
MACROMINISTÉRIO
-- Dilma (na foto, com governadores), seus 39 ministérios e os mais de
20.000 altos funcionários de "livre nomeação" não vieram com uma única
ideia (Foto: Roberto Stuckert Filho)
Artigo publicado em edição impressa de VEJA
O FIM DO RESTO
Um caderno de anotações sobre os fatos que vêm
acontecendo no Brasil durante as três últimas semanas poderia conter,
com bastante precisão e dentro da “margem de erro” tão útil aos
institutos de pesquisa, o registro das seguintes realidades:
♦ A presidente Dilma Rousseff simplesmente não está à altura da
situação que tem o dever de enfrentar. Não sabe o que fazer, o que acha
que sabe está errado, e, seja lá o que resolva, ou diga que está
resolvendo, não vai ser obedecida na hora da execução.
O momento exige a grandeza, a inteligência e os valores pessoais de um estadista. Dilma não tem essas qualidades.
O autor deste artigo também não sabe o que deveria ser feito — para
dizer a verdade, não tem a menor ideia a respeito. Em compensação, ele
não é presidente da República.
♦ A mais comentada de todas as propostas que a presidente anunciou
para enfrentar a crise foi um misterioso plebiscito, do qual jamais
havia falado antes, para aprovar uma nova Assembleia Constituinte
destinada exclusivamente a fazer uma “profunda reforma política”.
Não houve, também aqui, a mínima preocupação em pensar antes de
falar, para ver se existiria alguma ligação entre essa ideia e a
possibilidade real de executá-la dentro das leis vigentes. Não existia, é
claro.
Resultado: a proposta de Dilma morreu em 24 horas, afogada num coro
de gargalhadas. A hipótese otimista é que o governo esteja a viver, mais
uma vez, um surto agudo de desordem mental e descontrole sobre seus
próprios atos.
A pessimista é que o PT, sob o comando do ex-presidente Lula, esteja querendo empurrar Dilma para uma aventura golpista.
♦ A única “reforma política” que o PT quer fazer, como se sabe há
anos, é a seguinte: tirar do eleitor brasileiro o direito de escolher os
deputados nos quais quer votar, obrigando a todos a votar numa “lista
fechada” e composta exclusivamente de nomes que os donos dos partidos
escolherem; “financiamento público” para as campanhas, ou seja, sacar
dinheiro do Tesouro Nacional e entregá-lo diretamente aos políticos nos
anos eleitorais.
Além dos milhões que já recebem pelo “caixa dois” das empresas
privadas (e que o próprio Lula, numa “entrevista” armada durante o
mensalão, considerou algo perfeitamente normal), receberiam também
dinheiro que vem direto do contribuinte.
♦ A “reforma” Lula-PT não propõe nenhuma mudança, uma única que seja,
em nada daquilo que a população realmente quer que mude, e que tem sido
um dos alvos principais da ira das ruas: o fim de qualquer dos
privilégios grotescos dos parlamentares, como automóvel, casa de graça,
verbas que podem gastar como quiserem, e que acabam sistematicamente no
próprio bolso ou no de sua família.
Podem faltar quanto quiserem. Vendem ou alugam seus assentos a “suplentes”.
A reforma petista mantém o absurdo sistema eleitoral que nega ao
cidadão brasileiro o direito universal de “um homem, um voto”. Recusa o
voto distrital, adotado em todas as democracias verdadeiras do mundo.
Nada disso: num ambiente de catástrofe, em que até uma criança de 10
anos sabe que o povo tem pelos políticos uma mistura de asco, desprezo e
ódio, o PT quer dar ainda mais dinheiro a eles.
♦ A presidente disse que “está ouvindo” os indignados que foram às ruas. Mas não está.
Se estivesse, não existiria, em primeiro lugar, o inferno que é a
vida diária de milhões de brasileiros, a quem o governo ignora; porque
dá o Bolsa Família, anuncia vitórias imaginárias e acha que governar é
fazer truques de marquetagem, convenceu-se de que o povo está muito bem
atendido.
Escutando os protestos?
Ainda em março, Dilma recusou uma suíte de 80 metros quadrados num
hotel de luxo da África do Sul, por achar que era pequena demais. A
culpa, é claro, foi passada ao Itamaraty.
