< Capítulo III
>
UM MATUTO SEMIANALFABETO DE VOLTA À CIDADE GRANDE
Ao
eu chegar novamente em Manaus, naquele dezembro de 1.966, aos doze anos e meio, matuto e
semianalfabeto (sabia ler somente), era como se os taxistas já estivessem “me aguardando” no porto
da ‘Escadaria dos Remédios’. Desci do barco ‘José Mitonho’, agarrado em meu
saco com frutas, e levei-o até ao primeiro taxi e perguntei ao taxista:
-
“Por quanto você me leva neste endereço? ”. E lhe apresentei o papel rabiscado
pela minha mãe onde se podia ler (isso eu sabia): “Rua Visconde de Porto
Alegre, 1.010”.
O
taxista me perguntou:
- “Quanto você tem aí? ”. Mostrei-lhe então todo o dinheiro que minha mãe havia colocado no meu bolso da camisa. Ele então me falou: - “É isso mesmo, vamos embora! ”.
Nem desconfiei que pudesse estar sendo enganado por ele. Na verdade, nunca soube quanto dinheiro tinha no meu bolso. No interior não se utilizavam dinheiro, mas se faziam trocas, produto por produto, praticando um verdadeiro escambo. Na maioria das vezes uma troca injusta, desproporcional. Daí a importância da moeda na história da humanidade. Como reserva de valor e facilitadora das trocas. Toda moeda deve ser confiável por todos. Por essa razão foi, por muitos séculos, geralmenteera cunhada em prata ou ouro, ou em ambos os metais preciosos. E seu peso e quantidade era representativa do produto. Depois, a moeda passou a ser escritural, isot é, impressa em papel especial, mas cujo valor ainda era representado pela quantidade de prata e ouro guardado no Banco Central. Era o famoso lastro-ouro. Isso também não foi mais utilizado desde o fim da I Guerra Mundial, quando a moeda passou a ser meramente escritural e cuja fé é estipulada pelo governo, pelo Produto Interno Bruto (PIB) e pela confiança que o cidadão deposita em seu governo, que promete não emitir moeda sem lastro no PIB (teoria quantitativa da moeda).
Durante a viagem no taxi, ia reconhecendo os lugares por onde já havia antes transitado, num misto de alegria e surpresa por me encontrar novamente em Manaus, a cidade grande. Agora, por minha própria conta e risco. Portanto, a partir deste momento tomei as rédeas de minha vida em minhas próprias mãos. Minha tia Alice me recebeu com um misto de alegria e de preocupação. Perguntou-me sobre “o que eu estava fazendo ali sozinho”. Respondi-lhe que “tinha ido morar com ela para poder estudar”. Ela então baixou o ‘decreto’: - “Então você VAI ESTUDAR! ”, como que desconfiando de meus propósitos. E disse mais:
-
“Você vai ajudar (na verdade fazer tudo sozinho) nos afazeres aqui de casa”. Depois entendi que ela disse isso para me 'blindar' contra as opiniões contrárias dos meus
inúmeros “primos” e outros agregados.
Meus
primos já eram muitos. Mais de dez. Todos filhos do meu primo mais velho de
primeiro grau, José Brito, o ‘Zeca Brito’. Todo ano ‘Zeca Brito’ fazia um primo
novo na Rute, sua mulher magra e de aspecto fraco. Somente na aparência, pois a mesma ainda está viva e forte até hoje. Fora os primos que ela abortava
espontaneamente.
Dessa
forma, para mim, ‘comer’ se tornou um exercício de extrema complexidade. E competitividade.
