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PMDB se afasta estrategicamente das maluquices do PT. Na foto,
aniversário dos 46 anos do partido. Na foto, entre outros, o vice Michel
Temer (em pé), o governador Sérgio Cabral (à esquerda de Temer na foto)
e, na mesma ordem, os senadores Valdir Raupp, Renan Calheiros e Eduardo
Braga (Foto: PMDB)
Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo
DORA KRAMER
Seria de se comemorar não fosse apenas efêmero o efeito que a troca
de amabilidades formais tem sobre os constantes atritos entre os Poderes
Judiciário e Legislativo. A cortesia põe água na fervura, mas não apaga
o incêndio.
Propicia uma sensação de alívio, é verdade. Dá uma reconfortante
impressão de civilidade, faz com que acreditemos na resolução dos
conflitos por meio do entendimento. A trégua, porém, é temporária: não
resiste ao imperativo da realidade, não cura a doença infantil do
imobilismo do Congresso frente ao amadurecimento da consciência ativista
do Judiciário.
E pelo que se viu do desempenho de petistas na Câmara enquanto os
presidentes das duas casas do Congresso procuravam o ministro Gilmar
Mendes a fim de apaziguar os ânimos com o Supremo Tribunal Federal,
considere-se como forte obstáculo a disposição do PT para a guerra.
Não foi um obscuro Nazareno, mas o ex-presidente da Câmara Marco
Maia, representante do partido por dois anos no posto, quem defendeu a
emenda que submete decisões do STF ao crivo do Legislativo e ainda
propôs outra criando novas limitações à Corte.
Não foi um deputado de menor expressão, mas Fernando Ferro – líder do
PT por duas vezes – quem chamou o ministro Gilmar Mendes de “capitão do
mato” por ter atendido em caráter liminar o pedido do senador Rodrigo
Rollemberg para suspensão da votação em caráter de urgência do projeto
que veda a novos partidos partilha do Fundo Partidário e do horário
eleitoral na proporção das bancadas congressuais.
Essas e outras violências verbais e conceituais dão a medida do
inconformismo do PT com o preceito republicano do equilíbrio e da
independência entre os poderes. Note-se, portanto, que a coisa não vai
se resolver com panos quentes.
A questão é mais profunda: o PT está com raiva do Supremo, assim como
tem raiva da imprensa que não lhe presta reverência, assim como está
com raiva de Eduardo Campos porque procura caminho de crescimento
político para seu partido fora da área de influência governo-petista,
assim como teria raiva do Parlamento caso não tivesse cooptado a maioria
mediante métodos relatados pelo STF, assim como tem raiva de qualquer
pessoa, grupo ou instituição que não se curve aos seus interesses.
Levando em consideração que o PT é o partido no poder, conta com uma
presidente e um ex-presidente com altos índices de popularidade, tudo
que diga ou faça tem peso e importância. Logo, a encrenca é de boa
monta.
A boa notícia, ora vejam só os senhores e as senhoras, vem do PMDB.
Assim como agiram por ocasião da CPI do Cachoeira ao recusar sociedade
ao PT na sanha de vingança contra a revista Veja e o procurador-geral da
República, os pemedebistas agora mantêm prudente distância dessa
ofensiva.
Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves – ambos do PMDB,
respectivamente presidentes do Senado e da Câmara -tomaram a iniciativa
de abrir conversações com o STF sobre a ideia de subtração de
prerrogativas e a liminar que suspendeu a votação, diga-se, por
solicitação de um senador representando diversos parlamentares.
O PMDB pode até não ter outras qualidades, mas tem experiência.