Em face de comentários de pessoas sem o menor conhecimento de causa, para não dizer coisa pior, cumpro aqui, tanto aos próceres da Republica quanto aos meus familiares e amigos, as razões que me levaram a ser anistiado político, conforme prevê o artigo oitavo e parágrafo quinto dos ADCT da Constituição Federal/1988, conforme portaria do Incra abaixo:
Como estão vendo acima, não se trata de lorota minha o fato de ter sido ANISTIADO POLÍTICO!
Por que razão isso se deu? Bem, vamos aos fatos:
- Após passar em prova de seleção específica de topografia feita pelo Incra dentre alunos dos terceiro e quarto anos do curso de Estradas da Escola Técnica Federal do Amazonas (Etfam), na qual obtive a quarta colocação das 05 (cinco) vagas existentes, fui admitido, em outubro de 1975, no Incra de Manaus - eu e os seguintes colegas de turma (somente foram aprovados alunos do terceiro ano): Pedro Marçal Hagge Barbosa, Darlindo Alves de Almeida, José das Graças Cavalcante e Tadashy Hiroshi, todos como Topógrafos, registrado em CTPS. Foi uma conquista excepcional para alguém que viera do Careiro para Manaus (embora tenha nascido em Manaus, vivia no Careiro), aos 13 anos, em 1967, para me alfabetizar e seguir estudando até onde pudesse. Continuo estudando...
- Enquanto meus colegas ficaram no serviço de escritório (cálculo topográfico, desenho cartográfico, etc.), eu fui remetido ao campo, onde demarquei inúmeras glebas de terras nos Projetos de demarcação do Incra em Manaus, em Manacapuru e no Careiro. Nos períodos de inverno, quando os trabalhos ficavam mais restritos ao escritório, me dedicava a aprender calculo e desemho cartográfico, conseguindo uma formação bem completa na área.
- Assim, já empregado na área, ganhando 6 (seis) salários mínimos de piso, passei no vestibular da Ufam (na época UA) para Matemática (graduação) e acumulei com o quarto ano da Etfam a fim de obter o diploma de Técnico em Estradas.
- Fui então vítima de um misto de inveja e ódio ideológico, pois na minha cabeça, demarcava os terrenos de todos os posseiros que estivessem morando nos terrenos mesmo que não constassem dos Projetos de demarcação. Em suma, transgredia uma espécie de "norma não escrita" e passei a ser visto como uma "comuna". Ainda mais sendo aluno de matemática em uma Universidade qualhada desse tipo de "animal", todos nós engajados na luta estudantil. Destes meus colegas, João Pedro Gonçalves foi o que mais se destacou nas lides políticas, que seguiu em tempo integral, chegando a senador da República.
- Após dois anos de trabalho, após a morte de meu pai com câncer de estômago em fevereiro de 1977, fui transferido, em julho desse mesmo ano, de maneira manu militari (uma expressão típica da época) para a fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru, mais precisamente para o pelotão de fornteira do Exército em Tabatinga, que por esse tempo ainda não era município. Me forçaram, assim, a abandonar o curso de matemática, a família, a namorada... Quando estava já casado e, digamos, "aclimatado" nesse inferno, novamente fui transferido para Manaus, em julho de 1979...
- Por mais que procurasse saber as razões dessa transferência, nunca me foram dadas, a não ser berros de um "coronel" que comandava o órgão, de nome José de Azevedo Carioca, que me dizia : - "ou vai, ou é demitido!"
Acabei mudando de área e passando em novo vestibular, desta vez para Administração Noturno... Mas também não me deixaram cursar, pois era sistematicamente mandado para viagens longas ao interior... Fui finalmente demitido do Incra e 1980. Para minha sorte, o Estado estava criando o Instituto de Terras do Amazonas, que me acolheu, com o mesmo salário, para cuidar apenas dos cálculos e desemhos - pois dominava tanto quanto os trabalhos de campo, o que para mim era uma grande vantagem, digamos, "competitiva". Terminei o curso em 1984 e prestei novo vestibular para Direito Noturno, que comecei em 1985.
Por ironia do destino, em 1990 retornei ao Incra como Superintendente, por indicação do Ministro Bernardo Cabral, contra todas as forças políticas do Estado.
Em 1994, dei entrada na Comissão de Anistia do Incra e obtive sucesso, sendo então reintegrado ao órgão nesse ano. Contudo, tive de abandonar novamente o órgão e optar pelo cargo de professor da Ufam, para onde prestei concurso para professor de administração, com sucesso, em 1995, onde permaneço até hoje - por amor, visto que recebo há três anos "abono de permanência"...
Como vêem, sofri o diabo, mas até hoje não recebi nenhuma indenização, pois meu processo "dorme" em algum escaninho da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça... Me resta o Judiciário... Mas será uma luta de David contra Golias... Afinal, se naqueles tempos era considerado "comuna" pelos meganhas do regime militar, hoje devo ser considerado "reaça" pelos lulo-petistas, a julgar pelo olímpico descaso com o meu processo...