Publicado na edição impressa de VEJA
J. R. GUZZO
J. R. GUZZO
Aí vamos nós, de novo sozinhos, para atravessar mais um ano. Em 2014,
como em 2013 e nos anos anteriores, contaremos apenas com nossa própria
capacidade de resolver os problemas que nos aparecerem; mais uma vez,
será perfeitamente inútil esperar qualquer colaboração da máquina
pública, que todos pagam justamente para isto ─ colaborar, por pouco que
seja, para dar à população um grau a mais de conforto nesta vida já tão
complicada pela própria natureza. Muita gente, como sempre, veio
prometer ao longo do ano soluções para nossos problemas do presente e
anunciar planos para resolver nossos problemas do futuro. Falaram muito;
disseram pouco. Depois, também como sempre, foram sumindo, cada um em
seu canto, atrás do que realmente lhes interessa: segurar a fatia do
Brasil que já têm. Não vão mudar de vida só porque 2014 será ano de
eleição presidencial e de Copa do Mundo no Brasil; talvez tenham de se
esforçar um tanto a mais para manter em cartaz a sua comédia, mas para
tudo há um jeito. Vão encontrar o seu, como sempre, e acabarão deixando
os brasileiros tão abandonados em dezembro de 2014 como estão agora.
Sobram, para qualquer lado que se olhe, avisos claríssimos de que o
ano novo promete ser igual ao ano velho ─ já nem se tenta disfarçar o
pouco-caso com que os donos do país tratam o brasileiro comum e que
aumenta a cada pesquisa de opinião garantindo que a presidente da
República está a caminho dos 101% de popularidade. Há o caso do prefeito
de São Paulo, Fernando Haddad, que encerrou 2013 com um espetáculo
realmente esquisito: foi brigar na Justiça com os cidadãos da própria
cidade que dirige (e que lhe pagam o salário), para socar um aumento de
até 35% em 85% dos contribuintes de um dos impostos municipais. Houve,
nas alturas extremas onde vivem a presidente Dilma Rousseff, seu
ministro da Fazenda e outras imensas autoridades federais, um surto de
decisões desconexas sobre a possibilidade de retirar os airbags e freios
ABS dos novos modelos de carro a ser fabricados, numa tentativa
desesperada de impedir que subam de preço. Tira, põe, deixa ficar ─ a
impressão que sobrou é que os decisores não sabiam realmente do que
estavam falando, e acabaram perdidos de novo no nevoeiro mental em que
vivem. Há ainda outros tumultos saídos da mesma pipa, mas parece que o
mais instrutivo deles é a compra de 36 aviões-caça da Suécia, os Saab
Gripen NG, que estaremos pagando ao longo dos próximos anos para
defender o nosso espaço aéreo de seus possíveis inimigos.
Tudo indica que em nenhum momento uma autoridade do governo pensou
que a população deste país tivesse alguma coisa a ver com isso. Para
começar, nenhum brasileiro jamais sentiu a falta de 36 caças suecos para
resolver algum problema real em sua vida, ou na defesa do seu país. O
cidadão poderia achar estranho, também, que o modelo escolhido tenha o
inconveniente de ainda não existir; é o mais barato, mas só a partir de
agora começará a ser desenvolvido, para entrega final até 2023. Até lá,
esperemos continuar com a sorte, que nos acompanha desde Santos Dumont,
de não sofrer nenhum ataque aéreo contra o nosso território. Além disso,
o governo levou doze anos inteiros para decidir qual modelo compraria ─
basicamente, o americano F-18, o francês Rafale e esse sueco. Doze
anos? Como o Brasil jamais foi acusado de ser um país que pensa demais,
ou tem a reputação de só decidir alguma coisa depois de ter 100% de
certeza na correção do que está fazendo (não consegue se entender nem
sobre os tais equipamentos de segurança), o motivo da demora só pode ser
do mal. Pois ou a compra é necessária, e aí o cidadão brasileiro não
pode ficar esperando doze anos por uma decisão, ou não é ─ e aí o mesmo
cidadão não tem nada de pôr a mão no bolso para pagar a conta. Mas
ninguém no governo sequer se lembrou de que ele existe. Toda essa
história teve a ver apenas com uma questão pessoal do ex-presidente
Lula, primeiro, e da presidente Dilma Rousseff, depois. Lula queria o
modelo francês de todo jeito; jurava que era o melhor, embora fosse o
mais caro. Mas a França não deu apoio a um disparate qualquer que ele
propôs na diplomacia mundial; o homem emburrou e nunca mais quis ouvir
falar dos Rafale, que até então achava o máximo. Dilma se inclinou para o
F-18 dos Estados Unidos, mas ele subitamente deixou de ser o melhor
quando a presidente se ofendeu com o delírio americano de espionar tudo o
que existe sobre a face da Terra. Qual é o critério da escolha?
Qualidade ou birra? Sorte dos suecos.