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29 agosto 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. V >

 

< Capítulo V >

UM TOPÓGRAFO DO INCRA "DEGREDADO" PARA TABATINGA-AM

 

Em julho de 1.977, meu aniversário de 23 anos não poderia ter sido mais digno de pena...

Dentre tantos aniversários meus quantos já haviam se passado sem qualquer comemoração, este foi o menos comemorativo ainda.

Valdé, de tanto beber cachaça, morreu de câncer de estômago em fevereiro daquele ano, com apenas cinquenta e quatro anos. Tinha a mesma idade que minha mãe Alzira. Ambos eram de 1.923.

Minha mãe Alzira o chamava carinhosamente de Valdé, quando não estava furiosa com ele. Por culpa dele mesmo, alcoólatra que era.

Ele mesmo se dizia chamar-se Waldetário (quando estava sóbrio) e Walter Dário (quando bêbado). Ele disse a mim que viera fugido do sertão pernambucano, porque lá havia matado um cabra. Por essa razão se alistou como 'soldado da borracha'. Vá saber...

Eu, cumprindo o 5º Mandamento de Deus (honrar pai e mãe), fiquei estoicamente cuidadndo de Valdé até seus momentos finais numa cama ambulatorial do hospital Santa Casa de Misericórdia de Manaus. Tristes momentos! A fim de interna-lo para tratamento, lutei no INSS para torná-lo meu dependente. Consegui a duras penas. Ele nunca trabalhara como CTPS assinada. Não era amparado nem pela previdência pública. Internei-o em meio a crises de vômitos. Vomitava mesmo sem ter nada de comida no estômago. O tumor já não permitia que ele bebesse nem água. Já estava, como se diz nesses casos, somente “pele e osso”.

Internei-o na antiga ‘Santa Casa de Misericórdia’ (hoje em escombros). Na rua 10 de julho, centro de Manaus. O famoso Dr. João Lúcio fez sua cirurgia, retirando o tumor do estômago e do esôfago de Valdé. Perguntei ao Dr. João Lúcio: - “Ele vai sobreviver, doutor? ”. A resposta foi sem muita convicção: - “Sim. Por um ano”. Morreu semanas depois. Não tinha como sobreviver...

Por conta da doença e internação de Valdé, praticamente “abandonei” o INCRA por três meses, para cuidar dele no hospital. Meus colegas de INCRA me deram ‘cobertura’ (sem que eu pedisse). Não deixaram que eu levasse faltas e ficasse sem salário e, eventualmente, fosse demitido por abandono de cargo. E todos compareceram ao cemitério para renderem, em respeito a mim, as últimas homenagens ao Valdé. Meu sentimento de perda se misturava com alegria pela solidariedade demonstrada pelos meus colegas de INCRA. Cheguei a sorrir de nervosismo e gratidão. Meus colegas de INCRA foram todos no ônibus do INCRA. Registro isso para homenagear meus colegas, com o coração imensamente grato por tanta bondade para comigo.

Porém, no dia 30 de julho (um dia após o meu aniversário de 23 anos), numa daquelas “tardes qualquer de julho” – parafraseando Euclides da Cunha -, “rápidas tardes sem crepúsculos, prestes afogadas na noite, os relâmpagos, precípites, sarjavam a imprimadura negra da tormenta” que se avizinhava e logo os “cúmulos e nimbos cairiam como num aguaceiro diluviano”. numa tarde como esta fui surprendido pelo anúncio de que eu iria ser transferido pelo INCRA, do Projeto de Manaus para o Projeto de Tabatinga, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Meu mundo caiu!

Mesmo com chuva, a temperatura média em Manaus era de 35o Um verdadeiro ‘inferno verde’ (Euclides de Cunha). Para quem não sabe, Euclides da Cunha morou em Manaus no início do século 20, numa casa em frente ao cemitério ‘São João Batista’ (hoje uma agência do BB). Euclides foi o grande responsável pela ‘demarcação’ das fronteiras do Brasil com a Colômbia, o Peru e a Venezuela. Encontrei vários marcos de concreto implantados por Euclides ao longo dessas fronteiras.

