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28 agosto 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. II >


< Capítulo II >

A ILUSÃO DA CIDADE GRANDE

Alzira herdara de seus pais, Guilherme e Maria, meus avós, o sítio do Careiro da Várzea, próximo à ‘Vila Velha’ do Careiro da Várzea. Era uma casa de madeira construída no estilo ‘duas águas’, coberta de zinco. Lembro do enorme barulho da chuva ao bater sobre o telhado de zinco. Havia muitas árvores ao redor da casa. Pripalmente cacaueiros e seringueiras. À frente da casa, ficava o Paraná do Careiro. O porto era feito com dois troncos presos por tábuas e amarrados com cordas à margem., como são quase todos os portos de quem não pode construir um banheiro flutuante. De qualquer maneira, esses portos sobem e descem no barranco ao sabor do fluxo das águas, nas vazantes (que oos caboclos chamam de 'sêcas') e nas enchentes.

Nas constantes ausências de nosso pai Valdé, nossa mãe Alzira tinha muito medo de dormir na nossa própria casa e, por isso, toda noite se dirigia conosco para a casa da vizinha, D. Antônia, filha dofazendeiro conhecido como ‘Severino das Canas’. A casa de d. Antônia ficava ao lado da nossa, separadas apenas pelos cacaueiros e pelas seringueiras.

Como já dito, d. Alzira tinha muito medo dos mortos enterrados no cemitério que ficava quase em frente da nossa casa. Inclusive, seus pais e nossos avós estão enterrados ali. Por isso d. Alzira se deixou iludir por Valdé – nessa época já era reconhecidamente um alcoólatra – com o sonho (ou pesadelo?) de morar na cidade grande, na capital, perto de sua irmã Alice, que desde sempre a protegeu por ser única irmã do segundo casamento de meu avô Guilherme. A tia Alice protegia nossa mãe e a nós também.

Embora Manaus tivesse nessa época em torno de pouco menos de 300 mil habitantes, para nós era uma “cidade muito grande”, comparando com a meia dúzia de “ruas” existentes na Vila Velha do Careiro. Ao contrário das casas do Careiro da Várzea, as casas de Manaus ficavam na ‘Terra firme’. Ou seja, não alagavam. Isso para nós soava como algo muito bom. Mas não sabíamos que tudo em Manaus tinha ser comprado.

Era o ano de 1962. Já éramos cinco membros na família: pai (?) e mãe; dois irmãos homens (Raimundo Nonato e Francisco Renato) e uma menina de dois anos. Jânia Maria nasceu no ano eleitoral de 1960. Ganhou esse nome 'Jânia' em homenagem ao “homem da vassourinha”, Jânio Quadros, que acabou se tornando o primeiro alcoólatra presidente da República. Este, depois de uma cachaçada, renunciou à presidência da República numa jogada errada de marketing eleitoral (achava que o povo que o elegeu não deixaria que renunciasse). Seu vice comunista, João Goulart, levou o país para o caos e para os braços dos milicos, em 1964. Portanto, chegamos a Manaus na copa de 1962, quando o Brasil saiu-se vencedor, tornando-se bi-campeão mundial de futebol, no Chile. Só se falava em Pelé e Garrincha.

Não sei por qual valor o nosso sítio do Careiro da Várzea foi vendido. Meus tios diziam para minha mãe:

- “Não venda, mas se vender vai ter de dividir o valor entre todos os irmãos”. Imagina!

Contudo, o “medo dos mortos” de minha mãe, e a vontade de Valdé de “meter a mão na bufunfa”, falaram mais alto. Venderam o sítio para o “Severino das Canas” (um dos maiores fazendeiros do Careiro da Várzea e pai de nossa vizinha, D. Antônia) e dividiram a “fortuna”.

Eu era colega de infância dos netos do SS (Severino Souza, o das canas), que eram nossos vizinhos, filhs de d. Antônia. O SS agregou o “nosso” sítio ao seu, que naquela época já era um vasto campo de gado. Um dos poucos que tinha 'maromba' (um galpão elevado de terras, coberto com zinco, ou palha), para abrigar o gado de leite nas alagações.

Meus tios, Waldemar e Alice, fizeram com que a parte da herança de minha mãe Alzira fosse empregada na compra de uma casa de madeira próxima da casa da tia Alice. E do próprio Waldemar, que movava de aluguel na mesma Vila da Rua Ramos Ferreira, esquina com a Rua Jônathas Pedroza. Era uma casa de dois pisos, localizada no “buraco da Marreca” (continuidade da Rua Jônatas Pedrosa), depressão entre as ruas de Ramos Ferreira e Ipixuna. Hoje urbanizada pelo Projeto PROSAMIN.

