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Por Naiara Infante Bertão, na VEJA.com:
O decepcionante desempenho da economia brasileira neste ano e a falta de clareza da política fiscal do governo Dilma Rousseff contribuíram diretamente para a piora do perfil da dívida soberana do Brasil. Como resultado disso, não só a agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) rebaixou a perspectiva da nota de crédito da dívida pública do país, como o “risco-Brasil”, também chamado de risco-país, saltou 25% em apenas um mês.
O decepcionante desempenho da economia brasileira neste ano e a falta de clareza da política fiscal do governo Dilma Rousseff contribuíram diretamente para a piora do perfil da dívida soberana do Brasil. Como resultado disso, não só a agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) rebaixou a perspectiva da nota de crédito da dívida pública do país, como o “risco-Brasil”, também chamado de risco-país, saltou 25% em apenas um mês.
Usado para
medir o risco a que os investidores estrangeiros se submetem quando
investem no Brasil – trata-se de uma espécie de termômetro da economia
brasileira no exterior -, o indicador acumulou alta de 8%, passando de
173 pontos-base em 30 de abril para 202 em 31 de maio, segundo o
Embi+Br, principal índice calculado pelo banco JP Morgan. Em pouco mais
de seis meses, a alta é de 47%. Apesar de haver um aumento generalizado
no risco-país dos emergentes devido à saída de dólares do mercado em
direção aos Estados Unidos, é inegável a preocupação dos investidores
internacionais com a evolução da situação fiscal do Brasil.
As contas
públicas têm mostrado piora desde o início do ano devido às políticas
expansionistas executadas pelo governo, que incluem um rosário de
estímulos fiscais e medidas protecionistas. Resultado disso é que o
superávit primário (a economia que o governo faz para pagar os juros da
dívida) em 12 meses terminando em abril está em 1,89% do Produto Interno
Bruto (PIB), longe da meta de 2,3% do PIB que o governo anunciou que
pretende cumprir este ano – e menos ainda que os 3,1% anunciados nos
anos anteriores. Com isso, a trajetória da relação dívida/PIB, que mede o
peso da dívida total do país, passou a subir. Estava em 35,2% em
janeiro e foi para 35,4% em maio.
Não
bastasse o fracasso dos números das contas públicas, o PIB do primeiro
trimestre subiu apenas 0,6%, abaixo das estimativas mais pessimistas.
Para completar o quadro, a inflação não dá sinais de retorno ao centro
da meta de 4,5% ao ano. Em maio, o Índice Nacional de Preços ao
Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 0,37% – e 6,5% no acumulado de 12
meses. “O descontentamento de investidores com o Brasil se baseia na
falta de medidas estruturais que reforcem as fontes fundamentais de
crescimento. Em vez disso, o governo tentar estimular a economia com
políticas expansionistas transitórias”, afirma Alfredo Coutiño, diretor
para América Latina da Moody’s Analytics.
Peso americano
O anúncio de diminuição de compra de títulos pelo Federal Reserve (Fed, o BC americano) também pesou em alguns aspectos da piora do cenário brasileiro – sobretudo em relação à alta do dólar. Enquanto o Fed efetuava compras na casa dos trilhões em títulos da dívida, a economia americana era inundada por dólares que acabavam escapando para os mercados emergentes. Tal situação chegou a incitar declarações agressivas do governo brasileiro, que culpava os Estados Unidos pela entrada de dólares no Brasil – cenário que, por sua vez, ajudava na valorização do real.
O anúncio de diminuição de compra de títulos pelo Federal Reserve (Fed, o BC americano) também pesou em alguns aspectos da piora do cenário brasileiro – sobretudo em relação à alta do dólar. Enquanto o Fed efetuava compras na casa dos trilhões em títulos da dívida, a economia americana era inundada por dólares que acabavam escapando para os mercados emergentes. Tal situação chegou a incitar declarações agressivas do governo brasileiro, que culpava os Estados Unidos pela entrada de dólares no Brasil – cenário que, por sua vez, ajudava na valorização do real.
Agora,
diante de perspectivas de uma recuperação mais consistente, apesar de
lenta, o Fed deu indícios de que diminuirá a compra de títulos. Esse
movimento fez com que os juros pagos como prêmio pelos títulos
americanos de longo prazo (10 anos) subissem, atraindo o capital para os
Estados Unidos. “O aumento dos juros americanos deixa os outros
investimentos menos atrativos e o investidor automaticamente exige um
prêmio maior dos outros papéis”, diz Rodolfo Oliveira, economista da
Tendências Consultoria.
Contudo, o
cenário americano está longe de ser o único culpado pelo ponto em que
se encontra o Brasil. Ele apenas serve como agravante para uma situação
construída pelo próprio governo ao longo dos últimos três anos, período
em que os pilares que sustentam a estabilidade da economia do país
foram, pouco a pouco, sendo derrubados. Trata-se da popular máxima: “só
se sabe quem está nu quando a maré baixa”. E, diante das mudanças de
ventos trazidas pelos Estados Unidos, o Brasil, ao que parece, está nu.
“O aumento do risco Brasil é uma resposta à mudança americana, mas
também à piora da percepção sobre o Brasil”, diz Sérgio Vale, economista
da MB Associados. Para ele, a perda de credibilidade leva naturalmente
ao aumento do risco-país. “Ninguém acredita que a postura do governo
Dilma vá mudar da água para o vinho”, afirma.
Segundo
Vale, a situação brasileira é piorada pelo aumento do déficit em conta
corrente, que é o resultado entre todas as entradas e saídas de recursos
do país – produtos, serviços ou divisas. As contas externas ficaram 33
bilhões de dólares no vermelho nos quatro primeiros meses do ano, ante
déficit de 17 bilhões de dólares registrado no mesmo período do ano
passado. Em 12 meses, o déficit nas contas externas soma 3% do PIB –
número que não se via há dez anos.”Esse ponto, especificamente, vai
levar a um aumento definitivo do patamar da taxa de câmbio, com
consequentes pressões inflacionárias”, diz o economista. Ele prevê o
dólar no patamar de 2,20 reais no ano que vem e 2,30 reais em 2015.