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23 setembro 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (IX)

 

< Capítulo IX >


A ‘VOLTA POR CIMA’ NO INCRA

  

Em 1990, para surpresa geral, fui designado para o cargo de ‘Superintendente do INCRA’! Daquele mesmo órgão público do qual fui defenestrado por perseguição política (por isso sou anistiado político, mas, atenção! NÃO RECEBO "BOLSA-DITADURA", mas que seria justo seria). Como já relatado, fui transferido manu militari (literalmente) de Manaus, onde estudava matemática na UA (hoje UFAM) e estava me preparando para casar, etc., para Tabatinga, na tríplice fronteira com a Colômbia e o Peru. Neste momento me vem um nó na garganta só de lembrar desse episódio tão sombrio na minha vida. Mas superei. Poderia ter sido bem pior se tivesse sido demitido do INCRA em Manaus.

A coisa, isto é, a nomeação para superintendente do INCRA, aconteceu assim:

Em 1989, houve a primeira eleição para Presidente da República (PR). Após uma disputa acirrada entre ‘Collor de Melo’ e ‘Lula’ (um eterno candidato a PR), com escaramuças de lado a lado, nem sempre ‘republicanas’, Collor sagrou-se vencedor. Quer dizer, o stablishiment o escolheu. Até então, ainda se utilizavam urnas de lona e votos em papel. Era um processo moroso na contagem dos votos, mas era transparente, porque um ato público, como manda a CF. Hoje ninguém sabe se os eleitos o foram realmente. Apesar das juras de amor às urnas eletrônicas. Um povo analfabeto digital não sabe o que acontece nas linhas de um programa (software). Como já dito em outro capítulo, desde 1982 eu participei das eleições como fiscal/delegado do PTB, meu primeiro e único partido. Outro caso de amor.

Nesses atos eleitorais, principalmente os da apuração dos votos, sempre primei pela correção, tanto nas fiscalizações da votação quanto nas apurações dos votos.

Nessa época, como estudante de Direito e secretário geral do PTB, eu ajudava os juízes eleitorais a ‘apaziguarem os ânimos’ dos diversos candidatos e seus fiscais, dentro das regras existentes. Geralmente, as confusões se davam quando das interpretações acerca da 'vontade do eleitor' ao o mesmo grafar nas cédulas de papel nomes errados, rasurados, números sem correspondência com o partido ou o nome do candidato, etc.

Nessa época, como eu era 'delegado da Agricultura', me tornei amigo do senador Bernardo Cabral (eleito em 1.986). Por isso, acompanhei de perto a sua relatoria da Constituição Federal. Observei as inúmeras negociações que ele fazia entre os atores das diversas subcomissões. Bernardo era, como já dito, era o Relator-geral da Constituição. Como estudante de Direito foi uma experiência muito rica para mim acompanhar o seu trabalho.

Como resultado de suas habilidades políticas, como grande negociador e conhecedor da CF/88, Bernardo foi o primeiro ministro - e logo o da Justiça! - a ser anunciado por Collor, passando assim o mesmo a ter um grande protagonismo nas nomeações dos demais ministros.

Na oportunidade do anúncio do nome de Bernardo como ‘ministro da Justiça’, eu me encontrava de férias em Teresópolis (RJ) juntamente com uma amiga comum, a Nilza. Ligamos ao Bernardo para lhe dar os parabéns, com o 'Diário de Teresópolis' nas mãos. Foi quando ele agradeceu e perguntou: - “Onde vocês estão?" Respondemos que estávamos em Teresópolis e ele retrucou: - “Venham para Brasília agora! ”. Obedecemos e decemos da serra, e pegamos um voo para Brasília.

 Nos hospedamos no Hotel Itamarati, hoje Econ Hotel.

 Aguardamos o contato dele.

 Quando Bernardo apareceu no Hotel com aquele aparato estatal de segurança, ninguém no Hotel entendeu nada...

