
Enrique Pena Nieto, Juan Manuel Santos, Sebastian Pinera e Ollanta Humala: Aliança do Pacífico (Foto: AFP)
Artigo publicado no jornal Zero Hora
A ALIANÇA DO PACÍFICO, O BRASIL E O MERCOSUL
É com angústia que vejo e analiso as declarações de autoridades
diplomáticas brasileiras sobre a Aliança do Pacífico. Houve quem
afirmasse que ela “não tira o sono do Brasil”. Uma opinião destemida,
mas não apropriada quando se trata de um tema vital para os interesses
estratégicos do país.
Assim, a criação de um novo bloco de países na América Latina, com
suas implicações geopolíticas, comerciais e econômicas é analisada de
forma superficial. Não se concebe que esse acontecimento não cause a
mais leve apreensão, tanto por parte do governo, quanto pelo Itamaraty.
Ao contrário, o assunto é visto com displicência, um quase desdém,
embora a Aliança do Pacífico tenha potencial para causar forte impacto
no sonho da integração latino-americana. A começar pela redução do poder
de atração representado pelo Mercosul, criado há duas décadas e em
permanente instabilidade.
A Aliança representa um forte contraponto à influência política e
econômica do Brasil na região. Formada há dois anos por México, Chile,
Colômbia e Peru, contabilizou no ano passado US$ 556 bilhões em
exportações, contra US$ 335 bilhões registrados no comércio tradicional
entre os países que integram o Mercosul.
É compreensível que a Aliança, subestimada no Brasil, seja
acompanhada com maior objetividade por outros países. Estados Unidos,
Canadá, Panamá e Costa Rica estão mais diretamente interessados. Ao
mesmo tempo, França, Japão, Espanha, Portugal, Nova Zelândia e Austrália
enviaram observadores à recente reunião de cúpula do grupo.
É quase inacreditável que todo esse barulho em nossa vizinhança, não
desperte qualquer curiosidade por aqui. Tanta movimentação política e
comercial na nossa retaguarda deveria – isso sim – despertar luzes
amarelas piscantes no Itamaraty.
Mas, a preferência nesse ambiente é por outras cores. Talvez
considere mais atraente o azul da bandeira da combalida União Europeia,
com a qual o Mercosul tenta formalizar, há uma década, um acordo
comercial capaz de equilibrar interesses da indústria e da agricultura
de ambos os lados.
Nesse vácuo de interesse, cabe grande responsabilidade ao Senado e,
especialmente, à Comissão de Relações Exteriores e Defesa. Daí, nossa
sugestão de realização de uma audiência pública com autoridades e a quem
mais interessar, para que possamos debater com profundidade a Aliança
do Pacífico e suas implicações geoestratégicas, políticas e comerciais
no continente, levando em conta, principalmente, o Brasil e o Mercosul.
