Em 2010, os juros abocanharam
45% do total do orçamento da União; a dívida pública, que alcança a gigantesca
soma de 2,2 trilhões de reais, é alimentada pela política de combate à inflação
baseada no aumento da taxa Selic, que beneficia os especuladores e prejudica o
país
Por José Carlos Ruy
Colaborou Verônica Bercht
Uma escandalosa transferência de recursos dos cofres públicos para os bolsos
dos especuladores financeiros está em curso no país. Ela é promovida pelos
gigantescos aumentos de juros ditados pelo mecanismo de combate à inflação,
imposto ao Brasil pelo FMI na crise de 1998/1999 e mantido em vigor até hoje.
A economista Maria Lúcia Fattorelli, coordenadora do portal Auditoria Cidadã
da Dívida e assessora da CPI da Dívida Pública da Câmara dos Deputados
(2009-2010) escreveu recentemente um artigo (Le Monde Diplomatique Brasil,
junho de 2011) onde explica, com base em dados do orçamento da União para 2010,
a extorsão que está na base da política macroeconômica ainda em vigor.
A inflação é controlada por dois mecanismos que, juntos, satisfazem os
interesses dos especuladores e estrangulam o desenvolvimento do país. Um deles
é regido pela Circular 2868/1999 do Banco Central, que estabelece o Regime de
Metas de Inflação, um mecanismo de controle de preços que obriga o governo a
aumentar os juros toda vez que a taxa de inflação corrente ultrapassar a taxa
de inflação prevista para o ano. Ela está baseada na teoria conservadora de que
a inflação existe quando o povo consome e que os juros são um freio para ela
pois, ao “desaquecer” a economia, freiam o crescimento econômico, baixando os
salários e, em consequência, diminuindo o dinheiro que o povo tem para gastar.
O outro mecanismo de combate à inflação está baseado no controle do volume
de moeda em circulação. Esse controle é feito pelo Banco Central através das
“chamadas ‘operações de mercado aberto´”, por meio das quais aquela instituição
entrega títulos da dívida pública às instituições financeiras em troca do
excesso de moeda nacional ou estrangeira informado pelos bancos.
Quando o volume de dinheiro em circulação é alto, a teoria econômica diz
haver ameaça de inflação, que o governo combate adotando medidas para “enxugar”
o mercado vendendo títulos da dívida pública para os donos desse dinheiro
excedente. Isto é, toma o dinheiro emprestado e paga juros por ele.
No caso brasileiro atual esse volume excedente de dinheiro é provocado pela
entrada de dólares no país, basicamente na forma de investimentos
especulativos. Como os dólares não podem circular no Brasil, só há duas portas
de entrada para a riqueza representada por eles. Uma é a entrada de mercadorias
e serviços importados que podem ser pagos com eles. A outra é sua aplicação em
títulos do governo – os dólares ficam com o Banco Central, que entrega um
título a seu proprietário e paga juros por ele. Estas trocas são chamadas, no
jargão financeiro, de “operações de mercado aberto”.
Atualmente, os conservadores, ligados às instituições financeiras e aos que
especulam com títulos da dívida pública, dizem que a inflação brasileira é de
“demanda”; isto é, teria mais gente querendo comprar do que a quantidade de
mercadorias disponível, e isso provocaria uma espécie de leilão que faz
aumentar o preço das mercadorias. Justificam o emprego da alta dos juros contra
a inflação pois, ao travar a produção e empobrecer o povo, ela diminui a
procura por mercadorias fazendo, esperam eles, a inflação cair.
Fattorelli contesta esta forma de pensar, afirmando que a atual inflação
brasileira tem outra causa: ela seria provocada pelo aumento dos preços dos
alimentos e pelos preços administrados (combustíveis, energia elétrica,
telefonia, transporte público, serviços bancários etc.), que independem da
relação entre oferta e procura dentro do país.
E também, poderia acrescentar, em consequência da enxurrada de dólares
despejados pelo governo dos EUA no mercado internacional para resolver seus
próprios problemas econômicos, com muitos efeitos perversos sobre o
comportamento dos preços. Ao serem aplicados especulativamente em países como o
Brasil, onde os juros são altos, uma dessas conseqüências negativas é obrigar o
governo a retirar do mercado o excesso de dólares sendo desta maneira um dos
fatores que alimentam o processo inflacionário.
“Para combater este tipo de inflação – denominada inflação de preços –”, diz
ela, “o remédio adequado é o efetivo controle de tais preços, o que poderia ser
feito pelo governo sem grandes dificuldades, já que estamos falando justamente
de preços administrados, que em tese devem ser geridos pelo poder público”. O
controle da Petrobrás sobre o preço dos combustíveis é um exemplo deste uso dos
preços administrados para manter a inflação sob controle.
Ocorre que, depois do vendaval de privatizações promovido sobretudo por
Fernando Henrique Cardoso na década de 1990, estes serviços estão privatizados
e as empresas monopolistas que os controlam querem lucros cada vez mais altos,
obtidos com o aumento das tarifas. E provocando assim, um choque inflacionário
direto.
Em 2009-2010 a Câmara dos Deputados realizou uma CPI para investigar a
Dívida Pública e ela apurou, diz a autora, que a forma usada pelo Banco Central
para fixar as taxas de juros está longe de ser científica e envolver cálculos,
por exemplo. Ela é feita – como o próprio Banco Central informou à CPI –
através de consultas a “analistas independentes”, não tão independentes como a
expressão sugere mas ligados principalmente aos bancos e instituições
financeiras. Ligados aos especuladores que se beneficiam com a alta dos juros.
