Vejam o que AUGUSTO NUNES escreveu sobre o caso 'Receitagate":
“Sigam o dinheiro”, recomendou o informante Deep Throat aos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein. A dupla do Washington Post atendeu ao conselho, descobriu os laços que atavam os invasores da sede do Partido Democrata no Edifício Watergate ao Salão Oval da Casa Branca e localizou o caminho que a levaria a produzir a melhor reportagem investigativa da história ─ e encurtaria a vida política do presidente americano Richard Nixon.
Sigam o telefone, recomendaram nesta quinta-feira três ex-diretores da Receita Federal. Talvez sejam ouvidos pelos encarregados de investigar o estupro do sigilo fiscal de quatro aliados do ex-governador José Serra, consumado em 8 de outubro de 2009. Familiarizados com os labirintos e catacumbas do Fisco, os informantes sustentam que a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a própria Receita sabem o suficiente para que o caso seja inteiramente esclarecido em poucas horas. Para identificar-se os arquitetos da delinquência, basta percorrer o atalho sinalizado por extratos de contas telefônicas.
Sabe-se que a arma do crime foi o computador usado por Adeilda Ferreira dos Santos, funcionária da Receita Federal em Mauá. Sabe-se que a senha que permitiu o acesso ilegal pertence a Antonia Rodrigues dos Santos Neves Silva, chefe regional e ex-secretária-geral da Delegacia Sindical de Santo André/São Bernardo. Sabe-se que a primeira violação ocorreu às 12h27 de 8 de outubro, e que as três seguintes foram consumadas em 16 minutos.
“É claro que a história não para em Mauá”, constata um ex-diretor familiarizado com os labirintos e catacumbas da Receita. “O sigilo foi violado a pedido ou por ordem de alguém com mais poder. E quem faz esse tipo de coisa telefona imediatamente para o mandante”. Os investigadores só precisam conferir os telefonemas registrados no dia do crime. “Os responsáveis pelo processo administrativo tem de solicitar o quanto antes a quebra voluntária do sigilo telefônico de todos os nomes que apareceram nas investigações, começando por Antônia e Adeilda”, sugere um segundo informante. “Quem não estiver envolvido ficará feliz com a chance de provar a inocência. Quem quiser preservar o sigilo tem culpa no cartório”. Simples assim.
Pelo que fez até agora, sobretudo pelo que deixou de fazer, a direção da Receita não pretende descobrir coisa alguma antes da eleição. O comando do PT, para preservar a imagem do partido, promete processar José Serra por calúnia e difamação. O presidente Lula procura rebaixar um fato gravíssimo a “factóide”. Dilma Rousseff se queixa do “baixo nível da campanha” e já desconfia de que a trama contra José Serra foi coisa do PSDB. De onde menos se espera é que não vem nada mesmo.
Cumpre à Polícia Federal e ao Ministério Público desmontarem a manobra velhaca que um estagiário do FBI talvez desvendasse em dois dias. Os suspeitos são os de sempre, e estão onde sempre estiveram. Os que mentiram desde sempre seguem mentindo. O dossiê forjado contra Serra veio da mesma fábrica que produziu o dossiê contra Fernando Henrique e Ruth Cardoso, ou o papelório dos aloprados.
Os estupradores do sigilo fiscal dos quatro aliados do candidato tucano formaram-se na mesma escola que diplomou o estuprador do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. O cortejo dos escândalos, dossiês e infâmias variadas precisa ser interrompido já. As vítimas devem exigir Justiça. A oposição deve cobrar vergonha. A Justiça precisa agir.
O Caso Watergate nasceu com a prisão em flagrante de bandidos que, a serviço do governo, instalavam aparelhos de escuta e fotografavam documentos na sede do Partido Democrata. Também começou como caso de polícia. Como fazem agora o governo e o PT, Nixon procurou reduzir uma bandidagem de alto calibre a um pecado venial praticado por figuras irrelevantes. Acabou transformado no maior escândalo protagonizado por um presidente americano.
O atrevimento dos estupradores da Receita tem de ser castigado antes que sejam suprimidas, por pais-da-pátria sem compromisso com a moralidade, as últimas fronteiras legais. Um país habitado por gente que engole sem engasgos a corrupção endêmica e impune deixa de existir como nação.
No Brasil, onde faltam a cólera e a ira santas, quem, senão elas, hão de expulsar do Templo o renegado, o blasfemo, o profanador, o simoníaco? Ou exterminarão da ciência o apedeuta, o plagiário, o charlatão? Ou banirão da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? Quem, senão elas, a varrer dos serviços do Estado o prevaricador, o concussionário e o ladrão públicos? Quem, senão elas, a precipitar do governo o negocismo, a prostituição política e a tirania? (Rui Barbosa)
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27 agosto 2010
Vejam como os petistas gostam 'do' e gastam 'o' - dinheiro público...:
DECRETO Nº 6.381, DE 27 DE FEVEREIRO DE 2008.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso IV, da Constituição, e tendo em vista o disposto na Lei no 7.474, de 8 de maio de 1986,
DECRETA:
Art. 1o Findo o mandato do Presidente da República, quem o houver exercido, em caráter permanente, terá direito:
I - aos serviços de quatro servidores para atividades de segurança e apoio pessoal;
II - a dois veículos oficiais, com os respectivos motoristas; e
III - ao assessoramento de dois servidores ocupantes de cargos em comissão do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores - DAS, nível 5.
Art. 2o Os servidores e motoristas a que se refere o art. 1o serão de livre escolha do ex-Presidente da República e nomeados para cargo em comissão destinado ao apoio a ex-Presidentes da República, integrante do quadro dos cargos em comissão e das funções gratificadas da Casa Civil da Presidência da República.
Art.. 3o Para atendimento do disposto no art. 1o, a Secretaria de Administração da Casa Civil da Presidência da República poderá dispor, para cada ex-Presidente, de até oito cargos em comissão do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores - DAS, sendo dois DAS 102.5, dois DAS 102.4, dois DAS 102.2 e dois DAS 102.1.
Art. 4o Os servidores em atividade de segurança e os motoristas de que trata o art. 1o receberão treinamento para se capacitar, respectivamente, para o exercício da função de segurança pessoal e de condutor de veículo de segurança, pelo
Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.
Art. 5o Os servidores em atividade de segurança e os motoristas aprovados no treinamento de capacitação na forma do art. 4o, enquanto estiverem em exercício nos respectivos cargos em comissão da Casa Civil, ficarão vinculados tecnicamente ao
Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional, sendo considerados, para os fins do art. 6o, inciso V, segunda parte, da Lei no 10.826, de 22 de dezembro de 2003, agentes daquele
Departamento.
Art. 6o Aos servidores de que trata o art. 5o poderá ser disponibilizado, por solicitação do ex-Presidente ou seu representante, porte de arma institucional do
Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional, desde que cumpridos os seguintes requisitos, além daqueles previstos na Lei no 10.826, de 2003, em seu regulamento e em portaria do Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional:
I - avaliação que ateste a capacidade técnica e aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo, a ser realizada pelo
Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional;
II - observância dos procedimentos relativos às condições para a utilização da arma institucional, estabelecidos em ato normativo interno do Gabinete de Segurança Institucional; e
III - que se tratem de pessoas originárias das situações previstas no art.. 6o, incisos I, II e V, da Lei no 10.826, de 2003.
Parágrafo único. O porte de arma institucional de que trata o caput terá prazo de validade determinado e, para sua renovação, deverá ser realizada novamente a avaliação de que trata o inciso I do caput, nos termos de portaria do Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional.
Art. 7o Durante os períodos de treinamento e avaliação de que tratam os arts. 4o e 6o, o servidor em atividade de segurança e motorista de ex-Presidente poderá ser substituído temporariamente, mediante solicitação do ex-Presidente ou seu representante, por agente de segurança do
Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional.
Art. 8o O planejamento, a coordenação, o controle e o zelo pela segurança patrimonial e pessoal de ex-Presidente caberá aos servidores de que trata o art. 1o, conforme estrutura e organização própria estabelecida.
Art. 9o A execução dos atos administrativos internos relacionados com a gestão dos servidores de que trata o art. 1o e a disponibilidade de dois veículos para o ex-Presidente serão praticadas pela Casa Civil, que arcará com as despesas decorrentes.
Art. 10. Os candidatos à Presidência da República terão direito a segurança pessoal, exercida por agentes da Polícia Federal, a partir da homologação da respectiva candidatura em convenção partidária.
Art. 11. O Ministro de Estado da Justiça, no que diz respeito ao art. 10, o Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, no que concerne aos arts.. 4o, 5o, 6o e 7o, e o Secretário de Administração da Casa Civil, quanto ao disposto nos arts.. 2o e 9o, baixarão as instruções e os atos necessários à execução do disposto neste
Decreto..
Art. 12. Este Decreto entra em vigor na data da sua publicação.
Art. 13. Revoga-se o Decreto no 1..347, de 28 de dezembro de 1994.
Brasília, 27 de fevereiro de 2008; 187o da Independência e 120o da República.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Tarso Genro
Jorge Armando Felix
DECRETO Nº 6.381, DE 27 DE FEVEREIRO DE 2008.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso IV, da Constituição, e tendo em vista o disposto na Lei no 7.474, de 8 de maio de 1986,
DECRETA:
Art. 1o Findo o mandato do Presidente da República, quem o houver exercido, em caráter permanente, terá direito:
I - aos serviços de quatro servidores para atividades de segurança e apoio pessoal;
II - a dois veículos oficiais, com os respectivos motoristas; e
III - ao assessoramento de dois servidores ocupantes de cargos em comissão do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores - DAS, nível 5.
Art. 2o Os servidores e motoristas a que se refere o art. 1o serão de livre escolha do ex-Presidente da República e nomeados para cargo em comissão destinado ao apoio a ex-Presidentes da República, integrante do quadro dos cargos em comissão e das funções gratificadas da Casa Civil da Presidência da República.
Art.. 3o Para atendimento do disposto no art. 1o, a Secretaria de Administração da Casa Civil da Presidência da República poderá dispor, para cada ex-Presidente, de até oito cargos em comissão do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores - DAS, sendo dois DAS 102.5, dois DAS 102.4, dois DAS 102.2 e dois DAS 102.1.
Art. 4o Os servidores em atividade de segurança e os motoristas de que trata o art. 1o receberão treinamento para se capacitar, respectivamente, para o exercício da função de segurança pessoal e de condutor de veículo de segurança, pelo
Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.
Art. 5o Os servidores em atividade de segurança e os motoristas aprovados no treinamento de capacitação na forma do art. 4o, enquanto estiverem em exercício nos respectivos cargos em comissão da Casa Civil, ficarão vinculados tecnicamente ao
Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional, sendo considerados, para os fins do art. 6o, inciso V, segunda parte, da Lei no 10.826, de 22 de dezembro de 2003, agentes daquele
Departamento.
Art. 6o Aos servidores de que trata o art. 5o poderá ser disponibilizado, por solicitação do ex-Presidente ou seu representante, porte de arma institucional do
Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional, desde que cumpridos os seguintes requisitos, além daqueles previstos na Lei no 10.826, de 2003, em seu regulamento e em portaria do Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional:
I - avaliação que ateste a capacidade técnica e aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo, a ser realizada pelo
Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional;
II - observância dos procedimentos relativos às condições para a utilização da arma institucional, estabelecidos em ato normativo interno do Gabinete de Segurança Institucional; e
III - que se tratem de pessoas originárias das situações previstas no art.. 6o, incisos I, II e V, da Lei no 10.826, de 2003.
Parágrafo único. O porte de arma institucional de que trata o caput terá prazo de validade determinado e, para sua renovação, deverá ser realizada novamente a avaliação de que trata o inciso I do caput, nos termos de portaria do Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional.
Art. 7o Durante os períodos de treinamento e avaliação de que tratam os arts. 4o e 6o, o servidor em atividade de segurança e motorista de ex-Presidente poderá ser substituído temporariamente, mediante solicitação do ex-Presidente ou seu representante, por agente de segurança do
Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional.
Art. 8o O planejamento, a coordenação, o controle e o zelo pela segurança patrimonial e pessoal de ex-Presidente caberá aos servidores de que trata o art. 1o, conforme estrutura e organização própria estabelecida.
