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29 agosto 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. IV >

 

 < Capítulo IV >

UM ESTAGIÁRIO DE SUCESSO DA ETFAM

 

    Em maio de 1973, após cinco meses de muita “mijada” da gerente Cleide da loja Central da Moto Importadora - a qual não tinha paciência com seu empregado matuto (no caso, eu), que não sabia a diferença entre ‘sanduiche de queijo com pão de forma’ e ‘sanduiche de queijo com pão francês’, nem muito menos o que era ‘queijo prato’, ou ‘queijo mozzarella’ - depois de 'infernizar' os ouvidos do prof Hamilton, coordenador do CIEE, este me incluiu na lista de indicados como estagiários de 'estradas' para a Secretaria Municipal de Obras (SEMOB).

Após 3 dias ausente do trabalho na Moto Importadora em razão de uma forte gripe que me forçou a ficar hospitalizado, levei uma punição muito injusta de suspensão de três dias, aplicado pela Cleide. Meu atestado médico foi tido e havido pela gerente como sendo “fake” (essa prática é até hoje utilizada por empregados descontentes com seus chefes e seus empregos).

Na verdade, tive que baixar ao hospital do INSS que fica na Av. Getúlio Vargas, em razão dessa forte bronquite, ou já pneumonia, única vez que isso me aconteceu. A segunda vez foi em 2021, na COVID-19, no HUGV.

Como eu ia para o trabalho e voltava para casa de pés (para economizar o valor da passagem de ônibus), tanto pela manhã, na ida, quanto ao meio dia, na hora do almoço. Mesmo durante o trabalho, eu pegava muito sol e chuva, sem nenhuma proteção, por isso caí doente.

A gerente Cleide não sabia, mas eu já estava “negociando” no SIEE uma saída honrosa dessa situação, na qual eu estava sofrendo ‘assédio moral’. Por isso, deixei ela “famosa” lá no SIEE.

O prof. Hamilton ouviu toda a minha lamúria e, de tanto eu “chorar” na sua frente, este resolveu me incluir em uma turma de ‘estágio’ da ‘Secretaria de Obras’ (SEMOB), da Prefeitura de Manaus. Assim, eu me “vinguei” da peste, digo, da gerente. Apresentei a ela meu pedido de demissão. Ela pasmou! Não acreditava que eu lhe deixaria sem seu especial objeto de sadismo.

Contudo, foram cinco meses de muito aprendizado trabalhando na Moto Importadora, onde me meti com atividades não próprias de um office boy, tais como:

> “Vendas” de balcão (ao contrário dos balconistas, eu conseguia ler em inglês os manuais dos produtos importados e demonstrar seus funcionamentos para os clientes);

> “organização” dos estoques (por conta própria), a fim de facilitar as vendas ao encontrar rapidamente qualquer item;

> “análise de crédito”: os clientes aguardavam na porta da loja para saberem antecipadamente se suas compras seriam aprovadas ou não; ou se necessitariam de avalista; ou de maior entrada, etc.

Tudo isso fazendo uso de meus conhecimentos já adquiridos nos últimos cinco anos de ETFAM, no Ginásio Industrial, e já no primeiro ano do curso técnico de ‘Estradas’.

Como já relatado, ingressei na ETFAM em 1969 para cursar o ‘Ginásio Industrial’ uma vez que minha tia Alice não podia mais pagar para que eu estudasse na ‘Escola Industrial Salesiana’ (EIS) ‘Domingos Sávio’.

Na ETFAM, além das disciplinas típicas desse grau de estudo, ou seja, ‘língua portuguesa’; ‘língua francesa’ ou ‘inglesa’; ‘matemática’; ‘desenho geométrico’; ‘ciências’; etc., fui “obrigado” a cursar uma disciplina chamada ‘Artes Industriais’, a qual me fazia aprender ‘duas profissões’ por ano, ou seja, uma ‘profissão’ a cada semestre. Portanto, ao final de quatro anos, já havia adquirido as seguintes profissões: ‘eletricidade’; ‘tipografia’ e ‘encadernação’ (1969); ‘marcenaria/carpintaria’; ‘mecânica de autos’ (1970); ‘serralheria’ e ‘soldas’ (1971); ‘tornearia’; ‘mecânica geral’ (fresa; furadeira; limadeira, etc.) (1972).