Após uma breve conversa, o Bernardo perguntou a mim: - “O que você quer? ”, referindo-se a cargo no governo federal.  Disse a ele que estava feliz no MINAGRI, que não queria outro cargo. A Nilza retrucou- “Ele quer ir para o INCRA! ”.

 Nunca tinha falado com ela sobre isso. O Bernardo então nos disse: - “Está resolvido! Você vai para o INCRA. Mande seu currículo! ”.

Isso foi para mim uma coisa inusitada! Incrível! Se eu tivesse planejado isso não teria dado certo. Matutei:  Como seria isso de eu dar a volta por cima e me tornar Superintendente do INCRA?

Assim, deixei o MINAGRI, em abril de 1990, para assumir o INCRA.

Portanto, contra a vontade de muita gente poderosa, assumi o cargo máximo do meu antigo amor platônico - e desafeto: o INCRA “velho de guerra”.

 Nem precisa repetir que isso para mim foi um retorno “glorioso”, uma “volta por cima”!

Como muitos sabem, as circunstâncias me forçaram a deixar o INCRA em 1980 para poder estudar. E assim ingressei no Instituto de Terras do Amazonas (ITERAM). Portanto, se passaram dez anos entre um evento e outro.

Agora, não era mais ‘topógrafo’ (nem ‘fotógrafo’, rá-rá-rá!), mas Superintendente do INCRA! Um salto e tanto!

 Meus antigos colegas não entenderam nada!

 Alguns se alegraram comigo; outros me olhavam com um misto de desconfiança e pasmo. E até desprezo. Talvez por ciúmes. Ou inveja, vá saber...

 Uns diziam que eu iria “me vingar”; “trocar todo mundo”. Outros diziam que eu “não teria força política para trocar ninguém! ”. Todo mundo ali tinha “padrinhos”. Etc.

Não atendi às expectativas de nenhum dos grupos antagônicos: troquei quem eu achava que devia ser trocado; e deixei quem eu achei que devia permanecer nas funções. Na paz! Na paz! Com transparência e lealdade. Não pelo Diário Oficial, mas antes disso face a face.

Fique ouco tempo no cargo em razão dos resultados das eleições estaduais daquele ano, que foi contrária a Collor em muitos Estados, inclusive no Amazonas, elegendo Mestrinho novamente. Foi a volta do 'Boto Navegador'.

O presidente do INCRA tentou me envolver nas disputas e me mandou “fazer um relatório detalhado sobre a Reforma Agrária no Amazonas”. Imaginei o resultado disso.

Consultei o Ministro Bernardo, que me disse, claro: - “Faça! ”.

Consultei meu antigo chefe no ITERAM, Bernardes Lindoso, que era Diretor de Colonização do INCRA, e ele me disse: “- Faça! E não se esqueça de relatar tais e tais Projetos" (eivados de vícios! - "Mas não entregue o Relatório em mãos. Dê entrada no Protocolo do INCRA”, me disse o Bernardo.

Foi a minha salvação! Esse Relatório foi “nitroglicerina pura" do ponto de vista político, pois atingiria muita 'gente boa' ".

O presidente do INCRA teve de abrir Inquérito para apurar as denúncias, e o MPF abriu vários processos na Justiça Federal para apurar os fatos ali relatados.

Para se ter ideia do que continha o Relatório, passo a enumerar algumas das irregularidades por mim detectadas nos levantamentos de campo que eu mesmo fiz:

1.                   Desapropriações de terras superavaliadas e/ou inadequadas para agricultura;

2.                   Desapropriações de terras imprestáveis para agricultura e ocupadas por público não elegível para assentamentos, como ‘comerciantes’ e outros ‘profissionais liberais’;

3.                   Construção de aeroporto sem utilização, no Apuí;

4.                   Demarcação de terras improdutivas, o que resultava em suas recusas/desistências  de ocupação;

5.                   Ocupação de terras produtivas e não demarcadas, e vice-versa;

6.                   Construções de equipamentos públicos como ‘postos médicos’ e ‘escolas’ em áreas demarcadas, mas desocupadas, etc. E falta dos mesmo nas ocupaçoes de fato.