Mas, quando o fato se tornou conhecido, a presidente não disse
nenhuma palavra de desculpa, nem mandou o Itamaraty tomar alguma
providência para que um fato assim não se repita.
Foi adotada uma única medida: de agora em diante o governo não vai mais revelar nenhum dado das viagens presidenciais.
♦ Ao longo de vinte dias, Dilma, seus 39 ministros e os mais de 20
000 altos funcionários de “livre nomeação” do governo não vieram com uma
única ideia que pudesse merecer o nome de ideia.
Suas propostas demoraram até a semana passada para aparecer — e,
quando enfim vieram, anunciaram coisas desconectadas com a realidade ou
entre si próprias, pequenas na concepção e nos objetivos,
incompreensíveis ou apenas tolas.
Foram tirando ao acaso de uma sacola, e jogando em cima do público,
as miudezas que passaram por seu circuito mental nestes dias de ira:
mudar a distribuição de royalties do petróleo, importar 10 000 médicos
estrangeiros, punir a “corrupção dolosa” como “crime hediondo” (Dilma,
pelo jeito, imagina que possa haver algum tipo de corrupção não dolosa),
dar “mais recursos” para isso ou aquilo, melhorar a “mobilidade
urbana”. É puro PAC.
♦ No jogo jogado, tudo isso quer dizer três vezes zero.
Numa hora dessas eles vêm falar em royalties, assunto técnico que
exigirá meses ou anos para ser reformulado? Importação de médicos? Só
agora descobriram que faltam médicos no serviço público por causa da
miséria que lhes pagam? Só depois que o povo foi para a rua perceberam
que a corrupção é um crime abominável?
Se os que mais roubam estão dentro da máquina do governo, como
acreditar num mínimo de sinceridade nesse palavrório todo? A presidente e
seu entorno anunciaram medidas que só o Congresso pode aprovar. Outras
dependem do Judiciário, ou de Estados e prefeituras. O que sobra é o fim
do resto.
♦ Os números apresentados até agora não fazem nenhum sentido.
Falou-se em aplicar “50 bilhões” de reais em obras de “mobilidade
urbana”. Que raio quer dizer isso? Parece que se trata de melhorar o
transporte em metrô, trens e ônibus — mas não existe a mais remota
informação concreta sobre como fazer isso na prática, nem onde, nem
quando.
Não é uma providência de verdade; é apenas uma cifra chutada e um
amontoado de dúvidas. O trem-bala, por exemplo — será que entra nessa
conta?
Há algum projeto de engenharia pronto para alguma obra a ser feita?
Alguém no governo sabe dizer onde estão os tais “50 bilhões”?
Não é surpresa que um grupinho de garotos do Movimento Passe Livre
tenha saído de um encontro com Dilma dizendo que ela é “completamente
despreparada” no assunto. Os números citados para a saúde são igualmente
desconexos: 7 bilhões de reais para “20 000” unidades de atendimento
médico.
Quais unidades? Onde? Esses “7 bilhões”, se existissem, equivaleriam a
20% do que se estima que será gasto nas obras para a Copa de 2014. Dá
para entender? É a fé cega na incapacidade do povo brasileiro em fazer
contas.
♦ A marca mais notável da defesa que o governo fez de si próprio,
durante estes dias de revolta, é que não há uma defesa. Pedem que o povo
reconheça as “transformações” que fizeram no país. Quais?
Após dez anos de governo popular do PT, o Brasil está em 85º lugar no
IDH — subiu apenas 5% em todo esse tempo, e teve crescimento
praticamente nulo durante os anos Dilma.
Isso ocorreu num período de dramáticos avanços na renda de todos os
países pobres: apenas entre 2005 e 2011, 500 milhões de pessoas saíram
da pobreza em todo o mundo.
O governo do petismo transformou o Brasil num país com 50 000
assassinatos por ano, e onde 75% da população não é capaz de entender
plenamente o que lê. A rede pública de saúde foi transformada num
monstro em que o cidadão pode esperar seis meses, ou um ano, por um
exame clínico, e pacientes aguardam atendimento jogados no chão de
hospitais, como se vivessem num país em guerra.
