
PARAÍSO
SECRETO — Localizada a 15 quilômetros do litoral sul de Cuba, Cayo
Piedra é, desde a década de 60, o refúgio particular e preferido de
Fidel Castro (Foto: Reprodução/VEJA)
A ILHA DO CARA
Revelado o segredo dos altos índices de desenvolvimento humano em Cuba.
Eles devem estar sendo medidos na ilha privativa de Fidel Castro, um paraíso nababesco
Reportagem de Leonardo Coutinho publicada em edição impressa de VEJA
Cultuado pelos partidos de esquerda do Brasil e da América Latina,
Fidel Castro vende com facilidade a falsa imagem do revolucionário
despojado, metido antes em farda de campanha e, agora, na decrepitude,
em agasalhos esportivos Adidas que ganha de presente da marca alemã.
Inúmeros relatos de pessoas que privaram da intimidade de Fidel
haviam arranhado a aura de asceta do ditador cubano. Sabia-se que ele
manda fazer suas botas de couro, sob medida, na Itália; que tem um iate e
um jato particulares; come do bom e do melhor – enfim, nada diferente
da vida luxuosa levada, em despudorado contraste com a miséria do povo,
por tantos ditadores de todos os matizes ideológicos no decorrer da
história.
Mas, como manda o manual do esquerdismo latino-americano, que nunca
conseguiu se afastar do culto ao caudilhismo populista, se a realidade
sobre Fidel desmentir a lenda, que prevaleça a lenda. Assim, a farsa
sobrevive. Assim, as novas gerações vão sendo ludibriadas.
Resta ver se a farsa vai resistir às revelações sobre a corte de
Fidel que aparecem na autobiografia de um ex-guarda-costas do ditador,
Juan Reinaldo Sánchez. O livro, que está chegando às livrarias
brasileiras no fim de junho com o título A Vida Secreta de Fidel (Editora Paralela), revela excentricidades que seriam aberrantes mesmo para um bilionário capitalista.
Algum rentista de Wall Street tem uma criação particular de golfinhos destinados unicamente a entreter os netos?
Fidel tem.
Os líderes das empresas mais valorizadas do mundo, Google e Apple,
que valem centenas de bilhões de dólares, são donos de ilhas
particulares secretas, vigiadas por guarnições militares e protegidas
por baterias antiaéreas?

Com
um total de 1,5 quilômetro de extensão, as duas ilhotas têm uma
estrutura luxuosa e recebem exclusivamente familiares e amigos íntimos
do ditador (Foto: Reprodução/VEJA)
Fidel tem tudo isso em sua ilha – e não se está falando de Cuba, que, de certa forma, é também sua propriedade particular.
O que o ex-guarda-costas revela em detalhes é a existência de uma
ilha ao sul de Cuba onde Fidel Castro fica boa parte do seu tempo livre
desde a década de 60. Nada mais condizente com uma dinastia absolutista
do que uma ilha paradisíaca de usufruto exclusivo da família real dos
Castro.
Juan Reinaldo Sánchez narra a liturgia diária do séquito de
provadores oficiais que experimentam cada prato de comida e cada garrafa
de vinho que chegam à mesa do soberano para garantir que não estejam
envenenados. “A vida inteira Fidel repetiu que não possuía nenhum
patrimônio além de uma modesta cabana de pescador em algum ponto da
costa”, escreve Sánchez no seu livro.
A modesta cabana de Fidel é uma imensa casa de veraneio de 300 metros
quadrados plantada em Cayo Piedra, ilha situada a 15 quilômetros da
Baía dos Porcos, no mar caribenho do sul de Cuba. Quando Fidel conheceu
Cayo Piedra, logo depois do triunfo de sua revolução de 1959, o lugar
lhe pareceu o refúgio ideal para alguém decidido a nunca mais deixar o
poder.
Eram duas ilhotas desertas sobre um banco de areia com uma rica fauna
marinha. Condições excelentes para a caça submarina, um dos passatempos
do soberano resignatário de Cuba. Muito se especulava sobre a
existência do resort de Fidel, mas sua localização só se tornou
conhecida agora, depois da publicação do livro de Sánchez. » Clique para continuar lendo