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09 maio 2011

Domingo de festa para dois réus do mensalão (Por Ricardo Setti em Veja.com)


Festa para Delúbio: o retorno do réu do mensalão ao PT foi celebrado em grande estilo, com direito a balões, faixas e discurso
Amigos, vejam só como foi bom o fim de semana de dois réus do mensalão, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e o ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino. É como o Augusto Nunes tem insistido: o governo e o lulo-petismo estão fazendo de tudo para “absolver” os réus do grande escândalo de 2005 antes de que sejam julgados pelo Supremo Tribunal Federal.
Leiam o que escreve na seção política do Estadão de hoje Gabriel Manzano:
SÃO PAULO – Seis anos depois do mensalão, que abalou suas vidas e carreiras, os petistas José Genoino e Delúbio Soares curtiram no final de semana um certo gostinho de volta por cima. Delúbio, outrora um tesoureiro expulso, que assumiu a culpa pelos “recursos não contabilizados”, foi recebido em grande estilo pelo PT de Buriti Alegre (GO), numa festa de 200 pessoas, entre as quais 14 prefeitos, por seu retorno ao PT. Discursou como candidato. [Delúbio pretende ser deputado federal em 2012.]
Os amigos de Delúbio reescrevem o passado: “Foi uma injustiça grande do partido, mas o erro acabou reparado”, definiu o presidente do PT local, Delmar Arantes. O mensalão “é parte da história”, arrematou Darci Accorsi, ex-prefeito de Goiânia.
Jobim condecora Genoíno: "Um grande ajuste de contas com o futuro"
Genoino, que presidia o PT quando o escândalo de 2005 veio à tona, recebeu neste domingo, 8, no Rio, a Medalha da Vitória – a primeira dada a um ex-guerrilheiro. Em pleno 8 de Maio, que pelo mundo afora é saudado como o fim da II Guerra Mundial – em que se varreu da história o autoritarismo nazista -, o assessor especial do Ministério da Defesa entrou numa lista de 284 pessoas, entre militares e civis, agraciadas por terem contribuído para a democracia e a paz.
“O que o Brasil deseja fazer é um grande ajuste de contas com seu futuro. O Brasil não quer retaliar seu passado”, justificou o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao incluir na lista o militante do PC do B dos anos 70, que então integrou a guerrilha do Araguaia.

Senador Aloysio bota a boca no trombone: “Está se instalando no Brasil uma ditadura branca” (Por Ricardo Setti em Veja.com)



Em discurso na tribuna do Senado, senador Aloysio Nunes Fereira (PSDB-SP).Amigos, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) botou a boca no trombone. Há poucos meses instalado na cadeira para a qual foi eleito em outubro passado pela maior votação da história do Senado – 11,2 milhões de votos –, ele considera “insuportável” algo que se tornou rotina na vida política do país: o governo baixa medidas provisórias com força de lei e elas são aprovadas quase automatica e instantaneamente pela esmagadora base governista no Congresso.
Na semana passada, Aloysio e outros senadores da oposição abandonaram o plenário em sinal de protesto contra a aprovação de uma MP que tratava de nada mens do que 10 assuntos diferentes, com curtíssimo prazo para ser examinada.
Em entrevista ao site de VEJA, o senador demonstra preocupação com o fato de o governo praticamente formular toda a agenda do Congresso. “Pouco a pouco está se instalando no Brasil uma ditadura branca. A maioria vota, sem questionar, as coisas mais absurdas’, diz ele. “E pelos procedimentos mais absurdos”.
Leia a entrevista feita pela jornalista Carolina Freitas.

A medalha de Genoíno é mais uma bofetada de Jobim no rosto do Supremo_Por Augusto Nunes