Além dessas profissões, fiz cursos paralelos de suporte para cursar tais disciplinas profissionalizantes, que foram: ‘desenho arquitetônico’; ‘desenho mecânico’; ‘desenho artístico’ (com o famoso pintor e professor da ETFAM, Moacir Andrade!); ‘desenho em perspectiva’; e ‘metrologia’ em geral.

Portanto, estudando na ETFAM, eu já estava sendo preparado para a vida.

Na verdade, já estava mesmo ganhando dinheiro como aluno, vendendo aos vizinhos os artefatos oriundos das aulas práticas da ETFAM: ‘piões’ de madeira; ‘martelos’ de alumínio para bater carne (é assim que pobre transforma “carne de pescoço” em “filé”); ‘martelos de bola’, etc.

Após esses últimos quatro anos de ginásio industrial na ETFAM (últimos anos desse ciclo na ETFAM) (1969-72), a Administração da ETFAM fez um levantamento para saber ‘qual o melhor aluno’ desses últimos quatro anos do curso de ‘Ginásio Industrial’. Para minha grata surpresa, eu tinha conseguido a melhor média geral. Ganhei, em solenidade feita especialmente para isso, uma ‘caneta’ dourada da marca Cross!

O segundo colocado foi o meu colega Samuel Câmara, que era nosso orador oficial nas horas cívicas aos sábados (como parte das disciplinas OSPB e Educação Moral e Cívica). Ele ganhou uma caneta Cross prateada. Depois virou pastor da Assembléia de Deus.

Portanto, eu era muito inteligente, mas o Samuel era muito mais ‘esperto’ do que eu, como o passar da vida demonstrou.

Sem a necessidade de fazer nenhum teste (a não ser teste ‘psicotécnico’, para avaliar a qualificação ou predisposição para cursar um dos cursos ‘técnicos’, de nível médio, da ETFAM), fui matriculado no curso técnico de ‘Estradas’ (engenharia de estradas). Talvez o mais difícil.

Meu teste ‘psicotécnico’ informou minha grande aptidão com números. Assim, me matriculei no ‘curso técnico’ de ‘estradas’. Nesse curso, me senti como ‘peixe n’água’ em razão da grande exigência em matemática, cálculos em geral. O teste estava certíssimo. Mais tarde, em 1976, passar no vestibular para o curso de licenciatura em ‘Matemática’ foi algo ‘natural’ para mim.

Desta maneira, eu me achava muito capacitado para ficar trabalhando levando “mijada” daquela gerente sem noção, em um cargo de serviçal, na loja Moto Importadora.

Por obra e graça do prof. Hamilton, que me incluiu na turma de estágio da SEMOB, em julho de 1973, dei início ao meu ‘estágio’ como aluno de ‘Estradas’ da ETFAM, ganhando dois salários mínimos (!), ou seja, o dobro do que ganhava na loja Moto Importadora. Atrasava, mas eram pagos.

Porém, havia um problema: como eu era aluno ainda do 1º ano de ‘Estradas’, não dominava as informações técnicas necessárias para lidar com ‘Projetos de Estradas’ e outras tantas disciplinas teóricas.  Somente nos 2º e 3º anos essas disciplinas eram ministradas. Pedi a Deus uma solução...

Fui atendido (fé não costuma falhar): enquanto meus “colegas” foram destinados ao ‘bem-bom’ do ‘escritório’ (que lidava basicamente com ‘planejamento’), a mim me mandaram para o ‘campo’, isto é, para a ‘execução’, para tomar conta das ‘patrulhas mecânicas’, no “sol e na chuva”, a depender do clima. Portanto, na lama. Ou na poeira. Chegava à noite na ETFAM enlameado ou empoeirado. Tomava banho no vestiário do campo de futebol e ia pra sala de aula.

Ninguém dos meus colegas de ‘estágio’ queria ir para o campo... Com certeza eles sabiam da minha condição de ‘aluno de primeiro ano’. Todos se conheciam. Mas não fui denunciado.

