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20 agosto 2013

Márcio Souza: Manaus, um blastoma social

 Texto publicado na página de cidades do jornal a Crítica de domingo, dia 18 de agosto de 2013, que reproduzo aqui pela qualidade do texto e pela clarividência desse excepcional amazonense, autor de clássicos como "Galvez, imperador do Acre", "Mad Maria", "A expressão amazonense" e "A resistível ascensão do Boto Tucuxi" e outros.
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BLASTOMA SOCIAL
Márcio Souza
Nada de meias palavras. Considero o modelo desenvolvimentista imposto pela Ditadura Militar um erro brutal, diria mesmo um crime. E pela lógica, a implantação da Zona Franca uma decisão estúpida.  Primeiro, porque transformou Manaus num tumor canceroso que está destruindo o tecido social do Estado do Amazonas. Este blastoma social direcionou a nossa economia para a mão única da indústria de montagem.
 Na verdade, quem gera a nossa renda é o comércio, que aqui deixa os impostos, pois a Zona Franca drena a maior parte dos recursos para fora, além de sorver recursos do tesouro que beneficiam multinacionais como a Sansung, a Sony e a Honda, em detrimento de investimentos nas melhorias sociais que o estado tanto necessita. E mais, sabemos que a mão única da economia industrial primária é instável e já levaram à catástrofe cidades como Detroit, Cleveland e Buffalo, só para citar três delas inseridas na maior economia do planeta.
Nenhuma sociedade pode sobreviver com uma capital que representa 60% da economia e 55% do eleitorado, deixando lá atrás, comendo poeira, os demais municípios. A capital amazonense não é uma cidade simples.  Os desafios são inúmeros e o processo histórico da cidade se fez - com raras exceções-, sem planejamento, sem espírito republicano.
Nos últimos anos Manaus experimentou um crescimento populacional como nenhuma capital brasileira, comparável apenas ao fenômeno de migração interna que explodiu a populacão de São Paulo nos anos 50.  A tragédia é que as duas cidades não desenvolveram políticas que respondessem ás demandas dos novos habitantes. Ao contrário, permitiu-se até mesmo o crescimento de preconceitos que isolaram ainda mais os imigrantes. O ensino, é evidente, foi degradado e nivelado por baixo, permitiu-se a invasão desordenada das terras urbanas e as massas miseráveis serviram apenas como pasto eleitoreiro.  O resultado foi a criação de uma Megalópolis desumana e brutal, que é São Paulo, em permanente decadência, e uma cidade agonizante e sem identidade que é Manaus, em permanente autodestruição.
Não consigo ver no horizonte uma política capaz dereverter tal situação, fruto de um populismo degenerado que tem desprezo pela ordem democrática. Também tenho dificuldade em acreditar que, na atual correlação de forças, alguma mudança seja possível. Para as elites locais a Zona Franca é uma tentativa de exorcizar o fantasma da bancarrota e da decadência enquanto sublimam qu tiveram de engolir sem espernear os projetos megalomaníacos da ditadura militar. O quinhão que nos coube na paranóia do regime de segurança nacional, foi o modelo da Zona Franca de Manaus, que já não existe mais de tão remendado e fuxicado pelos tecnocratas de plantão e pelos interesses econômicos dos grandes grupos industriais que foram capturados pelos atrativos dos incentivos fiscais. Mas a dura realidade é que a Zona Franca apresentou desafios que foram ignorados pelas administrações públicas. Tivemos uma fieira de governadores e prefeitos desastrados, corruptos e incompetentes. Se fosse possível traçar um perfil desses politicos, teríamos personalidades de cultura rústica, de escolaridade medíocre, de horizontes limitados, imediatista no uso do cargo em benefício próprio. Esta pequenez mental se reflete nas proporções acachapadas das "obras" que deixaram.
A malha urbana dos barões do látex, inspirada no senso de modernidade das cidades cartesianas, foi mimoseada como o rendilhado medieval das favelas que a rodearam, com suas ruelas infectas e a completa falta de infraestrutura que só pela afabilidade dos pobres pode-se chamar de bairro.
Em 1968 o regime militar após cortar ao meio a região amazônica nos enfiou goela abaixo esta área de renúncia fiscal inspirada em soluções coloniais largamente utilizada na África no século XIX. Dá para depender disso?