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Publicado na edição impressa de VEJA


Havia seis candidatos a presidente em 1964. Todos, portanto,
interessados em chegar até 1965. Ou seja, empurrar a crise até a próxima
eleição presidencial. O mais interessado de todos era Juscelino
Kubitschek (os outros candidatos eram os governadores Carlos Lacerda,
Adhemar de Barros e Miguel Arraes; além do próprio presidente João
Goulart e seu cunhado Leonel Brizola, no caso de uma feitiçaria
constitucional que os livrasse da inelegibilidade). As pesquisas de
opinião já davam 37% dos votos para que ele voltasse à elegante cidade
que havia criado do nada, deixando uma nada bela encrenca econômica, mas
a imagem de político inovador nas realizações públicas e conciliador
nas tratativas particulares. À véspera do golpe, conciliação era uma
moeda em falta até mesmo no trato entre dois homens pouco sanguíneos
como JK e Jango. A aliança política entre o PTB de Goulart e o PSD de
Juscelino estava irreversivelmente deteriorada.
Em 1963, o presidente avisou o senador, eleito por Goiás, que ele não
mais poderia contar com o apoio do PTB para sua candidatura
presidencial. Em 15 de março, propôs ao Congresso mudar a Constituição e
permitir a sua reeleição. “Ele passou dos limites. Saiu da legalidade
que o sustentava”, reagiu Juscelino. Mesmo contra todas as evidências,
na manhã de 31 de março Juscelino ligou para o Palácio Laranjeiras.
Quando finalmente o atenderam, mandou chamar o oficial do dia e ditou:
“Aqui está falando o senador Juscelino Kubitschek. Anote no seu livro de
ocorrências que eu estou tentando telefonar para o presidente João
Goulart há várias horas e ninguém atende”. Quando Jango retornou a
chamada, JK apelou-lhe que interrompesse a marcha da insensatez. Suas
palavras não surtiram efeito e, se surtissem, dificilmente mudariam o
rumo dos acontecimentos.
Quarenta minutos depois, Juscelino soube por José Maria Alkmin ─ que
havia sido seu ministro da Fazenda e era casado com uma prima sua ─ que o
golpe já estava em curso. Às 4 horas da tarde, Jango pediu a JK que o
visitasse no já quase vazio Laranjeiras. Recebeu-o no quarto. Juscelino
sentou-se em uma das camas e fez o apelo final: “Você tem de fazer dois
manifestos. Um tranquilizando a nação em relação ao problema do
comunismo. O outro, às Forças Armadas, em que você evoca para si o
problema da Marinha e resolve tudo no respeito aos regulamentos e à
hierarquia”. Como havia feito com todos os conselhos semelhantes, Jango
se recusou: “Se eu fizer isso dou uma demonstração de medo, e um homem
com medo não pode governar o país”. JK, que havia sobrevivido às
próprias crises militares e aplicava só dosadamente a tática do
confronto, tinha uma máxima mais realista: “No Brasil, elege-se pelo
povo, mas governa-se com os olhos voltados para as classes armadas”.
Onze dias depois, JK votava no Congresso para que o general Humberto
Castello Branco se tornasse o primeiro presidente do regime militar. Em
pouco tempo, como todos os outros candidatos em potencial à eleição que
nunca existiu em 1965, estava cassado e exilado. “Caí na armadilha do
Castello Branco”, disse anos depois. “Caímos todos.” Menos o primo
torto, José Maria Alkmin, que virou vice de Castello.
Colaboradores: André Petry, Augusto Nunes,
Carlos Graieb, Diogo Schelp, Duda Teixeira, Eurípedes Alcântara, Fábio
Altman, Giuliano Guandalini, Jerônimo Teixeira, Juliana Linhares, Leslie
Lestão, Otávio Cabral, Pedro Dias, Rinaldo Gama, Thaís Oyama e Vilma
Gryzinski.