Como cachorro mordido por cobra tem medo de chouriço...
Por Gabriel Castro, na VEJA.com:
A presidente Dilma Rousseff se furtou a aparecer em qualquer um dos grandes palanques montados pelas centrais sindicais no Dia do Trabalho, mas usou uma plataforma ainda mais eficiente para fazer discurso eleitoral neste 1º. de Maio. Seu discurso de doze minutos abordou o tema natural para o dia – as conquistas do trabalhador e números que a administração petista têm para alardear na questão do emprego – mas também acrescentou de contrabando em sua fala o tema da inflação, que se tornou um dos calcanhares de Aquiles de sua gestão e vem sendo explorado pelos seus potenciais adversários nas urnas em 2014.
A presidente Dilma Rousseff se furtou a aparecer em qualquer um dos grandes palanques montados pelas centrais sindicais no Dia do Trabalho, mas usou uma plataforma ainda mais eficiente para fazer discurso eleitoral neste 1º. de Maio. Seu discurso de doze minutos abordou o tema natural para o dia – as conquistas do trabalhador e números que a administração petista têm para alardear na questão do emprego – mas também acrescentou de contrabando em sua fala o tema da inflação, que se tornou um dos calcanhares de Aquiles de sua gestão e vem sendo explorado pelos seus potenciais adversários nas urnas em 2014.
Após
prometer “seguir na rota do crescimento com estabilidade”, distribuir
renda e reduzir impostos, Dilma mandou seu recado: “É mais do que óbvio
que um governo que age assim e uma presidente que pensa desta maneira
não vão descuidar nunca do controle da inflação. Esta é uma luta
constante, imutável e permanente. Não abandonaremos jamais os pilares da
nossa política econômica, que têm por base o crescimento sustentado e a
estabilidade”, disse.
Este foi o
terceiro pronunciamento de Dilma neste ano em cadeia de rádio e
televisão, recurso que seus futuros adversários não têm acesso. No dia
23 de janeiro, ela anunciou a redução da tarifa de energia elétrica, e
no dia oito de março falou da desoneração da cesta básica. Em comum, as
três aparições tiveram forte caráter eleitoral.
Nas
últimas semanas, críticas à condução da política econômica, rigor fiscal
e aumento da inflação pontuaram os discursos dos prováveis rivais de
Dilma nas urnas no ano que vem, o senador mineiro Aécio Neves (PSDB) e o
governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Nesta quarta-feira, a
inflação foi o tema escolhido por Aécio Neves na comemoração ao Dia do
Trabalho da Força Sindical, em São Paulo. “A maior das conquistas dos
brasileiros está sendo colocada hoje em risco pela leniência do governo
do PT com a inflação”, disse o tucano.
Aécio
repetiu seu discurso crítico à condução econômica do governo, cobrou uma
política fiscal “mais firme” e disse que o PT promoveu a
“flexibilização dos pilares macroeconômicos” conquistados pela gestão de
Fernando Henrique Cardoso. “Em razão disso, o governo vem perdendo
credibilidade”, afirmou. O tucano disse ainda que a presidente Dilma
promove um “intervencionismo absurdo” e “afugenta os investimentos”.
Educação
Dilma iniciou sua fala anunciando ter enviado ao Congresso Nacional uma nova proposta que estabelece a destinação de 100% dos royalties do petróleo para a educação. Já havia uma medida provisória com esse teor noLegislativo, mas, sem consenso, o texto deve perder a validade sem ser aprovado.
Dilma iniciou sua fala anunciando ter enviado ao Congresso Nacional uma nova proposta que estabelece a destinação de 100% dos royalties do petróleo para a educação. Já havia uma medida provisória com esse teor noLegislativo, mas, sem consenso, o texto deve perder a validade sem ser aprovado.
Dilma
gastou boa parte do tempo tratando da educação – embora não tenha feito
outros anúncios concretos. Novamente, a presidente voltou a alardear
números do ProUni e de bolsas universitárias, mas esqueceu de admitir
que os dez anos de governo petista falharam em promover a revolução
educacional que realmente fará diferença para o futuro do Brasil, ou
seja, aquela que melhora o ensino de base. O país contabiliza hoje 3,6
milhões de crianças e jovens fora da escola e o ensino médio registra
alguns dos piores indicadores da educação, com as piores notas do Índice
de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e abandono escolar.
Emprego
A presidente também repisou o discurso de que a década de governo do PT registrou a mais baixa taxa de desemprego no país – foram quase 20 milhões empregos criados até o final 2012.
A presidente também repisou o discurso de que a década de governo do PT registrou a mais baixa taxa de desemprego no país – foram quase 20 milhões empregos criados até o final 2012.
“O Brasil
passou a ser mais Brasil quando o brado por mais emprego, mais salário e
mais comida deixou de ser um grito solitário dos trabalhadores para ser
a voz e o compromisso de toda uma nação. É por isso que nós,
brasileiros, estamos tendo, nos últimos anos, a alegria de comemorar o
1º de Maio com recordes sucessivos no emprego, na valorização do salário
e nas conquistas sociais dos trabalhadores”, disse.
A
confortável situação do mercado de trabalho tem dois componentes
primordiais: o gasto público e o consumo. O governo aumenta seus gastos
para estimular a economia, resultando na criação de postos de trabalho. A
massa salarial recém-criada exerce seu poder de compra e faz girar a
roda do capitalismo, criando uma espiral de otimismo e crescimento
econômico – como vinha acontecendo até o início de 2011. Num mundo
ideal, essa dinâmica seria acompanhada por investimentos pesados em
educação e inovação, além da abertura de mercado para estimular a
concorrência e melhorar, assim, a produtividade dos setores econômicos. E
justamente nesta segunda etapa mora o erro do governo petista: a
inovação foi relegada ao último plano ao longo da era Lula, e o
protecionismo da indústria é a regra básica do governo Dilma. Assim, o
emprego cresce estimulado pelo consumo, a demanda aumenta num ritmo
acelerado acentuando desequilíbrios de preço – e a inflação encontra aí
sua morada.