PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA

FERNANDO GABEIRA

FERNANDO GABEIRA
Nas reuniões clandestinas dos anos 1960, Vera Silvia Magalhães,
brincando, sugeria como agenda: quem somos, onde estamos e para onde
vamos? No início desta campanha presidencial, creio que seria razoável
abordar esse tema, desde que se desçam, passo a passo, os degraus da
abstração.
Na nossa jovem democracia, os governos levam enorme vantagem na
partida: arrecadam fortunas dos empresários amigos e gastam fortunas do
Tesouro com propaganda sobre realizações e personalidade do governante.
As despesas da viagem de Dilma Rousseff a Roma, por exemplo, deveriam
ser computadas nos gastos de campanha.
Como candidata montada em milhões de reais, Dilma é um artefato
urdido pelo PT, por especialistas em marketing, um cabeleireiro de
origem japonesa, cirurgiões plásticos e consultores de estilo. A rigidez
dos ombros, o cansaço no andar indicam que está sobrecarregada pela
máscara afivelada ao seu corpo. E algumas frases desconexas revelam que
gostaria de deixar de fazer sentido, como os garotos que escreveram
receita de Miojo ou o hino dos Palmeiras em suas composições no Enem.
Dilma viajou para ser fotografada ao lado do papa Francisco e dizer:
“O papa é argentino, mas Deus é brasileiro”. Nada melhor para uma
campanha: posar ao lado do papa, brincar com a rivalidade com os
argentinos, voltar para Brasília ainda mais popular do que saiu. A opção
pelo luxo, na Via Veneto, no momento em que a Igreja fala de humildade
não importa. Uma coisa é a Igreja, outra é o governo democrático
popular, sem escrúpulos pequeno-burgueses, na verdade, sem escrúpulos de
ordem alguma. Não importa que os estrangeiros vejam na sua frase uma
certa dificuldade nacional de superar o complexo de inferioridade. Tudo
isso é problema para a minoria que não tem peso nos índices de
popularidade. O povo está satisfeito, as pesquisas são favoráveis e é
assim que se pretende marchar para 2014.
Lula e José Dirceu foram heróis da vitória em 2002. Dirceu hoje
trabalha para empresas junto ao governo. Lula viaja prestando serviços
às empreiteiras. Lembram um pouco a desilusão dos jovens rebeldes no
filme O Muro, de Alan Parker, inspirado na música de Pink
Floyd. Um dos ídolos da rebeldia juvenil aparece no final
melancolicamente vestido como porteiro de hotel, chamando táxis,
ganhando gorjetas.
Lula fazia discursos contra o amoralismo do capital, a influências
das empreiteiras, e aquelas frases de comício: um sonho sonhado junto
não é sonho… Confesso que aplaudia e admito uma dose de romantismo
incompatível com a minha idade. Muitos ídolos do rock, pelo menos,
morreram de overdose. Na esquerda brasileira, passaram a trabalhar para a
Delta ou viajar a soldo da Odebrecht. A popularidade do governo
intimida e os candidatos de oposição não fazem um contraponto, mas se
definem como uma variação melódica.
Ao deixar o luxuoso Hotel Excelsior, em Roma, Dilma afirmou, ante as
mortes em Petrópolis, que era preciso tomar medidas mais drásticas para
tirar as pessoas das áreas de risco. Levar para onde? Não se construiu
uma única casa popular em Petrópolis. No Morro do Bumba, em Niterói,
alguns moradores foram transferidos para um quartel da PM depois da
tragédia que matou 48 pessoas em 2010. Os 11 prédios do PAC construídos
para abrigá-los estão caindo, antes de inaugurados. Há fendas nas
paredes e vê-se que os construtores usaram material barato. Cerca de R$
27 milhões foram para o ralo. Deus está vivo e bem no Morro do Bumba. Se
fossem para os novos prédios, a armadilha cairia sobre a cabeça dos
desabrigados.
Quem tem boca (no governo) vai a Roma. Depois é preciso dar uma
olhada na Serra Fluminense, verter aquelas lágrimas de praxe, no melhor
ângulo e na melhor luz, para as inserções na TV. A mãe do PAC deveria
visitar as obras destinadas ao Morro do Bumba com o carinho com que as
mães visitam os filhos no presídio, os que deram errado mas nem por isso
são esquecidos.
O governo costuma dizer que a oposição mais consistente é a da
imprensa. Essa é sua desgraça e sua sorte. O incessante turbilhão das
notícias obriga a imprensa a mover-se sem parar para cobrir o que acaba
de acontecer. Sobra pouco tempo para retirar esqueletos do armário e
voltar aos personagens de nomes bizarros que povoam os escândalos
nacionais. A única maneira de quebrar a hegemonia perversa que
contribuiu para devastar moralmente o Congresso, estreitar nossa
política externa, confinar a economia nos limites do consumismo é
fortalecer uma oposição real. Ela não se pode ater ao horizonte de uma
só eleição. Precisa trabalhar todos os dias, imediatamente após a
contagem dos votos.
Em política não existem eleições ganhas antecipadamente. Mas é
preciso não contar com milagres. Mesmo eles só favorecem os que estão de
pé, os que cedo madrugam. As pesquisas dizem que a maioria dos
brasileiros está contente com o governo Dilma. A sensação de bem-estar
impulsiona-os a aprovar o governo e ignorar as profundas distorções que
impõe ao País.
Não é a primeira nem a última vez que a minoria se coloca contra uma
onda de bem-estar fundamentada apenas no aumento do consumo. No passado
éramos bombardeados com a inscrição “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Agora
ninguém se importa muito se você ama ou deixa o País.
O mecanismo de dominação é consentido. Nosso universo se contraiu e
virou um mercado onde tudo se compra e se vende, secretarias negociam
ilhas, ex-presidentes cobram dívidas de empreiteiras e, na terra
arrasada do Congresso, o pastor Marco Feliciano posa fazendo uma escova
progressiva. Parafraseando Dilma, são necessárias medidas mais drásticas
para tirar essa gente de lá.
A única arma à nossa disposição é o voto. A ausência de uma oposição
organizada e aguerrida é uma lacuna. Quando há uma base social para a
oposição, dizem os historiadores, ela acaba aparecendo dentro do próprio
governo. E aparece discreta, suave, como discretos e suaves são os que
se lançam agora diante da milionária máquina topa-tudo do PT.