Nessa tarde do dia 31 de julho de 1.977, no dia posterior ao meu indigitado aniversário, o coronel ‘José Carioca’ ao seu milico tenente R-2 do exército que fosse buscar-me em "minha" sala, “sob vara”, na ‘seção de topografia’ do INCRA, onde eu exercia a função de ‘topógrafo’.

Como já relatado, eu havia ingressado no INCRA por “seleção pública” na ETFAM, em 1975, recrutado que fora dentre alunos dos terceiro e quarto anos do curso de ‘Estradas’.

Tanto naqueles tempos quanto nestes, “ordem dada era ordem que devia ser cumprida”. Assim, prontamente, o ‘tenente’ ‘R-2’ (chefe da ‘Assessoria de Serviços de Informações’ - ASI-SNI) fez questão de ir pessoalmente lá na “minha” sala, onde eu exercia minha mencionada função para me buscar.

Chegando lá na sala da topografia, agarrou-me pelo braço e levou-me pelo extenso corredor, sob os olhares surpresos e atônitos dos demais colegas de INCRA. Todos devem ter imaginado o seguinte: - “Coisa boa ele não fez!". Teria ele (eu) ‘aprontado alguma’?

Vivíamos com medo, pois, como estudante de Matemática da UA (hoje UFAM) e ‘servidor’ da ‘Reforma Agrária’, com certeza eu era ‘visado’ pelos meganhas do Regime Militar, que se implantara no país em 1964.

Na verdade, eu tinha a admiração de todos os meus colegas de INCRA pelo fato de que, em 1976, eu fui o único empregado do INCRA a lograr êxito no vestibular daquele ano. E passei logo para o curso de ‘matemática’! Terror do brasileiro em geral. Essa disciplina era – e ainda é – o “bicho papão” de todos os alunos brasileiros!

E, como muitos hoje acham, naqueles tempos as Universidades haviam se transformado em “viveiros” de comunistas. Na verdade, as IFES se tornaram em pièce de rèsistance ao ‘regime militar’, o que fez com que os milicos cressem que havia um ‘inimigo’ atrás de cada escrivaninha; de cada mesa de desenho; de cada líder entre grupos de trabalho.

Voltando à minha ‘condução coercitiva’ para a sala do superintendente do INCRA - após superado o “corredor polonês” -, fui então ingressado na sala do coronel ‘Zé Carioca’ (não é piada!). O nome do coronel era José de Azevedo Carioca. Por obra do destino, hoje minha foto se encontra na galeria de ex-superintendentes do INCRA, na entrada , na recepção. Mais na frente relatarei essa incrível proeza...

Na sala de Zé Carioca, presentes apenas eu, ele e o tenente, houve um suspense no ar! Quebrado apenas pela voz ‘tonitruante’ e ‘cavernosa’ do coronel: - “Você vai ser transferido amanhã para Tabatinga”!

Tentei argumentar, balbuciando a seguinte frase: - “Mas o que foi que eu fiz”?

Fui então prontamente interrompido pelos berros do coronel: - “Não tem essa de perguntar ‘o que foi que eu fiz’ coisa nenhuma! ”. E emendou: - “Se você não for, estará demitido”. Eu era celetista. Não tinha estabilidade dos estatutários.

Meu Deus! Como eu poderia ser demitido do cargo de topógrafo? A minha grande paixão profissional!? E deixar de ganhar aquela grana toda que eu já estava ganhando desde quando na Prefeitura de Manaus fui contratado como ‘Auxiliar de Engenharia’? Ganhava seis salários mínimos desde 1973. No INCRA, ganhava mais as 25 diárias de campo por mês! Naquela época, o salário de ‘topógrafo’, ou de qualquer ‘Técnico de nível médio’, era de 6 (seis) salários mínimos. Era o piso do CREA.

Já me considerava rico com esse salário! Como perder isso tudo?

E ainda teria de largar o ‘curso de matemática’, minha outra paixão... Parec que as minhas paixões sempre foram o “meu fim”...