Como
cheguei praticamente no Natal, meu primo ‘Zeca Brito’ me “aprontou logo uma”,
fazendo troça deste matuto, que não sabia comer ‘uvas passas’ e nem ‘ameixas
secas’, ou em ‘caldas’. Me perguntou: - “você conhece isso? ”, como na música do
Zeca Pagodinho sobre conhecer ‘caviar’. Respondi:
- “Não sei, nunca vi, eu só ouço falar”. Na verdade, eu não conhecia muita coisa da cidade grande. Principalmente sobre as novidades da Zona Franca de Manaus (ZFM) e sua quinquilharias. Nessa época, vivíamos a fase de importação da ZFM.
‘Zeca Brito’, então, me “ensinou” a comer: pegou minhas tvas passas e minhas ameixas em calda e as comeu todinhas. Fiz cara de choro. e minha tia Alice brigou com ele e me deu novamente aquelas iguarias típicas de Natal para eu comer. Que delícias! Foi assim que aprendi rapidinho a comer ‘uvas passas’ e ‘ameixas’ secas e em caldas. Eram deliciosas, apesar do aspecto feio.
A professora Terezinha, amiga de minha prima Maria Emília, fez comigo umas ‘provas’ para verificar em qual série do ensino primário eu me enquadraria. Terezinha era professora da ‘Escola Industrial Salesiana’ (EIS) ‘Domingos Sávio’, que funcionava na paróquia de ‘São José’, que ficava na mesma quadra onde morávamos, na Praça 14, esquina das Ruas Visconde Porto Alegre e Ramos Ferreira. Bem próximo de onde eu havia nascido. Não foi necessário muito tempo para ela verificar que eu era o próprio “Sócrates”, ou seja: eu ‘nada sabia’! Em termos de escrita e aritimética.
Meus
primos de segundo grau (filhos do ‘Zeca Brito’), ‘Heriberto James’ e ‘Lady
Elaine’ (todos os meus primos tinham nomes artísticos em homenagens aos
artistas dos filmes de Holywood, os quais estrelavam os filmes que se passavam
nos cinemas do Centro de Manaus: ‘Polyteama’; ‘Guarany’; ‘Avenida’; ‘Odeon’, com exceção dos cines 'Popular' ou ‘Poeira’ - que ficava na Praça 14; e o cine ‘Ypiranga’ - que ficava na Cachoeirinha.
Para sque se tenham ideia do verdadeiro cast de artistas que foi se formando na casa de minha tia Alice, meus outros primos se chamavam: Hudson Jansen; Lislie Helen; Herbert; Lilibeth Audrey; e assim por diante. Faltaram Gina Lolobrígida; Bo Dereck; Johnny Weismuller...
Os meus primos mais velho, Heriberto e Lady, passaram a me ensinar o que já sabiam. Por isso lhes sou muito grato até hoje. Me ensinaram desde ‘pegar’ em um lápis a ‘fazer cópias’ de textos. Aprender tabuada foi para mim um exercício particularmente dolorido em razão do método empregado: palmadas com as famosas palmatórias de madeira. Funcionava! Jean Piaget ficaria impressionado!
Foi
então que eu redescobri minha capacidade de memorização fácil e rápida.
Em poucas semanas fiquei apto a ingressar no terceiro ano primário da ‘EIS Domingos Sávio’, que minha tia passou a pagar para eu estudar. Até hoje não faço ideia do valor. Foi um sacrifício dela ao qual correspondi com muito afinco nos estudos. Esse meu esforço me rendeu dois anos de ‘primeiros lugares’ das turmas do ‘terceiro’ (1967) e do ‘quarto’ (1968) anos primários, que me propiciaram as condições de passar no ‘exame de admissão’ ao ‘ginásio industrial’, da Escola Técnica Federal do Amazonas (ETFAM).
Assim, concluí o quarto ano primário na ‘EIS’ ‘Domingos Sávio’ e já fui direto para a ETFAM, a fim de economizar o dinheiro de minha tia Alice. Na verdade, ela me ‘intimou’ a ir para a ETFAM, justamente porque era gratuita. meu primo Heriberto não conseguiu. Foi estudar na escola Benjamin Constant. Confesso que fiquei (sem razão, claro) com inveja dele.