Art. 9o A execução dos atos administrativos internos relacionados com a gestão dos servidores de que trata o art. 1o e a disponibilidade de dois veículos para o ex-Presidente serão praticadas pela Casa Civil, que arcará com as despesas decorrentes.
Art. 10. Os candidatos à Presidência da República terão direito a segurança pessoal, exercida por agentes da Polícia Federal, a partir da homologação da respectiva candidatura em convenção partidária.
Art. 11. O Ministro de Estado da Justiça, no que diz respeito ao art. 10, o Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, no que concerne aos arts.. 4o, 5o, 6o e 7o, e o Secretário de Administração da Casa Civil, quanto ao disposto nos arts.. 2o e 9o, baixarão as instruções e os atos necessários à execução do disposto neste
Decreto..
Art. 12. Este Decreto entra em vigor na data da sua publicação.
Art. 13. Revoga-se o Decreto no 1..347, de 28 de dezembro de 1994.
Brasília, 27 de fevereiro de 2008; 187o da Independência e 120o da República.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Tarso Genro
Jorge Armando Felix
25 agosto 2010
As IFES de Lula caminham pra trás_Por Reinaldo Azevedo
“Para a democracia funcionar, deve estar (…) protegida de usurpadores que se pretendem representantes absolutos do bem sobre a Terra.”
São palavras do vereador Francisco Telles, de Dois Córregos, ao saudar o título de Cidadão Emérito que recebi (Reinaldo Azevedo). Esta é a minha tarefa: contestar os “absolutistas”, que só podem existir como tal recorrendo à mentira. Eu os contesto com fatos. À diferença do que fazem crer os setores áulicos da imprensa, a Educação, no governo Lula, é uma das áreas em que se andou para trás. Mais tarde, escrevo mais a respeito. Agora, quero contrapor OS FATOS a um discurso que Lula fez hoje em Dourados, no Mato Grosso do Sul.
Falando a uma platéia de quase dois mil estudantes, afirmou que, no dia 31 de dezembro, último dia de seu mandato, será o homem “mais feliz do mundo”. E emendou, naquele seu doce e habitual obscurantismo: “Eu vou olhar para mim e dizer que não tenho curso superior, mas fui o presidente que mais abriu universidade no Brasil.” Lula estava na cidade para inaugurar quatro prédios da Universidade Federal de Dourados.
Muito bem! Isso é o que Lula diz. Agora há os fatos — e o que segue abaixo é elaborado com dados do próprio Ministério da Educação.
1 - Lula afirma por aí ter criado 13 universidades federais. É mentira! Com boa vontade, pode-se afirmar que criou apenas seis; com rigor, quatro. Por quê? A maioria das instituições que ele chama “novas universidades” nasceu de meros rearranjos de instituições, marcados por desmembramentos e fusões. Algumas universidades “criadas” ainda estão no papel. E isso, que é um fato, está espelhado nos números, que são do Ministério da Educação;
2 - Poucos sabem, certa imprensa não diz, mas o fato é que a taxa média de crescimento de matrículas nas universidades federais entre 1995 e 2002 (governo FHC) foi de 6% ao ano, contra 3,2% entre 2003 e 2008 - seis anos de mandato de Lula;
3 - Só no segundo mandato de FHC, entre 1998 e 2003, houve 158.461 novas matrículas nas universidades federais, contra 76.000 em seis anos de governo Lula (2003 a 2008);
4 - Nos oito anos de governo FHC, as vagas em cursos noturnos, nas federais, cresceram 100%; entre 2003 e 2008, 15%;
5 - Sabem o que cresceu para valer no governo Lula? As vagas ociosas em razão de um planejamento porco. Eu provo: em 2003, as federais tiveram 84.341 formandos; em 2008, 84.036;
6 - O que aumentou brutalmente no governo Lula foi a evasão: as vagas ociosas passaram de 0,73% em 2003 para 4,35% em 2008. As matrículas trancadas, desligamentos e afastamentos saltaram de 44.023 em 2003 para 57.802 em 2008;
7 - Sim, há mesmo a preocupação de exibir números gordos. Isso faz com que a expansão das federais, dada como se vê acima, se faça à matroca. Erguem-se escolas sem preocupação com a qualidade e as condições de funcionamento, o que leva os estudantes a desistir do curso. A Universidade Federal do ABC perdeu 42% dos alunos entre 2006 e 2009.
8 - Também cresceu espetacularmente no governo Lula a máquina “companheira”. Eram 62 mil os professores das federais em 2008 - 35% a mais do que em 2002. O número de alunos cresceu apenas 21% no período;
9 - No governo FHC, a relação aluno por docente passou de 8,2 para 11,9 em 2003. No governo Lula, caiu para 10,4 (2008). É uma relação escandalosa! Nas melhores universidades americanas, a relação é de, no mínimo, 16 alunos por professor. Lula transformou as universidades federais numa máquina de empreguismo.
Voltarei a este tema mais tarde para abordar outras “conquistas” do Ministério da Educação. O que vai acima não é assim porque eu quero. É assim porque esses são os números. Mas vivemos os tempos do aspismo. E, infelizmente, o jornalismo online — também estou nele, mas reconheço os problemas — tem sido útil aos mentirosos. Antigamente, o jornalista tinha ao menos tempo de verificar se os números lançados ao vento eram ou não verdadeiros. Agora, corre-se para ser o “primeiro” a pôr a fala de uma autoridade no ar. E a mentira se propaga. É verdade que muitos repórteres poderiam recorrer ao Google e aos arquivos dos jornais e desfazer a farsa na hora. Mas poucos se dão ao trabalho. Nesse caso, por exemplo, só o Google não resolve.
A menos que o Ministério da Educação corra para maquiar os números, a verdade é essa que segue acima, não o que disse Lula em seu discurso. Telefonei para o ex-ministro da Educação e atual secretário da área em São Paulo, Paulo Renato, para comentar a fala do presidente:
“O Lula é um usurpador de obras passadas e futuras; toma para si o que outros fizeram e também o que outros ainda farão depois dele; algumas das suas universidades estão apenas no papel e ainda têm de ser criadas”.
Obscurantista
Muito bem! A farsa histórica está desmontada. Encerro comentando a undécima fala em que Lula faz a apologia da ignorância. Jactando-se de ser o maior criador de universidades do mundo — o que, sabemos, é mentira! —, orgulha-se de não ter curso superior, anunciando ao mundo a irrelevância não de um diploma, mas do estudo. É evidente que Lula, ao tentar destacar o que seria uma contradição — o não-universitário que cria universidades — , acaba estabelecendo uma relação de causa e efeito: porque ignorante, decidiu investir nas luzes. Logo, as luzes se transformam num apanágio da ignorância.
O efeito prático disso é que a ignorância se propaga já que, infelizmente, se move numa velocidade superior à da luz.
São palavras do vereador Francisco Telles, de Dois Córregos, ao saudar o título de Cidadão Emérito que recebi (Reinaldo Azevedo). Esta é a minha tarefa: contestar os “absolutistas”, que só podem existir como tal recorrendo à mentira. Eu os contesto com fatos. À diferença do que fazem crer os setores áulicos da imprensa, a Educação, no governo Lula, é uma das áreas em que se andou para trás. Mais tarde, escrevo mais a respeito. Agora, quero contrapor OS FATOS a um discurso que Lula fez hoje em Dourados, no Mato Grosso do Sul.
Falando a uma platéia de quase dois mil estudantes, afirmou que, no dia 31 de dezembro, último dia de seu mandato, será o homem “mais feliz do mundo”. E emendou, naquele seu doce e habitual obscurantismo: “Eu vou olhar para mim e dizer que não tenho curso superior, mas fui o presidente que mais abriu universidade no Brasil.” Lula estava na cidade para inaugurar quatro prédios da Universidade Federal de Dourados.
Muito bem! Isso é o que Lula diz. Agora há os fatos — e o que segue abaixo é elaborado com dados do próprio Ministério da Educação.
1 - Lula afirma por aí ter criado 13 universidades federais. É mentira! Com boa vontade, pode-se afirmar que criou apenas seis; com rigor, quatro. Por quê? A maioria das instituições que ele chama “novas universidades” nasceu de meros rearranjos de instituições, marcados por desmembramentos e fusões. Algumas universidades “criadas” ainda estão no papel. E isso, que é um fato, está espelhado nos números, que são do Ministério da Educação;
2 - Poucos sabem, certa imprensa não diz, mas o fato é que a taxa média de crescimento de matrículas nas universidades federais entre 1995 e 2002 (governo FHC) foi de 6% ao ano, contra 3,2% entre 2003 e 2008 - seis anos de mandato de Lula;
3 - Só no segundo mandato de FHC, entre 1998 e 2003, houve 158.461 novas matrículas nas universidades federais, contra 76.000 em seis anos de governo Lula (2003 a 2008);
4 - Nos oito anos de governo FHC, as vagas em cursos noturnos, nas federais, cresceram 100%; entre 2003 e 2008, 15%;
5 - Sabem o que cresceu para valer no governo Lula? As vagas ociosas em razão de um planejamento porco. Eu provo: em 2003, as federais tiveram 84.341 formandos; em 2008, 84.036;
6 - O que aumentou brutalmente no governo Lula foi a evasão: as vagas ociosas passaram de 0,73% em 2003 para 4,35% em 2008. As matrículas trancadas, desligamentos e afastamentos saltaram de 44.023 em 2003 para 57.802 em 2008;
7 - Sim, há mesmo a preocupação de exibir números gordos. Isso faz com que a expansão das federais, dada como se vê acima, se faça à matroca. Erguem-se escolas sem preocupação com a qualidade e as condições de funcionamento, o que leva os estudantes a desistir do curso. A Universidade Federal do ABC perdeu 42% dos alunos entre 2006 e 2009.
8 - Também cresceu espetacularmente no governo Lula a máquina “companheira”. Eram 62 mil os professores das federais em 2008 - 35% a mais do que em 2002. O número de alunos cresceu apenas 21% no período;
9 - No governo FHC, a relação aluno por docente passou de 8,2 para 11,9 em 2003. No governo Lula, caiu para 10,4 (2008). É uma relação escandalosa! Nas melhores universidades americanas, a relação é de, no mínimo, 16 alunos por professor. Lula transformou as universidades federais numa máquina de empreguismo.
Voltarei a este tema mais tarde para abordar outras “conquistas” do Ministério da Educação. O que vai acima não é assim porque eu quero. É assim porque esses são os números. Mas vivemos os tempos do aspismo. E, infelizmente, o jornalismo online — também estou nele, mas reconheço os problemas — tem sido útil aos mentirosos. Antigamente, o jornalista tinha ao menos tempo de verificar se os números lançados ao vento eram ou não verdadeiros. Agora, corre-se para ser o “primeiro” a pôr a fala de uma autoridade no ar. E a mentira se propaga. É verdade que muitos repórteres poderiam recorrer ao Google e aos arquivos dos jornais e desfazer a farsa na hora. Mas poucos se dão ao trabalho. Nesse caso, por exemplo, só o Google não resolve.
A menos que o Ministério da Educação corra para maquiar os números, a verdade é essa que segue acima, não o que disse Lula em seu discurso. Telefonei para o ex-ministro da Educação e atual secretário da área em São Paulo, Paulo Renato, para comentar a fala do presidente:
“O Lula é um usurpador de obras passadas e futuras; toma para si o que outros fizeram e também o que outros ainda farão depois dele; algumas das suas universidades estão apenas no papel e ainda têm de ser criadas”.
Obscurantista
Muito bem! A farsa histórica está desmontada. Encerro comentando a undécima fala em que Lula faz a apologia da ignorância. Jactando-se de ser o maior criador de universidades do mundo — o que, sabemos, é mentira! —, orgulha-se de não ter curso superior, anunciando ao mundo a irrelevância não de um diploma, mas do estudo. É evidente que Lula, ao tentar destacar o que seria uma contradição — o não-universitário que cria universidades — , acaba estabelecendo uma relação de causa e efeito: porque ignorante, decidiu investir nas luzes. Logo, as luzes se transformam num apanágio da ignorância.
O efeito prático disso é que a ignorância se propaga já que, infelizmente, se move numa velocidade superior à da luz.
