Publicado na editoria Nacional do Estadão
Por Gabriel Manzano, enviado especial a Puebla, no México
Por Gabriel Manzano, enviado especial a Puebla, no México
No México, onde participa da Reunião de Meio de Ano da Sociedade
Interamericana de Imprensa (SIP), o ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso falou ao Estado sobre a antecipação da campanha presidencial. O PSDB, disse, não teve alternativa e lançou Aécio Neves.
Lula lançou Dilma à reeleição, o sr. lançou a de Aécio Neves. A campanha foi antecipada. Isso não tem um custo político?
Tem custo sim, político e administrativo. Lula precipitou o processo sucessório, aí os outros partidos não têm alternativa.
Nós não tínhamos intenção de precipitar uma candidatura. Estávamos
prestigiando o nome do Aécio para um debate interno. Mas eu nunca vi
quem está no governo precipitar uma eleição, já que atrapalha a
governabilidade.
Tudo que a presidente Dilma fizer daqui por diante será atribuído a
intenções eleitorais. Não sei o que levou o Lula a essa precipitação.
Talvez seja porque ele gosta de campanha! A preocupação do governo não
era com a oposição, era com a fragmentação das suas próprias forças.
Aécio abraçou a defesa de seu legado. Nem José Serra nem Geraldo Alckmin fizeram isso. O que mudou dentro do PSDB?
Talvez tenha chegado um momento em que seja mais fácil avaliar o que
fizemos, não ter medo do que fizemos. Nós modernizamos a economia.
As privatizações vieram de uma maneira correta. Restabelecemos a
competitividade das agências do governo, do Banco do Brasil, a
Petrobras. Melhoramos muito a educação, organizamos o SUS, começamos a
transferência de renda.
As pessoas esquecem que o programa do Lula não era transferência de
renda, era o Fome Zero. Que foi engavetado! E aderiram ao que nos
tínhamos começado.
Enfim, por que não defender o que nós fizemos? Agora, isso não pode
ser a base de uma campanha eleitoral. Campanha tem de ser feita olhando
pra frente, não pra trás. O programa do PSDB, então, deve ser:
reconhecer o que fizemos, mas vamos adiante. Tem muita coisa que fazer.
Que coisas?
Quando fizemos nos anos 90 o que nós fizemos, o pessoal do PT, da
esquerda, e também de outros partidos, não entendeu a globalização.
Acharam que era outra vez o imperialismo, que era o neoliberalismo.
Confundiram um processo histórico com uma ideologia.
E me acusaram, quando eu estava ajustando o Brasil à nova condição
histórica, como se fosse uma posição ideológica a favor do
neoliberalismo, posição que eu nunca tive.
Agora, de novo, vamos sair dessa crise. É um novo momento, que
precisa de ajustes. Primeiro, quem é que vai puxar a economia de novo?
Parece que serão os EUA. O que o Brasil vai fazer com o pré-sal?
Continuar marcando passo? Enfraqueceram a Petrobras e se embrulharam
todos.
Pararam a infraestrutura, porque não fizeram o que tinham de fazer,
que eram as concessões. Agora fazem envergonhadamente, mal feito. O PSDB
tem de recomeçar dizendo: “Olha, eles estavam errados, nós sabemos
fazer”. O fato é que fazem errado porque não acreditam no que estão
fazendo. Nós acreditamos, deixe que a gente faça!
Macroeconomia não sensibiliza o eleitor. Embora o cenário
seja delicado – inflação, PIB, ritmo lento do PAC -, qual discurso terá o
PSDB para atrair votos?
O que sensibiliza o eleitor é quando mexem no bolso dele, coisas como
emprego e renda. Esses fatores todos mencionados vão terminar tendo
efeito sobre emprego e renda.
Na verdade, já estão tendo. A renda per capita em 2012 não subiu. E
agora as famílias estão endividadas. O PSDB tem que dizer: “Você que
está endividado, eu vou resolver esse problema”.
Lula e Dilma têm altos índices de aprovação. O PSDB será competitivo em 2014?
Lula e Dilma, em todas as disputas, foram para o 2.º turno.
O xadrez pode ter 4 peças, com Eduardo Campos e Marina.
Sendo quatro, o 2.º turno é uma grande probabilidade. Não sei qual
será a capacidade do Eduardo de arrancar votos. O ponto de partida dele é
Pernambuco. O do Aécio é Minas. A Marina tem uma presença forte e tem
uma causa que, eu acho, vai continuar entusiasmando.
Desses três, no momento, eu aposto no Aécio. Mas o mais importante é
que, havendo 2.º turno, as forcas políticas que estiverem no embate
entendam que a alternância do poder é fundamental.
Acho que vinte anos de governo do PT bastam, não? Chegou a hora de
mudar. Espero que tanto o PSDB, quanto Marina e Eduardo entendam isso.
Pode voltar mais tarde. Eu não sou raivoso de achar que o PT é o fim do mundo, não é. Mas tem de haver alternância.
Numa candidatura de Aécio, o sr. vai viajar, subir em palanque?
Não, não. Cada um tem seu estilo. Depois que deixei a Presidência não
fui candidato a mais nada. E o Lula me dando conselhos sempre, que eu
devia calar a boca (risos).
Nunca calei nem vou calar. Não me cabe estar no dia a dia da luta.
Vou fazer o que eu faço. Discutir estratégia, dar minha opinião com
clareza, mas não ir pra rua.
E sabe por quê? Porque não precisa. Às vezes a pessoa vai por vaidade.
Mas o sr. entrou no bate-boca, ora com Lula, ora com Dilma. Por que se chegou a isso?
Primeiro com a Dilma: pessoalmente sempre tive boas relações com ela,
que sempre foi bastante correta comigo. Foi generosa no meu
aniversário. Não tenho nenhuma restrição pessoal. Sabe como é a
política, ora recua e é agressiva, eu também recuo. Pode ver que eu
nunca tenho replicado a Dilma. Prefiro ter uma relação boa com ela, uma
coisa pessoal.
Com o Lula é diferente… Nós nos conhecemos há tantos anos, já fica
aquela picuinha, é sempre mais do mesmo. Ele gosta de fazer picuinha
comigo.
A Dilma não tem essa picuinha. Não precisava nada disso. O Lula tinha
que entender que nós dois somos dois personagens, que não estamos mais
no principal….
Uma vez, o Chico Caruso me disse que as pessoas que estão no final
ficam aflitas porque nao vão mais ser mais caricaturadas. O Lula quer
ser caricaturado. Então ele me dá um beliscão, pra eu dar outro nele.




