Assim
foi o início de minha vida acadêmica na cidade grande. Até hoje considero esse período de fundamental
importância para minha vida.
Na ETFAM, paralelamente às matérias normais como: ‘Língua Portuguesa’; ‘Matemática’; ‘Ciências’; ‘Geografia’; ‘História’, etc., tive de realizar cursos ‘profissionalizantes’, como parte da disciplina ‘Artes Industriais’, que relatarei em capítulo específico mais à frente, dada a sua importância para vida profissional.
Como
um bom ‘mateiro’ que eu era, minha tia me responsabilizou pelas ‘criações’
dela: galos de briga do Zeca Brito; galinhas poedeiras e de corte; porcos, que
eram mortos nos aniversários de ‘Zeca Brito’ e de ‘Maria Emília’ (minha outra prima, irmã de Zeca), ambos no dia 24 de
dezembro, que coincidiam com o Natal. Sempre me perguntava: ‘que “culpa tinham”
os pobrezinhos’ para morrerem assim? “na véspera”, como os perus.
Treinei
tão bem os galos de briga do Zeca que chegamos a ser campeões na rinha de galos. Eu
era o “nutricionista” e o “médico veterinário” da galinhagem. Comprava ração,
milho, remédios, etc. E aplicava emplastros de andiroba e copaíba nos bichos. Ficavam novinhos em folha.
Como ‘José do Egito’, um de meus heróis bíblicos, consegui ótimos resultados com a “criação” de minha tia e do Zeca Brito, que também era conhecido como Zé Galo.
Além de cuidar da criação, todos
os dias, após retornar da aula na ETFA, eu tinha de caminhar, sob sol no zênith (a pino),
para buscar ‘sopa’ e ‘pão’ na casa dos sogros de ‘Zeca Brito’ , que tinham banca
de café no ‘mercado grande’, ‘Adolfo Lisboa’ (meu velho conhecido
dos tempos de “colheita” das bananas, que o Arnaldo fazia utilizando Gillete e ia colocando num saco pra guardar as ditas cujas dos olhares das pessoas curiosas).
Aoós andar quatro quarteirões, eu chegava, por volta do meio dia, esbaforido, na casa de ‘Donatila’, sogra de ‘Zeca Brito’. Ela me dava sopa, almoço e sossego. Após o almoço, eu aproveitava para ler as revistas e gibis do futuro médico, Dr. Ricardo, estudante autodidata incansável para passar no concurso vestibular para medicina da UA. Ricardo viria a se tornar médico cardiologista. Aprendi com ele a ter disciplina autodidata nos estudos. Ele foi para mim um grande exemplo de dedicação aos estudos. Uma inspiração.
O
trajeto que eu fazia entre a casa de ‘Donatila’ e da minha tia Alice era de uns
seiscentos metros (quatro quarteirões).
Como se faz no interior para buscar água no rio, eu improvisei uma vara para pôr as panelas com sopas quentíssimas, uma panela em cada extremidade, e assim facilitar seus transportes. A vara ia nos meus ombros. O saco com pães, também. Porém, mais achegados ao meu corpo, para não desbalancear a carga.
O sacana do ‘Passarinho’ – um moleque velhinho entroncado que gostava de bater nos meninos mais novos –, sempre me sacaneava quando eu passava com as panelas quentes cheias de sopas, ameaçando de me bater. Eu também o ameaçava de jogar a sopa quente nele. Assim, com medo de ser “escaldado”, ele me deixava passar em paz. Todo dia era isso. O Zeca Brito, porém, policial civil que era acostumado a bater em bandido, me dizia o seguinte:
-
“Se você chegar aqui da rua ‘apanhado’, vai levar mais peia”.
Com esse encorajamento, eu ficava arrogante e batia na meninada que se atrevia a me desafiar. Mesmo sendo franzino. Ao ponto de terem me apelidado de “Maceta”, “Hércules”, “Tarzan”, “Maciste”. Maceta foi o prferido pela canalha!
