PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA TERÇA-FEIRA


É temerária a perspectiva de que “se passe a menosprezar o exercício
da democracia e se comece a aplicar a ditadura de um partido sobre os
demais”. Por outro lado, “você pode fazer o jogo político, pode fazer
aliança política, pode fazer coalizão política, mas não precisa
estabelecer uma relação promíscua para fazer política”. Um petista
desavisado que topasse com essas declarações sobre a política brasileira
não hesitaria em atribuí-las à conspiração da “mídia conservadora” para
“acabar com o Partido dos Trabalhadores (PT)”. Mas são declarações
textuais de Luiz Inácio Lula da Silva, o grande líder do PT. Constam de
mais uma publicação destinada a cultivar o mito petista, o livro 10 Anos de Governos Pós-Neoliberais no Brasil: Lula e Dilma, que será lançado dia 13.
Quem acompanha com um mínimo de espírito crítico a trajetória
política de Lula sabe do absoluto descompromisso do ex-presidente com a
coerência. Lula fala o que quer, quando quer, movido por notável
intuição político-eleitoral e comprovado senso de oportunidade. Não tem o
menor escrúpulo de desdizer hoje o que afirmou ontem nem de fazer
amanhã o que condenou hoje. Assim, Lula declarar que tem medo da
“ditadura de um partido sobre os demais” e reprovar a prática de
“relação promíscua para fazer política” não chega a ser surpreendente,
mas é de um cinismo de fazer corar um monge de pedra.
Que dizer, então, do comentário do “principal protagonista” do PT a
respeito do polêmico episódio da divulgação da Carta ao Povo Brasileiro?
Essa proclamação, de cunho essencialmente eleitoral, cumpriu em 2002 o
objetivo de, poucos meses antes da eleição presidencial, tranquilizar os
setores da opinião pública temerosos diante da determinação dos
radicais lulopetistas de reverter a política econômico-financeira
“neoliberal” com que o governo FHC lograra acabar com a inflação,
promover a estabilidade e retomar o crescimento social e econômico.
Eleito, Lula realmente manteve os fundamentos econômicos
“neoliberais”, que permitiram a vigorosa ampliação dos programas sociais
iniciados por seu antecessor. E agora, num surto de sinceridade, se dá
ao desfrute de fazer blague com aqueles acontecimentos: “Eu era
radicalmente contra a carta porque ela dizia coisas que eu não queria
falar, mas hoje eu reconheço que ela foi extremamente importante”. Teria
sido mais verdadeiro se dissesse “útil”.
De qualquer modo, ao longo das 20 páginas em que o organizador do
livro, coadjuvado por outro fiel seguidor do ex-presidente, se empenha
em levantar a bola para o entrevistado, Lula faz também uma análise do
PT atual a que certamente só se permitiu porque se considera soberano,
com direito ao luxo de dizer a mais pura verdade: o Partido dos
Trabalhadores está dividido hoje em dois grupos – “o eleitoreiro,
parlamentar, o PT dos dirigentes”, e o partido “da base, igualzinho ao
que era em 1980″.
O que Lula não chega a admitir é que, dentro da “democracia petista” –
que, de resto, não é muito diferente daquela praticada pelos outros
partidos -, quem manda de fato são os “dirigentes”, hoje obcecados em
perpetuar-se no poder. A base, “igualzinha ao que era em 1980″,
continua, é claro, defendendo as mesmas propostas radicais que fizeram
Lula ser derrotado em três pleitos sucessivos. E para os “dirigentes” é
muito importante que mantenha esse discurso, para que o PT possa
continuar ostentando a aura de partido popular.
É isso que explica, por exemplo, a presença do disciplinado Rui
Falcão no comando formal da legenda. De vez em quando Falcão reúne a
tropa, solta algumas palavras de ordem radicais, vocifera contra a
“direita”, os “neoliberais”, a “mídia golpista” e vão todos para casa
jubilosos de sua militância “revolucionária”.
Enquanto isso, a nomenklatura petista, refestelada nos altos
gabinetes do partido e do governo, cultiva relações cada vez mais
promíscuas com as lideranças políticas que combateu durante mais de 20
anos e conspira, nos bastidores do Congresso, para sufocar forças
políticas que possam emergir na contramão de seus interesses eleitorais
em 2014.