Dilma rasga dinheiro_Por Celso Arnaldo_In Augusto Nunes
No horário eleitoral na TV e no rádio, nos comícios e em entrevistas, Dilma Rousseff continua recitando a fábula da menina boazinha que rasgava dinheiro quando via criança pobre. Repetiu tanto a historinha, tão confiável quanto uma cédula de 3 reais, que caiu outra vez mira certeira do jornalista Celso Arnaldo Araújo. Segue-se o texto que destrincha o palavrório.
CELSO ARNALDO ARAÚJO
“Tem uma cena da minha infância que eu não esqueço, apareceu um menino na porta da minha casa querendo comer, eu tinha uma nota de dinheiro, rasguei e dei metade a ela”.
Se eu escrevesse ou dissesse isso e o Nando Esposito me pegasse em flagrante, denunciando-me num post em sua coluna, eu tentaria justificar o “ela” com uma das cinco palavras femininas que antecedem na frase o pronome aparentemente invertido. Pela ordem em que elas aparecem:
1)Dei metade da nota à cena, justamente para montar a cena, que é pelo menos 50% inacreditável
2)Dei metade da nota à minha infância, como uma metáfora para minha jornada em busca da outra metade, vida afora
3)Dei metade da nota à porta, que foi onde o menino bateu
4)Dei metade da nota à casa, que precisava de uma meia reforma
5)Dei metade da nota à própria nota que acabara de ser leviana e até criminosamente rasgada (pela Constituição, vilipêndio de símbolo nacional), colando as partes com durex e reconstituindo seu poder de compra, por alguns instantes nulo para ambas as partes – Dilma e o menino.
Finalmente, se Dilma conhecesse algum rudimento de técnica narrativa em sua própria língua, poderia alegar que o “ela”, nesse caso, se refere a criança do sexo masculino.
Mas é evidente que o “ela” não apareceu aí por nenhuma dessas hipotéticas concordâncias. Todos concordamos em que essa nota bipartite nunca existiu e que esse menino é fruto da fantasia rasgada de Dilma, pois não?
Uma criança que já tenha suficiente maturidade para portar uma cédula de dinheiro no bolso do macacãozinho não a inutilizaria, nem na mais inocente das presunções, para dar um pedaço imprestável a um menino com fome, seja essa criança generosa e solidária a filha de Bill Gates ou a de um retirante do Vale do Jequitinhonha.
A menina Dilma já tinha a noção de que cédulas de dinheiro compram comida – mas não que elas só fazem isso quando inteiras. Em casa, provavelmemnte, nunca viu ninguém rasgar dinheiro.
Estranho esse descompasso de desenvolvimento mental. Será que por isso Dilma foi fazer Economia? Será por isso que Dilma Rousseff, futura presidente da República, é do jeito que é?
Resumindo: ele ou ela, tanto faz como tanto fez, nessa fabulosa impostura que não para de pé. Na verdade, é Dilma que não existe, nunca existiu com vida própria – como a metade da cédula que deixou uma criança dormir com fome naquele dia.
Nossa cédula, no próximo dia 3 de outubro, essa sim tem valor integral.
CELSO ARNALDO ARAÚJO
“Tem uma cena da minha infância que eu não esqueço, apareceu um menino na porta da minha casa querendo comer, eu tinha uma nota de dinheiro, rasguei e dei metade a ela”.
Se eu escrevesse ou dissesse isso e o Nando Esposito me pegasse em flagrante, denunciando-me num post em sua coluna, eu tentaria justificar o “ela” com uma das cinco palavras femininas que antecedem na frase o pronome aparentemente invertido. Pela ordem em que elas aparecem:
1)Dei metade da nota à cena, justamente para montar a cena, que é pelo menos 50% inacreditável
2)Dei metade da nota à minha infância, como uma metáfora para minha jornada em busca da outra metade, vida afora
3)Dei metade da nota à porta, que foi onde o menino bateu
4)Dei metade da nota à casa, que precisava de uma meia reforma
5)Dei metade da nota à própria nota que acabara de ser leviana e até criminosamente rasgada (pela Constituição, vilipêndio de símbolo nacional), colando as partes com durex e reconstituindo seu poder de compra, por alguns instantes nulo para ambas as partes – Dilma e o menino.
Finalmente, se Dilma conhecesse algum rudimento de técnica narrativa em sua própria língua, poderia alegar que o “ela”, nesse caso, se refere a criança do sexo masculino.
Mas é evidente que o “ela” não apareceu aí por nenhuma dessas hipotéticas concordâncias. Todos concordamos em que essa nota bipartite nunca existiu e que esse menino é fruto da fantasia rasgada de Dilma, pois não?
Uma criança que já tenha suficiente maturidade para portar uma cédula de dinheiro no bolso do macacãozinho não a inutilizaria, nem na mais inocente das presunções, para dar um pedaço imprestável a um menino com fome, seja essa criança generosa e solidária a filha de Bill Gates ou a de um retirante do Vale do Jequitinhonha.
A menina Dilma já tinha a noção de que cédulas de dinheiro compram comida – mas não que elas só fazem isso quando inteiras. Em casa, provavelmemnte, nunca viu ninguém rasgar dinheiro.
Estranho esse descompasso de desenvolvimento mental. Será que por isso Dilma foi fazer Economia? Será por isso que Dilma Rousseff, futura presidente da República, é do jeito que é?
Resumindo: ele ou ela, tanto faz como tanto fez, nessa fabulosa impostura que não para de pé. Na verdade, é Dilma que não existe, nunca existiu com vida própria – como a metade da cédula que deixou uma criança dormir com fome naquele dia.
Nossa cédula, no próximo dia 3 de outubro, essa sim tem valor integral.
20 agosto 2010
Terceiro mandato de Lula_No Estadão
Muito do que se vê no horário gratuito não é o que parece - a começar da expressão, que esconde o fato de que, no fim, a conta sobra para o contribuinte. Mas nada do que se mostra nos programas de propaganda eleitoral se parece tanto com conversa de vendedor de fitas piratas como o que o presidente Lula diz da candidata que escolheu solitariamente para ser a sua sucessora. A tal ponto ele se derrama em superlativos sobre as suas imbatíveis qualidades, que pode levar o espectador mais cético, ao modo do santo e da esmola, a desconfiar até dos atributos que ela haverá de ter.
O presidente que inventou o bordão do “nunca antes na história deste país” para se vangloriar dos seus presumíveis feitos sem precedentes usa agora na promoção de sua afilhada a mesma retórica da louvação sem limites. No primeiro programa em que roubou a cena como puxador de votos para Dilma, na terça-feira à noite, Lula mostrou como sabe ser excessivo. Numa fala gravada no Palácio da Alvorada, a residência oficial dos presidentes brasileiros - a lei, ora a lei -, ele jorrou: “Tem pessoas a quem a gente confia um trabalho, e elas fazem tudo certo. Estes são os bons. E há pessoas a quem a gente dá uma missão, e elas se superam. Estes são os especiais. Dilma é assim.”
E Lula é assim, para surpresa de ninguém. Antes ainda de começar a campanha, ele já se gabava de que lhe bastara apenas uma primeira reunião com Dilma para ter a certeza, como tornou a repetir anteontem, de que havia encontrado “a pessoa certa para o lugar certo” - no caso, o Ministério de Minas e Energia. Mas ele não ficará propriamente zangado se o eleitor desprevenido entender que se trata do Palácio do Planalto. Até o final da maratona, em 30 de setembro, haverá muito mais do mesmo espetáculo em que tocará ao presidente o papel de fiador das virtudes de quem jamais disputou um voto e que só graças a ele lidera as pesquisas eleitorais.
Só que Lula é um artista tão consumado que consegue exercer esse papel de mais de uma maneira e em mais de uma circunstância. Há o Lula que prega o voto em Dilma como o seu avalista, e há o Lula que prega o voto em Dilma como vigia de seu eventual governo. Uma coisa e outra, naturalmente, para neutralizar as acusações da oposição. No dia da estreia da temporada na TV, em visita a Petrolina e Salgueiro, em Pernambuco, o presidente falou, primeiro, como se candidato fosse e, depois, como o “presidente-sombra” de Dilma que pretenderia vir a ser.
“A palavra não é governar. A palavra é cuidar. Eu quero ganhar as eleições para cuidar do meu povo”, discursou para uma plateia de operários em um canteiro de obras da Ferrovia Transnordestina, em Salgueiro, “como uma mãe cuida do seu filho”, numa alusão oblíqua a Dilma, cujo nome não pronunciou, para ela ficar sabendo que a mãe é ele e não ela. Logo adiante, citando o slogan de Obama “nós podemos”, reiterou sua disposição de continuar: “Não apenas podemos, como gostamos e queremos continuar governando este país.” Como fará isso explicou em Petrolina, onde visitou a Universidade Federal do Vale do São Francisco.
O mesmo Lula que mais de uma vez prometera “ir para casa” quando terminar o mandato e “não dar palpite na vida de quem está governando”, agora avisa que está disputando seu terceiro mandato. Transformar-se-á numa “casca de ferida” para fazer a reforma política, além de se empenhar pela criação do marco regulatório do meio ambiente. Isso, de um lado. De outro, continuará a percorrer o País para ver no que deu o seu governo. “E, se tiver alguma coisa errada”, advertiu, “vou pegar o telefone e ligar para minha presidenta e dizer “pode fazer, minha filha (sic), porque eu não consegui.”"
Nada lisonjeiro para ela, sem dúvida. Mas isso pouco importa para o seu criador. O que importa, acima de tudo, é vender a criatura, ora argumentando, com lábia de ambulante, que “não há ninguém mais preparado do que ela para governar o Brasil”, ora, contraditoriamente, deixando claro que ele estará nos bastidores do poder pronto para suprir as falhas que poderão acontecer pela inexperiência da “filha”.
Nós nunca duvidamos dessa disposição de Lula. Resta saber qual será a reação de sua criatura quando - e se - estiver no poder.
O presidente que inventou o bordão do “nunca antes na história deste país” para se vangloriar dos seus presumíveis feitos sem precedentes usa agora na promoção de sua afilhada a mesma retórica da louvação sem limites. No primeiro programa em que roubou a cena como puxador de votos para Dilma, na terça-feira à noite, Lula mostrou como sabe ser excessivo. Numa fala gravada no Palácio da Alvorada, a residência oficial dos presidentes brasileiros - a lei, ora a lei -, ele jorrou: “Tem pessoas a quem a gente confia um trabalho, e elas fazem tudo certo. Estes são os bons. E há pessoas a quem a gente dá uma missão, e elas se superam. Estes são os especiais. Dilma é assim.”
E Lula é assim, para surpresa de ninguém. Antes ainda de começar a campanha, ele já se gabava de que lhe bastara apenas uma primeira reunião com Dilma para ter a certeza, como tornou a repetir anteontem, de que havia encontrado “a pessoa certa para o lugar certo” - no caso, o Ministério de Minas e Energia. Mas ele não ficará propriamente zangado se o eleitor desprevenido entender que se trata do Palácio do Planalto. Até o final da maratona, em 30 de setembro, haverá muito mais do mesmo espetáculo em que tocará ao presidente o papel de fiador das virtudes de quem jamais disputou um voto e que só graças a ele lidera as pesquisas eleitorais.
Só que Lula é um artista tão consumado que consegue exercer esse papel de mais de uma maneira e em mais de uma circunstância. Há o Lula que prega o voto em Dilma como o seu avalista, e há o Lula que prega o voto em Dilma como vigia de seu eventual governo. Uma coisa e outra, naturalmente, para neutralizar as acusações da oposição. No dia da estreia da temporada na TV, em visita a Petrolina e Salgueiro, em Pernambuco, o presidente falou, primeiro, como se candidato fosse e, depois, como o “presidente-sombra” de Dilma que pretenderia vir a ser.
“A palavra não é governar. A palavra é cuidar. Eu quero ganhar as eleições para cuidar do meu povo”, discursou para uma plateia de operários em um canteiro de obras da Ferrovia Transnordestina, em Salgueiro, “como uma mãe cuida do seu filho”, numa alusão oblíqua a Dilma, cujo nome não pronunciou, para ela ficar sabendo que a mãe é ele e não ela. Logo adiante, citando o slogan de Obama “nós podemos”, reiterou sua disposição de continuar: “Não apenas podemos, como gostamos e queremos continuar governando este país.” Como fará isso explicou em Petrolina, onde visitou a Universidade Federal do Vale do São Francisco.
