MEU PAI 'VALDÉ' - UM ARIGÓ SOLDADO
DA BORRACHA
Meu pai 'Valdé' (assim chamado por minha mãe Alzira - modo carinhoso para Waldetário, seu verdadeiro (?) nome, isto quando ela esta 'de bem' com ele), tinha 18 ou 19 anos quando se alistou em Fortaleza como ‘soldado da borracha’, por volta de 1941. Após se alistar, Valdé ‘foi embarcado’ em um daqueles ‘itas do Norte’
(alusão à música de Dorival Caymi) e, sem passar por Manaus, foi mandado direto para
o ‘inferno verde’ (Euclides da Cunha) das bandas do 'Acre’.
Não
sei que vantagem haveria para um sujeito sair do sertão (onde Pernambuco se
encontra com o Ceará), entre Crato e Granito, onde o sol inclemente ferve os miolos do sertanejo, para embrenhar-se nos seringais “do Acre”. Valdé se alistou
no Exército para extrair o 'leite' de seringa e assim ajudar os aliados no esforço de guerra (II Guerra Mundial). Enquanto nosses heróis da FEB compabiam os alemães e italianos na europa, nossos soldados da borracha “combatiam”, além do sistema servil a que foram relegados nas selvas do Amazonas, os mesmos tinham de combater outros inimigos: ‘mosquitos da malária e febre amarela’; ‘cobras peçonhentas’; ‘tifo’, e outras mazelas.
Valdé me dizia ser de Granito – lugarzinho de pé de serra, vizinho do Crato cearense -,
onde ele nasceu aí por volta de 1923. Tudo na vida de Valdé era incerto. Nesse
‘pé-de-serra’ - dizia ele - para obter água tinha de “ia buscar por léguas e léguas de distância, em lombo de
jumento”.
O calor escaldante da selva era diferente do calor seco do sertão. Na servidão do aviamento, Valdé viveria um outro tipo de inferno. Fora outras questões como doenças, a bebida e a violência, ‘o calor amazônico cozinhava o cérebro’. Esse relato foi do próprio Valdé (Waldetário, assim chamado quando estava sóbrio; quando bêbado, Walter Dário. Vá saber...). Valdé morreu de câncer do estômago em fevereiro de 1977. Aos 55 anos. Um desperdício... Valdé era um homem de muitas prendas: ourives; relojoeiro; marceneiro e carpinteiro; pintor; e cachaceiro (de fazer e de beber cachaça).
Pelos relatos, a vida de ‘soldado da borracha’ não era diferente da vida dos antigos
‘seringueiros’. Estes, ao chegarem em um seringal, ou ‘colocação’ (na linguagem
deles), recebia um ‘kit’ composto por roupas próprias para o trabalho no
seringal (calça e camisas de mangas compridas, feitas de algodão cru); botas de
borracha; poronga de cabeça (lamparinas a querosene); caneca de coletar a
seiva; ferramenta para “sangrar” as árvores de seringueira, etc.
Ao receber esse 'kit', o soldado/seringueiro já chegava no seringal devendo. Esse 'kit' seria pago com
borracha coletada. Ou seja, com o fruto do trabalho de coleta.
Da
mesma maneira se dava a aquisição, pelos soldados/seringueiros, de ‘produtos da cidade’, levados pelos 'regatões' (barcos que trocavam açúcar; café; sal; cachaça; arroz; feijão; etc.,
por borracha, - o 'aviamento'). Era um verdadeiro escambo. O soldado/seringueiro sempre ficava devendo
ao 'aviador', pois os preços desses ‘produtos da cidade’ eram sempre mais caros
do que o preço da borracha produzida pelos seringueiros. Era uma relação de
servidão.
Naquela
época, a borracha ficou conhecida como ‘ouro negro’ (pelo seu grande valor e em
razão da cor das ‘pélas’ - bolas de borracha após a defumação do látex).
O látex é uma seiva leitosa retirada das árvores das seringueiras. As seringueiras nativas ficam espalhadas aleatoriamente na selva, à mercê do pipocar das sementes de seringas. A seringueira não admite concorrência de outras árvores de sua espécie.
A coleta da seiva era controlada por meio de “estradas”, traçadas idealmente pelos seringalistas no meio da selva, na tentativa de se evitarem disputas.
Entre
1880 e 1912, a borracha fez a fortuna dos ‘seringalistas’, os ‘imperadores do
Acre’ (no dizer de Márcio Souza in ' Galvez, o impredor do Acre'; ‘A expressão amazonense’; e 'Mad Maria').