Um dia, minha namorada foi lá no INCRA procurando pelo ‘Nonato fotógrafo’, que ela achava que eu era... Até isso! Meus colegas não perdoaram. Dizia o Luís “Biquíni”: - “Tem uma moça aí na recepção procurando por um tal de ‘Nonato fotógrafo’..., com aquele risinho sacana. E ainda me perguntou a fim de ferir mais fundo meu ego: - És tu? ” .

Para se ter uma ideia do desprestígio (por ignorância, claro) de que gozava um topógrafo, na novela da Globo das 20h o diálogo de duas personagens deixava isso claro. Dizia uma: - “Você sabia que a Fulana está namorando um soldado do exército”? Ao que a outra retrucou: - “Pior é a Sicrana, que está namorando um topógrafo”! Suprema humilhação! Nada contra os soldados...

Voltando ao assunto da transferência ‘manu militari’, que aconteceu na sala do Zé Carioca, aquela tarde fez-se noite para mim. Tinha feito aniversário no dia anterior, trinta de julho. E agora estava sendo ameaçado de demissão sumária.

Eu e meus colegas do ‘Projeto Fundiário Manaus’ éramos todos ‘celetista’. Portanto, sem nenhuma estabilidade. Bastava um olhar feio do chefe que qualquer um de nós podia ser demitido a qualquer momento, sumariamente. Ao contrário dos estatutários, que podiam ficar com os pés sobre a suas mesas, lendo jornais e fumando charutos. Como era o caso do Sabbá, um agrônomo negão lá de Minas Gerais.

Naquela noite (literalmente), tentei buscar conselho no colo de minha mãe Alzira, mas a mesma – não por maldade dela, mas por amor – me disse “na lata”: - “Vá! Ou você quer voltar para a “lama” de onde nós já saímos”? Diante daquela opinião cruel, mas sincera, não pensei duas vezes. Deixei tudo para trás: curso de matemática; namorada; colegas; amigos; mãe; irmãos e fui...

Meus “amigos” de INCRA/Manaus me disseram: - “Vais regredir lá em Tabatinga”!

Principalmente o Brito, que recém tinha sido transferido de Borba para Manaus. Sabia o que era morar no interior do Amazonas... Então, criei coragem e ousei perguntar aos milicos, meus inquisidores: - “Quando eu poderei retornar ao INCRA de Manaus”? Ao que me responderam em tom de ironia e sarcasmo, com um misto de descrença em minha capacidade profissional: - “Quando você demarcar todo o Projeto” em Tabatinga. Depois fiquei sabendo que, em dez anos de existência do PIC-Tabatinga (Projeto Integrado de Colonização Tabatinga, do INCRA), ainda não havia sido demarcado nenhum mísero metro quadrado. Quão alentador, não!?

De partida de Manaus para Tabatinga, fui submetido a outra “tortura chinesa”: me vi embarcado, pela primeira vez, em um avião! O tenente ‘R-2’ foi me levando junto. Nunca tinha voado numa estrovenga dessas. Me perguntava: -  “como pode um barco tão grande e pesado se sustentar no ar”? Sabia, porém, pelas aulas de física aplicada ministradas pelos ótimos professores da Escola Técnica, que são forças muito bem estruturadas por Leis imutáveis, que possibilitam a incrível sustentação de um avião no ar. Aproveitei para praticar um pouco de fé – em Deus e nos homens.

Ufa! Uma hora e meia depois, cheguei inteiro em Tabatinga, sempre acompanhado pelo tenente.... Enfim, sobrevivi.

Ainda tentando entender a razão de tanta perseguição no INCRA, deparei-me com as seguintes perguntas que fiz a mim mesmo: - “Será que é porque os milicos pensam que eu sou comunista, como o meu colega de INCRA João Pedro”? Ou, talvez, tenha sido porque eu demarcava os lotes dos caboclos que não constavam dos Projetos? O que dá no mesmo. Mas os caboclos estavam lá, abandonados da sorte! Na verdade, eram vítimas da desídia funcional dos técnicos do INCRA responsáveis pelas ‘identificações’ e pelas ‘vistorias’ dos ocupantes de terras, os quais deveriam ser objetos de regularização fundiária e que deveriam constar dos Projetos de demarcação. Os posseiros estavam lá, meu Deus do céu! Nos fundos dos terrenos.