A transformação do sistema portuário criou um Brasil que não consegue
embarcar o que produz nem desembarcar o que compra lá fora.
Conseguiram, até, transformar o significado da palavra “corrupção”, ao
venderem a ideia de que qualquer denúncia contra a roubalheira do
governo é “moralismo” — ou seja, o erro é denunciar o erro.
♦ As ruas iradas de junho deixaram à vista de todos um fato que muita
gente já sabe, mas quase nunca é mencionado: o ex-presidente Lula é um
homem sem coragem. Líderes corajosos jamais se escondem nas horas de
difi culdade brava. Ao contrário, vão para a frente, tomam posição nos
lugares mais arriscados, e assumem a luta em defesa do que acreditam.
Não ficam escondidos da população, fazendo seus pequenos cálculos
para descobrir o lucro ou prejuízo que teriam ao aceitar suas
responsabilidades — pensam, apenas, no seu dever moral, nos seus
princípios e nos seus valores.
Coragem é isso — e isso Lula não foi capaz de mostrar.
Onde está ele?
Na hora em que o Brasil mais precisou de uma liderança em sua história recente, o homem sumiu.
Vive dizendo que não há no mundo ninguém que saiba, como ele, subir
no carro de som ou no palanque e “virar” qualquer situação de massas. Na
hora de agir, trancou-se na segurança do seu esconderijo.
E a “negociação” — na qual também se julga um ás incomparável —, onde foi parar?
Para quem tem certeza de que negociou “a paz no Oriente Médio”, Lula
teria de estar desde os primeiros momentos tratando de montar algum tipo
de negociação.
Na vida real, limitou-se a cochichar com subalternos, dar palpite e
falar mal dos outros. Lula sempre fez questão de achar “inimigos”. Pois
achou, agora, todos os que poderia querer.
♦ Ficou claro que o governo está errando há dez anos na avaliação que
faz da imprensa livre. Confundiram tudo: acharam que a internet, com a
sua audiência sem limites, estava anulando jornais e revistas, quando na
verdade tem feito exatamente o contrário: reproduz o que sai na
imprensa para milhões de pessoas que não leram o noticiário escrito.
E agora?
A internet mostrou-se um multiplicador incontrolável do conteúdo da
imprensa, e a mais poderosa alavanca de notícias que jamais se viu no
país.
Vídeos amadores, diversos deles falados em inglês com legendas em
português e dirigidos aos internautas do mundo todo, apresentaram
denúncias devastadoras e bem articuladas sobre a insânia governamental
que levou o povo à rua.
Em apenas uma semana, de 14 a 21 de junho, um desses vídeos, entre
dezenas de outros, teve mais de 1,3 milhão de visualizações. Todas as
informações que estão ali foram tiradas da imprensa livre.
O governo não entendeu nada. Mas desta vez não teve como mentir: não
conseguiu dizer que as manifestações eram invenção da “imprensa de
direita”.
♦ Os descontentes de junho mostraram mais uma vez, como a Bíblia nos
diz em Provérbios 16:18, que “a soberba vem antes da queda”.
Nunca, possivelmente, o Brasil esteve sob o comando de gente tão
soberba quanto Lula, Dilma e os barões do PT, e tão à vontade em exibir
sua arrogância.
Estão levando, agora, o susto de suas vidas, ao descobrirem que
marquetagem, demagogia e exploração da ignorância não são mais
suficientes para desviar a atenção do povo para o desastre permanente
que causam ao país.
Espantam-se que o povo faça contas — e se sinta roubado com uma Copa
do Mundo que pode acabar custando até 35 bilhões de reais, mais do que
as últimas três somadas.
Espantam-se que as suas esperanças de livrar da cadeia, com velhacaria jurídica, os mensaleiros mais graúdos estejam desabando.
Espantam-se ao saber que muita gente está cada vez mais cheia de
gastar cinco horas diárias para ir ao trabalho e voltar para casa.
Desafiaram o ensinamento básico de Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a
todos durante algum tempo; pode-se enganar alguns durante todo o tempo;
mas não se pode enganar a todos durante o tempo todo”.
Estão colhendo o que semearam.