(Foto: Gabriel de Paiva/ Agência O Globo)
Nelson Jobim não cabe nas roupas que veste: as arrobas excedentes estufam o paletó, explodem botões, derramam-se sobre a cinta e alimenta a aflitiva sensação de que a calça vai explodir a qualquer momento. Jobim também não cabe nos cargos que ocupa. Vive exercendo funções paralelas, que sempre comprometem (e frequentemente desmoralizam) a atividade principal.
Deputado constituinte, achou acanhada demais a missão de juntar num único texto as centenas de propostas aprovadas pelo plenário. Por conta própria, redigiu dois artigos que nunca foram votados, infiltrou-os na montanha de vogais e consoantes, só confessou o crime alguns anos mais tarde e jamais identificou os passageiros clandestinos da Constituição brasileira.
Ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso, confirmou a participação no furto do sino da faculdade de direito que cursou e seguiu ganhando dinheiro como consultor jurídico de uma grande empresa gaúcha. Ministro do Supremo Tribunal Federal, nunca soube localizar com precisão a fronteira que separa o juiz do político.
Foi o que soube o país no inverno de 2005, quando o escândalo do mensalão encontrou Jobim na presidência da corte. Favorecido pelo recesso de julho, nomeou-se Primeiro Magistrado e fundou uma estranha contrafação da Pastoral Carcerária especializada em livrar da cadeia delinquentes de estimação. Em funcionamento 24 horas por dia, a usina de habeas-corpus preventivos montada por Jobim permitiu que dezenas de meliantes desafiassem a CPI dos Correios sem medo da gaiola.
Ministro da Defesa do governo Lula, promoveu-se a general, almirante e brigadeiro. No começo do ano, botou na cabeça que é o 12° ministro do STF, trajou uma toga imaginária e começou a interferir abusivamente no julgamento do processo do mensalão. Foi por isso que transferiu José Genoíno do banco dos réus para o gabinete de assessor especial. É por isso que acaba de condecorar o mensaleiro juramentado.
Neste sábado, enquanto 200 candidatos a uma cela celebravam com um churrasco a volta de Delúbio Soares ao PT, Jobim transformou o ex-presidente do PT pilhado em flagrante no pântano no primeiro guerrilheiro aposentado a receber a Medalha da Vitória. A honraria é reservada a “ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira  e civis que tenham prestado serviços relevantes ou apoiado o Ministério da Defesa no cumprimento de suas missões constitucionais”.
No mundo civilizado, festeja-se a cada 8 de maio o fim da Segunda Guerra Mundial, que impediu o triunfo completo do totalitarismo nazista. No Brasil, o ministro que comanda as Forças Armadas festejou o companheiro que lutou pela instauração do totalitarismo comunista. Agiu assim para absolver simbolicamente, de novo, o réu que o STF ainda não julgou.
O próprio homenageado pareceu surpreso com o afago do chefe. “Olha, tem acontecido tanta coisa na minha vida e na história do Brasil que a gente só tem que acreditar no Brasil e no futuro, porque muita coisa surpreendente vem acontecendo positivamente”, recitou. Essa é a visão dos culpados impunes. Para quem enxerga as coisas como as coisas são, o que houve foi mais um intolerável triunfo dos fora-da-lei.
“O que o Brasil deseja fazer é um grande ajuste de contas com seu futuro”, tentou justificar Jobim. “O Brasil não quer retaliar seu passado”. Conversa fiada: o que ele chama de “grande ajuste de contas com o futuro” é a absolvição do protegido daqui a alguns meses. Ao nomeá-lo assessor especial, fez de Genoíno o braço-direito do civil que comanda militares. Ao condecorá-lo, travestiu de patriota a serviço da nação um protagonista de maracutaias repulsivas.
Conjugadas, as duas afrontas gritam que Jobim insultou a verdade, debochou dos brasileiros honestos e desferiu outra bofetada no rosto do Supremo. Que os ministros se lembrem da insolência no dia do julgamento do processo do mensalão. Jobim imagina que ainda comanda o tribunal. É preciso mostrar-lhe que não passa de um protetor de quadrilheiros.

