PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Apesar de parecer difícil guardar otimismo e manter esperanças diante
do quadro atual de crise financeira e desatinos políticos, sempre se há
de tentar construir um futuro melhor.
Descartes dizia que o bom senso é a coisa mais bem distribuída entre
as pessoas. Em sua época, bom senso equivalia à razão. Na linguagem
atual corresponderia a dizer que o coeficiente de inteligência (QI) se
distribui entre todas as pessoas seguindo uma curva que se mantém
inalterada no tempo, geração após geração. Será? É possível e mesmo
provável. Mas bom senso implica também inteligência emocional e
prudência ao tomar decisões. Não basta ser inteligente, é preciso ser
razoável e prudente para evitar que as paixões se sobreponham à razão. É
preciso ter juízo.
Ora, no mundo em que vivemos, pelo menos neste momento, parece grande
o risco de ações impulsivas comprometerem o que é razoável. Quando
ainda se podia crer que havia uma “lógica econômica” para justificar
ações de força ─ por exemplo, na época do colonial-imperialismo ─,
a repulsa ao inaceitável (a subordinação de povos à acumulação de
riquezas) vinha seguida da explicação “lógica” do porquê das ações: o
objetivo seria acumular riquezas e expandir o capitalismo. Mas, e agora,
quando a Coreia do Norte bravateia (e quem sabe o que fará) que pode
arrasar o Sul e mesmo atingir a costa oeste dos Estados Unidos, qual é a
lógica? E que dizer do dr. Bashar Assad, que fechou sua clínica médica
em Londres para substituir o pai no poder e bombardeia seus conterrâneos
há dois anos?
Fossem só esses os exemplos… Mas, não. Na pequena Chipre, cujo
sistema bancário se tornou abrigo para capitais de procedência
discutível, quando não claramente resultantes da corrupção e da evasão
fiscal, vê-se um governo que, sem mais essa nem aquela, temeroso da
pressão dos controladores financeiros da União Europeia (UE), não tem
ideia melhor do que expropriar os depositantes ─ sejam ou não
proprietários de capitais de origem discutível. Embora menos
flagrantemente absurdo, o mau manejo financeiro e fiscal na UE não está
levando os povos ao desespero, tanta a injustiça de fazer com que quem
não tem culpa pague pelo desatino de governos e financistas?
Ainda bem que nem tudo é desatino. Barack Obama, ao tomar posse de
seu primeiro mandato, disse que os EUA deveriam investir mais em ciência
e tecnologia e preparar uma revolução produtiva baseada na energia
limpa, juntando conhecimento e inovação com a possibilidade de a
economia crescer sem destruir o meio ambiente. Na semana passada renovou
a crença e parece que seu país está saindo da crise iniciada em 2008
fazendo o que era necessário: abrindo novas áreas de investimento,
alterando a geopolítica da energia e, quem sabe, deixando para trás os
tremendos erros que levaram à explosão dos mercados financeiros.com.
Será? Torçamos para que desta vez prevaleça não só a razão cartesiana,
mas o bom sentido comum e se entenda que mercados sem regulação levam à
irracionalidade.
Quanto a nós, brasileiros, parece que tampouco aprendemos muito com
equívocos voluntaristas do passado. Somos reincidentes. Juntamos aos
impulsos movidos por boa vontade certa grandiosidade que não corresponde
à realidade. Ao desejar sair da ameaça de baixo crescimento econômico a
todo custo, vão sendo anunciados a cada dia novos planos e programas.
Entretanto, só saem do papel morosamente e muitas vezes, nem isso. Por
quê?
Talvez porque acreditemos demais em grandes planos salvadores e menos
no método, na rotina, na persistência e na inovação para acelerar o
caminho. O governo, por exemplo, percebeu que o futuro depende do
conhecimento e que existe um quase apagão de gente qualificada para o
país encarar o futuro com maior otimismo. Logo, havia que propor a
“grande solução”: em vez de termos minguados 8.500 bolsistas no
exterior, passaríamos logo a 100 mil em quatro anos! Resultado: uma
profusão de bolsas, um menoscabo da capacidade universitária já
instalada e o envio ao exterior de muitos que nem sequer conhecem bem a
língua do país onde vão estudar.
Do mesmo modo, ao se descobrir que havia óleo na camada do pré-sal
largamos o etanol, esquecemos que os poços se extinguem, não investimos
suficientemente nas áreas fora do pré-sal e desdenhamos o que de novo
pode ter havido no mundo, como as inovações na extração do óleo e do gás
do xisto, como fizeram os americanos. Claro que ainda há tempo para
recuperar o tempo perdido e retomar a esperança. Mas se, em vez de
cantar loas ao que ainda não é palpável e dedicar tanto tempo à briga
pelos futuros royalties do petróleo, tivéssemos, sem muito bumbo,
discutido metodicamente as melhores alternativas energéticas, inclusive
as do petróleo, e tivéssemos apoiado mais a pesquisa e a inovação,
provavelmente sentiríamos menos angústia por oportunidades perdidas.
O comentário vale para toda a infraestrutura econômica. Ah, se
tivéssemos preparado leilões bem feitos para as concorrências nas
estradas, nos portos, nos aeroportos, e assim por diante, poderíamos ter
evitado o desperdício de parte “da maior safra de grãos da história”
pelas péssimas condições de transporte e embarque dos produtos.
Para remediar propõem-se sempre mais projetos grandiosos e tanto o
governo como seus arautos se perdem em discursos grandiloquentes. Não é
isso o que ocorre também com as medidas para enfrentar as ameaças de uma
ainda mais alta inflação? Imediatismo e atropelo na concessão de
subsídios, isenções e favores substituem a pachorrenta persistência numa
linha de conduta coerente que, menos espalhafatosamente, possa levar o
país a dias melhores.
Estes, entretanto, são possíveis. O xis da questão é simples de ser
formulado, difícil de ser executado: como passar da quantidade para a
qualidade, do palavrório para uma gestão prática; como, em vez de animar
uma sociedade de espetáculos (nunca na História…), construir uma
sociedade decente, na qual a palavra corresponda a fatos, e não a
piruetas virtuais. Continuo a crer que é possível. Mas é preciso mudar
de guarda. Esperemos 2014.