PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA

DORA KRAMER

DORA KRAMER
Ditados simplificam pensamentos, desconsideram as nuances de cada
situação, mas convém não desprezá-los como porta-vozes da experiência.
Sobre os malefícios da afobação, por exemplo, há vários. Citemos
apenas dois: um diz que a pressa é inimiga da perfeição; outro alerta o
apressado para o risco de comer cru e quente o seu repasto.
O ex-presidente Luiz Inácio da Silva ignorou tais conselhos quando,
no início do ano, aproveitou um encontro do PT para reiterar a
candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição.
Segundo alguns autores, a ideia era estancar o falatório sobre a
possibilidade de ele mesmo ser o candidato à Presidência em 2014. Outra
versão reza que Lula pôs a eleição na roda para mudar a pauta naquele
momento voltada para as peripécias de Rosemary Noronha no governo
enquanto desfrutou de sua bênção e proteção.
A motivação pouco importa. A questão agora é o efeito colateral que
Lula, com sua celebrada intuição política, não pesou nem mediu. Abriu o
debate da sucessão como fez em 2008 ao lançar a “mãe do PAC” à cena no
mês de fevereiro, com a mesma antecedência.
E acaba aí a semelhança. A situação da economia era outra, o humor
dos aliados era bem melhor, o comandante tinha ascendência sobre a
tropa, não havia oponentes no campo governista e aos políticos em geral
interessava sentar no banco do carona de Lula.
Não é raro ouvir nos partidos ditos situacionistas que devem muito ao
ex-presidente, mas que Dilma deve à ajuda deles em grande parte a sua
eleição.
Nesse cenário inteiramente diverso é que a antecipação da campanha
mostra suas consequências nefastas. Animou a oposição a sair da toca,
abriu espaço e deu justificativa à dissidência de Eduardo Campos e
semeou inquietação antes do tempo entre os que deveriam estar
concentrados na tarefa de renovar o contrato com o eleitorado.
Houve um erro de cálculo: antecipada a sucessão presidencial,
anteciparam-se as demais campanhas e com elas a crise de aflição que
assola deputados, senadores e governadores na busca de boas posições no
jogo.
Abafa o caso. A fim de não criar confusão com o PSD
que pode lhes render boas alianças estaduais no ano que vem, os tucanos
pararam de criticar Guilherme Afif Domingos pelo acúmulo das funções de
ministro em governo do PT e vice-governador em administração do PSDB.
De onde farão cara de paisagem durante os dois dias em que Afif
assumir o Palácio dos Bandeirantes na próxima semana, quando Geraldo
Alckmin irá a Paris.
Para fins de conveniência eleitoral, a tucanagem compara a situação
àquela em que o vice ocupa também uma secretaria no governo. Fazer de
conta que é igual não isenta a realidade de dizer que uma coisa é uma
coisa. Outra coisa é a expressão do cinismo em estado sólido.
Redemoinho. A inflação cresce, o poder de compra
decresce, o endividamento aumenta, o crédito farto desaparece, a
confiança no governo estremece e as pesquisas começam a registrar curva
de popularidade descendente.
São os sinais objetivos que os apostadores do mercado eleitoral levam
em conta para avaliar as chances de Dilma Rousseff na reeleição e fixar
a cotação das ações de seus oponentes.
A especulação gera fatos, alimenta profecias que se autorrealizam e
leva as forças políticas à dispersão. O governo tem agora um olho na
economia outro nos próximos quatro meses, até início de outubro, quando
se encerra o prazo para mudanças e/ou filiações partidárias para os
candidatos às eleições.