Publicado na edição impressa de VEJA


“Os civis também sabem morrer”, disse Carlos Lacerda a Humberto
Castello Branco quando o general tentou convencê-lo a abandonar o
Palácio Guanabara, sede do governo estadual, na noite de 31 de março de
1964. Ou pelo menos é assim que, já perto da morte, em 1977, preferiu
lembrar o mais fenomenalmente dramático personagem político em ação à
época, capaz de misturar tragédia grega e dramalhão mexicano com mente
de intelectual canônico, tradutor de Júlio César, de Shakespeare, e de
John Kenneth Galbraith, e coração de apresentador de auditório.
Quando se trancafiou no Guanabara, protegido por um batalhão da PM,
caminhões de lixo, a fina flor da sociedade carioca e voluntários
portando lenços azuis e brancos, tudo podia acontecer. Até um momento
descrito como “emocionante” por Marcelo Garcia, assessor de Lacerda: a
chegada dos generais e marechais reformados, que vinham aderir à
rebelião e defender o Guanabara. “A essa altura, já não havia fuzis nem
metralhadoras. Houve distribuição de pistolas. O brigadeiro Eduardo
Gomes apareceu dizendo ter sido informado de que Aragão iria atacar o
Palácio”, contou Garcia.
Cândido Aragão, almirante esquerdista que havia apoiado a revolta dos
marinheiros, e seus fuzileiros nunca apareceram. Tiros, só os da
retórica do homem que tinha o apelido de Corvo e a fama de “derrubador
de governos”. Alvo de uma tentativa de assassinato, ele virou o jogo e
empurrou Getúlio Vargas ao suicídio, também teve influência na patética
renúncia de Jânio Quadros e contra João Goulart usava todos os truques
do manual. Principalmente os sujos. Em 1963, em uma entrevista ao Los
Angeles Times, ele denunciou a infiltração comunista no governo, com a
ressalva de que Jango não era propriamente da turma: “Ele é um
totalitário, à moda sul-americana. É um caudilho com todos os recursos
dos tempos modernos”. A entrevista motivou uma malograda tentativa de
prendê-lo (ou sequestrá-lo, já que a ordem de prisão, a ser efetuada por
militares, não era oficial).
No dia do golpe, usando uma japona preta sobre a camisa branca para
dificultar que fosse alvejado, conseguiu fazer pronunciamentos no rádio,
na televisão e por altofalantes instalados no palácio. Comparou Jango
ao fratricida Caim: “O que fizeste de teus irmãos que iam ser mortos por
teus cúmplices comunistas, de teus irmãos que eram roubados para que tu
te transformasses no maior latifundiário e ladrão do Brasil? Abaixo
João Goulart!”. Desafiou o comandante dos fuzileiros: “Aragão, covarde,
incestuoso, deixe os seus soldados e venha decidir comigo essa parada.
De homem para homem. Quero matá-lo com o meu revólver”. Como nada disso
aconteceu, caiu de joelhos e agradeceu a Deus quando os míseros três
tanques que guardavam o Laranjeiras, o palácio presidencial, passaram
para o Guanabara. Três anos depois, estava na Rua Leyenda Patria, em
Montevidéu. “Estou procurando a casa do presidente João Goulart. Não sei
o número porque perdi o papel”, disse a uma brasileira que não
reconheceu. Maria Thereza Goulart levou-o ao marido. Os dois
ex-inimigos, ambos cassados, abraçaramse e planejaram a nunca
materializada Frente Ampla. A ditadura havia definitivamente derrubado o
“derrubador de governos”.