Dizia
eu para a garotada “bandida”:
- “O
Zeca Brito, policial civil, é meu primo, hein! ”, em tom de ameaça. Funcionava.
Chegando
em casa mais esbaforido ainda, lá pelas treze horas, ou mais, ao ponto de um
dia ter desejado a morte, assim como fez Elias no deserto.
Ao
chegar, porém, essa “vontade de morrer” passava porque eu tomava rapidamente
meu banho com aquela água danada de fria, que era armazenada em tambores
metálicos, e que chegava nas casas por meio de canos ‘galvanizados’ (os tubos
PVC ainda não eram empregados), água essa sem nenhum tratamento. Sobrevivi.
Após
o banho, fazia as tarefas de aula; depois, ouvia rádio FM e músicas MPB na
vitrola que ‘Zeca Brito’ comprou na ZFM para o nosso deleite. Era um móvel grande e
sofisticado para a época. Dessa maneira, formei uma memória musical
considerável. Ouvia de tudo, tais como:
‘Cauby Peixoto’; ‘Agnaldo
Timóteo’; ‘Ângela Maria’; ‘Tim Maia’; ‘Trio Los Panchos’; ‘Júlio Jaramillo’;
‘Altamiro Carrilho’; ‘Nelson
Gonçalves’; ‘Renato e seus Blue Caps’; ‘Jovem Guarda’; ‘Carlos
José’; ‘Beatles’; ‘Armando
Manzzanero’; ‘Bossa Nova’ (Tom, Vinicius, Toquinho);
‘Cascatinha e Inhãna’; ‘Altemar Dutra’;
‘The Fevers’; ‘Frank Sinatra’; ‘Dorival Caymi’; ‘Francisco
Petrônio’; ‘Carlos Galhardo’; ‘Edith Piaf’; ‘Ray
Charles’;etc.
Após esses momentos de ‘sossego’, lá pelas 15h, era a vez de eu cuidar dos galos, galinhas, pintos, ou seja, de alimentar a “criação”... Das 16h até às 18h, íamos, eu e meu primo pernas-de-pau Heriberto, brincar de bola no ‘Oratório Domingos Sávio’. Futebol de quadra. Esse meu primo ‘Heriberto James’ era muito ruim de bola! Já eu, me saia muito bem nessa arte. Era muito rápido e habilidoso com a pelota (em alusão à bola feita de pélas de seringa). Me achava mesmo um Pelé. Mas era muito franzino!
Essa
rotina na casa de minha tia Alice durou os cinco anos nos quais morei com ela,
ou seja, de 1967 a 1971. Neste ano, mandei buscar minha mãe e meus irmãos do ‘Careiro
da Várzea’, em razão da grande alagação.
Minha mãe tinha sido “despejada” do quarto da fazenda do Sr. Adalto Leite, no Cambixe, em razão da ausência do Valdé, o qual “vivia pelo mundo” (em lugar incerto e não sabido). Fiquei sabendo disso da pior maneira possível: ao desembarcar no porto da fazenda. Um dos filhos do Sr. Adalto Leite, que viajara comigo de Manaus para o Cambixe no barco ‘José Mitonho’, me falou disso a poucos minutos antes do desembarque, dizendo: - “Sua mãe não mora mais aqui! ”.
Essa foi para mim uma notícia desconcertante! Eu não esperava por isso! Tive, então, de andar de volta, a pés, por vários quilômetros entre a fazenda de ‘Adalto Leite’ até a casa onde, provavelmente, minha mãe deveria estar morando de favor: a casa da d. Antônia, sua vizinha e comadre.
Por
ironia do destino, minha mãe foi se abrigar justamente na casa da d. Antônia,
filha do ‘Severino das Canas’ (Severino Souza, o ‘SS’), cujo sítio era vizinho
do sítio que minha mãe e meus tios haviam vendido para o ‘SS’ onze anos antes.