O mesmo Lula que mais de uma vez prometera “ir para casa” quando terminar o mandato e “não dar palpite na vida de quem está governando”, agora avisa que está disputando seu terceiro mandato. Transformar-se-á numa “casca de ferida” para fazer a reforma política, além de se empenhar pela criação do marco regulatório do meio ambiente. Isso, de um lado. De outro, continuará a percorrer o País para ver no que deu o seu governo. “E, se tiver alguma coisa errada”, advertiu, “vou pegar o telefone e ligar para minha presidenta e dizer “pode fazer, minha filha (sic), porque eu não consegui.”"
Nada lisonjeiro para ela, sem dúvida. Mas isso pouco importa para o seu criador. O que importa, acima de tudo, é vender a criatura, ora argumentando, com lábia de ambulante, que “não há ninguém mais preparado do que ela para governar o Brasil”, ora, contraditoriamente, deixando claro que ele estará nos bastidores do poder pronto para suprir as falhas que poderão acontecer pela inexperiência da “filha”.
Nós nunca duvidamos dessa disposição de Lula. Resta saber qual será a reação de sua criatura quando - e se - estiver no poder.
Caso vença a petista, quem governará? Dilma ou Lula?_Por Dora Kramer
(O título é meu)
À primeira referência explícita da oposição no horário eleitoral ao fim do governo Luiz Inácio da Silva - “quando o Lula da Silva sair é o Zé que eu quero lá” - o presidente tratou de reagir.
Mudou completamente a afirmação que vinha defendendo desde a reeleição, em 2006, de que uma vez terminado o segundo mandato iria “assar uns coelhinhos” em São Bernardo do Campo. Há menos de um mês ainda dizia que iria ensinar a Fernando Henrique Cardoso como deve se comportar um ex-presidente: “sem dar palpite” na vida de quem está governando.
Ontem Lula passou a dizer que vai percorrer o País dando palpites para Dilma Rousseff quando vir “alguma coisa errada”. Assegurou que terá “papel ativo” no governo dela viajando o País inteiro para verificar como andam as coisas.
Dando a entender que nem ao menos guardará a liturgia do cargo. Qualquer coisa pega o telefone e diz: “Olha, minha filha, tem coisa errada. Pode fazer o que eu não fiz.” Pelo dito, vai inaugurar uma modalidade de Presidência itinerante e a distância.
Quis informar ao público que votar em Dilma significa votar nele, que a única diferença entre um governo e outro será o nome do titular do cargo. E ainda assim de direito porque de fato o presidente será ele, Lula.
Quis aplicar um antídoto à ideia da retirada de cena, da descida de Lula do pódio da política e da substituição de mandatário explicitada no refrão da trilha sonora do programa de televisão de José Serra.
Para Dilma, Lula, o PT e o plano de uma continuidade por unção quase divina é fundamental que o público não tome consciência da interrupção, não consolide a noção de separação, de diferença. É crucial que o entendimento seja o de que haverá apenas uma troca de nomes por exigência legal, algo próximo de uma formalidade.
No programa eleitoral do PT no horário noturno esse imperativo ficou evidente: em ritmo de Brasil grande, formato de superprodução e tom institucional sem resquício de política, não houve referência ao ato eleitoral.
Ninguém pediu votos ou considerou a existência de uma disputa e de concorrentes ao cargo. Passa por cima do eleitor, transpõe o obstáculo das urnas como se no ano que vem fosse haver uma mera mudança de governante por vontade e sob a bênção de Lula.
A campanha simplesmente desconhece a circunstância eleitoral: não pede que Dilma seja eleita por isso ou por aquilo, não a compara com os concorrentes de maneira a informar ao eleitor que se trata de alguém mais bem qualificado que qualquer dos outros, nada.
Simplesmente põe Dilma Rousseff sentada na cadeira presidencial. No encerramento a música corrobora o fato consumado: “Agora as mãos de uma mulher vão nos conduzir/ eu sigo com saudade, mas feliz a sorrir/ pois sei, o meu povo ganhou uma mãe/ que tem um coração do Oiapoque ao Chuí.”
O sujeito da oração, evidentemente é Lula, que os autores João Santana e João Andrade transformam numa representação de Jesus Cristo - “deixo em tuas mãos o meu povo” - com vocação autoritária - “mas só deixo porque sei que vais continuar o que fiz”.
E se não soubesse não deixaria? Não gostaria é a leitura subjacente.
Na realidade não poderia. Deixa porque a lei assim determina e a derrota do governo na votação da CPMF no Senado em 2007 deu a Lula a exata noção da impossibilidade de mudar a Constituição para obter a chance de disputar um terceiro mandato.
Senado do qual não para de reclamar, dizendo que foi “injusto e ofensivo” com o governo, e onde agora se esforça para formar maioria servil ao projeto de hegemonia e eliminação paulatina do contraditório no Brasil.
Nenhuma diferença em relação a oligarquias que dominam há décadas territórios País afora e toda semelhança com coronéis do porte de José Sarney, cujo empenho em inspirado dizer do senador Jarbas Vasconcelos sempre foi transformar o Senado em um “grande Maranhão”.
Nada que já não se soubesse, embora não de maneira tão explícita e didática conforme foi mostrado no horário eleitoral.
À primeira referência explícita da oposição no horário eleitoral ao fim do governo Luiz Inácio da Silva - “quando o Lula da Silva sair é o Zé que eu quero lá” - o presidente tratou de reagir.
Mudou completamente a afirmação que vinha defendendo desde a reeleição, em 2006, de que uma vez terminado o segundo mandato iria “assar uns coelhinhos” em São Bernardo do Campo. Há menos de um mês ainda dizia que iria ensinar a Fernando Henrique Cardoso como deve se comportar um ex-presidente: “sem dar palpite” na vida de quem está governando.
Ontem Lula passou a dizer que vai percorrer o País dando palpites para Dilma Rousseff quando vir “alguma coisa errada”. Assegurou que terá “papel ativo” no governo dela viajando o País inteiro para verificar como andam as coisas.
Dando a entender que nem ao menos guardará a liturgia do cargo. Qualquer coisa pega o telefone e diz: “Olha, minha filha, tem coisa errada. Pode fazer o que eu não fiz.” Pelo dito, vai inaugurar uma modalidade de Presidência itinerante e a distância.
Quis informar ao público que votar em Dilma significa votar nele, que a única diferença entre um governo e outro será o nome do titular do cargo. E ainda assim de direito porque de fato o presidente será ele, Lula.
Quis aplicar um antídoto à ideia da retirada de cena, da descida de Lula do pódio da política e da substituição de mandatário explicitada no refrão da trilha sonora do programa de televisão de José Serra.
Para Dilma, Lula, o PT e o plano de uma continuidade por unção quase divina é fundamental que o público não tome consciência da interrupção, não consolide a noção de separação, de diferença. É crucial que o entendimento seja o de que haverá apenas uma troca de nomes por exigência legal, algo próximo de uma formalidade.
No programa eleitoral do PT no horário noturno esse imperativo ficou evidente: em ritmo de Brasil grande, formato de superprodução e tom institucional sem resquício de política, não houve referência ao ato eleitoral.
Ninguém pediu votos ou considerou a existência de uma disputa e de concorrentes ao cargo. Passa por cima do eleitor, transpõe o obstáculo das urnas como se no ano que vem fosse haver uma mera mudança de governante por vontade e sob a bênção de Lula.
A campanha simplesmente desconhece a circunstância eleitoral: não pede que Dilma seja eleita por isso ou por aquilo, não a compara com os concorrentes de maneira a informar ao eleitor que se trata de alguém mais bem qualificado que qualquer dos outros, nada.
Simplesmente põe Dilma Rousseff sentada na cadeira presidencial. No encerramento a música corrobora o fato consumado: “Agora as mãos de uma mulher vão nos conduzir/ eu sigo com saudade, mas feliz a sorrir/ pois sei, o meu povo ganhou uma mãe/ que tem um coração do Oiapoque ao Chuí.”
O sujeito da oração, evidentemente é Lula, que os autores João Santana e João Andrade transformam numa representação de Jesus Cristo - “deixo em tuas mãos o meu povo” - com vocação autoritária - “mas só deixo porque sei que vais continuar o que fiz”.
E se não soubesse não deixaria? Não gostaria é a leitura subjacente.
Na realidade não poderia. Deixa porque a lei assim determina e a derrota do governo na votação da CPMF no Senado em 2007 deu a Lula a exata noção da impossibilidade de mudar a Constituição para obter a chance de disputar um terceiro mandato.
Senado do qual não para de reclamar, dizendo que foi “injusto e ofensivo” com o governo, e onde agora se esforça para formar maioria servil ao projeto de hegemonia e eliminação paulatina do contraditório no Brasil.
Nenhuma diferença em relação a oligarquias que dominam há décadas territórios País afora e toda semelhança com coronéis do porte de José Sarney, cujo empenho em inspirado dizer do senador Jarbas Vasconcelos sempre foi transformar o Senado em um “grande Maranhão”.
Nada que já não se soubesse, embora não de maneira tão explícita e didática conforme foi mostrado no horário eleitoral.
16 agosto 2010
Marketeiros não fabricam estadistas_Por Augusto Nunes
A era dos marqueteiros produziu incontáveis espantos: acabou com todos os vincos e rugas, erradicou os cabelos brancos, instituiu a obrigatoriedade do uso do uniforme terno-azul-marinho-camisa-azul-celeste-gravata-vermelho-cheguei, aposentou os óculos de aros grossos, converteu arrogantes vocacionais em poços de humildade, permitiu a gargantas franzinas formularem incongruências com voz de tenor, transformou azarões em favoritos, elegeu perfeitas nulidades e promoveu bestas quadradas a gênios da raça. Mas não produziu um único estadista.
O sumiço dessa fina estirpe não pode ser debitado inteiramente na conta do profissionais do marketing político. Mas é impossível imaginar um marqueteiro soprando o que deve ser feito aos ouvidos de um estadista. Gente assim sabe que pesquisas de opinião captam um estado de ânimo condicionado por circunstâncias passageiras ─ e pelo imaginário popular. Sabe que a voz do povo não é ditada pela Divina Providência: é apenas a voz do povo, e não traduz necessariamente o que é melhor para um país.
Como os políticos comuns, profissionais do marketing político pensam na próxima eleição. Estadistas pensam na próxima geração. Em 1938, já que a maioria dos britânicos queria um tratado de paz com a Alemanha, os marqueteiros teriam sugerido a Winston Churchill que fosse mais polido com Adolf Hitler. Nos anos seguintes, sobraçando levantamentos do Instituto Gallup, teriam implorado a Franklin Roosevelt que mantivesse os Estados Unidos fora de uma guerra que, para sete entre dez americanos, era um problema europeu.
Na eleição que se seguiu ao triunfo contra a Alemanha nazista, Churchill também seria aconselhado a livrar-se do charuto, beber menos, esconder que dormia depois do almoço, emagrecer pelo menos 15 quilos, usar fotografias que amputassem a calvície e, sobretudo, parar de denunciar com tanta veemência a política expansionista da União Soviética. Cansados de guerra, os ingleses não queriam sequer ouvir falar em Guerra Fria. Churchill talvez não tivesse perdido a eleição. Mas perderia a chance de voltar nos anos 50, o lugar que lhe coube na História e o respeito que sempre merecerá de todas as gerações.
A oposição brasileira precisa mais de líderes com visão histórica que de candidatos com chances de vitória. O país que presta está pronto para o combate frontal e sem prazo para terminar. Se o preço a pagar pela chegada ao poder for a rendição sem luta, os democratas preferem a derrota. O que está em jogo não é o Palácio do Planalto, é o futuro. Não se trata de escolher entre nomes, mas entre a liberdade e o autoritarismo. José Serra e todos os oposicionistas decentes devem mirar-se no exemplo do primeiro-ministro britânico. A farsa precisa ser desmascarada. A fraude não resiste ao confronto com a verdade. Quem se opõe tem o dever de denunciar com dureza os crimes e pecados do adversário.
