduardo Martins Cardozo investigando quem saiu ganhando na compra,
que, aliás, só acrescenta mais um grão no areal de lambanças de uma
empresa cujos donos somos nós.
Mas a oposição foi para o circuito Elizabeth Arden do tríduo momesco
no Recife, em Salvador e no Rio de Janeiro e deixou a nau capitânia do
“petróleo é nosso” afundar num mar de lama. Prometeu voltar depois da
Quarta-Feira de Cinzas e ficou na muda esperando a Páscoa chegar, que,
como diria o poeta pernambucano Ascenso Ferreira, conterrâneo do
presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, “ninguém é de ferro”.
O ex-governador Serra trocou afagos em público com o neto do dr.
Miguel Arraes para despertar a ciumeira de Aécio, a cuja indiferença
atribui grande responsabilidade por sua derrota na eleição presidencial
de 2010.
Depois de perder de novo, em 2012, para outro poste de Lula, Fernando
Haddad (PT), a Prefeitura de São Paulo, deixando desprotegido mais um
bastião da oposição à invasão do bloco governista, formado por PT e
PMDB, o furibundo tucano nem quis saber da surra que o partido dele
levou da presidente Dilma Rousseff (PT) nas pesquisas Datafolha e Ibope
divulgadas neste fim de semana.
Como se diz sempre nessas pesquisas, “se a eleição fosse hoje”…
Acontece que não é, e por isso mesmo a pesquisa de nada vale. Mas o
professor Serra nem se deu ao trabalho de constatar.
Pesquisa de opinião pública é “o retrato do momento”, dizem os
marqueteiros que fazem os seus clientes pagar uma fortuna por essa
inutilidade. Ou seja, as pesquisas que dão como certa a vitória da
presidente na eleição da qual ela é óbvia favorita são como se se
fotografasse o treino do Corinthians para o próximo compromisso pelo
Campeonato Paulista anunciando que o time será o campeão da Libertadores
da América do ano que vem.
Aécio Neves até lembrou isso – como destacou que o governo preenche
os intervalos comerciais da programação da televisão e a chefe e
candidata não se cansa de produzir “factoides” eleitorais –, mas já
chega eivado de suspeita por ser o principal interessado. Ou melhor,
prejudicado.
O cidadão continua morrendo nos buracos das estradas agora ocupadas
pelos caminhões que não são descarregados nos portos, ou nos pisos nus
de uma rede hospitalar pública sem vagas, sem macas e sem médicos.
Nossos filhos frequentam estabelecimentos de ensino incapazes de ensinar
o bê-á-bá e a tabuada.
Mas, empregada (ainda que mal remunerada) e de barriga cheia, com uma
Bolsa-Família a receber e uma bolsa-escola a não frequentar, a maioria
comemora até o advento de um papa argentino. Como a redução da tarifa
elétrica e a isenção de impostos na cesta básica, que não baixou os
preços dos alimentos, mas cristalizou o prestígio da presidente entre o
povão, que nem carente mais é.
Carente mesmo é a democracia brasileira, que depende de ídolos como o
mais popular de todos, Lula da Silva, padrinho de Dilma, por não dispor
de instituições fortes capazes de formar políticos com cultura cívica e
burocratas que sejam capazes de fazer algo mais útil do que furtar o
erário.
Dependente de eleições, como o viciado da droga, nosso Estado
Democrático de Direito toma doses de demagogia na veia todos os dias.
Com 39 ministérios, o governo não tem como governar e apenas galga o
palanque para passar o tempo prestando atenção na arenga que esconde a
inércia e o malfeito nossos de cada dia.
