PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

CARLOS ALBERTO SARDENBERG

CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O ponto de partida é o seguinte: as crianças estão com dificuldades
para alcançar a plena alfabetização no primeiro ano, ou seja, aos sete
anos. Além disso, há um número expressivo de reprovações nesse primeiro
ano, justamente por causa do atraso em leitura e redação.
Qual a resposta da autoridade educacional?
É fácil: eliminar a reprovação ─ todos passam automaticamente ─ e,
sobretudo, fixar como meta oficial que a alfabetização deve se completar
no segundo ano, quando a criança estiver fazendo oito anos. Em resumo,
dar um período a mais para aprender a ler e escrever.
Não, não se passa no Brasil. Está acontecendo na Costa Rica. Mas, no
Brasil, está, sim, em andamento o programa Alfabetização na Idade Certa,
sendo esta também definida aos 8 anos.
A Costa Rica é o melhor país da América Central e considerado de bom
padrão educacional. De fato, no teste Pisa, aplicado pela Organização
para Cooperação e Desenvolvimento Econômico em alunos de 15 anos, de 70
países, a Costa Rica obteve 443 pontos em leitura, ficando na 44ª.
posição. Na América Latina, só perde para o Chile, cujos alunos
alcançaram um pouco mais, 449 pontos. O Brasil está pior, 412 pontos
nesse quesito.
Os cinco primeiros colocados são os alunos de Xangai, Coreia do Sul,
Finlândia, Hong Kong e Cingapura, com notas entre 526 e 556. Pois nesses
países a idade certa para alfabetização é seis anos. Isso mesmo, dois
anos antes das metas de Brasil e Costa Rica. A questão é: quando e por
que se precisa de mais tempo?
Na Costa Rica, onde a reforma educacional ainda está em debate, há
dois tipos de argumentos, um referente ao calendário escolar, outro
propriamente pedagógico.
No calendário: o problema, dizem autoridades, é que há muitos
feriados e muitos períodos de férias, de modo que o ano letivo não passa
de seis meses. Se as crianças vão menos dias à escola, claro que
aprendem menos.
O leitor pode ter pensado: mas não seria o caso de aumentar o número de dias letivos?
Para os políticos, nem pensar. Criaria uma encrenca danada com professores e outros funcionários do sistema.
Já o argumento pedagógico diz que não se pode forçar uma criança de
sete anos, que se deve deixá-la seguir segundo suas necessidades e seu
próprio ritmo.
Quem acompanha o debate educacional no Brasil já ouviu argumentos
semelhantes. Por exemplo: no programa Alfabetização na Idade Certa não
foram introduzidos padrões que permitam medir se a criança sabe ou não
ler. Seria possível fazer isso, uma medida numérica? Sim, já se faz pelo
mundo afora. Em Portugal, por exemplo, no primeiro ano, o aluno deve
ler em um texto simples, 55 palavras por minuto; no ano seguinte, 90 e,
no terceiro ano, 110.
Simples, objetivo, de fácil avaliação.
Não é só no Brasil, mas em praticamente toda a América Latina esse
tipo de avaliação causa até uma certa ojeriza. Entre professores, aqui, é
forte a rejeição a avaliações concretas, como, por exemplo, um teste
nacional que meça a capacidade dos mestres várias vezes ao longo da
carreira. Médicos e advogados também não querem fazer as provas
profissionais.
Tudo considerado, ficamos com as metas pouco ambiciosas. Pode-se
argumentar que seria, digamos, romântico colocar como meta a
alfabetização aos seis anos no Brasil. Se um número expressivo de jovens
é classificado como “analfabeto funcional” depois do ensino médio, como
querer que todos aprendam a ler e escrever aos seis anos?
Um equívoco, claro. Não há razão alguma para não fixar para os que
entram agora na escola as metas mais rigorosas e adequadas aos padrões
internacionais.
Há também uma questão política, que tem a ver com o desempenho dos
governos: metas mais largas são mais fáceis de atingir e, claro, de
propagandear.
Isso reflete uma cultura ─ a de evitar o problema, escolher o desvio
mais fácil e politicamente mais vendável. Se as crianças não estão
aprendendo na idade certa, se dá mais tempo a elas, em vez de tentar
melhorar o processo de alfabetização. E, avançando, se os alunos das
escolas públicas não conseguem entrar nas (ainda) boas universidades
públicas, abrem-se cotas para esses alunos, muito mais fácil do que
melhorar o ensino médio.
Dizem: o problema é que as universidades públicas estavam sendo
ocupadas pelos alunos mais ricos vindos do ensino médio privado. Falso. O
problema não está nas boas escolas privadas, está na má qualidade das
públicas. Melhorar estas seria a verdadeira política de igualdade.
A propósito: nas boas escolas privadas, as crianças já sabem ler e escrever bem aos seis anos.