
Jorge
Gerdau: "Dentro da estrutura brasileira, o conceito de política
atrapalha bastante a gestão..." (Foto: Victor Moriyama / Folhapress)
Artigo publicado na edição de VEJA que está nas bancas
AO DEUS-DARÁ
A entrevista do empresário Jorge Gerdau aos repórteres Fernando
Rodrigues e Armando Pereira Filho, postada no portal UOL no último dia
15, foi das mais contundentes – e mais reveladoras – sobre o modo de
governar que ultimamente se impôs no Brasil.
Gerdau faz trabalho voluntário no governo Dilma. Preside a Câmara de
Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade, criada, por sugestão
dele próprio, para ajudar na racionalização e na eficácia da
administração, e fala, portanto, do ponto de vista de quem conhece a
matéria pelo lado de dentro.
Três foram os trechos mais significativos da entrevista:
Pergunta – O sr. diria que a política atrapalha a gestão?
Resposta, depois de longa pausa – Dentro da estrutura brasileira, o conceito de política atrapalha bastante a gestão…
O que chama atenção nesse primeiro ponto é a sugestão da existência
de um “conceito de política” peculiar ao Brasil. Gerdau não explica que
conceito é esse. Fica nas reticências, o que nos deixa diante de uma não
declaração. Eis no entanto uma não declaração cheia de sentido. O
conceito de política que passou a imperar no Brasil, em primeiro lugar,
nega a política.
Quer dizer: nega o embate de ideias e de programas. Em segundo lugar,
nega as políticas. Não o regem os modelos desta ou daquela política
educacional, desta ou daquela política de transporte. Sobra, como
sabemos, que o “conceito de política” em vigor no país gira (em falso)
em torno de eixos como a liberação de emendas parlamentares, a
distribuição de cargos na administração, a constituição de um ministério
amplo o bastante para abrigar uma enxurrada de partidos e a acumulação
de minutos de TV nas campanhas eleitorais.
O “conceito de política” assim estruturado (ou desestruturado) é a
mãe de todos os problemas que se interpõem à racionalidade e à eficácia
da administração.
Pergunta – O número de partidos vai aumentar. Vamos acabar tendo cada vez mais ministérios?
Resposta - Tudo tem o seu limite. Quando a burrice,
ou a loucura, ou a irresponsabilidade vai muito longe, sai um
saneamento. Nós provavelmente estamos no limite desse período.
Gerdau, aqui, mostra-se paradoxalmente desesperado e esperançoso. O
desespero leva-o a chamar de “burrice”, “loucura” e “irresponsabilidade”
o ato reflexo de ir criando ministérios à medida que os partidos aderem
ao governo, ou mesmo são criados para tal. A esperança o faz vislumbrar
que estamos chegando ao limite dessa prática. Bondade dele, ou talvez
concessão de quem, afinal, faz parte do governo.
Vem aí o Ministério da Micro e Pequena Empresa, para o mais novo
adesista, o PSD do ex- prefeito Kassab. Dias atrás houve mudança em
quatro ministérios – os da Agricultura, da Aviação Civil, do Trabalho e
dos Assuntos Estratégicos. Novos titulares foram anunciados para os três
primeiros, ficando para ser ainda nomeado o titular do quarto.
Sobre os ministérios da Aviação Civil e dos Assuntos Estratégicos, de
origem recente, um estrangeiro que desconhecesse as manhas locais
perguntaria, antes de qualquer especulação quanto aos novos titulares,
por que diabos foram criados. Se existe um Ministério dos Transportes,
por que um da Aviação Civil? E, se estratégia é algo que deve alimentar
cada ministério, por que reuni-la num só?
Não valem a pena tantas perguntas, porém. Houve época em que “reforma
ministerial” era coisa séria. Implicava inflexões nos rumos dos
governos. Não mais. Esta última, como as anteriores, desgasta a ideia de
“reforma” e contribui para desmoralizar o próprio conceito de
“”ministério”.
Pergunta – A presidente teria poder para reduzir o número de ministérios?
Resposta - Com o número de partidos crescendo cada
vez mais, é quase impossível. O que a presidenta faz? Trabalha com meia
dúzia de ministérios realmente chave. O resto é um processo que anda com
delegações de menor peso.
Gerdau, nos três trechos destacados, foi do mais geral ao mais
particular. Neste ponto, chegou ao modo de operar da presidente, e a
conclusão é dramática. Uma ampla porção do governo – 33, dos 39
ministérios – funcionaria de modo mais ou menos autônomo, sem sofrer a
ação direta – e talvez sem atrair o interesse – da presidente.
Fecha-se o círculo. Da mãe de todos os problemas, que é o peculiar
“conceito de política” brasileiro, chega-se à necessária consequência de
um substancial espaço da administração ser abandonado ao deus-dará.