Na verdade, nossa “nova” casa ficava ao lado de uma grande vala por onde corriam águas servidas, esgotos e águas das chuvas, que deixavam o lugar fétido e com aspecto de cratera, extremamente insalubre e propador de verminoses, foram outras doenças. Hoje faz parte do complexo ambiental do “PROSAMIM”. Mas que continua sem tratamento dos efluentes e esgotos.

Digno de nota foi a minha irmã Jânia ter crises de vermes em razão das condiçoes do local. Não gosto nem de lembrar. Muito em razão da ignorância de como evitar e tratar as verminoses e outras doenças típicas de quem mora nesses lugares insalubres. Triste realidade do paísainda até hoje. Manaus não tem esgotos tratados até hoje.

Nessa época (anos sessenta), se cozinhavam com fogão a lenha ou carvão. Quem podia, cozinhava em fogão a gás, mas isso era um luxo para poucos. Foi para nós um misto de alegria e desconfiança quando Valdé comprou um fogão a querosene, da marca “Jacaré”. Comida com gosto de querosene é bem pior que com gosto de lenha ou carvão.

Por falar em Valdé, este, assim como fazia no Careiro da Várzea, nos abandonava também em Manaus para continuar com suas aventuras artísticas no Careiro da Várzea, no Cambixe (corruptela de Cambridge, falado pelos gringos que passavam pelo local) e arredores, longe dos olhares de reprovação de minha mãe e dos meus tios, em razão de suas bebedeiras.

Quando Valdé estava em Manaus, vivia bêbado, sujo e fedorento, alcoólatra que era.

A fim de comermos, tínhamos de comprar ‘fiado’, cujos valores eram anotados num caderninho, que Valdé um dia pagaria., quando voltasse de suas 'viagens'. Realmente pagava. E a vergonha tinha prosseguimento. Minha vergonha. Dele não. Quantas vezes tive de ouvir do taberneiro: - Chega! Não posso mais vender fiado! Mas a fome tem cara de herege. Insistia até ser atendido.

Quando sobrava algum dinheiro no bolso de Valdé, após a pinga, nos raros momentos em que este reaparecia em Manaus, ele pagava e começava tudo de novo.

Tão diferente do Careiro da Várzea, onde bastava estender a mão e apanhar as frutas das árvores, que produziam em profusão. Goiabas, mangas, graviolas, cupu-açú, etc. Tínhamos leite e seus derivados; carnes; peixes; frangos; ovos, etc. Além de caças.

Em Manaus, minha tia Alice ‘segurava as pontas’, nos oferecendo sopa todos os dias. Com pão, era nosso principal alimento.

Nossa vizinha no ‘Buraco da Marreca’ era cozinheira do ricaço do petróleo, Isaac B. Sabbá, que morava na Praça do Congresso. Essa praça ficou assim conhecida após a visita do Papa, João Paulo II, em um 'Congresso' católico.

Na enorme mansão de D. Irene Sabbá (sede do Ideal Club), eu e Arnaldo, o filho da vizinha no buraco da Marreca, apanhávamos as mangas que caiam no quintal da grande casa, e íamos vender as mangas na Avenida Eduardo Ribeiro. Dona Irene Sabbá contabilizava tudo, como boa judia que era e, ao final das vendas, ficava com a sua parte e nos dava a nossa. Isso foi para mim um grande ensinamento de como ‘se deve dar valor às coisas’, que as coisas se conquistam com esforço, e que “ninguém dá nada a ninguém”. Nada vem “de graça” nesta vida.

Arnaldo, o filho da vizinha do buraco da Marreca não era assim muito honesto, não. Gostava de “colher” bananas, uma a uma, dos cachos à venda na feira do mercado municipal Adolfo Lisboa. Para essa “colheita”, usava uma lâmina da marca Gillete. Assim ficava fácil. Ninguém percebia. Com essas bananas “pacovão”, sua mãe fazia mingaus para as famílias, a dela e a nossa. A vizinha também costumava trazer, da casa da patroa, D. Irene Sabbá, “canjas” feitas com muito arroz, gorduras e ossos. Era uma delícia para quem precisava se alimentar, “forrar o estômago”.