Churchill perdeu as primeiras batalhas. Sabia, quando começou a guerra contra o inimigo primitivo e poderoso, que tinha o apoio declarado de menos que 5% dos ingleses. Mas também sabia que tinha razão. E a civilização sobreviveu.
O sumiço dessa fina estirpe não pode ser debitado inteiramente na conta do profissionais do marketing político. Mas é impossível imaginar um marqueteiro soprando o que deve ser feito aos ouvidos de um estadista. Gente assim sabe que pesquisas de opinião captam um estado de ânimo condicionado por circunstâncias passageiras ─ e pelo imaginário popular. Sabe que a voz do povo não é ditada pela Divina Providência: é apenas a voz do povo, e não traduz necessariamente o que é melhor para um país.
Como os políticos comuns, profissionais do marketing político pensam na próxima eleição. Estadistas pensam na próxima geração. Em 1938, já que a maioria dos britânicos queria um tratado de paz com a Alemanha, os marqueteiros teriam sugerido a Winston Churchill que fosse mais polido com Adolf Hitler. Nos anos seguintes, sobraçando levantamentos do Instituto Gallup, teriam implorado a Franklin Roosevelt que mantivesse os Estados Unidos fora de uma guerra que, para sete entre dez americanos, era um problema europeu.
Na eleição que se seguiu ao triunfo contra a Alemanha nazista, Churchill também seria aconselhado a livrar-se do charuto, beber menos, esconder que dormia depois do almoço, emagrecer pelo menos 15 quilos, usar fotografias que amputassem a calvície e, sobretudo, parar de denunciar com tanta veemência a política expansionista da União Soviética. Cansados de guerra, os ingleses não queriam sequer ouvir falar em Guerra Fria. Churchill talvez não tivesse perdido a eleição. Mas perderia a chance de voltar nos anos 50, o lugar que lhe coube na História e o respeito que sempre merecerá de todas as gerações.
A oposição brasileira precisa mais de líderes com visão histórica que de candidatos com chances de vitória. O país que presta está pronto para o combate frontal e sem prazo para terminar. Se o preço a pagar pela chegada ao poder for a rendição sem luta, os democratas preferem a derrota. O que está em jogo não é o Palácio do Planalto, é o futuro. Não se trata de escolher entre nomes, mas entre a liberdade e o autoritarismo. José Serra e todos os oposicionistas decentes devem mirar-se no exemplo do primeiro-ministro britânico. A farsa precisa ser desmascarada. A fraude não resiste ao confronto com a verdade. Quem se opõe tem o dever de denunciar com dureza os crimes e pecados do adversário.
Churchill perdeu as primeiras batalhas. Sabia, quando começou a guerra contra o inimigo primitivo e poderoso, que tinha o apoio declarado de menos que 5% dos ingleses. Mas também sabia que tinha razão. E a civilização sobreviveu.
Enem: crônica de um fracasso anunciado_No Estadão
Por enfrentar problemas logísticos, técnicos e administrativos semelhantes aos ocorridos em 2009, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano, que será aplicado a mais de 4,6 milhões de estudantes, nos dias 6 e 7 de novembro, pode estar se convertendo numa espécie de crônica do fiasco anunciado. O cronograma estabelecido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) não está sendo cumprido e os novos dirigentes do órgão, que assumiram em dezembro, depois de uma sucessão de confusões com o Enem de 2009, parecem perdidos.
O último problema ocorreu na semana passada, com a suspensão - por ordem da juíza Candice Jobim, da Justiça Federal - da licitação para a escolha da gráfica que irá imprimir as provas. O edital prevê que, após os lances dos candidatos, o Inep ou “instituição por ele indicada fará diligência na empresa que ofertou a melhor proposta para verificação das instalações físicas e dos equipamentos, a fim de comprovar as condições de segurança e sigilo”. Alegando que apresentou o menor preço pelo serviço e foi desclassificada antes que suas instalações fossem devidamente avaliadas, uma das gráficas concorrentes entrou com mandado de segurança e obteve liminar.
Em nota, a direção do Inep afirmou que os atestados de capacidade técnica apresentados por essa empresa não atendiam às exigências do edital. Entre outros requisitos, ele exige que a gráfica contratada tenha portões automatizados, portaria com blindagem balística, uma área mínima de 3 mil m², vigilantes posicionados a cada 100 m² no setor onde ficam as máquinas e geradores para suprir eventuais cortes de energia. O edital exige ainda que os uniformes dos funcionários da gráfica não tenham bolsos, para evitar que guardem cópias da prova.
A segunda gráfica colocada na licitação foi igualmente desclassificada, também por não atender aos requisitos de segurança e sigilo. As empresas que participaram da licitação do Inep classificaram de “exageradas” as exigências do edital.
Embora o presidente e o diretor-geral do Inep tenham prometido encaminhar à Justiça Federal documentos e laudos o mais rapidamente possível e a liminar possa ser cassada a qualquer momento, a programação do órgão já está prejudicada. A etapa da pré-impressão, por exemplo, quando a prova ainda está sujeita a correções, deveria ter começado na última quinta-feira.
Além disso, o Inep ainda não assinou o contrato com a Fundação Cesgranrio e com o Centro de Seleção e Promoção de Eventos da Universidade de Brasília (Cespe/UnB), que foram escolhidos - sem licitação - para preparar o conteúdo do teste. O contrato, que em 2009 foi de R$ 939,5 mil, em 2010 custará R$ 6,191 milhões, um aumento de 559%. Como a lei proíbe os órgãos públicos de gerar despesa sem contrato, essas duas entidades não podem começar a formular as questões nem providenciar a contratação dos fiscais, dos examinadores e dos profissionais que corrigirão as provas. Serão 300 mil pessoas contratadas para essas tarefas. A estimativa é de que a assinatura do contrato vá ocorrer no dia 20 deste mês, a 76 dias da realização do Enem de 2010.
Como se não bastasse, a direção do Inep só assinou essa semana o contrato com os Correios, que distribuirão as provas nos 12 mil locais em que elas serão aplicadas, em todo o País. E, segundo os especialistas, o Ministério da Educação (MEC), ao qual o Inep está vinculado, não investiu o suficiente na modernização e na segurança de seu sistema de informática.
Em 2009, o descumprimento do cronograma, sistemas deficientes de informática, problemas de logística, medidas executadas às pressas e muita improvisação foram os fatores que contribuíram para o fiasco do Enem.
Procurando tranquilizar os estudantes inscritos para o Enem de 2010, o Inep informa que os prazos do cronograma têm “uma certa margem” e que tudo está sob controle. Especialistas acham que o Enem de 2010 pode repetir os erros que comprometeram a prova em 2009.
O último problema ocorreu na semana passada, com a suspensão - por ordem da juíza Candice Jobim, da Justiça Federal - da licitação para a escolha da gráfica que irá imprimir as provas. O edital prevê que, após os lances dos candidatos, o Inep ou “instituição por ele indicada fará diligência na empresa que ofertou a melhor proposta para verificação das instalações físicas e dos equipamentos, a fim de comprovar as condições de segurança e sigilo”. Alegando que apresentou o menor preço pelo serviço e foi desclassificada antes que suas instalações fossem devidamente avaliadas, uma das gráficas concorrentes entrou com mandado de segurança e obteve liminar.
Em nota, a direção do Inep afirmou que os atestados de capacidade técnica apresentados por essa empresa não atendiam às exigências do edital. Entre outros requisitos, ele exige que a gráfica contratada tenha portões automatizados, portaria com blindagem balística, uma área mínima de 3 mil m², vigilantes posicionados a cada 100 m² no setor onde ficam as máquinas e geradores para suprir eventuais cortes de energia. O edital exige ainda que os uniformes dos funcionários da gráfica não tenham bolsos, para evitar que guardem cópias da prova.
A segunda gráfica colocada na licitação foi igualmente desclassificada, também por não atender aos requisitos de segurança e sigilo. As empresas que participaram da licitação do Inep classificaram de “exageradas” as exigências do edital.
Embora o presidente e o diretor-geral do Inep tenham prometido encaminhar à Justiça Federal documentos e laudos o mais rapidamente possível e a liminar possa ser cassada a qualquer momento, a programação do órgão já está prejudicada. A etapa da pré-impressão, por exemplo, quando a prova ainda está sujeita a correções, deveria ter começado na última quinta-feira.
Além disso, o Inep ainda não assinou o contrato com a Fundação Cesgranrio e com o Centro de Seleção e Promoção de Eventos da Universidade de Brasília (Cespe/UnB), que foram escolhidos - sem licitação - para preparar o conteúdo do teste. O contrato, que em 2009 foi de R$ 939,5 mil, em 2010 custará R$ 6,191 milhões, um aumento de 559%. Como a lei proíbe os órgãos públicos de gerar despesa sem contrato, essas duas entidades não podem começar a formular as questões nem providenciar a contratação dos fiscais, dos examinadores e dos profissionais que corrigirão as provas. Serão 300 mil pessoas contratadas para essas tarefas. A estimativa é de que a assinatura do contrato vá ocorrer no dia 20 deste mês, a 76 dias da realização do Enem de 2010.
Como se não bastasse, a direção do Inep só assinou essa semana o contrato com os Correios, que distribuirão as provas nos 12 mil locais em que elas serão aplicadas, em todo o País. E, segundo os especialistas, o Ministério da Educação (MEC), ao qual o Inep está vinculado, não investiu o suficiente na modernização e na segurança de seu sistema de informática.
Em 2009, o descumprimento do cronograma, sistemas deficientes de informática, problemas de logística, medidas executadas às pressas e muita improvisação foram os fatores que contribuíram para o fiasco do Enem.
Procurando tranquilizar os estudantes inscritos para o Enem de 2010, o Inep informa que os prazos do cronograma têm “uma certa margem” e que tudo está sob controle. Especialistas acham que o Enem de 2010 pode repetir os erros que comprometeram a prova em 2009.
15 agosto 2010
Lula "produzia" dossiês contra inimigos (hoje amigos) e culpava Serra
A verdade sempre aparece! Quero ver agora o que vão fazer os "amiguinhos" que o Lula ferrou com seus dossiês no passado e pôs a culpa em Serra. Os ratos estão brigando pelo butim... Vejam o que Reinaldo Azevedo reproduz da entrevista de um desses bandidos à revista Veja:
"Mais um sindicalista decidiu revelar os porões do PT. A VEJA desta semana traz uma reportagem de Policarpo Junior e Otávio Cabral sobre a atuação de um grupo de sindicalistas que produzia dossiês para a campanha do PT em 2002. Um de seus expoentes era Wagner Cinchetto, que concedeu uma entrevista estarrecedora à revista. O mais espantoso é que Cinchetto não se diz santo, não. Ele confessa, por exemplo: “Eu e o Medeiros (Luiz Antônio de Medeiros, ex-dirigente da Força Sindical) trabalhávamos para o Collor e participamos da produção daquele depoimento fajuto da ex-namorada do Lula.” Isso foi em 1989.
Em 2002, ele já estava trabalhando para o PT. O mais surpreendente de sua confissão: o objetivo era atingir todos os inimigos de Lula naquela ano e jogar a culpa nas costas do tucano José Serra. E assim se fez. E assim noticiou a imprensa! A ação mais vistosa, revela o sindicalista, foi o caso Lunus, a operação da Polícia Federal que recolheu na sede da empresa do marido de Roseana Sarney a bolada de R$ 1,34 milhão em dinheiro vivo. José Sarney sempre acusou Serra de estar metido na operação, e isso foi determinante na sua aliança com… Lula — que era, na prática, o chefão dogrupo que havia destruído a chance de a filha se candidatar à Presidência. Outro alvo dos petistas foi Ciro Gomes — na verdade, seu então candidato a vice, Paulo Pereira da Silva, que também tinha a certeza de que estava sendo alvo de… Serra!
Segundo Cinchetto, Lula sempre soube de tudo. No comando da operação, ele informa, estavam Ricardo Berzoini e Luiz Marinho, hoje presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Leiam a entrevista:
Qual era o objetivo do grupo?