Por causa disso, levei muitas broncas do meu chefe ‘Sarmento’. Mas fiz o que achei que devia fazer. Fiz isso em razão de minha consciência de caboclo, me identificando com os posseiros, pois sabia de onde eu tinha vindo: do interior do ‘Careiro da Várzea’.

Como já relatado, essa vinda do interior  do Careiro da Várzea para Manaustinha se dado em dezembro de 1.966, quando deixei a casa dos meus pais, no Cambixe.

Aqui cabe uma digressão muito importante (pelo menos para mim): nasci em Manaus, em 1954, fugindo da ‘cheia’ de 1953 (ou alagação – fenômeno recorrente na Ilha do Careiro e na região amazônica). Contudo, vivi até os doze anos - entre idas e vindas -, no ‘Careiro da Várzea’, a cerca de 20 km de Manaus. Ali, minha mãe houvera herdado um pequeno sítio dos meus avós maternos, que mais tarde viera a perder por conta das maluquices do Valdé, como também já relatado.

Assim foi que, com doze anos, em 1.966, resolvi deixar o ‘Paraná do Cambixe’ (um Paraná de 150 km que corta a Ilha do Careiro de ponta a ponta. Paraná é um rio sem foz nem estuário.

Resolvi sair da fazenda do Sr. Adalto Leite, onde minha mãe era caseira, e resolvi morar com minha tia Alice em Manaus, para poder estudar e garantir “uma vida melhor” para minha mãe e meus irmãos.

Meu pai, o Valdé, era “artista” e vivia viajando com a viola no saco, a caixa de ferramentas de ourives, cantando pelos beiradões, nas fazendas da região. Como bom pernambucano da serra do Araripe, cantava ‘cordel’ e fazia ‘repentes’, ‘desafios’, ‘coco’, essas coisas; como ourives e relojoeiro, fazia e consertava joias e relógios. Valdé esquecia que tinha mulher e filhos.

Assim é que, em dezembro de 1.966, já em Manaus, morando com minha tia Alice, cursei os dois anos do curso primário, a terceira e a quarta séries, que foram pagos pela minha tia, na ‘Escola Industrial Salesiana’(EIS) ‘Domingos Sávio’, na rua Visconde de Porto Alegre. Isso se deu entre 1.967 e 1.968. Dois anos que valeram por quatro. No ano seguinte, em 1.969, sem que minha tia tivesse mais como continuar pagando escola particular para mim, pois a casa já estava cheia de netos para alimentar, e eu era mais uma boca,  “obrigado” por ela a ingressar na Escola Técnica Federal do Amazonas (ETFAM), para cursar o ginásio industrial. Fui desobrigado de estudar a 5ª série primária na ‘IES’.

Já na ETFAM desde 1.969, e daí pelos próximos quatro anos, fui literalmente obrigado a fazer oito cursos profissionalizantes: eletricidade; tipografia e encadernação; marcenaria e carpintaria; serralheria e soldas; mecânica de automóveis; e mecânica geral (tornearia, frezagem, furadeiras, limadeiras, desenhos arquitetônico, mecânico e em perspectiva, etc.).

Para um menino oriundo da várzea, acostumado com o campo, foi uma tortura ter de lidar com eletricidade, choque, maçarico, ferragem, tornos, etc.

Finalmente, entre 1973-76, na mesma ETFAM, cursei o ‘Técnico em Estradas’, e então, como já relatado, fui recrutado e selecionado como ‘topógrafo’ pelo INCRA, em 1975. Apos ter sido contratado pela SEMOB como Auxiliar de Engenharia entre 1972-73, após um ano de estágio.

Mas minha fixação era mesmo topografia.

Finda a digressão, voltemos ao caso do meu “degredo” para Tabatinga. O certo é que o ‘Zé Carioca’ “me pegou pra Cristo”.

No mesmo momento em que eu estava chegando em Tabatinga, em julho de 1.977, um grupo de funcionários do Banco do Brasil estava sendo transferido para Manaus, e seus integrantes gritavam da porta do avião: - “Adeus, desgraça! ”, referindo-se à “cidade de Tabatinga”. Isso me deu um “frio” na espinha...

