O Enem foi criado pelo saudoso ministro Paulo Renato para ser um
instrumento de aferição da qualidade do ensino médio no Brasil. O
objetivo era criar ferramentas de intervenção para melhorar a qualidade
da escola pública — e, em certa medida, da escola privada também.
O governo do PT distorceu gravemente o seu sentido. Sob o pretexto de
acabar com os vestibulares nas universidades federais, os petistas
transformaram o Enem no maior vestibular do mundo. Ora, se o exame para
ingresso na universidade pública não era bom, então o ruim agora se
agigantou. E com um prejuízo adicional: o Enem já não serve mais de
instrumental para avaliar a escola pública.
Assim, afigura-se mera demagogia, calcada numa mentira escandalosa, a
afirmação de que o governo federal extinguiu os vestibulares. Ao
contrário: unificou-os. No seu 11º ano de gestão, não houve uma só ação
voltada para a qualificação do ensino médio. No máximo, fala-se numa
polêmica mudança da grade curricular, que, até onde se dá o debate,
tende a criar uma enorme confusão. Há o risco de que professores sejam
obrigados a ministrar conteúdos alheios à sua formação.
À medida que o Enem se agiganta e que mais candidatos disputam a
mesma vaga, a consequência óbvia é a elevação do grau de dificuldade da
prova — como se verificou neste ano. E não há mesmo outra saída: o Enem
se tornou classificatório, como qualquer outro exame de seleção. Tenho
recebido relatos de que tanto alunos de escolas privadas como alunos de
escolas públicas já recorrem a cursinhos pré-vestibular quando no
terceiro ano do ensino médio para fazer a prova do Enem. Vale dizer:
ainda que se quisesse ter a prova como um retrato do ensino médio no
país, esse resultado já estaria gravemente comprometido.
Cada universidade federal faz seu vestibular ou todas elas fazem um
só? É assim tão diferente? Creio que não! O tempo dirá se outra
consequência deletéria não estará em curso. No vestibular tradicional, o
candidato fazia a sua escolha, com uma eventual segunda opção. No
geral, buscava aquela que considerava ser a sua vocação. O Enem permite,
segundo a lógica das pontuações, que ele transite entre as carreiras e
entre as universidades Brasil afora. Há o risco, potencial ao menos, de
que vários cursos comecem a contar com muitas desistências no primeiro
ou no segundo anos. Se acontecer, é dinheiro jogado no lixo. Ainda não
há dados disponíveis a respeito.
O fim do vestibular foi uma mentira. Hoje, o MEC faz o maior do
planeta. E o Enem já não serve para avaliar a qualidade do ensino médio.
Assim, o alardeado bem do petismo acabou juntando duas perversidades.