O PT é craque em Bolsa Ditadura

O novo presidente do PT, Rui Falcão, recebeu do governo federal uma indenização de R$ 1,24 milhão, em valores atualizados, por ter sido perseguido durante a ditadura militar (1964-1985). Ele participou da luta armada e obteve o benefício após declarar à Comissão de Anistia que ficou impedido de trabalhar como jornalista por perseguição política. A quantia foi fixada em setembro de 2003, no início do governo Lula. O cálculo, retroativo, considerou que o petista teria direito a remuneração mensal equivalente à de um editor de jornal entre os anos de 1991 e 2002. Neste período, ele também recebeu salários da União, do Estado e da Prefeitura de São Paulo ao exercer funções de deputado estadual, deputado federal e secretário municipal de governo.
Falcão foi procurado anteontem, mas não atendeu aos pedidos de entrevista.
O petista foi anistiado em dezembro de 2002, no fim do governo Fernando Henrique Cardoso. Sua indenização correspondia a R$ 748 mil, em valores corrigidos. Depois da eleição de Lula, ele pediu a revisão do benefício, alegando erro de cálculo e pedindo pagamento retroativo por mais cinco anos. Seu recurso foi aceito, e a indenização subiu para o equivalente a R$ 1,24 milhão. O Ministério do Planejamento não informou quando o valor foi pago, alegando que o dado seria sigiloso.
A quantia foi considerada alta por membros da comissão ouvidos pela reportagem. O órgão mudou suas regras em 2009 para suspender novas indenizações milionárias. Hoje, reparações a jornalistas não costumam ultrapassar R$ 3.000 mensais.
(…)
Falcão foi preso em abril de 1970 num apartamento em Porto Alegre onde, segundo os documentos secretos, rodava panfletos com “propaganda subversiva”. Passou dois anos e oito meses no presídio da Ilha das Pedras Brancas, no rio Guaíba. Mais tarde, relatou ter sido submetido a maus tratos.
(…)
O petista retomou a carreira jornalística ainda na ditadura, com passagens por grandes veículos. Foi contratado pelo Grupo Estado em 1975 e comandou a revista “Exame” entre 1977 e 1988. No pedido de indenização, afirmou ter sofrido “inúmeros percalços” na profissão por motivações políticas.
Comento:
Essa turma é danada, mesmo!... Quem realmente foi perseguido muitas das vezes fica esperando anos a fio até ver o seu processo se mexer na tal Comissão de Anistia do MJ. Quem não reza pela cartilha do PT ou não é membro de algum sindicato, babau!

07 maio 2011

A inflação em alta é culpa dos preços públicos


Por Daniela Amorim, no Estadão:
Os grandes vilões da inflação este ano são os serviços e produtos com preços sob controle ou vigilância do governo, como os combustíveis. Ao contrário do ano passado, os alimentos têm contribuído menos para a inflação em 2011. O álcool e a gasolina mais caros puxaram a alta de 0,77% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em abril. No acumulado de 12 meses, o índice chegou a 6,51%, acima do teto da meta do governo de 6,5%.
O Banco Central diz, porém, que a inflação vai baixar nos próximos meses e que a meta só vale para o período de janeiro a dezembro e não leva em conta variações além da primeira casa decimal depois da vírgula. Ou seja, a inflação ainda estaria, tecnicamente, dentro da meta.
“Este ano, estão pressionando a inflação os reajustes de ônibus urbano, energia, taxa de água e esgoto e, neste ultimo mês, com força, também a gasolina”, disse a coordenadora de índices de preços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Eulina Nunes dos Santos.
A inflação de maio também deve voltar a ser pressionada pelos preços administrados, com o aumento nas tarifas de energia elétrica em algumas regiões metropolitanas e também pela tarifa de ônibus urbano no Rio, que será reajustada hoje em 4,17%.
Mas a leve desaceleração em abril surpreendeu o mercado. A notícia animou os analistas, que previam inflação maior. As taxas de juros caíram ontem no mercado futuro. Os próximos meses devem dar uma trégua, como ocorreu no mesmo período de 2010. No fim do ano, deve ocorrer novo repique da inflação, que pode até estourar o teto da meta, pelos critérios do BC.

05 maio 2011

Liberdade de expressão_Por Roberto Civita (Veja)


O Instituto Millenium realizou ontem o “2º Fórum Democracia e Liberdade”, no auditório da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo. Roberto Civita, presidente do Conselho de Administração do grupo Abril, que edita a VEJA, e conselheiro do instituto, fez o discurso de abertura, que reproduzo abaixo. Segundo Civita, “a livre manifestação do pensamento e seu corolário, a liberdade de imprensa, não constituem um fim em si mesmo, mas um meio imprescindível para garantir a sobrevivência de uma sociedade livre e democrática.”


