*****************************************************************************
PUBLICADO NO GLOBO DESTA TERÇA-FEIRA

RODRIGO CONSTANTINO

RODRIGO CONSTANTINO
Represento a ONG Minorias Unidas na Luta Ativista (Mula). Somos uma
entidade que defende as pobres vítimas do “sistema”, ou seja, os gays,
as lésbicas, os transexuais, os negros, as mulheres, os índios, os
muçulmanos e todos os demais grupos excluídos que são explorados pelos
brancos capitalistas.
Nossa visão de mundo não engloba o indivíduo, essa figura de carne e
osso criada pelos ocidentais para fins espúrios. Nós só enxergamos
grupos, que formam nossas identidades: classe, raça, gênero, inclinação
sexual, religião. Somente essas abstrações nos interessam. Falar em
indivíduo é cair na estratégia pérfida dos liberais. Não aceitamos isso!
Dividir para conquistar, eis nossa meta. Separamos o mundo entre
aqueles que estão conosco, e nossos inimigos mortais. Estes são
representados pela ONG Brancos Ricos Ocidentais Capitalistas
Heterossexuais e Associados (Brocha). São nossos arquiinimigos na
retórica, e ao mesmo tempo nossos melhores amigos na prática. É que
precisamos deles para que paguem a conta de nossos privilégios.
Conseguimos isso por meio de chantagem emocional, incutindo culpa nas
“elites”. A bilionária Fundação Ford é ótimo exemplo, sempre do nosso
lado. É verdade que o mundo teve escravidão desde sempre, que até Zumbi
tinha escravos, que os próprios africanos escravizaram outros africanos,
e que foi o Ocidente que colocou um fim nessa prática nefasta. Não
importa! Vamos dizer que todo negro é vítima e que os brancos precisam
pagar.
Alguns negros, como Thomas Sowell, condenam isso? Simples: chamamos
eles de traidores da raça. Funcionava com Lênin e os demais comunistas.
Lembrem-se: existem apenas dois grupos. Por isso podemos fazer como o
ex-presidente Lula e culpar os “brancos de olhos azuis” pela crise de
2008, mesmo que o CEO de um dos maiores bancos envolvidos na confusão
fosse negro.
Por falar em Lula, eis outra grande vítima: nordestino e metalúrgico.
Não importa que ele não trabalhe em um chão de fábrica há décadas, ou
que receba duzentos mil por palestra, ou que só ande em jatinho
particular, ou que seja aliado de todos os velhos caciques da política.
Lula sempre será um ícone das minorias oprimidas!
O mais importante é vender a ideia de que somos vítimas, e que os
brancos são responsáveis por todos os males do mundo. Sabemos que os
negros e “chicanos” americanos gozam de muito mais liberdade e
prosperidade do que seus pares africanos e latino-americanos. Não
importa! Eles são vítimas, mesmo que o homem mais poderoso do mundo seja
negro. Eternas vítimas.
Somos herdeiros de Foucault, o sadomasoquista que falava da forma
mais cruel de tirania: a “hegemonia” oculta. Esqueça Coreia do Norte,
Irã ou Cuba. A verdadeira ditadura está nos Estados Unidos! Sabemos que
os gays correm risco de vida nos regimes comunistas ou islâmicos, mas o
que importa isso? São os gays em São Francisco e Ipanema as verdadeiras
vítimas. É que tem de ser muito macho para ser ativista em Cuba ou no
Irã.
Somos filhos de Paulo Freire, e também acreditamos na “pedagogia dos
oprimidos”. As escolas e faculdades não podem ser máquinas de formação
de engenheiros e cientistas para ajudar na hegemonia capitalista.
Precisamos de ainda mais professores marxistas, engajados nas causas das
minorias, doutrinando nas áreas humanas. Viva Gramsci!
Vamos criar várias nações dentro do Brasil. A nação negra, a nação
gay, a nação indígena, e por aí vai. Nada de ver todos apenas como
brasileiros. Cada um desses grupos vai receber sua legítima cota, e vai
direto para ótimos cargos públicos ou dar aulas nas faculdades.
Merecemos essa vantagem, nada mais do que uma reparação pelo domínio dos
brancos ao longo dos séculos.
E podemos ficar tranquilos: o povo da Brocha costuma aceitar calado
nossas demandas. Nada como uma “elite” culpada, mesmo que de classe
média. Basta acusarmos eles de “homofóbicos”, “racistas”,
“reacionários”, ou “preconceituosos” que eles logo se intimidam e
recuam. Sempre funciona acusar alguém que não é nada disso dessas coisas
feias. O verdadeiro homofóbico ou racista não liga, mas a turma da
Brocha entra em pânico.
Eis nosso grito revolucionário: minorias do mundo todo, uni-vos!
Vamos pleitear mais privilégios de grupo, pois essa coisa de igualdade
perante as leis que os liberais defendem é muito chata. Alguns podem
estranhar eu ser homem e branco. Mas Chico Buarque é branco, com olhos
claros, rico e heterossexual, e é aclamado pela Mula. Somos nós contra
eles. Só há identidade no grupo. Abaixo o indivíduo! Socialismo ou
morte! A morte dos que discordam, claro.