“A CPI requereu ao Banco Central os nomes dos participantes dessas reuniões
e a resposta permitiu confirmar o que já se esperava: a imensa maioria deles
(95%) faz parte do setor financeiro, ou seja, são representantes dos bancos,
fundos de investimento ou consultores de mercado. São justamente os maiores
interessados nas elevadas taxas de juros, que lhes proporcionam elevados
lucros, configurando evidente conflito de interesses”, escreveu ela.
É com base nas informações interessadas destes agentes dos especuladores que
o Banco Central decide se é necessário tirar dinheiro de circulação e aumentar
a taxa de juros para combater a inflação. É a raposa tomando conta do
galinheiro: aqueles “analistas independentes” são aquilo que a mídia apelida de
“mercado”. Eles são representantes dos credores da dívida pública, ou seja,
daqueles que adquirem os títulos que o governo usa para retirar dinheiro da
circulação, títulos que se valorizam com o aumento dos juros e aumentam os
lucros daqueles especuladores. Segundo a Auditoria Cidadã da Dívida, em abril
de 2010 estavam divididos assim: os fundos de pensão eram donos de 16% da
dívida pública; os fundos de investimento, 21%; as empresas não financeiras,
8%; os bancos nacionais e estrangeiros 55%.
Aqueles mesmos “analistas independentes” ligados a estas instituições são os
que, na outra ponta, difundem pela mídia análises alarmistas sobre o desempenho
da economia brasileira, fomentando o medo que justifica uma política econômica
conservadora, baseada em altos juros e no enriquecimento cada vez maior
daqueles que se beneficiam com eles.
O gráfico e a tabela publicados neste artigo, elaborados a partir de dados
coletados pela Auditoria Cidadã da Dívida, são eloquentes. Em 2010, o orçamento
da União foi de 1,414 trilhões de reais e 45% dele referiam-se aos juros,
amortizações e refinanciamentos da dívida, chegando ao total de 635 bilhões de
reais. As demais despesas do governo ficavam espremidas na outra parcela do
orçamento: 9,2% para transferências a Estados e Municípios; 22,12% para a
Previdência Social e 23,71% do orçamento para todos os outros gastos do governo,
entre eles Saúde, Educação, Defesa Nacional etc. A capacidade de investimento
do governo para fomentar o crescimento da economia fica evidentemente
prejudicada, também, pela política de juros altos em vigor.
É uma armadilha financeira que, como uma dívida feita com um agiota, não
para de crescer e vai tornando-se cada vez mais impagável. O governo não
desembolsa todo ano o total dos juros devidos, mas paga apenas uma parte deles
(em 2010 foram cerca de 150 bilhões de reais), refinanciando o restante. Em
consequência, a parte não paga é capitalizada e engorda ainda mais a dívida
pública, cujo total em 2010 foi de 2,2 trilhões de reais (superando o próprio
orçamento da União) e fazendo crescer ainda mais a fatia do orçamento que
representa os juros devidos aos especuladores. Por exemplo, o aumento de 0,25%
na taxa Selic decidido na última quarta feira (dia 8) significa, numa tacada,
um aumento de 5,5 bilhões de reais que o Tesouro Nacional passa a entregar aos
especuladores da dívida pública, a título de juros. É uma despesa sem licitação
e que corresponde, por exemplo, à parcela destinada para Ciência e Tecnologia
no orçamento federal de 2010, ou a mais de quatro vezes o orçamento destinado à
Cultura no ano passado.
São dados que mostram mais uma vez, como se fosse necessário, que o grande
mal da economia brasileira, que impede o crescimento mais rápido do país e a
conquista do bem estar para nossa população, é a especulação desenfreada com a
dívida pública e a ciranda de juros cada vez mais altos que ela alimenta. Um
cálculo feito pela Auditoria Cidadã da Dívida revela que, com aqueles 635
bilhões sugados pela especulação, seria possível, por exemplo, construir 20
milhões de casas populares (a 30 mil reais cada), ou contratar por um ano, 2
milhões e meio de médicos ganhando 10 mil reais ao mês; ou aumentar o salário
mínimo dos atuais 545 reais para 2.660 reais.
Fattorelli indica alternativas para o controle da economia capazes de
corrigir estas distorções. “Alternativas para o efetivo combate à inflação
existem”, diz ela, “e são muito mais eficientes: redução da taxa de juros;
controle e redução dos preços administrados; reforma agrária para garantir a
produção de alimentos não sujeitos à variação internacional dos preços das
commodities; controle de capitais para evitar o ingresso de capitais abutres,
meramente especulativos, e fugas nocivas à economia real; adoção de medidas
tributárias apropriadas ao controle de preços. Para que essas medidas sejam
adotadas, é necessário enfrentar o endividamento público, câncer que adoece
nosso país e impede o curso da justiça”.
Há uma conclusão, neste debate, que interessa particularmente aos
trabalhadores, mas também aos demais setores produtivos: ao aplicar uma
política de juros elevados como a que está em vigor, o estado brasileiro
funciona como um autêntico repassador de enormes volumes de riquezas, que são
geradas no setor produtivo da economia, para as contas bancárias daqueles que
vivem da especulação e do movimento do dinheiro, e que estão no Brasil e no
exterior. É preciso reconhecer que esta espoliação não decorre de imposições
técnicas da economia; ela é política, e resulta do controle de parcelas
importantes do estado brasileiro pelos donos do dinheiro.
Mudar esta política depende da mudança da correlação de forças na sociedade
e da capacidade dos trabalhadores e demais setores produtivos imporem seus
interesses e objetivos, levando a uma queda no volume de juros e da dívida
pública. Esta queda significa a redução do controle da riqueza nacional pelos
especuladores, e este objetivo só pode ser alcançado com muita determinação e
muita luta, na qual os trabalhadores precisam ter um papel decisivo.