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A
partir desta segunda-feira, a coluna vai publicar trechos do livro mais
recente do Lobão ─ Manifesto do Nada na Terra do Nunca ─ que melhoram o
dia e a cabeça dos leitores. Seguem-se os quatro primeiros:
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(Página 23)
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(Página 23)
Num clima de estupidez ideológica, estelionato intelectual ou,
simplesmente, suborno, a grande parte dos artistas, dos cineastas, da
imprensa e dos intelectuais está nocauteada. Quem ousa tecer algum
comentário um pouco mais crítico sobre a realidade que nos rodeia acaba
sofrendo violências morais e psicológicas, sempre no intuito de eliminar
o interlocutor.
Como somos seres ungidos por uma natureza customizada que nos
distingue do resto da humanidade, resolvemos optar por essa forma de
perceber o mundo, absolutamente destacada de qualquer resíduo de
razoabilidade. Somos o suprassumo da precariedade, a nata da malandragem
agúlhica, de um nacionalismo chauvinista, e isso nos dá uma noção meio
psicodélica de superioridade em relação ao restante dos outros meros
mortais espalhados pelo planeta.
Talvez esse comportamento seja fruto de um tipo coletivo de
bipolaridade em que a alegria é um imperativo maníaco-depressivo. Somos o
povo mais alegre do mundo!
Nessa maneira singular de encarar a vida, nasce uma espécie muito
peculiar que reina soberana na nossa terra, patrulhando incautos e
dando carteiradas nos descontentes, filha de um marxismo guarani-kaiowá
de butique, uma espécie que, apesar de sua aparente e impositiva
festividade carnavalesca, é a encarnação vívida da ofensa, da obtusidade
e do recalque: o carola estatizado.
(Páginas 24 e 25)
Um dia, após chegar de uma turnê, comentei no Twitter que
estava irritadíssimo com a infraestrutura do país, as estradas federais
numa buraqueira dos infernos, sem sinalização, sem iluminação, os
aeroportos caindo aos pedaços, superlotados, voos atrasados, ou seja,
não era algo que eu havia lido por aí: eu tinha acabado de vivenciar, de
sofrer na pele a precariedade da parada.
Pois bem, por essa declaração, fui instantaneamente admoestado
por ofendidíssimos legionários governistas a bradar que o Brasil está
muito melhor, que nunca estivemos tão bem, que aquela declaração era
puro preconceito, e, sendo assim, fui sumariamente diagnosticado como…
brasil-fóbico!
É a verdadeira Terra do Nunca, onde nos recusamos a crescer e com
uma religião de Estado promovida por autoproclamados progressistas: os
nossos carolas estatizados.
(Página 35)
Nosso imaginário coletivo também vive se retroalimentando de conceitos herdados de “heróis libertários”, sempre os mesmos. Já repararam? É o Lamarca, o Marighella ou qualquer outro que se autoproclame um ex-guerrilheiro combatente da ditadura militar. Símbolos em repetição buscando uma performance ideológica e existencial que se afaste de qualquer desvio ou oposição da norma. A reação é a situação. Marcação cerrada.
Nosso imaginário coletivo também vive se retroalimentando de conceitos herdados de “heróis libertários”, sempre os mesmos. Já repararam? É o Lamarca, o Marighella ou qualquer outro que se autoproclame um ex-guerrilheiro combatente da ditadura militar. Símbolos em repetição buscando uma performance ideológica e existencial que se afaste de qualquer desvio ou oposição da norma. A reação é a situação. Marcação cerrada.
Essa compreensão da palavra “libertário” ganhou contornos
próprios e, não raro, transmite justamente o contrário de seu
significado original.
O libertário é, na viciada compreensão generalizada, uma criatura
que pegou em armas nos anos 1960 para impor uma ditadura no Brasil, com
o álibi capenga de lutar contra uma outra ditadura. Qualquer ditadura é
injustificável, e esse pessoal, com raríssimas exceções, teima
patologicamente em negar esse singelo detalhe. Anseiam de maneira
apaixonada que Cuba seja aqui.
Hoje em dia, não conseguir enxergar e abominar o que acontece em
Cuba é, no mínimo, imoral, quanto mais apoiar! E o governo do PT é
associado e cofundador do Foro de São Paulo (Lula & Fidel), que visa
implementar uma ditadura do proletariado continental, tipo uma União
Soviética chicana. Tem gente que acha essa realidade, repleta de provas e
fatos, uma simples teoria da conspiração.
(Página 53)
Nao conseguimos aprender com a sucessão dos fatos, não conseguimos nos desprender das mesmas ideias que nos paralisam. Morremos de medo de sermos comparados com o mundo civilizado e desmascarados diante da nossa mediocridade, soberba, inoperância e importência.
Nao conseguimos aprender com a sucessão dos fatos, não conseguimos nos desprender das mesmas ideias que nos paralisam. Morremos de medo de sermos comparados com o mundo civilizado e desmascarados diante da nossa mediocridade, soberba, inoperância e importência.