Portanto, foram milhões de dinheiros públicos “jogados no lixo”, por má administração e/ou por interesses escusos.

Por essas denúncias, ganhei a admiração de uns e a inimizade de outros tantos.

Contudo, nessa minha breve passagem pelo INCRA como superintendente, resolvi dois casos emblemáticos:

1. o caso da ‘Raymond-Fazendas Unidas’, ao encerrar os processos administrativos mandando pagar as ‘benfeitorias’ em dinheiro; e a ‘terra nua’, em Títulos da Dívida Agrária (TDAs), como mandava a Lei; e

2. o caso da “quase desapropriação” de uma vasta área de terras entre os km 50 a 60 da rodovia ‘Manoel Urbano’ (AM-070: Manaus-Manacapuru), a qual pertencia a um polonês de nome Zigmund. Fiz isso a pedido do então ministro do Meio Ambiente Ratzemberg, e pela justeza do pedido. Trtatava-se de uma área registrada em cartório como Reserva Ecológica particular, que servia de base para Hotéis de Selva e locações cinematográficas.

A área seria desapropriada para assentamento predatório ao meio ambiente, sem nenhuma garantia de produção.

Portanto, a área era uma enorme APA (Área de Proteção Ambiental) particular, com cerca de dez quilômetros pela rodovia (no sentido Norte-Sul), margeando o Rio Negro, de um lado (a Oeste); e margeando o Rio Amazonas, de outro lado (a Leste).

Repetindo, era uma Área de Proteção privada, onde funcionava um hotel de selva, às margens do Paraná do Miriti (que faz divisa entre os municípios de Iranduba e Manacapuru), área essa registrada em cartório como APA.

Para o desenrolar do imbróglio, fiz um acordo entre as partes: entre o proprietário Zigmund e os ‘invasores’ das margens da Rodovia. O proprietário Zigmund reconheceria as posses (com a assistência da FETAGRI – Federação da Agricultura); e os invasores garantiriam a proteção contra novas invasões, mantendo assim o restante da área preservada. Assim foi feito. Está lá até hoje como monumento dessa minha ação, da qual me orgulho muito. Minha 'boa consciência' ficou intacta...

No entanto, com a substituição de Bernardo Cabral no Ministério da Justiça, perdi as condições políticas de permanecer no INCRA como superintendente. Fui exonerado no final de 1990. Assim é a vida política...

Contudo, em 1991, por indicação do senador Carlos Alberto De Carli, fui conduzido para ocupar a ‘Delegacia Federal’ do ‘Ministério dos Transportes e das Comunicações’ (MTC). Isso coincidiu com o processo político de ‘impeachment’ do presidente Collor, também por perda das condições políticas no Congresso Nacional e engajamento da esquerda, com Lula à frente. Sempre ele!

Devo, neste ponto, dar o meu testemunho acerca da correção com que os senadores Cabral e De Carli sempre se portaram para comigo, nunca pedindo ou sugerindo qualquer ato não-republicano da minha parte, se é que me entendem. Por isso, estou com a minha consciência tranquila.

Como ‘Delegado Federal’ do MTC, pouco pude fazer em razão do clima político do tipo “barata voa” reinante em Brasília nesse período, pois só se falava do ‘impeachment’. Assim, resolvi me dedicar aos estudos e concluir o curso de ‘Direito’, o que consegui em julho de 1992. Logo em seguida, passei no exame da ‘Ordem dos Advogados do Brasil’ (OAB-AM). Mais uma vitória para mim, um ‘ex-matuto’ do ‘Careiro da Várzea’: tornei-me advogado!

