Publicado no Globo desta terça-feira
RODRIGO CONSTANTINO
RODRIGO CONSTANTINO
A presidente Dilma tem atacado a “postura pessimista” daqueles que
criticam a situação econômica. Ela foi buscar até em Camões inspiração
para acusar esses “profetas do Apocalipse”. Sinto-me, em um surto de
megalomania narcisista, diretamente atingido. Afinal, tenho feito duras
críticas ao modelo econômico nos últimos três anos, aqui nesse espaço,
alertando que o modelo era insustentável e que teríamos sérios
problemas.
Para os “desenvolvimentistas”, não há problema algum, ou, se há, eles
vêm de fora. Tenho dificuldade de compreender por que as economias de
Chile, Peru, Colômbia e México continuam crescendo bem mais que a nossa,
e com bem menos inflação. Mas deve haver alguma explicação mirabolante
que me escapa.
Ou, então, a equipe da presidente sofre do que podemos chamar de
“fatofobia”. Não é “fotofobia”, ainda que possa ser medo da luz também; é
“fatofobia” mesmo, ou seja, um verdadeiro pavor dos fatos. A realidade
pode assustar. E o governo opta pela via fácil: negá-la.
Senão, vejamos: a presidente diz que tem “certeza” de que a inflação
fechará o ano dentro da meta. A meta, não custa lembrar, é 4,5%, o que
já é um patamar bastante elevado para padrões internacionais. Mas Dilma
tem em mente outro valor: o topo da banda, existente para casos
esporádicos.
Em seu governo, o topo virou a meta, e a presidente dorme tranquila
com mais de 6% ao ano de perda do poder aquisitivo da moeda. Quem perde o
sono é o povo, que precisa fazer compras no supermercado.
Outro fato que a presidente escolhe ignorar diz respeito aos
crescentes gastos públicos. Eles sobem sem parar. Não tem crise na ilha
da fantasia em Brasília. Não há nada de “anticíclico” neles, pois na
época da bonança eles aumentam, e na época do arrefecimento também. Mas a
presidente faz uma comparação em relação ao PIB e conclui que eles não
subiram tanto.
Ora, presidente, permita-me a sinceridade, mas isso é malandragem! Se
o próprio PIB tem crescido de forma insustentável, estimulado
justamente pelo gasto público e também por muito crédito sem o devido
lastro na poupança, é claro que a proporção do gasto sobre o PIB pode
ficar até estável, e ainda assim isso representar um grave problema. Foi
o que aconteceu na Espanha, por exemplo. O crescimento artificial da
economia, turbinado pelo crédito e o governo, mascarou a magnitude do
problema.
Todos sabem que o governo vem apelando para “malabarismos contábeis”
bastante rudimentares. Esses truques baratos jogam a sujeira para baixo
do tapete, mas ela está lá. E um dia vem à tona. Não dá para enganar
todo mundo o tempo todo.
O que me remete a um pensamento assustador: nossa crise nem começou! É
verdade que o clima ruim já se instalou, mas os esqueletos ainda estão
bem escondidos nos armários. Além disso, o custo do capital no mundo
ainda está muito barato, e a economia chinesa cresce perto de 7% ao ano.
O que vai acontecer quando a taxa americana de juros subir, ou a
economia chinesa embicar?
Não vamos ignorar que a China plantou seus próprios problemas, com um
modelo intervencionista, totalmente calcado em investimentos
direcionados pelo estado. Há inúmeros “elefantes brancos” por lá, até
“cidades fantasmas”. Administrar essa transição para uma economia mais
voltada para o consumo não é nada trivial. Se o trem descarrilar no
processo, sai de baixo! O Brasil será duramente afetado.
Portanto, eis a situação: vamos muito mal das pernas, com baixo
crescimento, parcos investimentos, e alta inflação. Mas isso tudo em um
cenário em que ainda há abundância de capital nos mercados e forte
crescimento chinês. Como efeito disso, ainda temos um quadro de pleno
emprego. Pergunta: o que acontece com a inadimplência dos bancos se o
desemprego subir, lembrando que o governo vem aumentando em mais de 20%
ao ano o crédito público? Pois é…
O prognóstico não é nada bom. E quanto mais o governo fugir dessa
dura realidade, tal como uma menina foge desesperada da barata, pior
será o ajuste necessário depois. O governo não fez o dever de casa.
Perdemos a incrível oportunidade que veio de fora. E bilhetes de loteria
como este não aparecem o tempo todo. O que fazer agora?
A primeira coisa deveria ser aceitar os fatos como eles são. Como
lembrou Aldous Huxley, os fatos não deixam de existir porque são
ignorados. Isso demanda coragem, uma postura de estadista, que assume os
erros passados para poder mudar o curso. Como não vejo isso acontecendo
no atual governo, vou seguir com minha maldição de Cassandra,
espalhando alertas pessimistas por aí.