A idéia era atacar primeiro. Eu lembro do momento em que o Ciro Gomes começou a avançar nas pesquisas. Despontava como um dos favoritos. Decidimos, então, fazer um trabalho em cima dele, centrado em seu ponto mais fraco, que era o candidato a vice da sua chapa, o Paulinho da Força. Eu trabalhava para a CUT e já tinha feito um imenso dossiê sobre o deputado. Já tinha levantado documentos que mostravam desvios de dinheiro público, convênios ilegais assinados entre a Força Sindical e o governo e indícios de que ele tinha um patrimônio incompatível com sua renda. O dossiê era trabalho de profissional.
Os dossiês que vocês produziam serviam para quê?
Fotografamos até uma fazenda que o Paulinho comprou no interior de São Paulo, os documentos de cartório, a história verdadeira da transação. Foi preparada uma armadilha para “vender” o dossiê ao Paulinho e registrar o momento da compra, mas ele não caiu. Simultaneamente, ligávamos para o Ciro para ameaçá-lo, tentar desestabilizá-lo emocionalmente. O pessoal dizia que ele perderia o controle. Por fim, fizemos as denúncias chegarem à imprensa. A candidatura Ciro foi sendo minada aos poucos. O mais curioso é que ele achava que isso era coisa dos tucanos, do pessoal do Serra.
Isso também fazia parte do plano?
Como os documentos que a gente tinha vinham de processos internos do governo, a relação era mais ou menos óbvia. Também se dizia que o Ciro tirava votos do Serra. Portanto, a conclusão era lógica: o material vinha do governo, os tucanos seriam os mais interessados em detonar o Ciro, logo… No caso da invasão da Lunus, que fulminou a candidatura da Roseana, aconteceu a mesma coisa.
Vocês se envolveram no caso Lunus?
A Roseana saiu do páreo depois de urna operação sobre a qual até hoje existe muito mistério. Mas de uma coisa eu posso te dar certeza: o nosso grupo sabia da operação, sabia dos prováveis resultados, torcia por eles e interveio diretamente para que aparecessem no caso apenas as impressões digitais dos tucanos. Havia alguém do nosso grupo dentro da operação. Não sei quem era a pessoa, mas posso assegurar: soubemos que a candidatura da Roseana seria destruída com uns três dias de antecedência. Houve muita festa quando isso aconteceu.
Nunca se falou antes da participação do PT nesse caso…
O grupo sabia que o golpe final iria acontecer, e houve uma grande comemoração quando aconteceu. Aquela situação da Roseana caiu como uma luva. Ao mesmo tempo em que o PT se livrava de uma adversária de peso, agia para rachar a base aliada dos adversários… Até hoje todo mundo acha que os tucanos planejaram tudo. Mas o PT estava nessa.
Quem traçava essas estratégias?
O grupo era formado por pessoas que têm uma longa militância política. Todas com experiência nesse submundo sindical, principalmente dos bancários e metalúrgicos. Não havia um chefe propriamente dito. Quem dava a palavra final às vezes eram o Berzoini e o Luiz Marinho (atual prefeito de São Bernardo do Campo). Basicamente, nos reuníamos e discutíamos estratégias com a premissa de que era preciso sempre atacar antes.
O então candidato Lula sabia alguma coisa sobre a atividade de vocês?
Lula sabia de tudo e deu autorização para o trabalho. Talvez desconhecesse os detalhes, mas sabia do funcionamento do grupo. O Bargas funcionava como elo entre nós e o candidato. Eu ajudei a minar a campanha do Lula em 1989, com aquela história da Lurian. Eu e o Medeiros (Luiz Antônio de Medeiros, ex-dirigente da Força Sindical) trabalhávamos para o Collor e participamos da produção daquele depoimento fajuto da ex-namorada do Lula. O grupo se preparou para evitar que ações como aquelas pudessem se repetir - e fomos bem-sucedidos.
De onde vinham os recursos para financiar os dossiês?
Posso te responder, sem sombra de dúvida, que vinham do movimento sindical, principalmente da CUT. Se precisava de carro, tinha carro. Se precisava de viagem, tinha viagem. Se precisava deslocar… Não faltavam recursos para as operações. Quando eu precisava de dinheiro, entrava em contato com o Carlos Alberto Grana (ex-tesoureiro da CUT), o Bargas ou o Marinho.
Quem mais foi alvo do seu grupo?
O plano era gerar uma polarização entre o Serra e o Lula. Por isso se trabalhou intensamente para inviabilizar a candidatura do Garotinho, que também podia atrapalhar. Não sei se o documento do SNI que ligava o vice de Garotinho à ditadura saiu do nosso grupo, mas posso afirmar que a estratégia de potencializar a notícia foi executada. O Garotinho deixou de ser um estorvo. E teve o dossiê contra o próprio Serra. Um funcionário do Banco do Brasil nos entregou documentos de um empréstimo supostamente irregular que beneficiaria uma pessoa ligada ao tucano. Tudo isso foi divulgado com muito estardalhaço, sem que ninguém desconfiasse que o PT estava por trás.
"Mais um sindicalista decidiu revelar os porões do PT. A VEJA desta semana traz uma reportagem de Policarpo Junior e Otávio Cabral sobre a atuação de um grupo de sindicalistas que produzia dossiês para a campanha do PT em 2002. Um de seus expoentes era Wagner Cinchetto, que concedeu uma entrevista estarrecedora à revista. O mais espantoso é que Cinchetto não se diz santo, não. Ele confessa, por exemplo: “Eu e o Medeiros (Luiz Antônio de Medeiros, ex-dirigente da Força Sindical) trabalhávamos para o Collor e participamos da produção daquele depoimento fajuto da ex-namorada do Lula.” Isso foi em 1989.
Em 2002, ele já estava trabalhando para o PT. O mais surpreendente de sua confissão: o objetivo era atingir todos os inimigos de Lula naquela ano e jogar a culpa nas costas do tucano José Serra. E assim se fez. E assim noticiou a imprensa! A ação mais vistosa, revela o sindicalista, foi o caso Lunus, a operação da Polícia Federal que recolheu na sede da empresa do marido de Roseana Sarney a bolada de R$ 1,34 milhão em dinheiro vivo. José Sarney sempre acusou Serra de estar metido na operação, e isso foi determinante na sua aliança com… Lula — que era, na prática, o chefão dogrupo que havia destruído a chance de a filha se candidatar à Presidência. Outro alvo dos petistas foi Ciro Gomes — na verdade, seu então candidato a vice, Paulo Pereira da Silva, que também tinha a certeza de que estava sendo alvo de… Serra!
Segundo Cinchetto, Lula sempre soube de tudo. No comando da operação, ele informa, estavam Ricardo Berzoini e Luiz Marinho, hoje presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Leiam a entrevista:
Qual era o objetivo do grupo?
A idéia era atacar primeiro. Eu lembro do momento em que o Ciro Gomes começou a avançar nas pesquisas. Despontava como um dos favoritos. Decidimos, então, fazer um trabalho em cima dele, centrado em seu ponto mais fraco, que era o candidato a vice da sua chapa, o Paulinho da Força. Eu trabalhava para a CUT e já tinha feito um imenso dossiê sobre o deputado. Já tinha levantado documentos que mostravam desvios de dinheiro público, convênios ilegais assinados entre a Força Sindical e o governo e indícios de que ele tinha um patrimônio incompatível com sua renda. O dossiê era trabalho de profissional.
Os dossiês que vocês produziam serviam para quê?
Fotografamos até uma fazenda que o Paulinho comprou no interior de São Paulo, os documentos de cartório, a história verdadeira da transação. Foi preparada uma armadilha para “vender” o dossiê ao Paulinho e registrar o momento da compra, mas ele não caiu. Simultaneamente, ligávamos para o Ciro para ameaçá-lo, tentar desestabilizá-lo emocionalmente. O pessoal dizia que ele perderia o controle. Por fim, fizemos as denúncias chegarem à imprensa. A candidatura Ciro foi sendo minada aos poucos. O mais curioso é que ele achava que isso era coisa dos tucanos, do pessoal do Serra.
Isso também fazia parte do plano?
Como os documentos que a gente tinha vinham de processos internos do governo, a relação era mais ou menos óbvia. Também se dizia que o Ciro tirava votos do Serra. Portanto, a conclusão era lógica: o material vinha do governo, os tucanos seriam os mais interessados em detonar o Ciro, logo… No caso da invasão da Lunus, que fulminou a candidatura da Roseana, aconteceu a mesma coisa.
Vocês se envolveram no caso Lunus?
A Roseana saiu do páreo depois de urna operação sobre a qual até hoje existe muito mistério. Mas de uma coisa eu posso te dar certeza: o nosso grupo sabia da operação, sabia dos prováveis resultados, torcia por eles e interveio diretamente para que aparecessem no caso apenas as impressões digitais dos tucanos. Havia alguém do nosso grupo dentro da operação. Não sei quem era a pessoa, mas posso assegurar: soubemos que a candidatura da Roseana seria destruída com uns três dias de antecedência. Houve muita festa quando isso aconteceu.
Nunca se falou antes da participação do PT nesse caso…
O grupo sabia que o golpe final iria acontecer, e houve uma grande comemoração quando aconteceu. Aquela situação da Roseana caiu como uma luva. Ao mesmo tempo em que o PT se livrava de uma adversária de peso, agia para rachar a base aliada dos adversários… Até hoje todo mundo acha que os tucanos planejaram tudo. Mas o PT estava nessa.
Quem traçava essas estratégias?
O grupo era formado por pessoas que têm uma longa militância política. Todas com experiência nesse submundo sindical, principalmente dos bancários e metalúrgicos. Não havia um chefe propriamente dito. Quem dava a palavra final às vezes eram o Berzoini e o Luiz Marinho (atual prefeito de São Bernardo do Campo). Basicamente, nos reuníamos e discutíamos estratégias com a premissa de que era preciso sempre atacar antes.
O então candidato Lula sabia alguma coisa sobre a atividade de vocês?
Lula sabia de tudo e deu autorização para o trabalho. Talvez desconhecesse os detalhes, mas sabia do funcionamento do grupo. O Bargas funcionava como elo entre nós e o candidato. Eu ajudei a minar a campanha do Lula em 1989, com aquela história da Lurian. Eu e o Medeiros (Luiz Antônio de Medeiros, ex-dirigente da Força Sindical) trabalhávamos para o Collor e participamos da produção daquele depoimento fajuto da ex-namorada do Lula. O grupo se preparou para evitar que ações como aquelas pudessem se repetir - e fomos bem-sucedidos.
De onde vinham os recursos para financiar os dossiês?
Posso te responder, sem sombra de dúvida, que vinham do movimento sindical, principalmente da CUT. Se precisava de carro, tinha carro. Se precisava de viagem, tinha viagem. Se precisava deslocar… Não faltavam recursos para as operações. Quando eu precisava de dinheiro, entrava em contato com o Carlos Alberto Grana (ex-tesoureiro da CUT), o Bargas ou o Marinho.
Quem mais foi alvo do seu grupo?
O plano era gerar uma polarização entre o Serra e o Lula. Por isso se trabalhou intensamente para inviabilizar a candidatura do Garotinho, que também podia atrapalhar. Não sei se o documento do SNI que ligava o vice de Garotinho à ditadura saiu do nosso grupo, mas posso afirmar que a estratégia de potencializar a notícia foi executada. O Garotinho deixou de ser um estorvo. E teve o dossiê contra o próprio Serra. Um funcionário do Banco do Brasil nos entregou documentos de um empréstimo supostamente irregular que beneficiaria uma pessoa ligada ao tucano. Tudo isso foi divulgado com muito estardalhaço, sem que ninguém desconfiasse que o PT estava por trás.
O Datafolha "manipulou" sua pesquisa?
O Instituto Datafolha, que se tem como "sério" até prova em contrário, parece que também está se lixando para a utilização das pesquisas como fator eleitoral" ao aplicar 50% dos questionários de 2a a 4a. feiras da semana passada e aplicar os demais 50% na 5a feira. Com que objetivo?