Todos os dias, o velhinho SS passava na frente de nossa casa com sua carroça
cheia de canas, para dar para o gado comer na ‘maromba’ (uma estrutura de
madeira sobre um piso de terra elevada e coberta de zinco).
Não foi fácil a caminhada! Eu ia caminhando e me perguntando: “onde estará morando a minha mãe, d. Alzira? ”. Ninguém sabia dizer...
Porém, logo a encontrei na casa de d. Antônia - como imaginara -, e fiquei muito feliz! Como foi bom revê-la e aos meus irmãos, Renato e Jânia! E também aos meus colegas de infância, Gregório e Manoel, filhos da d. Antônia, que era “uma mãe para nós”. E eles, como irmãos!
Minha
mãe era muito querida pelas inúmeras ‘comadres’ que tinha nas redondezas da
‘Vila Velha’ do ‘Careiro da Várzea’.
Uma
dessas ‘comadres’, dona da fazenda vizinha, esposa do Sr. José Alves, e suas
filhas, com a ajuda do prefeito, fizeram uma casinha para minha mãe morar (com
restos de madeiras de materiais de construção e telhas de barro, doados pelo prefeito). Ficava nas terras de sua fazenda (fazenda ‘dos Alves’), entre a casa de d. Antônia e a
delas próprias.
Para
nós era uma ‘boa casa’, a não ser pelo fato de ter sido construída em uma
baixada, que acabou se transformando em um “furo”, quando as águas do ‘Paraná
do Careiro’ atingiram seu nível máximo e transbordavam, e corriam velozmente no
rumo do Lago dos Reis por esses ‘furos’. Era um fenômeno recorrente.
Os
Alves não foram os únicos a fazerem casa para minha mãe morar. Antes, a esposa
do Severino das Canas, d. ‘Dista’, já tinha feito a mesma coisa, ao lado de sua
casa grande da fazenda.
Assim
também fizera outra filha de d. Antônia, casada com Francisco Souza, filho do
SS, no alto do Careiro.
Na
verdade, a casa que os ‘Alves’ fizeram para minha mãe foi a última dessa fase, antes de eu
mandar buscar minha mãe para Manaus, em 1971.
Após
eu retornar das férias a Manaus, em março de 1971, busquei pela ajuda da
‘Assistência Social’ da ETFAM, onde estudava. Consegui Cr$ 50, que dava para
pagar um quarto em algum bairro de Manaus, para minha mãe e meus irmãos poderem
morar em terra firme, longe da alagação. Dessa forma, estávamos de novo, todos reunidos na ‘Cidade
Grande’.
Com
exceção de Valdér que, como sempre, estava há três anos desaparecido, em lugar
incerto e não sabido. Até coloquei ‘nota’ na Rádio Difusora na tentativa de que
Valdé ouvisse e desse as caras lá em casa. Em vão.
Aliás,
Valdé tinha aparecido lá na casa de minha tia Alice em plena copa do mundo de
1970, bêbado como um gambá. Para minha vergonha. Porém, Valdé não tinha esses
escrúpulos, como todo alcoólatra. Eu tinha de praticamente expulsá-lo após
assistirmos o vídeo-tape do jogo do Brasil, que chegava de avião e era
transmitido de madrugada pela TV ‘Ajuricaba’, recém-inaugurada em Manaus.,
Os jogos passavam tarde da noite. Iniciavam lá pelas 23h e varava a madrugada.
Já
morando em Manaus, em quartos alugados, de bairro em bairro, eu passava os
finais de semana com minha mãe e meus irmãos no quartinho onde estivessem
“morando”. Primeiro, no bairro de Petrópolis; depois, na Cachoeirinha; por fim,
na Praça 14.
