Publicado no blog de Ricardo Setti (Veja.com):
Brickmann: “Ninguém gosta de nós, jornalistas. Publicamos notícias que os poderosos não querem ver e fazemos perguntas que eles não querem ouvir”

O
prefeito de Barra do Bugres (150 km de Cuiabá), Wilson Francelino
(PSD), segurou pelo pescoço uma repórter de TV que tentava entrevistá-lo
(Foto: Folha)
NINGUÉM GOSTA DE NÓS, JORNALISTAS. PUBLICAMOS NOTÍCIAS QUE OS PODEROSOS NÃO QUEREM VER E FAZEMOS PERGUNTAS QUE ELES NÃO QUEREM OUVIR
Há muitos e muitos anos, durante a ditadura militar, uma cerimônia
anual da Aeronáutica era coberta por todos os meios de comunicação: a
entrega dos espadins aos cadetes. O presidente da República, sempre um
general ou marechal, ia de Brasília a Piraçununga, comandava aquela
cerimônia chatíssima (como toda festa de formatura, destinava-se aos
formandos, sua família e seus amigos, jamais a quem não tinha nada com
isso), cumprimentava os melhores alunos, militares de várias patentes
batiam continência uns para os outros.
Para os militares, havia um coquetel num salão coberto; para os
jornalistas, todos de terno e gravata, um cercadinho ao sol, com
soldados armados tomando conta e nem um copo d’água. Um horror. Mas – e
aí estava o motivo da cobertura jornalística – os presidentes costumavam
fazer discursos políticos.
Não dava para não cobrir.
Certa vez, terminada a cerimônia, anotado o discurso, o ditador de
plantão tomou seu avião e decolou de volta para Brasília. Os
jornalistas, imóveis, ficaram no cercadinho.
O comandante da base aérea, gentilíssimo para os padrões da época,
disse que a cerimônia tinha terminado e que podíamos ir embora. Não, não
podíamos: se algo acontecesse com o avião presidencial, tínhamos de
estar por perto. Fomos então postos para fora, devidamente escoltados.
João Russo, um dos astros da reportagem política, comentou com este
colunista: “É por isso que eles não gostam de nós. Eles estão festejando
e nós ficamos prestando atenção, para ver se o avião não cai”.
Como de hábito, João Russo tinha razão. Os militares jamais
conseguiram entender que um jornalista não podia voltar para a redação
sem ter certeza de que o presidente tinha mesmo sumido de vista, sem
nenhum acidente na decolagem. Mas eles, pelo menos, tinham a desculpa de
ser militares.
E hoje, qual a desculpa para a hostilidade aos repórteres?
O fato é que ninguém gosta de nós, jornalistas.
A repórter da Folha foi agredida por militantes petistas, o mesmo acontecendo com um colunista de O Globo.
Cafajestes organizados tentaram impedir a jornalista cubana Yoani Sánchez de falar no Brasil.
O PT quer um tal controle social da mídia, que em português claro é chamado simplesmente de censura.
O ministro do Supremo Joaquim Barbosa, endeusado por boa parte dos
meios de comunicação e dos jornalistas, nem ouve a pergunta que lhe
seria feita e manda o repórter chafurdar no lixo (e ainda saiu xingando,
“palhaço!”).
O governador tucano Marconi Perillo conseguiu na Justiça uma liminar
proibindo a repórter Lênia Soares de citar seu nome. Irritou-se, ao que
tudo indica, com as matérias que ela publicou no Diário de Goiás
e em seu blog a respeito de Carlinhos Cachoeira e seus múltiplos e bons
relacionamentos com gente de dentro e de fora do Estado, com gente de
dentro e de fora do governo.
O ministro Joaquim Barbosa pediu mais tarde que sua assessoria de
imprensa atribuísse seu destempero a “cansaço” e “dores nas costas”. Mas
se o cansaço e as dores nas costas o deixam tão irritado, tão
agressivo, como pode analisar processos que lhe exigem esforço
intelectual e físico?
O fato é que todos gostam da imprensa na hora em que dá notícias contra seus adversários, ou quando faz elogios.
O problema é que notícia é exatamente aquilo que seus protagonistas
não querem ver publicado. O que eles querem ver publicado – e detestam
quando não é – se chama propaganda.