< Capítulo VI >
O REGRESSO
Meu retorno de Tabatinga para o INCRA de Manaus, em agosto de 1.979, foi para mim uma dupla vitória: calei a boca das ‘Cassandras’, que diziam que eu “iria regredir” em Tabatinga (o que era bastante provável dada a sua localização geográfica), naquele “fim de mundo” perdido na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia e passei em outro vestibular.
Em Tabatinga predominam até hoje as atividades militares.
São
muitas as notícias de contrabando; de tráfico de drogas.
Para se ter uma ideia da “longitude” desse lugar, naquela época as comunicações entre o ‘PIC-TBT’ e o ‘PF-Manaus’ se davam via rádio. Por isso, aprendi o código alfabético utilizado nesse tipo de comunicações: ‘Alfa’, ‘Beta’, ‘Charles’... E por aí vai. O nosso “endereço” via rádio era: “papa-índia-charles” (PIC) “tango-beta-tango” (TBT). Quem comandava o rádio do PIC-TBT era o funcionário e ex-jogador de futebol “Tapioca”.
O tenente ‘R-2’, que era o Executor do PIC-TBT, tinha uma ‘pinimba’ desgraçada com o Tapioca. Dava “mijadas” homéricas nele. Eu sentia muita vergonha alheia por causa disso. Mas o Tapioca iria se vingar disso. Como o Tapioca era também o responsável pelas cópias “xerox” da repartição, montou um dossiê contra o ‘R-2’ e entregou-o na Polícia Federal, cuja delegacia ficava no outro lado da Av. da Amizade (única e principal via urbanizada de Tabatinga na época), que fazia a interligação com Letícia, capital colombiana do ‘Departamento del Amazonas’.
O ‘R-2’, no final de 1.977, tomou a fatídica decisão de sacar todo o dinheiro do ‘PIC-TBT’ que era destinado ao custeio dos serviços de abertura das estradas vicinais do PIC, e guardá-lo nas gavetas da repartição. Todos ficaram sabendo disso. Tapioca inclusive. A “justificativa” dada pelo ‘R-2’ era a falta de tempo para realizar os serviços regularmente. Assim, com esse dinheiro “vivo” em mãos, passou a fazer os serviços por meio de prestadores de serviços locais, sem os cuidados licitatórios regulares.
Como o ‘R-2’ tinha outra atividade burocrática na Sede do INCRA em Manaus, como Chefe do ASI-SNI, era muito ausente do PIC-TBT, deixando em seu lugar um substituto que comandava a Administração e a contabilidade. Deixava também com ele toda aquela dinheirama e recibos assinados em branco, para que este fizesse os pagamentos dos serviços já mencionados e pegasse as assinaturas dos prestadores dos serviços nesses ‘recibos’, e assim montasse as prestações de contas.
Essa, digamos, documentação, caiu nas mãos do Tapioca, que montou o mencionado ‘dossiê’ e entregou-o na PF. Por essa causa, o ‘R-2’ caiu... O ‘R-2’ se viu às voltas com sindicâncias, processos administrativos, etc., e foi exonerado das funções que exercia no serviço público federal.
Com
isso aprendi uma lição: ter muito cuidado com servidor público magoado.
O
‘R-2’ foi substituído por um engenheiro agrônomo do INCRA chamado Manoelito.
Era
radicalmente o oposto do ‘R-2’. Tratava bem todo mundo. Não se envolvia em
polêmica.
Voltando
ao ponto do meu retorno a Manaus...
Como já mencionei, o meu retorno ao INCRA de Manaus (PF-Manaus), em agosto de 1.979, representou para mim uma dupla vitória. Primeiro, porque consegui demarcar não apenas o Projeto Integrado de Colonização do INCRA de Tabatinga (PIC Tabatinga); segundo, porque também demarquei a área de treinamento do CF-SOL (localizada ao Norte do PIC); demarquei também as duas reservas indígenas daquela localidade: a reserva dos Tacanas, a Oeste do PIC; e a reserva dos Ticunas, a Leste do PIC.
De
sorte que a cidade do Marco-Tabatinga restou demarcada como um enclave ao Sul (banhada pelo Rio
Amazonas). Isso está bem definido no mapa de Tabatinga.
Outra
vitória pessoal minha foi o extremo preparo que adquiri para passar em concurso
vestibular: passei para ‘Administração Noturno’, em dezembro/janeiro de 1979;
e, depois, para ‘Direito Noturno’, em dezembro/janeiro de 1.985. Dois cursos até hoje bastante prestigiados e disputados pelos concurseiros. Portanto, NÃO REGREDI!
Progredi!
Ao
mesmo tempo em que eu prestava vestibular, nascia meu primeiro filho, Adriel, em 02/01/1.980. Tive mais dois filhos com a d. Suderly: André (1.981) e Alexandre
(1.985). Tive ainda outros dois filhos de outro relacionamento: Daniel (1.990) e
Eduardo (1.991); e ainda a Bruna (2.000) em Manacapuru. A Alice nasceu em 2.006. Minha mãe Alzira morreu nesse mesmo ano, aos 84 anos, sem conhecer a neta. Minha última filha, Clara, nasceu em 2.010. A todos eles
dedico esta crônica.
Eu
havia perdido o interesse em retornar ao curso de ‘Matemática’, que foi deixado
para trás em 1.977, e passei a cursar minha nova paixão: ‘administração’.