Pelo menos fui bem recepcionado pelos meus novos colegas de trabalho no INCRA/Tabatinga. Mas, para meu espanto, ao chegar, fiquei sabendo que o tenente ‘R-2’ era o chefe do PIC-TBT. Estava explicado o grande interesse dele por mim. Por meu serviço. E em ir junto comigo no avião...

Em parte, a demarcação do PIC-TBT não progredia pela falta de um topógrafo. E foi assim que ele conseguiu um. Como não havia outro topógrafo mesmo, eu tive que assumir a chefia de mim mesmo e dei início ao planejamento dos trabalhos. Aliás, havia um outro funcionário contratado como topógrafo, mas que não sabia o que fazer nessa função. Não tinha experiência e nem treinamento. Era meu único funcionário. Os demais eram temporários, prestadores de serviços.

Em outras palavras, o outro “topógrafo” era um autêntico “servidor público”. Não era por culpa dele.

Resolvi ensiná-lo, treiná-lo. Tornou-se um excelente topógrafo graças à sua vontade de aprender aquilo que para mim já estava se tornando um “carma”. Até hoje o Repolho (sobrenome dele) segue na profissão de topógrafo. Não sei o que ele viu nisso... Mas me parece feliz. Vejo-o pelo Facebook.

Lembrei-me do que meus colegas do INCRA de Manaus me disseram: - “Vvais regredir em Tabatinga”!

Decidi progredir. Comprei bons livros: de História Geral e do Brasil; de Geografia Geral e do Brasil; de Espanhol; etc. Estudei muito. Afinal, o que mais se tem numa “penitenciária” é tempo. Tabatinga para mim foi como se fosse uma penitenciária a céu aberto.

Li a Bíblia quatro vezes. Uma delas em espanhol. Me tornei erudito em bíblia espanhola.

Aprendi a falar “Piél Roja” estampada na carteira de cigarro (ou melhor, ‘cigarrillo’) que me apresentaram e me desafiaram a falar aquela palavra, que era também uma famosa marca de cigarro colombiano. Estas foram as “boas vindas” que os meus novos colegas de INCRA me propuseram logo ao chegar em Tabatinga. Para verem se eu aprenderia ou não o ‘portunhol’ praticado naquela tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

Acabei passando mais tempo em Letícia, capital da Província ‘del Amazonas” – Colômbia. Com o câmbio favorável, na razão de $ 2,5 x 1, passei a luxar em Letícia.

Ao contrário do meu colega Ernani, agrônomo, que comprou um curso de Inglês e enchia o saco ouvindo as aulas, eu me dediquei ao espanhol. Consegui falar fluentemente.

Tanto estudo autodidata me fez passar em mais dois vestibulares após retornar a Manaus em 1.979/80. Até hoje sou autodidata. Consigo aprender “qualquer coisa”. Até “japonês em braule da música do Djavan.

Como se podem ver, nem tudo foi péssimo para mim em Tabatinga. Tem a história de minha esposa Suderly, a qual fui buscar em Manaus em junho de 1978. Chegando em Tabatinga, ela chorava o dia todo pela falta da mãe e pela “cidade” em si. Fiquei com peso na consciência. Aí, resolvi fazer um filho nela para “lhe mostrar quem sou” (Cazuza) e a coisa ficou ainda pior: agora ela chorava e vomitava o dia todo...

Num “belo” dia, chegou no PIC-TBT um major aviador e perguntou com aquela arrogância que somente os militares sabem demonstrar: - “Quem é o topógrafo? ”. Todos sabiam, inclusive eu, que somente existia um: eu mesmo. O outro ainda não se podia ser acusado disso. Pensei: minha “má fama” já correu a fronteira...Assim, como somente restava eu, me acusei: - “Sou eu! ”. Então aquela figura aterradora do major me falou: - “O comandante está chamando você lá no QG”.

