REPORTAGEM PUBLICADA NO ESTADÃO DESTE DOMINGO

CLÁUDIA TREVISAN

CLÁUDIA TREVISAN
A Coreia do Sul está mergulhada em pobreza e violações brutais de
direitos humanos, os moradores de Nova York têm de sair às ruas com
colete à prova de balas para se proteger da violência e a ideologia
juche criada por Kim Il-sung é estudada de maneira fervorosa ao redor do
planeta. O retrato do mundo e da Coreia do Norte apresentado nos
jornais, rádios e TVs oficiais do país é um exercício de permanente
glorificação da dinastia Kim.
Notícias internacionais são escassas e costumam dar destaque a
catástrofes naturais, como tufões e terremotos, e ao impacto negativo da
intervenção dos EUA em crises internacionais. O sistema apela
permanentemente para a demonização dos “imperialistas” americanos e seus
“fantoches” sul-coreanos e exalta o militarismo e a suposta
superioridade da peculiar versão local do socialismo.
As experiências de Iugoslávia, Iraque e Líbia são usadas para
demonstrar o que pode ocorrer com países desprovidos de armas poderosas e
servem para jutificar a defesa da construção de um arsenal nuclear pela
Coreia do Norte. A propaganda oficial sustenta que, sem ele, o país
poderá ser invadido e dominado pelos americanos. O risco de um conflito
armado é sempre apresentado como iminente, o que é usado para justificar
o investimento militar num dos mais pobres países do mundo.
Também é o álibi para explicar a ausência de acesso à informação fora
dos canais oficiais de propaganda, apresentada como uma maneira de
proteger a população da influência inimiga. Norte-coreanos não têm
internet, não usam e-mails e não têm ideia do que sejam Facebook e
Twitter.
Na primavera, os meios oficiais trazem textos quase diários sobre
exposições das flores em vários países. No universo em que habitam, a
kimilsungia é a flor mais sagrada do mundo e kimjongilia, a mais famosa –
homenagens aos dois primeiros ditadores. Segundo a máquina de
propaganda de Pyongyang, a kimjongilia floresce nos cinco continentes e
“atrai a admiração da humanidade com seu charme”.
Os representantes das três gerações de líderes da família Kim são
apresentados como estadistas respeitados. Na quarta-feira, a agência
oficial de notícias KCNA disse que “todo o mundo” enviou “calorosas
congratulações” a Kim Jong-un pelo aniversário de um ano da nomeação
como primeiro-secretário do Partido dos Trabalhadores e
primeiro-presidente da Comissão de Defesa Nacional “Mais de 12 mil
veículos de comunicação de todo o mundo competiram entre si para dar
ampla publicidade a suas incessantes inspeções do front e orientações
práticas nas mais diferentes áreas”, declarou o texto.
Na mitologia construída pela propaganda oficial, Kim Il-sung
(1912-1994), seu filho Kim Jong-il (1941-2011) e o neto Kim Jong-un, de
30 anos, são apresentados como líderes que guiam os norte-corea-nos em
tarefas tão distintas como a plantação de batatas e a fabricação de
foguetes.
O ponto alto da visita a qualquer instituição ou empresa é a relação
das orientações escritas recebidas de cada um dos Kim e o registro das
datas em que visitaram o local pessoalmente. Em todos os lugares há
quadros, mosaicos ou fotos e de Kim Il-sung e Kim Jong-il, que também
aparecem nos broches levados do lado esquerdo do peito.
A glorificação da Coreia do Norte e da dinastia Kim é acompanhada
pela apresentação sombria do mundo exterior, em especial dos EUA e da
Coreia do Sul. Sob o título O pior deserto de direitos humanos, os
veículos oficiais divulgaram em março relatório que apontou a situação
“medonha” em que vivem, os vizinhos do Sul. “Mais de 7 milhões de
famílias, que representam 45% do total, estão vivendo uma existência da
mão para a boca, sem moradia permanente, e inúmeras enfrentam uma vida
de privações em lugares que dificilmente podem ser chamados de lares”,
sustentou a propaganda norte-coreana.
Os dois lados da península foram separados em 1945 em uma zona de
influência socialista no Norte e outra capitalista no Sul. A Coreia do
Sul é um dos países mais avançados tecnologicamente e tem um PIB per
capital de US$ 31 mil, quando calculado de acordo com a Paridade do
Poder de Compra (PPP), que leva em conta os preços domésticos. A Coreia
do Norte não divulga estatísticas econômicas, mas a cifra é estimada em
US$ 1.800.
Kim Jong-il acreditava que a diluição ideológica havia sido a
principal razão para o fim da União Soviética e decidiu intensificar a
doutrinação para sustentar o regime. Mas o contato com o mundo exterior
começa a abrir brechas na propaganda monolítica, com a entrada
clandestina de DVDs sul-coreanos e chineses.