O senador De Carli foi o meu primeiro cliente como advogado. Assumi um imbróglio que se arrastava há anos no Tribunal de Justiça do Amazonas acerca dos casos ‘Raymond-Fazendas Unidas’ (aquele mesmo que já havia resolvido administrativamente, como superintendente do INCRA, em 1990).

Por conta de minha atuação nesse processo criminal da ‘Raymond-Fazendas Unidas’, conseguindo o arquivamento dos mesmos por prescrição, fiquei ‘famoso’ dentro do TJA, tendo tido a minha indicação informal de vários desembargadores para que eu assumisse casos criminais difíceis. Infelizmente para mim não segui essa especialização por puro preconceito de minha parte. Advogados criminalistas não se encontram facilmente...

Após minha formatura em ‘Direito’, passei a advogar e continuei como professor do CIESA - a primeira faculdade particular do Amazonas -, pertencente a um salesiano, Orígenes Martins. Havia me tornado professor dessa nascente Instituição de Ensino Superior (IES) desde 1990 como professor de ‘administração em Comércio Exterior’, levado pelo meu amigo e colega de “Jaqueira” Alberto Bezerra, que viria a tornar-se ‘Procurador do Estado’ e também meu colega de UFAM, do Departamento acadêmico de Administração. Hoje é juiz do 11o. TRT.

Após decorridos cinco anos de CIESA, em 1994, passei em concurso para ‘professor de administração’ da UFAM, abandonando assim os cargos comissionados que, embora prestigiosos, não dava tranquilidade financeira, porque instáveis.

Antes disso, nesse mesmo ano de 1994, ingressei com pedido de ‘anistia política’ com base no art. 8º, parágrafo 1º, dos ADCTs da CF/88, e logrei êxito. Fui reintegrado ao INCRA como Topógrafo. Portanto, sou anistiado político desde então, em razão daquela minha transferência ‘manu militari’ para Tabatinga, em julho de 1977. Minha “vingança” se completou com essa ação. Sim, o INCRA mantém minha foto no rol dos seus ‘ex-superintendentes’, para meu orgulho. Obrigado, de coração, a todos os meus ex-colegas de INCRA!

Mas tive de novamente optar, em 1994, entre o INCRA e a UFAM. Optei pela UFAM, claro. Meu caso de amor platônico com o INCRA se encerrou. Dei a volta por cima. Foi o bastante! Seguiria agora meu novo amor: a academia de administração da UFAM.

Dei início assim ao meu próximo ‘caso de amor’: a Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

03 setembro 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) (Cap. VIII)

 

< Capítulo VIII >

DELEGADO DA AGRICULTURA


Como já relatado, iniciei minha “vida política” ao ingressar no PTB, em 1.986, a convite do meu professor de Direito Comercial, Dr. Plínio Ramos Coelho, ex-governador do Amazonas no período entre 1955-60. Dr. Plínio foi o responsável pelo fim da oligarquia Rego Menteiro.

Nessa função de secretário-geral do PTB no Amazonas, aproveitei para estudar bem o trabalhismo no Amazonas, no Brasil e no mundo. Isso incluiu a ‘história do sindicalismo’ e o ‘Marxismo’. Esses estudos, mais tarde, me foram extremamente úteis como professor da disciplina ‘Relações Sindicais’, na Faculdade de Estudos Sociais da UFAM. Aliado ao fato de ter sido sindicalista do Sindicato dos Professores da UFAM (ADUA – Associação dos Docentes da UA), onde fui primeiro tesoureiro (em 2.012). Mas isso é matéria para outra crônica.

Como secretário-geral do PTB, a partir de 1.986, participei ativamente das eleições municipais de Manaus e das eleições estaduais daí em diante.