O centro histórico de Manaus ainda hoje reflete o fausto daquela época com seu opulento teatro e suas casas em estilos inglês e francês por conta da riqueza gerada pela borracha. Ganhou imponentes construções, casarões em estilos europeus. Ingleses, franceses, etc. O Teatro Amazonas é a mais vistosa dessas construções. Foi construído a fim de proporcionar a execução de peças de óperas, de recitais de músicas clássicas orquestradas, em grandes eventos culturais somente encontrados em grandes teatros de Viena, de Paris... Em contraponto, havia o ‘cabaré chinelo’ (recentemente restaurado), que fazia a delícia dos ‘coronéis’, com putas francesas de fino trato e grandes “cachês”. Lembram a música ‘The lady is a trump’, na voz de Frank Sinatra. As damas eram umas vagabundas. Chiques. Cheirosas. Falando francês e inglês.
Voltando aos seringais, onde os infelizes
seringueiros comiam o ‘pão que o Diabo amassou’, a vida corria lenta, ao sabor
dos rios e igarapés, da umidade de quase 100%, que garante um calor que torna
esse lugar em um verdadeiro ‘estágio para o inferno’. Mas há um contraste: as noites podem ser extramente frias.
Os
soldados-seringueiros passavam seus dias cortando as cascas dos caules das
árvores de seringueiras - cortes feitos em formato de “y”, feitos com
ferramentas próprias para isso -, recolhendo-lhes o ‘leite’ ao final de cada dia. Como
já dito, esse “leite” era a seiva da árvore (branca como leite), que escorria de
cima a baixo e eram recolhidos em ‘canecas’ que eram incrustradas na árvore, no
final do corte em “y”.
A borracha era chamada de “ouro negro”, como já explicado, e essa cor era adquirida em razão da maneira pela a qual os seringueiros defumavam esse ‘leite’ e faziam com ele uma espécie de “bola de futebol americano” em uma vara que girava como se fosse um churrasco, sob a fumaça, enquanto se derramava o leite sobre a “bola”, fazendo-a ficar cada vez maior, camada após camada.
Em 1912, a economia do látex chegou ao seu pico de produção e preço. Manaus, de Parias dos Trópicos passou a 'porto-de-lenha' (em alusão aos catanarães a vapor que cruzavam os rios do Amazonas).
Esse ano também coincidiu com o início da produção de borracha na Malásia (possessão inglesa onde as sementes e mudas de seringueiras da Amazônia foram furtadas, aclimatadas e plantadas racionalmente em 'estradas' retas, o que facilitava a coleta e tornava seus custos de produção e de extração extremamente baixos. Deflação de custos. Um verdeiro paradoxo. Maior produção e maior preço para, em seguida, estagnação da produção e menor preço internacional.
Portanto, nós amazônidas, fomos na verdade “furtados” pelos ingleses. A Amazônia até hoje é objeto da ambição estrangeira pelos seus recursos naturais: minérios; biodiversidade, etc. E fruto de ambição e contrabando de nossas riquezas minerais e biológicas e farmacológicas.
O
‘seringal’ da Zona Franca de Manaus (ZFM) também está se acabando.
“Mas
essa terra ainda vai cumprir seu ideal: ainda vai tornar-se um império
colonial”. (Chico Buarque, parodiando Fernando Pessoa).
De
1.912 em diante, Manaus e a Amazônia viveram sua bancarrota. Viraram ‘porto
de lenha’ da música de Torrinho (como já dito, em alusão aos barcos a vapor que na época
faziam o transporte de passageiros na região. Os famosos catamarãs. Os ‘itas do
Norte’, da música de Caymi).
Voltando
aos seringais, onde Valdé servia à 'pátria-mãe-gentil', este, não aguentando o sistema servil que ali
imperava e sem atinar que estava ali também como ‘soldado’ e não como mero
seringueiro, evadiu-se, desertou, escafedeu-se, e fugiu rio abaixo, e foi parar nas bandas do
Careiro da Várzea.
No Careiro da Várzea, o delegado Setembrino Diniz emitiu um RG para o Valdé. Gostava dele pelas cantorias e por limpar ao redor da delegacia como pena após a brigas de cachaça.
Valdé se considerava um 'artista', com sua viola de doze cordas, repentista que era, passou a fazer ‘cantorias’ pelas fazendas e sítios naquela ilha de várzea e arredores: Careiro; Manaquiri; Autazes; Lago do Janauacá; Curari, etc.