 Eu aceitei ir para o ‘campo’ com alegria, claro. Virei “engenheiro” de campo. Vestido a caráter: calças jeans; camisa de brim; coturnos do Exército, ou da Aeronáutica, etc. Eu era objeto de flertes por parte das meninas, que faziam questão de me servirem água gelada pelas janelas das salas de suas casas. Eu parecia ‘pinto em merda’...

Sem ter ainda muitas teorias na cabeça, parti para o aprendizado autodidata ‘teórico-prático’. Corri atrás das teorias (de forma autodidata) que me faltavam. E complementava imediatamente com a prática. Tem ‘mal’ que vem para o ‘bem’.

Diferentemente da loja da Moto Importadora, agora eu tinha à minha disposição ‘carro com motorista’ para me apanhar pela manhã em casa e me deixar à noite na ETFAM. O nosso motorista ‘Rubão’ era muito ‘nó cego’. Às vezes me deixava esperando em casa das 7h às 9h, para meu desespero. Mas já vinha juntamente com o Dr. Fonseca, o qual chegava com um sorriso de troça enorme, sabendo de minha ansiedade. Como peão de ‘trecho’, eu tinha alimentação farta e boa no canteiro de obras.

Meus colegas de turma, no escritório, cumpriam apenas quatro horas trabalho. Eu, porém, nos trabalhos de campo, estendia voluntariamente meu horário de ‘estágio’ por seis horas, mas não me importava com isso. Estava feliz da vida com esse meu trabalho. Mas meu sonho mesmo era ser topógrafo! Vá entender...

De cara, participei da urbanização do conjunto ‘Parque Dez de Novembro’. ‘Urbanizei’ todas as trinta e duas ruas. E também dos bairros: Santo Antônio; Petrópolis; Colônia Oliveira Machado; a área da UTAM; a área dos Bombeiros, na Rua Codajás; etc.

Aprendi a operar as máquinas pesadas. Os operadores, na hora do almoço, me davam as chaves de suas máquinas para que eu treinasse.

Eu também fazia o controle dos ‘estoques de materiais de construção’; a apropriar o valor das horas trabalhadas (ou paradas) das máquinas pesadas; enfim, fazia o ‘dimensionamento dos equipamentos’, ou seja, dependendo do trabalho, decidia ‘quais’ e ‘quantos’ equipamentos eram necessários. O maior custo de construção de estradas é o transporte de material por meio de caçambas. Tanto dos materiais chamados de ‘bota-fora’ (camadas vegetais removidas pelas máquinas pesadas, tais como: ‘moto-scrapers’; ‘trator de esteira’; ‘retroescavadeiras’; ‘pás mecânicas’, etc.), quanto os materiais de ‘base’, ou seja, piçarras (laterita); brita e pó de brita; etc.

Meu professor da disciplina ‘Dimensionamento dos Equipamentos’, do curso de Estradas, ficou pasmo com meu conhecimento dessa disciplina. Pois eu conseguia aliar o conhecimento teórico com o conhecimento prático. Me tornara seu preceptor.

Meu engenheiro-chefe na SEMOB, o Dr. Fonseca, gostava muito do meu trabalho e confiava inteiramente em mim. A ponto de me deixar tomando conta dos trabalhos enquanto ele participava das reuniões no staff da Secretaria.

Ao fim de um ano do meu ‘estágio’, ele havia se tornado ‘secretário de obras’ da SEMOB. Foi aí que tive a certeza da minha aprovação como ‘estagiário’: o Dr. Fonseca fez comigo muito parecido com o que houvera feito o ‘Zeca Brito’ dois anos antes. Fonseca me falou o seguinte, com aquele sotaque baiano: - “Nonato, bichim, pegue seus documentos e vamos lá na Prefeitura, ômi...”. Obedeci, claro.

Chegando lá na Prefeitura, na Praça D. Pedro II, próximo aos escombros do ‘Cabaré Chinelo’, onde as quengas faziam ‘ponto’ desde sempre, ele então falou para a d. Teresa Bahia, chefa de Pessoal, apontando para mim: - “Contrate ele como ‘Auxiliar de Engenharia’, visse! ”. Ela prontamente obedeceu, dizendo: “viu!’. A prova disso se encontra registrada na minha CTPS: “Aux. de Eng., Nível I-7.A”.