Nas eleições municipais de Manaus, em 1.988, nós elegemos o ‘primeiro vereador’ do PTB após o ‘retorno à democracia’ - justamente o meu amigo Dr. Johnny De Carli, que havia deixado o Ministério da Agricultura (MINAGRI), onde era o ‘Delegado Federal’. Bom agrônomo e bom político, estava fazendo um bom trabalho de renovação no MINAGRI. Seu trabalho foi recompensado.

Novamente, dois anos antes, em 1.986, como secretário-geral do PTB, tive a sorte de receber como membro do partido a figura do senador ‘Carlos Alberto De Carli’, tio do vereador eleito, Johnny De Carli. O senador ‘Carlos Alberto De Carli’, como Presidente Regional do PTB, me encarregou de estruturar o Partido em todo o Estado do Amazonas. Eu já havia conhecido todo o Estado como ‘topógrafo/cartógrafo’ do INCRA e do ITERAM. Agora o faria novamente como ‘secretário-geral’ do PTB.

 Assim é que, até por ser o ‘secretário-geral’ do PTB, fui, surpreendentemente, nomeado como ‘delegado federal’ do Ministério da Agricultura (MINAGRI), por indicação do Dr. Johnny e agora vereador eleito do PTB de Manaus, e do senador ‘De Carli’, como senador da República. Para mim isso foi realmente algo inesperado. Quem leu os primeiros capítulos desta auto-biografia sabe que assim foi.

Nunca imaginei e nem planejei tal desfecho em minha vida. Mas, como em todas as oportunidades que tive, aproveitei a chance de crescer mais ainda profissionalmente. Passei a estudar a agropecuária do Estado do Amazonas e do Brasil, a fim de compreender bem minha alta função e demonstrar que tinha ‘competência técnica’ para isso. Um bom administrador administra desde um ‘carrinho de pipoca’ a uma nação. José do Egito me veio novamente à lembrança, mas sem querer me comparar com esse fantástico personagem bíblico que, de escravo, veio a administrar todo o Egito. Deus no comando.

Por conta dessa função de ‘Delegado Federal’ do MINAGRI, passei a transitar com mais desenvoltura nas lides políticas do Estado, mantendo bom relacionamento com as bancadas municipal, estadual e federal. Isso não tem preço em termos de conhecimento e prestígio. Claro que cuidados se tem de ter nessa área.

Assim é que, como ‘delegado federal’ do MINAGRI no Amazonas, tive de estudar as questões técnico-jurídicas que faziam parte das competências exigidas nessa função, pois representava o Ministro de Estado perante as autoridades municipais e estaduais do Amazonas. Falava em nome do Ministro e o representava, inclusive, no Conselho de Administração da SUFRAMA (CAS) - quando o ministro não podia comparecer às reuniões. Isso me dava também uma projeção Regional no Norte uma vez que os ‘governadores’ dos estados do Norte tinham - e ainda têm -, assento no CAS.

Para se ter uma ideia da importância do MINAGRI, este era - e ainda é -, o responsável pela ‘fiscalização’ das atividades agropecuárias, tais como:

1.       - Abatedouros (Serviço de Inspeção Federal - SIF);

2.       - Autorização / fiscalização de funcionamento de estabelecimentos que ‘processam’ e ‘vendem’ produtos de origem ‘vegetal’ e ‘animal’;

3.       - Compravendatransportearmazenamento - estocagem, de produtos de origem animal e/ou vegetal;

  1. - Processamento e venda de bebidas;
  2. - Fomento da produção, e o controle, de ‘sementes’ e ‘mudas’;
  3. - Alvará de permissão de ‘transporte de animais vivos’ entre Estados e Municípios, ou para o exterior;
  4. - ‘Eximport’ de peixes ornamentais, dentre outras atividades.

Como delegado do MINAGRI também participava das Feiras Agropecuárias e fazia o ‘controle sanitário’ e ‘vacinação’ dos animais em exposições e fiscalizava as ‘vacinações’ contra doenças animais, etc.