Me despedi de todos e novamente fui conduzido “sob vara” – desta vez em um jipe da PE do exército – para falar com um coronel e comandante. Pensei: - "Será que vai me mandar para a ‘Cabeça do Cachorro?". Fui então ingressado pelo major na imponente sala do coronel Berg, comandante do QG, o qual, para minha completa surpresa e posterior deboche, era quase um “anãozinho”, de voz fina como a do lutador Anderson. Ele fez a mesma pergunta do major – como a duvidar de mim: – “Você é o topógrafo? ”. Eu não podia negar, mas me perguntei: - “Por que diabos eu havia de me ‘apaixonar’ por essa desgraça de profissão de topógrafo”? Respondi ao Coronel como da outra vez havia respondido ao major - já duvidando de mim mesmo: - “Já disse que Sou eu”! (lembrei-me também de Jesus no Getsêmane - que Ele me perdoe pela blasfêmia!). Só faltou-me perguntar: - “A quem buscais”?

 O “coronelzinho” Berg então me falou com aquela voz fina de castrato - mas mesmo assim arrogante dentro do possível para ele -: - “VOCÊ VAI DEMARCAR A ÁREA DE TREINAMENTO DO CF-SOL (Comando de Fronteira do Solimões) ”! Eu, então, mal disfarçando a vontade de rir, disse a ele - empostando a voz de ‘baixo profundo’: - “SIM, SENHOR CORONEL”! (Rá-rá-rá...).

Ele, então, vendo que já “havíamos nos entendido”, perguntou: - “Então, do que você vai precisar”?

Disse-lhe que precisaria de gente para abrir picadas na selva e fazer todo tipo de serviços próprios de demarcação topográfica. O coronel então me disse que eu comandaria um ‘pelotão’ de ‘cabos velhos’, composto por ex-combatentes no Araguaia uma década ante (o que me soou como ameaça!).

Falou para o seu intendente me passar todas aquelas ‘tralhas’ de selva (kit com rede, talheres, prato, garfo, faca, cantil, etc., e, de maneira especial, mandou o intendente me entregar um uniforme de capitão. Afinal, precisaria de alta patente para comandar ‘cabos velhos’. Todos eles ‘especializados’ em matar guerrilheiros do PCdoB, segundo eles mesmos. Pronto! De maneira inusitada, passei de topógrafo ‘proscrito’ pelo INCRA a ‘capitão’ do exército brasileiro. Passei dois anos nessa função, que me fizeram ‘especialista’ em sobrevivência de selva. E olha que houvera eu sido dispensado de servir nesse mesmo exército por “insuficiência física”.

Depois, quando comecei a comer (bem e muito!), passei facilmente a pesar 70 kg, que os conservo até hoje. Sob os apupos de minha médica e de minha nutricionista. Coitadas! Não sabem o que é a memória de um ex-faminto.

Assim é que demarquei quatro áreas de terras naquela amada fronteira – que hoje delimitam a cidade de Tabatinga:

- Ao Norte, fica a área de treinamento do exército (CF-SOL); - ao Sul, a cidade do Marco Tabatinga e o Rio Solimões; - a Leste, fica a reserva indígena dos Ticunas; e a - Oeste, a reserva indígena dos Tacanas. É só verificar no mapa da cidade de Tabatinga.

Conforme o prometido em julho de 1.979 pelos milicos de Manaus, após eu demarcar o PIC-TBT, retornei a Manaus para outras histórias que renderão pelo menos mais alguns capítulos sobre a minha conturbada, rica e pobre vida de matuto, topógrafo, administrador, advogado e professor.

Há, sim, passei a amar aquela fronteira. E o major aviador se tornou, por conta própria, meu ‘amigo’ e me levava com ele, como seu copiloto, no avião anfíbio Catalina, da segunda guerra mundial, toda vez que ele ia levar rancho para os pelotões de fronteira ao longo dos 400 km, desde Tabatinga até a Cabeça do Cachorro. De certa forma, acabei indo parar na “Cabeça do Cachorro”...

O "desgraçado" do major gostava de me mostrar “o quanto viajar de avião era seguro”, principalmente naquele Catalina da II Guerra Mundial: segundo ele, porque aquele avião “tinha dois comandos; dois motores; dois tanques de combustíveis; voava sobre os rios; planava (desligava os motores para me mostrar); voava baixo, enfrentando as turbulências das tempestades”...

Por conta desse “miserável”, nunca mais tive medo de voar de avião.