Mais uma vez me senti como ‘José do Egito’: honrado por Deus, me tirando da humilhação!

Após esse um ano e meio de ‘estágio’, e após a minha contratação como ‘Aux. de Enga, I-7-A’, o Dr. Fonseca viajou de férias para a Bahia e não voltou mais. Fora convidado para trabalhar na Bahia, sua terra. Recentemente, em 2016, morei em Salvador com minhas filhas Alice e Clara. Elas continuam morando lá. Eu retornei a Manaus em 2017. Salvador é uma cidade maravilhosa!

Sem a proteção do Dr. Fonseca, fiquei, então, “jogado às feras”. O Dr. Fonseca até que tentou me ‘proteger’, me recomendando para o outro engenheiro do grupo de trabalho, Dr. Juan, que assumiu o seu lugar. Mas este também acabou por passar em concurso do INSS e se mandou, me deixando como “boi de piranha”.

Pedi, então, que me transferissem para o ‘escritório’ e para a ‘Topografia’, esperando ter melhor sorte lá, pois já estava iniciando o terceiro ano de estradas e já estava perfeitamente habilitado teoricamente.

Fui atendido, mas apenas para que eu fosse vítima da vingança de meus ex-colegas de ‘estágio’, pois se sentiam “traídos” por terem sido passados por alto com a minha contratação como ‘auxiliar de engenharia’. Queriam para eles esse cargo.

O chefe do setor de topografia, Dr. Braga, um engenheiro quase anão e pinguço (morreu anos depois com cirrose hepática), serviu de meu algoz e passou a tentar me humilhar, me mandando fazer serviços desqualificados, típicos de ‘peão’, tais como ‘cortar piquete’, o que recusei e fui demitido. Estávamos em 1974.

 Contudo, um ano depois, o INCRA necessitava contratar cinco ‘topógrafos’ para o Projeto Fundiário ‘Manaus’ e fez um uma seleção entre os alunos dos terceiro e quarto anos de Estradas da ETFAM. Eu já estava no final do terceiro ano. Me alegrei com a perspectiva de passar no teste e ser contratado como topógrafo – minha paixão – do INCRA.

Passamos no teste eu e mais quatro colegas do terceiro ano de Estradas da ETFAM. Nossa turma do terceiro ano era constituída por ‘feras”! Eu fui o quarto colocado no teste. Juntamente comigo, foram trabalhar no INCRA: o Pedro Marçal; o José das Graças; o Darlindo Jr.; o Tadashi. Se me lembro bem.

O colega Franck, de apenas dezesseis anos, desistiu do emprego porque o pai não deixou que ele trabalhasse ness idade.

No ano seguinte (1976), eu e vários colegas de turma, do 4º ano de ‘Estradas’, passamos no vestibular da UA (hoje UFAM). Eu e o Raimundo Nonato Braga, para ‘Matemática’; o Jonas e a Eliana, para engenharia; o Jozeuter Ferro, para ‘Direito’ (um gênio!); e o Franck para Geologia. Todos éramos NERDS!

Foi assim que, em outubro de 1975, eu cumpri meu ideal: tornei-me topógrafo do INCRA.

Por uma questão de justiça, porém, devo mencionar a minha rápida passagem pelos Correios entre 1974 e 1975, onde fui contratado como carteiro, mas fazia o trabalho de ‘manipulador de cartas’. Era necessário rapidez e grande memória para triar as correspondências sem erro de destinação. Hoje, esta atividade está automatizada e robotizada. Nesse cargo, ganhava o mesmo que o ‘aux. de engenharia’ da Prefeitura, para se ter uma ideia do grande valor deste profissional naquela época. Para isso, fiz um concurso no qual ‘gabaritei’ a prova. O Sr. Oswaldo foi como um pai para mim. Até que surgiu o concurso do INCRA.

Rendo aqui minhas homenagens aos colegas Petrus Emile Abi-Abib e Miguel Emile Abi-Abib, os quais, com enorme competência souberam lidar conosco, formando, conduzindo, orientando, torcendo por nós, um graupo de meninos cheios de álgebra linear e sonhos.

Deus seja louvado! “Fé não costuma faiá” (Gilberto Gil).