Essas competências exigiram de mim o conhecimento dos normativos de cada setor. Mas isso me possibilitou expandir meus conhecimentos.

Infelizmente, o setor agropecuário deixou de receber a atenção das autoridades estaduais. O Amazonas, durante todo o período da Zona Franca de Manaus (ZFM) ficou dependente desse modelo de desenvolvimento, como se o mesmo fosse perene, o que não é. Tanto que, nesses últimos 50 anos, a ZFM viveu aos sobressaltos em razão de decisões burocráticas do Ministério da Economia. Bernardo Cabral até tentou blindar a ZFM inscrevendo-a nos Atos das Disposições Constitucionais Transitóérias (ADCTs), que, como o próprio título propõe, são ‘atos transitório’. Assim é que a ZFM viveu esses anos todos sob a falsa ideia de ‘constitucionalização’.

Aliás, se há uma crítica a se fazer sobre a nossa Carta Constitucional é a tendência dos “constituintes” de constitucionalizar grande parte das questões nacionais.

O Amazonas é um Estado rico, mas dependente de um Modelo exótico, de montagem de produtos cujos componentes e partes vêm importados ou de São Paulo, ou importados do exterior.

O Modelo da ZFM passou por três fases (de conformidade com o Modelo Brasileiro de Substituição de Importações): 1) o de compras, de 1967 até 1975; 2) o de montagens, de 1676 a 1990; 3) o de livre importação no país a partir de 1.990, tirando da ZFM a sua exclusividade nas importações. Isso foi o fim do Modelo Brasileiro de Substituição de Importações, o que demonstra toda a nossa fragilidade. Isso foi feito no governo Collor com a justificada crítica de que este modelo engessara a indústria nacional e a tornara sucateada pela proteção tarifária. A ZFM era uma exceção, portanto, do restante do país. Portanto, faltou aos dirigentes estaduais ‘visão estratégica’ ao não prepararem o Estado para a eventual extinção do Modelo ZFM. Ainda hoje se estão tentando articular o funcionamento do Centro de Biotecnologia do Amazonas (CBA).

Como ‘Delegado da Agricultura’ no Estado, fui muitas vezes alvo de chacotas por parte dos ‘zona-franquistas’. Diziam: - “Lá vem o representante do setor ‘primitivo’! “. Ora, isso não era fruto do MINAGRI, mas do descaso das autoridades estaduais para com o interior do Estado, que foi esvaziado em razão do “sonho de cidade grande” que tomou conta dos nossos interioranos, que abandonaram o interior para virem morar em Manaus em condições sub-humanas. O Amazonas é um grande vazio demográfico em seu interior, com menos de um habitante por quilômetro quadrado. Enquanto que Manaus é uma cidade-estado, com mais da metade dos habitantes do Amazonas.

No entanto, paradoxalmente, o Amazonas é um Estado de imenso potencial econômico em razão dos seus minérios; de sua fauna e flora (biota); de sua hidrologia; etc.

Contudo, sem os fatores econômicos de produção: 1) capital (investidores interessados em investir no interior do Amazonas); 2) mão-de-obra (qualificada para lidar com a terra, com os recursos florestais, agrícolas e hídricos); e 3) infraestrutura (energia, transporte, incentivos fiscais, etc.), estaremos fadados a sermos, para o Brasil, o primitivismo. É lamentável!

Isso hoje está cobrando o seu “preço”...

Permaneci dois anos nessa função de Delegado da Agricultura, de 1988 a 1990. E continuava estudando ‘Direito’...

Em 1990, fui guindado a Superintendente do INCRA, mas isso fica para o próximo capítulo. 

01 setembro 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro. (Cap. VII)

 

< Capítulo VII >

ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

Iniciei, em maio de 1.985, minha caminhada como administrador na Fundação Centro de Apoio ao Distrito Agropecuário (FUCADA), Fundação Pública vinculada à Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA).