Ainda permaneci na casa de minha tia até julho de 1972, quando completei 18 anos e o ‘Zeca Brito’ me empregou na Moto Importadora. Nesse ano, fui dispensado do Exército por ‘insuficiência física’. Suprema humilhação! O bom disso é que já podia “tirar meus documentos” e, quem sabe, conseguir algum emprego. Consegui.
A conquista
de meu primeiro emprego em CTPS foi assim:
‘Zeca Brito’, policial de muitos “amigos”, me disse: - “Pegue seus documentos e vamos ali no Centro” (centro da Zona Franca de Manaus). Eu, ainda muito matuto, não atinei para o ‘quê’...
Na
Rua Guilherme Moreira, entramos na loja da ‘Moto Importadora’, que pertencia à
esposa do Sr. Natan, fazendeiro do ‘Careiro da Várzea’, cujo filho, Odri, era
meu colega de infância, o qual, anos mais tarde, viera a falecer em desastre de
automóvel, fato que deixou sua família desestruturada e que acabou vendendo
tudo em Manaus e se mudando para o Rio de Janeiro, sonho de todo amazonense.
‘Zeca
Brito’ foi subindo comigo as escadas da loja Moto Importadora Central até ao piso superior, como se ele já
conhecesse muito bem a loja. Na verdade, a loja ficava bem próxima da
‘Delegacia Geral de Polícia’, onde ele trabalhava. Quer dizer, “dava
expediente”, em suas palavras. Tava explicado.
Chegando no piso superior da loja, entramos em uma ampla sala e, para minha surpresa, encontramos o ‘gerente de pessoal’ sentado atrás de sua mesa. Ele era, para mim, um dos “irmãos Metralhas” da ETFAM. Explico: como ele era aluno ‘veterano’ da ETFAM, tinha o “direito” de bater em nós, os ‘bichos’, novatos (neófitos) da Escola. Me assustei! Perguntei para mim mesmo: - “Que diabos deu no ‘Zeca Brito’ para trazer-me aqui?
Em
poucos minutos estaria tudo esclarecido. Disse o ‘Zeca’ ao ‘Metralha’:
- “Consegue um emprego aqui para este meu primo! ”. O Metralha me olhou com desprezo e me falou, entregando-me um bilhete, dizendo: - “Desça e se apresente para a gerente na loja, lá embaixo”. Ainda sem saber do desfecho daquele inusitado “passeio” ao centro da cidade, desci e fiz como o ‘Metralha’ me mandou. Me apresentei para a gerente. Uma tal de Cleide.
Esta me olhou com mais desprezo ainda e berrou comigo: - “O que você está fazendo parado na minha frente? Pegue aqueles baldes, vassouras, panos-de-chão, e vá lavar o pátio, ali atrás! “.
Pronto!
Agora eu entendi! Estava empregado. Com CTPS assinada e tudo. Era “Aprendiz de
serviços gerais”, vulgo office boy. Era um “faz tudo”. Um tipo de estagiário
(eles sabem do que estou falando!).
Foram cinco meses de “mijadas” e de grande aprendizado sobre ‘o que era ser um empregado’. Um office boy. Um aprendiz-sei-lá-de-quê. Na verdade, aprendi de tudo um pouco. Aplicava na prática o que eu já havia aprendido na ETFA.
Foi
assim que, já empregado e com minha mãe e irmãos morando em Manaus, fui “convidado” pela
minha tia e pelo ‘Zeca Brito’ (agindo em causa própria), a deixar a sua casa e
ir morar com minha mãe. Uma boca a menos para sustentar. Como o Chaves, minha
rede, entre “mihares”, ficava embaixo da mesa de centro. Era meu “barril”.
Como
a casa de minha tia já estava entupida de primos, compreendi e, a partir dali,
passei a “caminhar mais ainda com minhas próprias pernas”. Peguei minha maletinha e fui...
(*) Prof. Pinheiro é técnico em estradas; administrador; advogado; especialista em docência superior; e mestre em administração.