Publicado no Estadão desta terça-feira
Só pode ter uma causa a farsa armada pelo governo, o PT e a Petrobrás
na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o escândalo da compra
da Refinaria de Pasadena, em curso no Senado – a seleção sob medida e o
repasse antecipado das questões a cair nas sabatinas a que se
submeteriam figurões da estatal, como revelou a revista Veja -: a ânsia
de calafetar até a mais microscópica das frestas do caso para que
permaneçam nas sombras as dimensões do pântano profundo que recobre os
subterrâneos da transação.
Segundo o transcrito de uma conversa de 20 minutos filmada a que a
publicação teve acesso, o chefe do escritório da Petrobrás em Brasília,
José Eduardo Sobral Barrocas, comentou com o advogado da empresa, Bruno
Ferreira, e um terceiro interlocutor não identificado que o assessor
especial da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da
República, Paulo Argenta; o assessor da liderança do governo no Senado,
Marco Rogério de Souza; e o assessor da liderança do PT na Casa, Carlos
Hetzel, foram os autores das perguntas previamente encaminhadas à
presidente da petroleira, Graça Foster, ao seu antecessor Sérgio
Gabrielli e ao ex-diretor Nestor Cerveró, para que combinassem as
respostas a fim de não cair em contradição. Eles depuseram na CPI entre
os dias 20 e 27 de maio.
Dos 13 membros do colegiado, que tem 180 dias de prazo para apurar o
negócio de Pasadena e as ligações de funcionários da Petrobrás com o
doleiro Alberto Youssef, 10 são governistas. Maioria na Casa, as
lideranças do PMDB, PT e de outras siglas da base do Planalto haviam se
apropriado, numa operação a que não esteve alheia a presidente Dilma
Rousseff, de uma iniciativa da oposição, quando ficou claro que não
seria possível bloqueá-la. Lesados, os oposicionistas conseguiram
emplacar outra CPI, dessa vez mista, e ignoraram a contrafação montada
no Senado, tendo como presidente o peemedebista Vital do Rêgo e como
relator o petista José Pimentel. Nem essa confortável situação era o
bastante, agora se sabe. “Risco zero” foi a palavra de ordem.
Isso não pode ser atribuído a um velho cacoete petista nem, apenas,
ao cuidado para que nada, absolutamente nada, possa respingar no projeto
da reeleição de Dilma – que, em 2006, chefiando o Conselho de
Administração da Petrobrás, autorizou a compra de metade da refinaria,
por 8,5 vezes mais do que a sua proprietária, o grupo belga Astra Oil,
havia pago pelo empreendimento inteiro, apenas um ano antes. A estatal
acabaria enterrando na tenebrosa transação US$ 1,245 bilhão, com um
prejuízo de US$ 792 milhões, segundo o Tribunal de Contas da União. Em
decisão recente, que se seguiu a intenso trabalho de lobby, o órgão
isentou a presidente de qualquer responsabilidade pelo maior rombo na
história da empresa e resolveu abrir outra ação contra 11 dos seus
diretores ou ex-diretores.
Por que então os operadores do Planalto, com a presumível
cumplicidade do relator José Pimentel, prepararam e entregaram a “cola”
da prova aos sabatinados? Repita-se: o único motivo que faz sentido era
impedir que, por descuido, um deles desse uma pista das enormidades que
possam estar por trás do escândalo de Pasadena. Não que inexistam
indícios veementes disso. Basta citar um exemplo pontual, uma ponta de
iceberg: um relatório da própria Petrobrás, obtido em abril pelo jornal O
Globo, descobriu que, em fevereiro de 2010, US$ 10 milhões foram
retirados da conta da refinaria mediante mera autorização verbal – não
se sabe de quem, para quem e para quê. E Pasadena muito provavelmente
não foi um raio em céu azul.
O PT no poder, ao aparelhar a Petrobrás, “criou um monstro”, como
disse certa vez o general Golbery do Couto e Silva da sua criatura, o
Serviço Nacional de Informações (SNI). E se há uma personagem central
nesse processo, que permitiu o inadmissível na estatal, é a então
ministra de Minas e Energia, depois titular do Gabinete Civil e, enfim,
chefe do governo. Ninguém, ao longo desses anos, nem mesmo o
ex-presidente Lula, há de ter tido influência comparável na estatal. É
dela, portanto, a responsabilidade objetiva – não por uma ou outra
decisão desastrosa ou falcatrua, mas pelo conjunto da obra.