O Careiro da Várzea invariavelmente alaga, ano após ano, pelas eras sem fim. Ali Valdé conheceu e conquistou Alzira (minha mãe e de mais dois irmãos, Renato e Jânia), filha de Guilherme, um cearense do sertão do
Crato, vizinho de Granito, terra de Valdé, da família dos ‘Pinheiros’. Judeus Sefarditas.
Reza
a lenda que eram judeus que mudaram seus nomes como ‘stein’, ‘cohen’, ‘ben’, p.e.,
para nomes de árvores, tais como: ‘Pinheiro’; ‘Pereira’; ‘Mangueira’;
‘Mangabeira’, etc. Outros, mudaram seus nomes para nomes de animais, tais como:
‘Bezerra’; ‘Carneiro’; ‘Leão’; ‘Leitão’, etc. Outros ainda, para nomes de
insetos como: ‘Barata’; ‘Puga’; ‘Aranha’, etc.
Guilherme
e Maria, portanto, eram meus avós maternos. Maria era índia da etnia dos Muras:
índios autóctones da região do Careiro, Autazes, Manacapuru, Manaquiri. Maria
era índia dos cabelos lisos e caídos, “negros como a noite que não tem luar”
(da música de Cascatinha e Inhãna). Imagino que olhar para a minha avó Maria
era o mesmo que olhar para minha mãe; para minha tia Alice; e para as minhas
filhas Bruna; Alice; e Clara. Santo DNA!
Valdé,
agora casado e pai de dois filhos, Raimundo e Renato, partiu para ‘ganhar a
vida’. Alguns dizem que ele ‘caiu na vida’. Como já dito, além de ‘cantador’, também era
‘ourives’; ‘relojoeiro’; ‘agricultor’; ‘carpinteiro’; ‘pintor’; ou seja, um
‘homem de sete instrumentos’. Após a morte de meus avós, Valdé sumia na várzea
e nos abandonava, eu, meu irmão Renato e minha mãe Alzira. Depois se somou nessa desdita nossa irmã Jânia.
Quando Valdé parava em casa, no sítio herdado pela minha mãe Alzira, podíamos ver nele um profícuo agricultor. Ao contrário dos caboclos da região, Valdé limpava o beiradão do sítio enquanto a água ia subindo. Na vazante, a terra já estava pronta para o plantio, ganhando tempo. Eu fazia isso junto com ele. Com uma vara pontiaguda, eu socava o solo e punha as sementes que levava em uma sacola: tomate; pepino; abóbora; maxixe; quiabo; milho; etc. Produtos de ciclo curto. Em três meses havia colheita.
O
sítio era uma nesga de terras de 150 m de frente (pelo Paraná do Careiro) e
cerca de 1000m, ou mais, de fundos (pelo Lago dos Reis). Ao o rio iniciar sua
vazante, o solo estava próprio para plantar. E Valdé plantava de tudo o que se
podia em termos de produtos de ciclo curto: batatas; abóboras; pimentões;
milho; tomates, etc. Descrevo isso a partir de minha própria experiência e
memória de menino de seus cinco anos.
Contudo,
o prazer da colheita logo dava lugar à frustração em razão do preço obtido pela
venda desses produtos, como resultado do abandono dos produtores pelo Poder
público, que deixava os mesmos ao sabor da sanha dos atravessadores, os quais
pagavam um valor miserável ao produtor.
Desanimado
com essa situação, Valdé desistia de ser agricultor e voltava às suas
atividades “artísticas” de 'cantador', as quais lhe davam mais dinheiro e mais prazer. Cantava os cordéis de Cego Aderaldo; João Grilo; 'Deus e o diabo na terra do sol'...
Minha mãe Alzira, eu e meu irmão Renato ficávamos vivendo daquilo que ainda sobrava das colheitas; das frutas e verduras; das galinhas e seus ovos; de peixes pescados por amigos; de leite, coalhada e queijos feitos pelos fazendeiros amigos. Que também doavam as vísceras e alguma carne para minha mãe a cada quinze dias. Havia fartura. Não passávamos fome no ‘Careiro da Várzea’. Acho que Valdé se fiava nisso.
Meus
avós morreram e foram enterrados em frente do sítio, onde ficava o cemitério do Careiro da Várzea. Minha mãe morria de medo de cemitério. Eu não entendia por quê. Isso fez com que ela acabasse aceitando a
ideia de Valdé, que era de vender o sítio e irmos nos aventurar em Manaus.
Contra a vontade de meus tios Waldemar; Alice; Edgar; Antônio. Não sabíamos da
desgraça que seria essa nefasta decisão de vender o sítio e ir morar em Manaus!
Estou escrevendo essa história em cordel.