Contudo,
parece que “o INCRA” não queria mesmo que eu estudasse.
Meu chefe Sarmento me mandava para o interior resolver questões de terras a cada quinze dias. Dessa forma, eu não conseguia estudar. Isso forçou a que eu buscasse me transferir para o recém-criado ‘Instituto de Terras do Amazonas’ (ITERAM), para onde vários colegas meus de INCRA já haviam se transferido.
Para
isso, entrei em acordo com meu chefe do PF-Manaus-INCRA, Alfredo Goulart Sade, e este mandou me
demitir em maio de 1.980.
Assim é que, com muita relutância, deixei o INCRA e fui trabalhar no ITERAM, que foi para mim como se fosse uma “sucursal” do INCRA, pela quantidade de ex-colegas do INCRA que se transferiram para esse Instituto de Terras. No ITERAM trabalhei por quase cinco anos, tempo suficiente para me formar em Administração, o que ocorreu em julho/agosto de 1.984. Sou muito grato a Deus e ao ITERAM por isso.
No entanto, como um carma, minha demissão do ITERAM se deu no mesmo ano no qual me formei em ‘administração’. Essa demissão foi bastante traumática para mim. Ser demitido nunca é uma boa experiência! Isso ocorreu em razão de politicagem, que passo a relatar a seguir.
No ITERAM, além do cargo de topógrafo, assumi funções comissionadas como chefe da ‘Seção de Levantamentos’ (topografia) e chefe do ‘Departamento de Cartografia’. Nessas funções, fui “obrigado” a produzir resultados técnicos com efeitos eleitorais, utilizados na campanha eleitoral de 1.982, primeira eleição estadual após o Regime Militar. Fui obrigado a elaborar enorme quantidade de ‘títulos definitivos’ (TDs), tanto em Manaus quanto no interior do Estado, para entregar durante o período eleitoral.
Também foi muito utilizada politicamente a nova ‘divisão territorial’ do Estado do Amazonas nos atuais sessenta e dois municípios. Por esse trabalho cartográfico, tenho muito orgulho de ter participado juntamente com uma equipe multidisciplinar, que incluía: cartógrafos; agrônomos; agrimensores; geógrafos; antropólogos; sociólogos; engenheiro civil; advogados; etc. Por essa redivisão territorial, seriam criados quinze novos municípios. No entanto, apenas cinco deles foram efetivamente instalados em 1.985: ‘Apuí’; ‘Rio Preto da Eva’; ‘Presidente Figueiredo’; ‘São Sebastião do Uatumã’; e ‘Itamarati’. Os demais foram considerados ‘inconstitucionais’ pelo STF, uma vez que não possuíam os requisitos para se transformarem em município, quais sejam, ‘população’ e ‘renda’. O governador Lindoso inverteu essa lógica justamente para levar desenvolvimento para essas regiões por meio do Fundo de Participação do Municípios (FPM) e outras rendas.
Fui
eu que tracei os arruamentos de ‘Rio Preto da Eva’ e de ‘Presidente
Figueiredo’.
Como já foi dito, além da redivisão territorial do Amazonas, fui “obrigado” a produzir ‘Títulos Definitivos’ (TDs) de terras a rodo, a fim de servir de lastro político para o candidato do governador José Lindoso, o deputado estadual e radialista Josué Filho. Um político astuto e pragmático que acabou apoiando o governo de Gilberto Mestrinho e mais tarde se elegeu deputado estadual. Foi guindado a conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Também fui “obrigado” a informatizar a Cartografia do ITERAM. Como nessa época não haviam programas disponíveis, me obriguei a tornar-me ‘programador de computador’, utilizando a linguagem ‘Basic’. Aprendi com isso que toda “crise” traz juntamente as ‘oportunidades’. Sempre as aproveitei em minha vida. Essa eleição de 1.982 acabou fazendo com que o ex-governador Gilberto Mestrinho retornasse à cena política do Estado pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB).
Quando
este assumiu, substituiu a direção do ITERAM por pessoas interessadas em outras
questões não-técnicas, e que me envolveram em questões políticas, passando a me
tratarem como adversário político. Como agente do Partido Democrático Social (PDS), o partido que substituiu a Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Acabei demitido. Foi uma experiência terrível para mim. Com dois filhos ainda bem novos, tive de vender o carro.
A minha formatura em administração, em agosto de 1.984, permitiu o meu rompimento com cargos de nível médio, me forçando a ir em busca de
assunção de cargos superiores, já como ‘administrador’.
Meu professor ‘Felismino Soares’, de grata memória, me levou com ele para o recém-criado ‘Conselho de Contas do Município’ (que viria a ser o ‘Tribunal de Contas do Município, depois extinto); mas fiquei pouco tempo com o ‘Felismino’ em razão do convite feito a mim pelo meu ex-colega e Diretor Técnico do ITERAM, Johnny De Carli, o qual tinha assumido a ‘Diretoria Executiva’ da ‘Fundação Centro de Apoio ao Distrito Agropecuário’ (FUCADA), da SUFRAMA. Ele me convidou para que eu assumisse meu primeiro cargo superior como ‘administrador’, na FUCADA.
Portanto,
de ‘desempregado’, passei a ‘administrador’. Passei a ganhar não mais os seis
salários mínimos de piso como ‘técnico de nível médio’, mas sim os mais de
quinze salários mínimos como administrador. Deus
sabe o que faz. Fé não costuma “faiá”...