Não se podiam reclamar do método utilizado pelo filho da vizinha, mas isso me incomodava moralmente uma vez que eu assistia às missas e tinha aulas de catecismo na Paróquia de São José Operário. Meus escrúpulos de menino católico já estavam bastante aguçados em minha mente. Afinal, o oratório Domingos Sávio (na paóquia São José Operário), ali ao lado, era por nós frequentado todos os domingos, onde assistíamos às missas e recebíamos aulas de catecismo.

No oratório Domingos Sávio, jogávamos futebol de salão e outras brincadeiras, e onde havia uma sala de leituras aos domingos. Naquela sala tinha uma grande bíblia católica ilustrada. Foi meu primeiro contato com o “livro preto”. A Palavra de Deus!

 Aprendi a ler aos cinco/seis anos na escola chamada “dos gazeteiros”, com a professora Fany, que ficava na Rua Major Gabriel com Rua Ramos Ferreira.

Lembro que, por conta desse aprendizado rápido, fui escolhido para prestar exame oral frente aos fiscais do MEC (ou da Secretaria de Educação). Não é de hoje que as escolas se aproveitam de seus bons alunos para demonstrar o nível do ensino que praticam! Na época não entendi bem porque fora escolhido para prestar essa prova oral. Na verdade, lembro vagamente do método utilizado: juntar as sílabas, formando os sons das palavras, os fonemas. Minha memória herdada de Valdé já se fazia presente. Aprendi a ler de maneira tão “natural” que não lembro de como foi que aprendi. É como se já tivesse nascido sabendo ler.

Contudo, isso era o máximo de alfabetização que havia adquirido até os meus doze anos, o que para mim já era o bastante, pois assim podia ler os gibis do Oratório Domingos Sávio. Não só, mas também outros livros. Como já dito, até a Bíblia.

A casa onde morávamos no ‘Buraco da Marreca’ foi perdendo as condições de moradia, pois as palhas da cobertura se deterioraram e chovia ‘mais dentro do que fora’. As paredes da parte inferior foram sendo “canibalizadas” para consertar as paredes da parte superior. A casa já parecia uma garça de uma perna só.

Porém, Valdé deu um jeito na situação: vendeu a casa com a gente dentro. Vendeu em duas parcelas. Creio que numa espécie de separação de bens sem divórcio que fez com minha mãe, sem ela saber, claro. Vendeu a “casa” para a família de um conhecido do Careiro da Várzea. Não lembro o nome.

A parte da venda da casa que Valdé considerou como ‘sendo dele’, ele a “bebeu” toda de cachaça com os amigos e as quengas. A outra parte, que supostamente pertencia à minha mãe, nós a “comemos” parceladamente. Não lembro se em seis ou doze parcelas. Ficamos sabendo da venda pelo próprio comprador, que se meteu na casa com sua família, dizendo que tinha comprado a casa.

Passamos a morar juntos, nós e a família que comprou a casa de Valdé. Pelo menos a nova família ‘socialista’ mandou cobrir a casa com palhas novas. Portanto, já não chovia dentro. Ao final de certo tempo, fomos “convidados” a sair da casa, pois já havíamos “comido” toda a nossa parte do pagamento da casa.

Valdé, contudo, 'boa alma' que era, conseguiu emprestar um quarto em uma casa, também ‘socializada’, para nós morarmos, com outra família, lá pelas matas do Japiim, onde Manaus terminava, e que hoje é o bairro do Japiim.

Valdé, acho eu, era “socialista”. O que vocês acham?

Minha mãe, contudo, lembrou-se que tinha um conhecido fazendeiro do Careiro da Várzea, que era irmão de meu padrinho Oscar Leite. Chamava-se Adalto Leite. Alzira foi lá em sua bela casa na rua de Ramos Ferreira, próxima ao Clube Sociedade Portuguesa, e pediu ‘com fé’ para que o Sr. Adalto deixasse irmos morar como caseiros em sua fazenda, localizada no Paraná do Cambixe. O Sr. Adalto soube das peripécias de Valdé, que era seu conhecido das cantorias e sabe-se lá mais o quê. Quem não conhecia Valdé? Se autodenominava o ‘Estrela do Norte’, seu nome artístico...

Assim, após quatro anos de ilusão na cidade grande, retornamos de onde nunca devíamos ter saído: o Careiro da Várzea. O Cambixe. Um paraná que tem início no paraná do Careiro, próximo à Vila Velha, Sede do hoje município do Careiro da Várzea, e termina no mesmo paraná do Careiro, a 150 km rio abaixo.

