ATUALIZADO ÀS 14:29

Por BRANCA NUNES

Por BRANCA NUNES
Em vez dos cartazes de cartolina com dizeres manuscritos – NÃO SÃO SÓ
20 CENTAVOS, QUEREMOS HOSPITAIS PADRÃO FIFA, TOLERÂNCIA ZERO PARA A
CORRUPÇÃO e várias reivindicações bem humoradas –, banners, a grande
maioria vermelhos, com slogans como “O petróleo é nosso”, “Não à
terceirização”, e “Pela taxação das grandes fortunas”. Em vez das
bandeiras do Brasil e das caras pintadas de verde e amarelo, estandartes
da CUT, da Força Sindical, do Sindicato dos Comerciários, do PSOL, da
UNE, do PSTU, do MST e de dezenas de partidos e movimentos sociais. Em
vez de palavras de ordem cantadas em coro, berros individuais vindos do
carro de som.
Nesta quinta-feira, todas as bandeiras que haviam desaparecido – ou
sido expulsas – das ruas nas manifestações que tomaram conta do país
desde 6 de junho reapareceram na Avenida Paulista atendendo à convocação
das centrais sindicais engajadas no Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações.
Em compensação, a população apartidária sumiu – e o 11 de julho foi
marcado por mais do mesmo: os mesmos discursos inflamados contra o
capitalismo, a direita golpista, a Rede Globo e outros inimigos de
sempre.
Ao contrário do que se via nas manifestações anteriores a pretendida
greve geral desta quinta-feira teve mais bandeiras de centrais sindicais
e partidos do que manifestantes. Os discursos no carro de som não
provocavam nem aplausos nem vaias. E gritos de guerra como “eu, sou
brasileiro, com muito orgulho”, que os dirigentes tentaram puxar mais de
uma vez, morriam antes da segunda frase – nada a ver com os hinos
entoados durante os protestos do Movimento Passe Livre, que contagiavam
multidões.
O acordo intersindical que excluiu o “Fora Dilma” da pauta de
reivindicações parece ter dado certo. Ainda assim, as bandeiras do PT
eram as mais envergonhadas – e tanto Dilma quanto Lula não escaparam de
críticas no asfalto e no palanque. Enquanto Ana Luiza, que disputou a
prefeitura de São Paulo pelo PSTU clamava “contra a política econômica
do governo Dilma, contra Alckmin e contra Haddad”, um representante do
recém nascido Partido Pátria Livre (PPL) fez questão de “saudar o PT e
saudar o Lula” nos três minutos a que teve direito no serviço de som.
Algumas faixas chamavam José Eduardo Cardozo de Ministro da Injustiça e
exigiam o mesmo reajuste salarial concedido aos ministros.
Se o objetivo das centrais era pegar carona na revolta da rua, elas
podem considerar-se derrotadas. O contraste entre as duas manifestações
foi tão gritante que apenas escancarou o abismo entre o que quer a
população e o que lhes oferece quem está no poder (seja nos governos,
nos partidos ou nos sindicatos), entre uma forma nova de expressar-se e
outra completamente ultrapassada, entre o autêntico e o artificial.
Embora se apresentem como representantes do povo, povo era o que menos
se via entre as pouco mais de cinco mil pessoas que ocuparam duas
quadras da avenida mais emblemática de São Paulo.