Autoridades presentes,
Senhoras e Senhores, meus amigos,
Bom dia e bem-vindos! Em nome dos meus colegas do Instituto Millenium, agradeço a presença de todos nesse “2º Fórum Democracia e Liberdade”, tão oportunamente realizado neste 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.
O Instituto Millenium foi constituído há cerca de cinco anos com a missão de promover a democracia, a economia de mercado, o estado de direito e a liberdade. Desde então, vem se dedicando a debater e ampliar a discussão sobre a fundamental importância desses valores para o Brasil de hoje e para o País que queremos ser.
Vivemos em uma nação em que a democracia está consolidada e as instituições que a garantem estão cada vez mais sólidas. Com enorme satisfação, presenciamos, nas últimas décadas, uma notável evolução da consciência da população com relação aos seus direitos e deveres enquanto cidadãos.
A liberdade de expressão - garantida pela Constituição Brasileira de 1988 - teve e tem um papel fundamental nesse processo. A livre manifestação do pensamento e seu corolário, a liberdade de imprensa, não constituem um fim em si mesmo, mas sim um meio imprescindível para garantir a sobrevivência de uma sociedade livre e democrática.
E, por isso mesmo, faz-se necessário, mais do que nunca, proteger este que é um fundamento da civilização democrática, que defendemos e que queremos aprimorar.
O mais perfeito dos sistemas, que garantisse ao homem a plena satisfação de suas necessidades físicas, seria uma monstruosidade se lhe cassasse a palavra. É com ela que relatamos o mundo que nos cerca, que expressamos os nossos anseios, que articulamos as nossas divergências. Se me permitem um simbolismo que resume a importância da liberdade de expressão, lembro que, com a palavra, pode-se reivindicar o pão, mas o pão, por si, não garante o exercício da palavra; se manipulado por populistas, pode até contribuir para tolhê-la.
Saúdo, meus amigos, a revolução tecnológica que permite hoje, a cada indivíduo, ser um produtor de conteúdo - é assim ao menos nas sociedades livres -, propagando, mundo afora, a sua palavra. Festejamos as virtudes da Internet, que potencializa, de modo formidável, a liberdade de expressão. Notem que coisa fantástica: ao mesmo tempo em que o homem contemporâneo pode exercitar livremente o seu pensamento, na solidão benigna de sua casa, ele está conectado a uma rede que o faz cidadão do mundo.
Não é por acaso que as tiranias ainda existentes buscam, com tanta determinação, censurar o espaço em que navegam os internautas. Estou convicto de que os tiranos perderão essa guerra.
Cumpre, no entanto, fazer a necessária distinção entre essa saudável horizontalização da informação, destinada a integrar todos os habitantes do mundo global, e a imprensa, que é estruturada de outra forma e cumpre outra função. O jornalismo nasce no mesmo ventre da liberdade que garante os direitos individuais, mas tem um domínio próprio, que não é sinônimo do mero exercício da opinião. Devemos ficar muito atentos a este particular: a imprensa deve ser protegida de qualquer arroubo controlador do estado, mas ela também deve ser limitada por um imperativo ético: o compromisso obsessivo com a verdade e a objetividade.
Mais do que nunca, precisamos do que ouso chamar aqui de “informação com curadoria”, que envolve isenção, a verificação obrigatória dos fatos levantados e a sua colocação no devido contexto.  Isso permanecerá porque é também uma conquista e uma necessidade da nossa civilização. A imprensa não vai morrer. Ela está mudando para que possa se conservar como um bem essencial das sociedades democráticas.
Minha preocupação, nestes dias, não está ligada à sobrevivência da imprensa. O que tenho me perguntado, e também lhes pergunto, é por que, a despeito de nosso estrito trabalho de vigilância da coisa pública; de denúncia do malfeito e de elogio da boa governança; de defesa dos fundamentos do estado de direito e de crítica às ameaças de autoritarismo estatal; de zelo pelo dinheiro público e de explicitação dos desastres de gestão, o que me pergunto e lhes pergunto, em suma, é por que remanescem (e até florescem), nos governos e nos Poderes da República, práticas lesivas aos interesses coletivos, que, no conjunto, retardam o desenvolvimento e até ameaçam os pilares do estado de direito, que sustentam o edifício democrático.
Por que isso?  Por que demoramos tanto para acabar com a impunidade?  Por que não nos indignamos mais?  O que fazer para acelerar a implementação da boa gestão da coisa pública e o processo de institucionalização da nossa democracia?
Espero que os cinco painéis programados para este fórum e o elenco de ilustres debatedores de hoje contribuam para iluminar tanto essas questões quanto a uma série de outras tão importantes como a defesa dos direitos humanos, o correto papel do capitalismo de estado, a “accountability” jornalística e o modelo do país que queremos.
E isso, por sua vez, só pode contribuir para o fortalecimento do estado democrático, o aumento e aperfeiçoamento das nossas liberdades e melhoria da sociedade brasileira como um todo.
Bom trabalho, bom proveito e muito obrigado!