Reinaldo Azevedo analisa a questão, vejam:
"Não, não vou contestar pesquisas. O que não consigo, aí sim, é condescender com boçalidade, com burrice. Acho o Datafolha um instituto sério, já escrevi várias vezes. E isso me deixa ainda mais animado para, num particular, afirmar: “Epa! Assim não!” Minha contestação, se procedente, mudaria a ordem das coisas, inverteria os números? Eu não estou preocupado com isso. Não faço campanha eleitoral, embora alguns trouxas tentem provar o contrário. Minha contradita é bem mais simples: existe o certo, e existe o errado. Pode ser que, na semana que vem ou na seguinte, o instituto faça uma nova pesquisa, a que eu não tenha restrição nenhuma, e chegue ao mesmo resultado ou a uma distância ainda maior. Não importa!
NEM POR ISSO O QUE VEM DEPOIS CORRIGE O QUE VEM ANTES. NEM POR ISSO O QUE VEM DEPOIS REFERENDA O ERRO QUE VEM ANTES. É lógica. Eu sou lógico.
Um trecho do texto assinado pelo repórter Fernando Rodrigues, na Folha, gerou uma penca de comentários no blog que me deixou, de fato, espantado. Eu havia escrito, tão logo a pesquisa Datafolha foi divulgada, que parte dos que responderam o questionário havia assistido apenas à entrevista de Dilma Rousseff no Jornal Nacional. Pois bem, no aludido texto da Folha, lê-se:
“A pesquisa Datafolha teve cerca de 50% das suas entrevistas realizadas anteontem, quinta-feira, quando já era possível medir o efeito das entrevistas que os três principais candidatos ao “JN”. Os percentuais apurados nos dias anteriores não diferem dos de quinta-feira.”
Foi o bastante para que os tontons-maCUTs da política, do pensamento e da matemática viessem como horda: “Tá vendo? Foi 50% para cada um!” Bem, eu confio na democracia, claro!, mas, em horas assim, apelo: “Jesus nos proteja”. O que foi feito, amigo, de tudo o que a gente sonhou nas aulas de matemática?
É evidente que as linhas acima buscam, de modo um tanto oblíquo, negar qualquer fator de desvio, embora o referendem, já digo por quê. O que me deixou estupefato é que os gênios que leram o trecho entenderam que, assim como 50% responderam sem terem visto a entrevista de Serra (é o que está sendo informado acima), outros 50% o fizeram sem terem visto a entrevista de Dilma! E tudo estaria, pois, igual. Trata-se de uma interpretação verdadeira ANTAlógica!
Agora vamos à escolha do Datafolha
Trabalhei na Folha e já editei pesquisas lá. Nunca sofri pressão de nenhuma natureza, e sempre me parece um trabalho sério — refiro-me ao período que vai de 1992 a 1996. A direção do Datafolha mudou, mas creio que os critérios não. Adiante. Respeitar seu trabalho e sua história não me impede de apontar um problema e de fazer questionamentos lógicos:
- se o campo ia de 9 a 12, por que o Datafolha informa ter deixado 50% dos questionários para quinta, um dia depois da entrevista de Serra? Porque considerou, certamente, que era importante que as três tivessem ido ao ar;
- se o Datafolha admite essa relevância, por que, então, para metade da amostra apenas? O fator que influencia uma metade pode influenciar outra. Será que estou errado? Não! Eu não estou;
.- em que momento o Datafolha decidiu: “Opa! Pára tudo! Agora, só depois da entrevista de Serra” Isso já estava decidido desde o começo? Se estava, por que se considerou que metade deveria ver a entrevista dele e a outra metade não?;
- informa o texto que os percentuais apurados numa metade não diferem dos percentuais apurados na outra, o que evidenciaria a irrelevância do JN na pesquisa. Vamos ver:
a) quando se faz uma amostra, ela tem de ser representativa — expressar o Brasil no que diz respeito a região, escolaridade, renda, sexo, idade… Uma vez definida, só o conjunto fechado reproduz as características do todo;
b) ainda que o Datafolha tivesse mesmo conseguido fechar o resultado de metade dos questionários, ele só teria relevância se esses 50% da amostra reproduzissem a ponderação empregada para definir o todo. Duvido que o Datafolha possa assegurar isso;
c) finalmente, ainda que as duas metades reproduzissem rigorosamente os fatores ponderados que definiram o todo e ainda que seja verdade que elas apresentem o mesmo resultado, não há estatístico no mundo que possa assegurar: o JN seria inócuo para a metade que não viu Serra. Estariam, de novo, usando um fato posterior para explicar uma falha anterior.
Muda o quê?
Não estou acusando o Datafolha de fraude, não! E também não estou sendo oblíquo, tentando sugerir qualquer coisa além do texto. Eu nunca sou oblíquo, o que deixa muita gente até zangada, convocando-me a ser mais sutil às vezes. A minha síntese é esta:
- se o Datafolha julgava que o fator JN era irrelevante, não precisava ter adotado, então,o procedimento dos 50%;
- se adotou o procedimentos dos 50%, isso só evidencia que deveria ter adotado o mesmo critério para os 100%;
- ainda que as duas metades tenham apresentado o mesmo resultado, essa igualdade só seria relevante se cada uma delas reproduzisse o conjunto da amostra;
- mesmo na hipótese acima, as duas metades continuaram expostas a realidades distintas, e nada consegue mudar isso.
Não sei quando será feita a próxima pesquisa. Mas certamente será depois do início do horário eleitoral, que costuma influenciar bastante o comportamento do eleitor — Gilberto Kassab e Marta Suplicy que o digam, não é mesmo? Qualquer que seja o resultado, o efeito JN terá ficado no passado, assim como esse interessante debate técnico. Caso diminua a distância entre Serra e Dilma, o fato será atribuído à nova realidade. Caso se mantenha ou aumente, não faltará quem diga: “Viu, Reinaldo, como não havia problema?” E, pela enésima vez, num país acostumado a dispensar a lógica por um bom punhado de alfafa, se estará usando o que vem depois para referendar o erro que veio antes.
O Datafolha é sério. A explicação é furada. E dois mais dois continuam a ser quatro.
Reinaldo Azevedo analisa a questão, vejam:
"Não, não vou contestar pesquisas. O que não consigo, aí sim, é condescender com boçalidade, com burrice. Acho o Datafolha um instituto sério, já escrevi várias vezes. E isso me deixa ainda mais animado para, num particular, afirmar: “Epa! Assim não!” Minha contestação, se procedente, mudaria a ordem das coisas, inverteria os números? Eu não estou preocupado com isso. Não faço campanha eleitoral, embora alguns trouxas tentem provar o contrário. Minha contradita é bem mais simples: existe o certo, e existe o errado. Pode ser que, na semana que vem ou na seguinte, o instituto faça uma nova pesquisa, a que eu não tenha restrição nenhuma, e chegue ao mesmo resultado ou a uma distância ainda maior. Não importa!
NEM POR ISSO O QUE VEM DEPOIS CORRIGE O QUE VEM ANTES. NEM POR ISSO O QUE VEM DEPOIS REFERENDA O ERRO QUE VEM ANTES. É lógica. Eu sou lógico.
Um trecho do texto assinado pelo repórter Fernando Rodrigues, na Folha, gerou uma penca de comentários no blog que me deixou, de fato, espantado. Eu havia escrito, tão logo a pesquisa Datafolha foi divulgada, que parte dos que responderam o questionário havia assistido apenas à entrevista de Dilma Rousseff no Jornal Nacional. Pois bem, no aludido texto da Folha, lê-se:
“A pesquisa Datafolha teve cerca de 50% das suas entrevistas realizadas anteontem, quinta-feira, quando já era possível medir o efeito das entrevistas que os três principais candidatos ao “JN”. Os percentuais apurados nos dias anteriores não diferem dos de quinta-feira.”
Foi o bastante para que os tontons-maCUTs da política, do pensamento e da matemática viessem como horda: “Tá vendo? Foi 50% para cada um!” Bem, eu confio na democracia, claro!, mas, em horas assim, apelo: “Jesus nos proteja”. O que foi feito, amigo, de tudo o que a gente sonhou nas aulas de matemática?
É evidente que as linhas acima buscam, de modo um tanto oblíquo, negar qualquer fator de desvio, embora o referendem, já digo por quê. O que me deixou estupefato é que os gênios que leram o trecho entenderam que, assim como 50% responderam sem terem visto a entrevista de Serra (é o que está sendo informado acima), outros 50% o fizeram sem terem visto a entrevista de Dilma! E tudo estaria, pois, igual. Trata-se de uma interpretação verdadeira ANTAlógica!
Agora vamos à escolha do Datafolha
Trabalhei na Folha e já editei pesquisas lá. Nunca sofri pressão de nenhuma natureza, e sempre me parece um trabalho sério — refiro-me ao período que vai de 1992 a 1996. A direção do Datafolha mudou, mas creio que os critérios não. Adiante. Respeitar seu trabalho e sua história não me impede de apontar um problema e de fazer questionamentos lógicos:
- se o campo ia de 9 a 12, por que o Datafolha informa ter deixado 50% dos questionários para quinta, um dia depois da entrevista de Serra? Porque considerou, certamente, que era importante que as três tivessem ido ao ar;
- se o Datafolha admite essa relevância, por que, então, para metade da amostra apenas? O fator que influencia uma metade pode influenciar outra. Será que estou errado? Não! Eu não estou;
.- em que momento o Datafolha decidiu: “Opa! Pára tudo! Agora, só depois da entrevista de Serra” Isso já estava decidido desde o começo? Se estava, por que se considerou que metade deveria ver a entrevista dele e a outra metade não?;
- informa o texto que os percentuais apurados numa metade não diferem dos percentuais apurados na outra, o que evidenciaria a irrelevância do JN na pesquisa. Vamos ver:
a) quando se faz uma amostra, ela tem de ser representativa — expressar o Brasil no que diz respeito a região, escolaridade, renda, sexo, idade… Uma vez definida, só o conjunto fechado reproduz as características do todo;
b) ainda que o Datafolha tivesse mesmo conseguido fechar o resultado de metade dos questionários, ele só teria relevância se esses 50% da amostra reproduzissem a ponderação empregada para definir o todo. Duvido que o Datafolha possa assegurar isso;
c) finalmente, ainda que as duas metades reproduzissem rigorosamente os fatores ponderados que definiram o todo e ainda que seja verdade que elas apresentem o mesmo resultado, não há estatístico no mundo que possa assegurar: o JN seria inócuo para a metade que não viu Serra. Estariam, de novo, usando um fato posterior para explicar uma falha anterior.
Muda o quê?
Não estou acusando o Datafolha de fraude, não! E também não estou sendo oblíquo, tentando sugerir qualquer coisa além do texto. Eu nunca sou oblíquo, o que deixa muita gente até zangada, convocando-me a ser mais sutil às vezes. A minha síntese é esta:
- se o Datafolha julgava que o fator JN era irrelevante, não precisava ter adotado, então,o procedimento dos 50%;
- se adotou o procedimentos dos 50%, isso só evidencia que deveria ter adotado o mesmo critério para os 100%;
- ainda que as duas metades tenham apresentado o mesmo resultado, essa igualdade só seria relevante se cada uma delas reproduzisse o conjunto da amostra;
- mesmo na hipótese acima, as duas metades continuaram expostas a realidades distintas, e nada consegue mudar isso.
Não sei quando será feita a próxima pesquisa. Mas certamente será depois do início do horário eleitoral, que costuma influenciar bastante o comportamento do eleitor — Gilberto Kassab e Marta Suplicy que o digam, não é mesmo? Qualquer que seja o resultado, o efeito JN terá ficado no passado, assim como esse interessante debate técnico. Caso diminua a distância entre Serra e Dilma, o fato será atribuído à nova realidade. Caso se mantenha ou aumente, não faltará quem diga: “Viu, Reinaldo, como não havia problema?” E, pela enésima vez, num país acostumado a dispensar a lógica por um bom punhado de alfafa, se estará usando o que vem depois para referendar o erro que veio antes.
O Datafolha é sério. A explicação é furada. E dois mais dois continuam a ser quatro.
14 agosto 2010
A morte do "fome zero"_Por Augusto Nunes
Concebido pelo presidente Lula, o Programa Fome Zero nasceu em 3 de fevereiro de 2003 num palanque armado na única praça de Guaribas, interior do Piauí. Morreu dois anos depois sem ter saído do berço, mas nunca teve sepultamento cristão. Ninguém providenciou o velório, o atestado de óbito não foi expedido. Só existe a certidão de batismo, assinada pelo governador Wellington Dias e por quatro ministros que, na festa eleitoreira promovida há sete anos e meio, enxergaram no recém-nascido a cara do Brasil-Maravilha inventado pelo maior goverrnante de todos os tempos.