O exercício dessa função superior por mim na FUCADA foi a prova da assertividade com a qual tanto havia perseguido estudar, nos cinco anos anteriores.

O INCRA (na verdade, seus dirigentes) não entendiam dessa forma. Já os dirigentes do Instituto de Terras do Amazonas (ITERAM), sim. Principalmente o seu Diretor Técnico Isaías. Por isso que serei eternamente grato. Estou falando de dirigentes como Bernardes Lindoso (seu primeiro Presidente); de Isaías, seu Diretor Técnico; e de tantos outros colegas, que deram total apoio. Confiança se conquista.

Administração se tornara para mim a grande nova paixão de minha vida profissional! Tem um ditado que diz que uma paixão antiga somente se esquece por meio de uma nova paixão. Assim foi o que aconteceu comigo em relação à ‘topografia’ (que já tinha evoluído para ‘cartografia’). E à matemática.

Esse desenlaqce teve início ainda em Tabatinga, onde fui topógrafo (proscrito, é bem verdade) e chefe do setor. Essa chefia me “obrigou” a exercer atividades burocráticas.

Como sempre gostei de saber o 'porquê das coisas, me interessei pela administração como disciplina científica. Comecei a estudar ‘administração’ por conta própria. Assim é que fui “inoculado” por essa nova paixão. Contudo, guardei no meu coração a gratidão a Deus pelo que havia me proporcionado o exercício da ‘topografia’/’cartografia’. Matemática não se esquece. Sempre a pratiquei em apoio àquelas disciplinas outras.

Agora como ‘administrador’, minha nova paixão, tive meu primeiro desafio: elaborar o Regimento Interno (RI) e o 'Plano de Carreiras e Salários (PCCS)' da FUCADA. Esse desafio me serviu também de “laboratório” como administrador. E foi para mim motivo de muito orgulho! O Conselho de Administração da SUFRAMA aprovou sob aplausos.

Dada minha origem humilde de ‘matuto’ do ‘Careiro da Várzea’, esse fato foi para mim o cumprimento de um sonho, que julgava quase impossível. Para minha sorte e júbilo, as ‘peças técnicas’ por mim produzidas na FUCADA, quais sejam, o ‘Organograma’ e o ‘Regimento’, bem como o ‘PCCS’, apresentados para aprovação no Conselho de Administração (CAS) da SUFRMA, foram bastante elogiados e aprovados à unanimidade, para minha satisfação e do Diretor Johnny de Carli. Tanto que o meu colega administrador, Sérgio Kusbick, se referiu a esse evento como tendo sido uma verdadeira ‘rasgação de seda’...

Contudo, não me dei por satisfeito em atuar como administrador, essa profissão de tanto prestígio profissional!

Como já mencionei em outro capítulo, em 1985 prestei novo vestibular para ‘Direito Noturno’ e obtive sucesso. Assim, passei a perseguir essa outra nova profissão de enorme prestígio no mundo acadêmico e social. Pena que hoje esteja tão vilipendiada. Como professor de Direito Constitucional; Direito Administrativo; Direito Tributário; Direito municipal, etc., estou perplexo com as recentes decisões da nossa mais alta corte.

Iniciei o primeiro semestre de estudos do curso de Direito nesse mesmo ano de 1985, já trabalhando como administrador da FUCADA.

Assim, cumpri o primeiro período de Direito, o período básico, no primeiro semestre de 1.985.

Como administrador já formado, aproveitei no curso de Direito sessenta créditos cumpridos no curso de ‘Administração’ no curso de ‘Direito’. Portanto, tive de cursar apenas ‘cento e vinte créditos’ no curso de ‘Direito’, o que me facilitou bastante, mas, por outro lado, deixei de cursar várias disciplinas que me fizeram falta mais tarde e que acabei tendo de estudar como autodidata.

