Publicado no Estadão
ROLF KUNTZ
ROLF KUNTZ
Esqueçam o tomate, a carne e as passagens aéreas. Não falem mal das
leguminosas, dos hortigranjeiros ou dos salões de beleza. O vilão da
inflação nunca será encontrado na lista de bens e serviços comprados
pelos consumidores. A imagem usada pela imprensa é mera repetição de uma
velha metáfora criada lá pelos anos 80 ou pouco antes. Ninguém deve
entender literalmente essa figura de linguagem. O vilão existe, sim, mas
é de outro tipo. É o mesmo da estagnação econômica, da
irresponsabilidade fiscal e da erosão das contas externas. Em uma
palavra, é o governo, embora esse nome pareça um tanto inadequado para
designar a presidente Dilma Rousseff e a trupe espalhada por 39
ministérios, uma porção de estatais e outros órgãos da administração
indireta.
Explicar e justificar uma sucessão de números muito ruins tem sido,
há algum tempo, uma das principais atividades desse pessoal. Mas nenhuma
retórica disfarça o péssimo desempenho fiscal de setembro, quando até o
resultado primário foi negativo, ou a aceleração contínua da inflação
mensal desde agosto. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, ainda
classificou como bom resultado a alta de 0,57% do Índice de Preços ao
Consumidor Amplo (IPCA) no mês passado. Não há nada de bom nesse número,
nem se pode – ao contrário da afirmação do ministro – considerá-lo
normal para esta época do ano.
Só se pode falar de normalidade em outro sentido: esgotado o efeito
dos truques com as tarifas de transporte e as contas da energia, o
recrudescimento da alta de preços foi absolutamente natural. Que mais
poderia ocorrer, quando há um desajuste inegável entre a demanda,
principalmente de consumo, e a capacidade de oferta da indústria
nacional? Esse desajuste, é bom lembrar, é alimentado principalmente
pela política oficial, marcada pela gastança e pelos estímulos ao
consumo e reforçada pela expansão do crédito.
Sem esses fatores, nenhum aumento do preço do tomate ou da carne
bovina produziria um impacto tão amplo sobre todos os mercados. Além
disso, o efeito da depreciação cambial seria muito menos sensível, como
tem sido em outras economias emergentes. Aquelas, como a da Índia, com
problemas graves de inflação, têm também, como o Brasil, sérios
desajustes fiscais e limitações importantes do lado da oferta.
O efeito da demanda é também evidente na evolução dos preços dos
serviços, com alta de 0,52% em outubro e 8,74% em 12 meses. No caso dos
bens, o aumento de preços tem sido atenuado, em parte, pela importação
crescente, mas essa é uma solução inviável quando se trata de aluguel
residencial, conserto de automóvel, consultas médicas ou serviços de
manicures, para citar só alguns itens de uma lista muito ampla de
atividades. O mesmo desequilíbrio entre a demanda crescente e a
capacidade de oferta muito limitada reflete-se também no déficit
comercial de US$ 1,83 bilhão acumulado de janeiro a outubro. Nesse
período, o valor exportado, US$ 200,47 bilhões, foi 1,4% menor que o de
um ano antes, pela média dos dias úteis, e o gasto com importação, US$
202,3 bilhões, 8,8% maior.
O aumento das compras de petróleo e derivados – diferença de US$ 6,64
bilhões de um ano para outro – foi um fator importante, mas o total da
importação foi determinado principalmente por outros fatores. A elevação
de US$ 17,29 bilhões na despesa com bens estrangeiros refletiu acima de
tudo os desajustes internos e especialmente a perda de eficiência da
economia nacional.
Não há como disfarçar a redução da produtividade e do poder de
competição, resultante principalmente de uma coleção de falhas da
política econômica. A agropecuária ainda é produtiva em grau suficiente
para compensar os problemas sistêmicos da economia brasileira e
conquistar espaços no mercado internacional. A maior parte da indústria
tem sido incapaz de vencer esses obstáculos. Os mais comentados são as
deficiências de infraestrutura e a tributação irracional, mas a lista é
ampla e um dos mais importantes, embora nem sempre lembrado, é o
despreparo da mão de obra.
Há pouco tempo a Confederação Nacional da Indústria divulgou pesquisa
sobre a escassez de trabalhadores qualificados para o setor de
transformação. Outra sondagem, nesta semana, tornou o quadro ainda mais
dramático: 74% das empresas de construção consultadas indicaram
dificuldades para encontrar pessoal aproveitável. Quase todo esse grupo –
94% – reclamou da escassez de trabalhadores preparados até para
serviços básicos, como os de pedreiro e ajudante.
Em outros tempos, a construção exercia, entre outras, a função
estratégica de absorver pessoal de baixa qualificação. Isso mudou. As
construtoras progrediram tecnologicamente e a educação ficou para trás,
principalmente nos níveis fundamental e médio. Pessoas um pouco mais
atentas apontaram a má escolha do objetivo, quando o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva decidiu cuidar prioritariamente do acesso a
faculdades, por meio de bolsas, cotas e maior oferta de vagas. O País
paga caro, hoje, por essa decisão obviamente demagógica e eleitoreira.
Ninguém deve esperar grandes avanços na política educacional em curto
prazo. No Rio Grande do Sul, nesta sexta-feira, a presidente Dilma
Rousseff repetiu, como se fosse algo muito bom, uma ameaça muito ouvida
nos últimos tempos: por meio dos recursos do petróleo, a educação será
transformada no “caminho fundamental” do desenvolvimento. Essa é uma
assustadora conversa mole. O Brasil precisa de educação há muito tempo, é
preciso cuidar do assunto imediatamente e há recursos mais que
suficientes para isso. Apostar no hipotético dinheiro do pré-sal
equivale a encontrar mais uma desculpa vergonhosa para nada fazer de
sério pela educação.