Publicado no Globo
JOSÉ CASADO
JOSÉ CASADO
Dilma Rousseff acha que seu governo está sob ameaça de uma “guerra
psicológica” capaz de “inibir investimentos e retardar iniciativas”. Foi
o que disse em cadeia nacional de rádio e televisão. Não explicou quem,
quando, onde, como ─ e muito menos por que escolheu um termo cuja
definição, nos manuais militares, consiste essencialmente no manejo das
palavras para abalar o moral do inimigo.
Pode ser mero vício de linguagem, afinal Dilma é a última combatente
da Guerra Fria com crachá de candidata na disputa presidencial de 2014.
Ou talvez tenha sido um discreto desabafo, por estar “perdendo a batalha
ideológica e política para o mercado financeiro”, como observou o
economista Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo em entrevista à jornalista
Eleonora de Lucena.
Seja qual for o motivo, a presidente-candidata esqueceu-se de que
brasileiro só é otimista entre o Natal e o carnaval, como dizia o
falecido economista Mário Henrique Simonsen. Na noite de domingo ela
entrou na casa dos eleitores para fazer uma saudação de fim de ano.
Gastou 1.400 palavras em autoelogios e se despediu semeando dúvidas
sobre o futuro do país e das pessoas.
É notável a mudança no humor de Dilma. Basta ver seus discursos deste ano.
Em janeiro, ela proclamava, eufórica: “O Brasil está cada vez maior e
imune a ser atingido por previsões alarmistas. Por termos vencido o
pessimismo e os pessimistas, estamos vivendo um dos melhores momentos da
nossa história.” Em março, baixou o tom: “Devemos ter o otimismo e o
dinamismo e sempre reiterar a confiança, e mantermos uma atitude contra o
pessimismo e a inércia que muitas vezes atingem outras regiões.” No mês
seguinte, tentou animar a arquibancada: “Não tem quem nos derrote se
não acharmos que já estamos derrotados. Não tem quem nos derrote! Isso é
o que garante a nossa força, é o fato de que juntos ninguém nos
derrota.”
Em julho, começou a exalar preocupação com “um ambiente de pessimismo
que não interessa, que não é bom para o Brasil”. Chegou a novembro
nostálgica de Juscelino Kubitschek, “quando dizia ‘o otimista pode
errar, pode até errar, mas o pessimista já começou errado’”.
Poderia ter recordado outro mineiro, o escritor Fernando Sabino, para
quem “o otimista sofre tanto quanto o pessimista, mas pelo menos sofre
só uma vez”. E, aí, talvez a oposição até retrucasse com a definição de
Woody Allen sobre pessimismo: “Mais do que em qualquer outra época, a
humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero
absoluto; o outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a
sabedoria de escolher”.
Dilma gravou seu discurso rudimentar sobre a “guerra psicológica” e
viajou à Bahia, onde o tempo avança em ritmo Dorival Caymmi. O
governador Jacques Wagner, seu amigo, poderia contribuir para mudar o
ânimo da presidente-candidata, sugerindo a leitura da biografia de
Apparicio Torelly, o Barão de Itararé (“Entre sem bater”, de Claudio
Figueiredo). O Barão ensinava: “Os acontecimentos se processam com tanta
rapidez que os acontecimentos acontecem antes de terem acontecido.”
Pode ser uma opção refrescante a quem precisa olhar para além daquilo
que vê. Na pior hipótese, ajuda a começar 2014 de bom humor, um dos
fundamentos para estar de bem com a vida.