04 maio 2011

Justiça pode ser mais rápida se recorrente pagar muito mais custas

Ótima proposta do presidente do CNJ esbarra na má-vontade do governo em pagar o que deve

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Cezar Peluso, finalmente disse a que veio como presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), onde viria adotando, segundo críticas de advogados e membros do Ministério Público, postura mais complacente em relação a juízes faltosos, supostamente por corporativismo – Peluso é magistrado de carreira, diferentemente de seu antecessor no CNJ, ministro Gilmar Mendes.
O ministro propôs uma iniciativa simples e excelente para inibir o excesso de recursos a instâncias superiores do Judiciário, que entope os canais da Justiça e prejudica os interesses de milhões de brasileiros. Ela afeta o órgão humano mais sensível, como diz o velho ditado: o bolso. Peluso sugeriu aumentar fortemente o valor das custas processuais – ou seja, do dinheiro que as partes envolvidas em um processo precisam recolher aos cofres da Justiça a cada nova etapa de um processo – no caso dos recursos. O ministro, que participou de recente seminário em Portugal, trouxe de lá a informação de que essa providência, em relação às entidades e empresas que mais costumam lançar mão de recursos, deu certo. Poderia, assim, no Brasil, ser uma forma de conferir maior rapidez ao Judiciário.
Peluso deixou de abordar a possível agilidade que poderá ser propiciada a quem recorre à Justiça no Brasil pelos novos códigos de Processo Civil e de Processo Penal, em fase adiantada de tramitação no Congresso. Mas acha que o aumento de custas pode funcionar. “Aqueles acostumados a vir ao Judiciário vão pagar muito mais. Quanto mais recurso se usa, mais se paga”.
O problema todo está em quais são aqueles “acostumados a vir ao Judiciário”. O próprio CNJ divulgou, há dois meses, um levantamento sobre as 100 entidades que mais recorrem à Justiça. E ali apareceram, sem surpresas, órgãos públicos como os vilões da história.
O campeão nacional de recursos – até pelos milhões de brasileiros sobre os quais estende sua atuação – é o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), responsável por 22,3% dos processos em tramitação no país. Logo atrás vem a Caixa Econômica Federal (8,5%) e a Fazenda Nacional , que abrange a Receita Federal (7,4%). Tudo somado, temos 38% dos recursos provenientes do governo federal. Se acrescentarmos os governos e órgãos públicos estaduais (8%) e os municipais (5%), temos que 51% — mais da metade – de todo o oceano de processos que inunda a Justiça “neste país” tem o governo como parte.
“As administrações não ganham nada prorrogando causas que vão ser perdidas de qualquer maneira”, argumentou o ministro. Ele, porém, se enganou: as administrações ganham, sim, ao prorrogar causas perdidas. Ganham tempo. Na esmagadora maioria dos casos, são processos em que o governo perdeu a causa, deve pagar a alguém e prefere ir empurrando com a barriga na Justiça.
Agora me digam, caros amigos: será que o governo federal, que faz qualquer coisa para não pagar o que deve e deixar as contas para alguém quitar, no futuro, permitirá que essa proposta passe no Congresso?