Este ‘ex-matuto’ não tinha noção, mas estava quebrando vários tabus sociais ao ascender para um seleto grupo de profissionais de grande prestígio: a advocacia. Para isso, no entanto, tive de enfrentar problemas de ordem logística que não tornava nada fácil essa tarefa. Como a sede da FUCADA – uma fazenda-modelo que, depois de estruturada, seria entregue para a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) – ficava no km 38 da BR-174, no início da área pertencente à SUFRAMA, no Distrito Agropecuário, isso me obrigava a, todo dia, ir de Manaus para a Fazenda, e vice-versa, a fim de poder estudar na Faculdade de Direito.

Nesse tempo, a BR-174 não era asfaltada, o que tornava a viagem de grande dificuldade em razão dos atoleiros causados pelas intensas chuvas, típicas da Região Amazônica. Entre dezembro a junho de cada ano, as chuvas de monção acontecem na Região. Dois colegas já haviam morrido nesse trecho da rodovia por conta disso. Bateram com seu carro de frente com um caminhão-tanque que estava estacionado à margem da estrada. Morreram um advogado e um agrônomo, deixando duas famílias enlutadas. O advogado era marido de uma Assistente Social da SUFRAMA muito querida.

Vendo esse meu novo sacrifício para estudar, o Diretor Executivo da FUCADA, Johnny De Carli, me mandou trabalhar, a partir do primeiro semestre de 1.986, na sede da SUFRAMA, no Distrito Industrial (DI), onde a FUCADA tinha um escritório de representação. Assim, minha vida de estudante de Direito foi facilitada. Ao que agradeço penhoradamente a Deus e ao Johnny, meu querido amigo.

Para garantir minha permanência na sede da SUFRAMA, o Dr. Johnny me incentivou a disputar as eleições para vice-presidente da ‘Associação dos Servidores da SUFRAMA’ (ASFRAMA), da qual faziam parte, além dos servidores da SUFRAMA, os da FUCAPI e da FUCADA. A FUCAPI era a ‘Fundação de Apoio ao Distrito Industrial’, da SUFRAMA. Obtive sucesso nessa empreitada graças à participação maciça dos servidores da FUCADA naquela eleição - a única função eleitoral da qual participei em toda a minha vida! Portanto, por essa 'manobra,' fiquei agora trabalhando na SUFRAMA como administrador e vice-presidente da ASFRAMA, até 1.988.

Em 1986, como Secretário Geral do PTB, função que assumi por convite do meu professor de ‘Direito Comercial’ e ex-governador, Dr. Plínio Ramos Coelho, de saudosa memória, e também por incentivo do Dr. Johnny De Carli, participei, naquele ano, como ‘coordenador’ das ‘fiscalizações das eleições’ para governador, senador, deputados federais e estaduais.

A atuação política era para mim um desafio desde 1.982 Naquele ano meio que 'empurrado'. Desta vez, não. Fiz de maneira voluntária e capacitada como administrador e aluno de Direito.

Essa empreitada valeu para mim como ‘porta de entrada’ para outras atividades de grande prestígio social, como é sabido por todos: a ocupação de cargos ‘comissionados’ no governo federal. Assim é que, dois anos mais tarde, em 1.988, haveria as eleições municipais, as quais mudariam minha vida profissional. O Dr. Johnny De Carli, que fora guindado à função política de ‘Delegado Federal’ do Ministério da Agricultura (MINAGRI), resolveu participar como candidato a ‘vereador’ de Manaus pelo PTB. Dada sua habilidade política, obteve improvável êxito!

Isso me abriu a oportunidade de substituí-lo no MINAGRI como ‘Delegado Federal’. Assim foi que me tornei ‘Delegado Federal’ da Agricultura em seu lugar. Mérito técnico e político meus. E generosidade do Johnny.

No próximo capítulo falarei mais sobre essas atividades comissionadas de grande prestígio político.

(*) Prof. Pinheiro. Téc. em Estradas; Administrador; advogado; especialista em docência superior; e mestre em administração.