Escrito por Carlos Alberto Sardenberg
Uma coisa a gente precisa admitir: a presidente Dilma é azarada. Bem ao contrário do sortudo presidente Lula.
É verdade que Dilma fez escolhas
que se mostraram equivocadas, como a tentativa de crescer via consumo e
as intervenções nos juros, nos preços, no sistema elétrico. Mas não é
menos verdade que o ambiente foi desfavorável.
Se FHC, também azarado,
havia padecido com as sucessivas crises dos emergentes (México 94,
Coréia 97, Rússia 98), Lula assumiu a presidência em 2003, quando o
mundo todo exibia um crescimento exuberante. E, especialmente, no
momento de máxima aceleração da China, o que turbinou nossas exportações
e trouxe uma enxurrada de dólares para o país. Pela primeira vez na
história, o Brasil teve sobra de dólares.
Caiu do céu. Do céu internacional e do agronegócio, sempre
tão hostilizado pelo PT. Pois foi o agronegócio que trouxe a maior parte
dos dólares.
Lula também usufruiu dos benefícios da estabilização
monetária, iniciada com o Real em 1994 e consolidada no início de seu
governo, o que permitiu a volta do crédito, turbina do consumo.
Verdade que veio a crise financeira dos EUA (2009). Mas,
como todos os demais emergentes, o Brasil estava mais preparado, em
razão mesmo das reservas de dólares.
E se FHC havia sofrido com a maior seca da história, Lula
ganhou períodos generosamente chuvosos. Verdade que houve enchentes e
alagamentos, mas o apagão teria sido pior.
E por falar em azar, Dilma está apanhando uma seca parecida
com a de FHC. A presidente também apanhou com os efeitos da crise
financeira. Primeiro, pegou recessão nos países desenvolvidos e quando
estes começaram a se levantar, os emergentes, e especialmente a China,
desaceleraram. O comércio externo virou, dos superávits enormes, para um
déficit real.
O Fed, banco central dos EUA, primeiro, inundou o mundo de
dólares baratos, forçando a valorização das moedas emergentes; agora,
está retirando dólares, forçando desvalorizações - e inflação.
Os efeitos da estabilização monetária e da volta do crédito
se esgotaram. E os truques da era Lula, como a falsa capitalização da
Petrobrás ou a equivocada aliança Sul-Sul, começaram a mostrar seus
efeitos negativos.
O Brasil e os emergentes em geral, de queridinhos, viraram fonte de instabilidades.
Só falta Dilma perder a Copa.
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Com racionamento?
De uma entrevista na CBN (quarta-feira) com o engenheiro
Mário Veiga, presidente da consultoria PSR, e um dos mas respeitados
especialistas no setor elétrico:
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. Há um risco de racionamento de 18,5%; racionamento, no
caso, quer dizer, falta de mais de 4% da demanda por energia, algo
equivalente a deixar sem luz 12 milhões de residências;
. Embora seja verdade que, por oposição, há uma chance de
81,5% de não ocorrer racionamento, o risco de 18,5% é muito elevado para
os padrões do sistema;
. O problema não decorre da atual seca, nem do excesso de demanda; o sistema vem dando sinais de dificuldades há anos;
. Não é o caso de se recorrer agora a um racionamento
preventivo; dá para esperar até abril, ou seja, até o final do período
de chuvas; pode ser que São Pedro ajude; mas um racionamento é uma
complexa operação, que não pode ser improvisada; ou seja, deveria estar
sendo preparada;
. Há óbvios atrasos na entrada em operação de usinas e sistema de distribuição;
. Há problemas estruturais; não se pode dizer que está tudo
em ordem quando o sistema está usando todas as termoelétricas (espécie
de seguro) e quando as usou mesmo em tempos de chuva;
. Os últimos anos mostram também uma série de trapalhadas do
governo, que deixaram distribuidoras sem energia contratada,
obrigando-as a recorrer ao mercado livre, pagando preços muito mais
elevados (hoje, de R$ 1.700/megawatt/hora);
. O prejuízo tem que ser pago pelo Tesouro (pelo
contribuinte brasileiro) ou pelo consumidor, na tarifa, já que a culpa
do desequilíbrio financeiro não é das distribuidoras, nem das demais
empresas do setor.
. Simplificando, e sem contar os rombos do ano passado, o
Tesouro teria que repassar, em 2014, cerca de R$ 24,5 bilhões; ou
aplicar um aumento de tarifas de 24%.
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Eis, portanto, o dilema da presidente Dilma: aumentar o
gasto público -e prejudicar a realização do superávit primário, num
ambiente de desconfiança com as contas do governo - ou elevar tarifas,
com forte impacto numa inflação já alta, isso exigindo juros mais altos -
tudo com prejuízo político.
Uma bela enrascada - trapalhadas em cima de azar.
Ouça entrevista na integra: http://www.sardenberg.com.br/index.php/component/k2/item/11280-entevista.html