Bem-vindo, Delúbio! (Por Ricardo Noblat)


Desculpem substituir o artigo de FHC do topo deste blog por um que fala do "nosso Delúbio do Lula", mas o Ricardo Noblat merece ser lido:
…Lula e Delúbio são mais ligados do que Lula e o ex-ministro José Dirceu, por exemplo. Quem escondia dos fotógrafos o cigarro fumado por Lula? Delúbio, o serviçal.
De duas, uma. Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, não deveria ter sido expulso do partido depois que estourou o escândalo do mensalão. Não foi o único culpado. De resto, como diz Lula convicto, o mensalão jamais existiu.
Ou então: Delúbio deveria ter sido expulso, sim. Sua volta ao PT só se justificaria se a Justiça o declarasse inocente.
Delúbio é um dos 38 mensaleiros denunciados pela Procuradoria-Geral da República por formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, corrupção e evasão de divisas. O Supremo Tribunal Federal (STF) acatou a denúncia que fala de uma “organização criminosa” empenhada em se apoderar de parte do aparelho do Estado.
Ocorre que Delúbio imagina ser candidato a vereador no próximo ano em Goiânia e a deputado federal em 2014. E para isso precisa filiar-se a um partido. Que partido de peso estaria disposto a abrigá-lo?
O PT. Foi nele, sob as bênçãos de Lula, que o simplório, mas esperto Delúbio, construiu sua trajetória política.
Lula e Delúbio são mais ligados do que Lula e o ex-ministro José Dirceu, por exemplo. Quem escondia dos fotógrafos o cigarro fumado por Lula? Delúbio, o serviçal. Mais de uma vez, Delúbio e Lula saíram juntos do Palácio do Planalto no mesmo carro. Uma vez, pelo menos, Delúbio foi hóspede de Lula na Granja do Torto.
O que disse a senadora Marta Suplicy (SP) sobre a volta de Delúbio ao PT, consumada na última sexta-feira, é mais ou menos o que pensa a maioria dos seus colegas de partido. Marta: “A volta de Delúbio é uma questão ainda muito mal compreendida pela sociedade, de difícil assimilação.”
De difícil assimilação, é. Mal compreendida, não.
Se Delúbio foi um dos cérebros do mensalão; se a Procuradoria-Geral da República classificou o mensalão de crime; se ele figura em processo na condição de réu; e se o próprio PT preferiu expulsá-lo, a sociedade entende com razão que Delúbio não deveria ter voltado ao partido. O processo do mensalão chegará ao fim no próximo ano.
Por que não esperar a decisão do Supremo? Porque para se candidatar qualquer pessoa é obrigada a estar filiada a um partido no mínimo um ano antes do dia da eleição. Ou Delúbio se filiaria até outubro deste ano ou daria adeus às chances de se eleger vereador em 2012. De todo modo, a sua não será uma eleição tão simples.
Delúbio foi condenado pelo Tribunal de Justiça de Goiás a devolver 164 mil reais desviados por meio de documentos falsos que o davam como professor ativo no ensino público. E teve seus direitos políticos suspensos por 8 anos. Sua candidatura deverá esbarrar na Lei da Ficha Limpa – salvo se instância superior da Justiça lhe for generosa.
O deputado Ricardo Berzoini (SP), ex-presidente do PT, valeu-se de um argumento falacioso em defesa da reintegração de Delúbio: “Até os banidos do regime militar voltaram”.
Comparar a situação dos banidos com a de Delúbio é uma agressão à inteligência. É também um deboche, um escárnio, um acinte.
Os banidos foram vítimas de uma ditadura que censurou a imprensa, cassou políticos, aposentou juízes, prendeu, torturou e matou desafetos. Enfraquecida, revogou o banimento.
Delúbio não foi vítima de nada e nem de ninguém – a não ser de sua própria conduta.
“Ele já pagou”, disse o deputado Cândido Vaccarezza, líder do governo.
Delúbio pagou pelo o quê? Pelo mensalão que o PT prefere chamar de Caixa 2?
Caixa 2 e mensalão são crimes. O PT puniu Delúbio só para dar uma satisfação à sociedade. Assim como fez com José Dirceu, demitido da Casa Civil da Presidência da República e depois cassado como deputado federal.
Uma vez que Lula sobreviveu ao escândalo, se reelegeu e elegeu Dilma, o PT concluiu que chegara a hora de premiar Delúbio, o militante que não entregou ninguém. Que pagou sozinho por um crime coletivo.
Seja bem-vindo, pois, companheiro! A casa é sua! Nada mudou desde que você foi obrigado a deixá-la.
Ricardo Noblat é jornalista. Foi editor-chefe do Correio Braziliense e da sucursal do Jornal do Brasil em Brasília. Há sete anos mantém o Blog do Noblat, hoje no portal do jornal O Globo