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Publicado no Estadão desta quarta-feira
ALMIR PAZZIANOTTO PINTO
ALMIR PAZZIANOTTO PINTO
Na campanha pela reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014, o
Partido dos Trabalhadores (PT) gozará de autoridade para reivindicar a
paternidade de dez obras, em 12 anos de governo. São elas: mensalão,
rompimento dos princípios da ética e da moralidade, insegurança
jurídica, desprestígio da diplomacia, compra e venda de legendas,
declínio das atividades industriais, exportação de empregos para China e
Índia, criação de ministérios inúteis, construção e financiamento de
estádios de futebol e oficialização da palavra “presidenta”.
Amigos propuseram-me a inclusão da falência do ensino e da
assistência pública à saúde, do endividamento, da alta dos preços, da
inflação, do registro de milhares de sindicatos pelegos, da violência,
da expansão do tráfico de drogas. Para alguns, o maior feito levado a
cabo desde o governo Lula seria a reforma ortográfica, com obscuras
regras sobre o uso do hífen e a eliminação do trema.
A relação não observa ordem de importância, mas o primeiro lugar foi
destinado ao mensalão. Já se disse que o Brasil é produto de três
culturas: a do sobrenatural, trazida pelos negros; a da indolência,
transmitida pelos índios; e a do privilégio, herdada dos portugueses. O
mensalão reafirma a sabedoria da asserção. Jamais se associaram tantos
privilégios e privilegiados como na ação penal movida contra líderes do
PT, secundados por comparsas de segunda e terceira categorias, todos com
direito a participar da história com o rótulo de mensaleiros.
Em contraponto às realizações, mencionarei parte do que deixou de ser
feito. Começo pela reforma política. Há muito prometida, e cobrada
pelas camadas não alienadas da população, permanece adormecida nos
porões do Poder Executivo. Como fruto da inércia, no balaio de gatos das
legendas encontra-se de tudo. Basta acessar a página do Tribunal Superior Eleitoral e
o leitor se espantará com a fertilidade da classe política. O PT é
irmão gêmeo da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Nasceu com o
discurso de ser diferente, puro, integrado por operários do chão de
fábrica e alguns intelectuais. Rejeitava políticos tradicionais e
representantes da denominada burguesia. Com o tempo, e no desfrute do
poder, transformou-se em cópia dos demais, sobretudo nos defeitos.
Hoje o PT se alimenta do Fundo Partidário e do horário obrigatório no
rádio e na televisão e aderiu, com a CUT, ao peleguismo. “Ao diabo os
escrúpulos”, diriam os dirigentes, em agradável convivência com velhos
oligarcas, empreiteiras, bancos, grandes empresas. “O poder tende a
corromper”, escreveu lorde Acton, cujas palavras são confirmadas pelos
fatos.
A última revoada de parlamentares, à procura de legendas que lhes
assegurem a reeleição, afronta o princípio constitucional da moralidade e
seria energicamente coibida não fossem a lei, o Ministério Público e o
Poder Judiciário passivos e lenientes diante de tramoias partidárias. Da
mesma maneira que temos profissionais voltados para a criação e
exploração de sindicatos, passamos, de alguns anos para cá, a conhecer o
ofício de fundador de partidos, como revelou o Estado na edição de 23
de setembro, na página A5. Confirma-se o que Gilberto Amado já
denunciava no século passado: “Partido político é associação de
indivíduos para a conquista e a fruição do poder, só e só”.
Descartada a reforma política, quais outras deixou o governo de fazer? Todas, a começar pela trabalhista.
Defendida pelo então presidente Lula no lançamento do Fórum Nacional
do Trabalho (FNT), em julho de 2003, foi condenada ao ostracismo e levou
consigo a reforma sindical. Objetivava o FNT “promover a democratização
das relações de trabalho por meio da adoção de um modelo de organização
sindical baseado na liberdade e autonomia. Atualizar a legislação do
trabalho e torná-la compatível com as novas exigências do
desenvolvimento nacional, de maneira a criar um ambiente propício à
geração de emprego e renda”. Pretendia, ainda, “modernizar as
instituições de regulação do trabalho, especialmente a Justiça do
Trabalho e o Ministério do Trabalho e Emprego”. Os resultados foram
pífios e as ideias de democratização e modernização caíram no
esquecimento.
Aproximam-se as eleições de 2014 e, com elas, a chance de o
eleitorado tomar nas mãos o encargo de promover, pelo voto, as reformas
inadiáveis. Apesar de ter conduzido o Brasil à situação em que o vemos, a
presidente Dilma Rousseff, por um desses insondáveis caprichos da vida
política, surge como favorita no primeiro turno. Marina Silva, antes
estrela de primeira grandeza, deixou o elenco principal para se
transformar em coadjuvante e corre risco de se converter em figurante. A
quem caberá a responsabilidade de enfrentar o rolo compressor federal
na segunda rodada de votação? Essa é a dúvida que assalta os
brasileiros.
Dois candidatos se anteciparam e já se encontram em campanha: Aécio
Neves e Eduardo Campos. Sobre eles recairá, ao que tudo indica, o ônus
de demonstrar que o PT e aliados não são imbatíveis. Ambos são
experientes e titulares de interessantes currículos. Aécio é neto de
Tancredo Neves e Eduardo Campos, de Miguel Arrais. Não perderam,
contudo, as características de políticos regionais. Aécio Neves
apresenta-se como porta-voz da oposição; Eduardo Campos, nem tanto.
A Nação anseia pela restauração da moralidade, abatida em sucessivos
escândalos. As manifestações de rua são o termômetro da revolta popular.
Reivindicam o respeito à ética e o combate à corrupção. Quem tiver
ouvidos para o clamor do povo, e ganhar a confiança das pessoas de bem,
será o próximo presidente.