Era 1964, eu estava com dez anos. Essa época no Brasil era o final da Bossa Nova e início da Jovem Guarda. Portanto, no melhor dos “anos dourados”, eu estava novamente me embrenhando na várzea. Sem rádio. Ouvia apenas o canto dos bichos, nas matas, nos rios e lagos. ‘Raízes Caboclas’, me socorram!

No Cambixe, nossa rotina, minha e de meu irmão Renato, era tocar gado para o curral; tirar leite na madrugada; fazer coalhada e queijo; nadar e pescar nos rios e lagos; correr de cavalo como cowboy. Era uma vida maravilhosa, lúdica, extremamente prazerosa, farta. Como já dito, havia muita fruta, peixes, carnes, ovos, galinhas. Passei dois anos e meio dessa forma lúdica. Até tentei estudar na ‘Escola Coronel Fiúza’, na ‘Vila Velha” do Careiro da Várzea, mas o ensino não me agradava e preferia correr de cavalo e fazer outras peripécias. Por exemplo, pegar o barco José Mitonho e ir procurar o Valdé no “baixo do Cambixe”, na fazenda de meu padrinho Oscar Leite e de minha madrinha Ana Leite. Sempre fui recebido por eles com muita alegria e satisfação. Essa coisa de “padrinho” e “madrinha” funcionava bem nessa época.

Na seca, essa parte do Cambixe onde ficava a fazenda de meu padrinho Oscar Leite (baixo Cambixe) era tomada por uma tapagem de vegetação típica da várzea, que mal permitia se locomoverem por canoa. Meu padrinho Oscar Leite, todos os dias nos quais eu ficva na sua fazenda, me levava com ele visitar sua irmão, a Preta do Leite, que ra casada com o Sr. Beca Canafé. Há muitas histórias e lendas sobre a ‘Preta do Leite’. Porque ela falava muito. Aliás, essa é uma característica do interiorano, onde as notícias e ideias se transmitiam oralmente.

Na fazenda do Sr. Beca Queiroz, ficava uma fábrica de queijo, onde se faziam queijos 'coalho' e queijos 'manteiga' (o meu preferido!) EU aproveitava para coletar os restos de queijo que sobravam no tacho onde se cozinhavam a coalhada até virar queijo. Eram as chamadas 'raspas', que rendiam mais de um quilo de queijo. Aprendi em Manaus que não se devem desperdiçar nada.

O Valdé sempre aparecia por lá pelo baixo Cambixe. Algumas vezes, por sorte, o encontrava. Como sempre, bêbado. Ele tinha orgulho de mim e eu vergonha dele.

Uma das garatas lembranças que guardo desses momentos que passava na fazenda do padrinho Oscar Leite foi a minha façanha de ter domado um potro branco, que nominei de 'Trancelim' (em alusão a um tipo de cordão de ouro extremamente fino). Comecei acariciando-lhes as crinas quando o mesmo se encostava à cerca. Depois fui aos poucos montando nele próximo à cerca. Até que finalmente ele permitiu que eu omontasse livremente, aceitou os arreios e galopava com o vento na cara. Me achei um verdadeiro cowboy.

Porém, ao fim de um certo tempo, eu voltava para o alto Cambixe, onde éramos caseiros do Sr. Adalto Leite.

 Morei com minha mãe e meus irmãos no Cambixe até que a saudade de Manaus, e das coisas que existiam lá, com as quais havia me acostumado, “falaram mais alto”. Tinha saudade de coisas como o cinema das segundas-feiras à noite no Oratório Domingos Sávio; tinha saudades dos gibis; das músicas no rádio... Televisão somente chegou em Manaus por volta de 1969-70. Em preto e branco.

Foi assim que decidi, por conta própria, que “iria morar com minha tia Alice”, em Manaus. “Para estudar” - dizia eu para minha mãe e para minha tia Alice. Minha mãe dizia: - “Teu pai vai de matar! ”. Dizia eu, com muita certeza: - “Mata nada! ”. E assim é que, em dezembro de 1966, eu peguei “minhas trouxas”, literalmente, e algumas frutas para levar como ‘agrado’ para minha tia, e fui morar com ela. Com ela e mais uma dezena de outras pessoas, primos e primas. Afinal, tinha aprendido o que era “socialismo” com o Valdé...

Minha mala, era um saco; o cadeado, era um nó. Como na música de Gonzagão.


 (*) Prof. Pinheiro é técnico em estradas; administrador; advogado; mestre em administração, e especialista em docência superior