Depois da discurseira do governador, depois do falatório dos ministros Ciro Gomes (Integração Nacional), Benedita da Silva (Assistência e Promoção Social), José Graziano (Segurança Alimentar) e Olívio Dutra (Cidades), os quase 5 mil habitantes souberam como seria, no máximo até dezembro de 2006, a vida de quem tivera a sorte de vir ao mundo no lugarejo promovido por Lula a Capital do Fome Zero. Um vidaço de Primeiro Mundo.
Em um ano, todos teriam direito a três refeições por dia. Em dois, a cidade seria premiada com médicos, um hospital, postos de saúde, uma farmácia, escolas, esgoto, água, luz, telefone, calçamento, um hotel, uma estrada asfaltada de 53 quilômetros, um programa de fortalecimento da agricultura familiar, outro de capacitação profissional. Quem não ganhasse dinheiro no campo prosperaria na cidade como artesão ou costureira. Uma empresa do governo, Emgerpi, seria criada na semana seguinte para cuidar exclusivamente do mundaréu de canteiros de obras. E para administrar com especial carinho o Memorial do Fome Zero, colosso arquitetônico destinado a eternizar a lembrança do dia em que tudo mudou.
As coisas se arrastaram até 2005, quando o governo Lula descobriu que o Bolsa-Família era bem mais simples e rendia muito mais votos, matou o Fome Zero de inanição e tentou sumir com o corpo. Não conseguiu, comprovou há um mês a jornalista Sandra Martins, da Tribuna do Piauí. A reportagem publicada em julho expôs o cadáver em decomposição da fantasia oportunista. Espalhados pela cidade iludida, os restos mortais do Fome Zero fazem de Guaribas uma prova contundente de que a visão do Brasil real é obscurecida por um país do faz-de-conta que só existe na propaganda oficial.
Lula repete no comício de todos os dias que os miseráveis não existem mais. Dilma Rousseff recita desde o começo da campanha que os pobres foram transferidos para a classe média. Se no país do presidente e da candidata as guaribas sumiram, no Brasil verdadeiro continuam assoladas pelas carências de sempre. E flageladas pela mesma fome crônica que segue assombrando a capital do Fome Zero.
Passados sete anos e meio, há em Guaribas, além da multidão faminta, um posto de saúde, um médico, nenhum hospital, três enfermeiros, nenhuma farmácia, três escolas, cinco telefones públicos, uma lanchonete, uma mercearia, uma agência do Bradesco. As calçadas são contadas em metros, as ruas continuam sem pavimentação, só existe água em poucas casas, falta energia elétrica, um vasto arquipélago de fossas negras denuncia a inexistência de rede de esgoto no aglomerado de 942 residências, incluídos os casebres miseráveis que o governador e os ministros prometeram erradicar.
O programa de capacitação profissional parou nas máquinas de costura que enferrujam perto da praça. A agricultura familiar nunca desceu do palanque: neste ano, a safra se resumiu a um punhado de sacos de milho. A estrada não foi pavimentada. A construção do memorial ficou no esqueleto. Esquecido pelo PAC, que entre o que não vai construir incluiu até um trem-bala, o monumento virou ruína sem ter sido inaugurado.
Como as 805 bolsas-família são insuficientes, a fome aumentou e a população diminuiu. “As pessoas estão indo embora em busca de trabalho”, lamenta o secretário de Administração da prefeitura, Edmilson Pereira Maia, que atribui o fiasco do Fome Zero ao descaso do governo federal. “Eles montaram aqui uma administração paralela e depois abandonaram tudo”, informa. O escritório ocupado pela Emgerpi está com as portas lacradas há mais de ano. Manoel Gomes, dono do imóvel, avisa que só vai devolver a mobília e os objetos que reteve quando receber o aluguel atrasado.
Lula prometeu visitar Guaribas duas vezes. Nunca deu as caras por lá, mas viu as caras dos crédulos quando mandou importar alguns nativos para uma audiência em Brasília. Carmelita Rocha, hoje com 70 anos, foi embarcada com a comitiva. Jamais soube exatamente o que foi fazer na capital, mas garante que viveu os melhores momentos da vida. Viajou de avião, comeu bem, dormiu num quarto de hotel, passeou em carros de luxo. Foi a primeira vez que viu como é a vida longe da miséria. E a última.
Viúva há três meses, sustenta a própria família e a da irmã, que também enviuvou recentemente, com os R$ 400 da aposentadoria que herdou do marido, enterrado na cova rasa com o corpo envolvo numa rede. “Compro um saco de arroz, café, açúcar, massa de milho, sabão e só”, diz Carmelita. “Não estamos passando fome rachada, mas são vários dias que não temos o que comer”. Ela recorda nitidamente do comício que lhe prometeu três refeições por dia. Se conseguisse uma, Carmelita ficaria muito feliz.
Depois da discurseira do governador, depois do falatório dos ministros Ciro Gomes (Integração Nacional), Benedita da Silva (Assistência e Promoção Social), José Graziano (Segurança Alimentar) e Olívio Dutra (Cidades), os quase 5 mil habitantes souberam como seria, no máximo até dezembro de 2006, a vida de quem tivera a sorte de vir ao mundo no lugarejo promovido por Lula a Capital do Fome Zero. Um vidaço de Primeiro Mundo.
Em um ano, todos teriam direito a três refeições por dia. Em dois, a cidade seria premiada com médicos, um hospital, postos de saúde, uma farmácia, escolas, esgoto, água, luz, telefone, calçamento, um hotel, uma estrada asfaltada de 53 quilômetros, um programa de fortalecimento da agricultura familiar, outro de capacitação profissional. Quem não ganhasse dinheiro no campo prosperaria na cidade como artesão ou costureira. Uma empresa do governo, Emgerpi, seria criada na semana seguinte para cuidar exclusivamente do mundaréu de canteiros de obras. E para administrar com especial carinho o Memorial do Fome Zero, colosso arquitetônico destinado a eternizar a lembrança do dia em que tudo mudou.
As coisas se arrastaram até 2005, quando o governo Lula descobriu que o Bolsa-Família era bem mais simples e rendia muito mais votos, matou o Fome Zero de inanição e tentou sumir com o corpo. Não conseguiu, comprovou há um mês a jornalista Sandra Martins, da Tribuna do Piauí. A reportagem publicada em julho expôs o cadáver em decomposição da fantasia oportunista. Espalhados pela cidade iludida, os restos mortais do Fome Zero fazem de Guaribas uma prova contundente de que a visão do Brasil real é obscurecida por um país do faz-de-conta que só existe na propaganda oficial.
Lula repete no comício de todos os dias que os miseráveis não existem mais. Dilma Rousseff recita desde o começo da campanha que os pobres foram transferidos para a classe média. Se no país do presidente e da candidata as guaribas sumiram, no Brasil verdadeiro continuam assoladas pelas carências de sempre. E flageladas pela mesma fome crônica que segue assombrando a capital do Fome Zero.
Passados sete anos e meio, há em Guaribas, além da multidão faminta, um posto de saúde, um médico, nenhum hospital, três enfermeiros, nenhuma farmácia, três escolas, cinco telefones públicos, uma lanchonete, uma mercearia, uma agência do Bradesco. As calçadas são contadas em metros, as ruas continuam sem pavimentação, só existe água em poucas casas, falta energia elétrica, um vasto arquipélago de fossas negras denuncia a inexistência de rede de esgoto no aglomerado de 942 residências, incluídos os casebres miseráveis que o governador e os ministros prometeram erradicar.
O programa de capacitação profissional parou nas máquinas de costura que enferrujam perto da praça. A agricultura familiar nunca desceu do palanque: neste ano, a safra se resumiu a um punhado de sacos de milho. A estrada não foi pavimentada. A construção do memorial ficou no esqueleto. Esquecido pelo PAC, que entre o que não vai construir incluiu até um trem-bala, o monumento virou ruína sem ter sido inaugurado.
Como as 805 bolsas-família são insuficientes, a fome aumentou e a população diminuiu. “As pessoas estão indo embora em busca de trabalho”, lamenta o secretário de Administração da prefeitura, Edmilson Pereira Maia, que atribui o fiasco do Fome Zero ao descaso do governo federal. “Eles montaram aqui uma administração paralela e depois abandonaram tudo”, informa. O escritório ocupado pela Emgerpi está com as portas lacradas há mais de ano. Manoel Gomes, dono do imóvel, avisa que só vai devolver a mobília e os objetos que reteve quando receber o aluguel atrasado.
Lula prometeu visitar Guaribas duas vezes. Nunca deu as caras por lá, mas viu as caras dos crédulos quando mandou importar alguns nativos para uma audiência em Brasília. Carmelita Rocha, hoje com 70 anos, foi embarcada com a comitiva. Jamais soube exatamente o que foi fazer na capital, mas garante que viveu os melhores momentos da vida. Viajou de avião, comeu bem, dormiu num quarto de hotel, passeou em carros de luxo. Foi a primeira vez que viu como é a vida longe da miséria. E a última.
Viúva há três meses, sustenta a própria família e a da irmã, que também enviuvou recentemente, com os R$ 400 da aposentadoria que herdou do marido, enterrado na cova rasa com o corpo envolvo numa rede. “Compro um saco de arroz, café, açúcar, massa de milho, sabão e só”, diz Carmelita. “Não estamos passando fome rachada, mas são vários dias que não temos o que comer”. Ela recorda nitidamente do comício que lhe prometeu três refeições por dia. Se conseguisse uma, Carmelita ficaria muito feliz.
13 agosto 2010
Nova era democrática de Lula?_Por Reinaldo Azevedo
Nada pode ser mais deprimente e, na verdade, ridículo do que supostos estudiosos se apresentando para ser “intelectuais do regime”. Não raro, fizeram “carreira” acadêmica de segunda linha, orgulham-se de seu pragmatismo — e de sua pouca teoria — e transformam duas ou três pesquisas de opinião numa categoria de pensamento e numa espécie de emplastro para curar os males do mundo. O de Brás Cubas (o de Machado de Assis), ao menos, era contra a melancolia. Estes só estão atrás de um carguinho público ou de uma sinecura em alguma instituição federal no caso de o petismo ganhar o direito a mais quatro anos de poder.
Dia desses me deparo com alguns desses anunciando que o Brasil, com Lula, vive uma espécie de “nova era democrática”. Não! Não vou contestá-los porque, muito provavelmente, votaremos em candidatos distintos ou porque algum valor ideológico nos divida. Ainda que muitos não acreditem, gosto quando encontro algo que considero consistente e que vai na contramão do que eu penso. Não saio batendo em tudo de que discordo, não! Ao contrário: aprendo com aquilo que me surpreende e que não condiz com o meu pensamento. “Nova era democrática”? Por quê? Antes que entre no mérito da questão e demonstre por que o que há de novo não é bom e o que há de bom não é exatamente novo, algumas considerações de princípio.
Questões de princípio
Não se deve confundir a satisfação da maioria — na suposição de que ela exista — no Brasil ou em qualquer país com qualidade ou avanço da democracia. São coisas distintas. O exemplo óbvio a mais não poder foi o regime militar no Brasil. O auge da repressão — e só os muito burros e os de má fé supõem que eu pudesse concordar com aquilo se tivesse idade para tanto — coincidiu com o auge da satisfação com o governo. É fato! Podemos avançar no tempo, aos dias atuais, e viajar lá para as paragens chinesas. Nos últimos 20 anos, o país não tirou 12 milhões da pobreza, mas, ATENÇÃO!, meio bilhão de pessoas!
É uma falácia confundir elevação do bem-estar econômico e social com aperfeiçoamento da democracia política. Ou, sem dúvida, a China seria hoje uma das maiores referências democráticas do mundo. E, no entanto, trata-se de uma tirania. Talvez alguns gostassem de debater se um país com aquelas características tem alternativa à ditadura e se não é melhor mantê-lo debaixo do porrete. Não me chamem para tal debate. O que sei, e com certeza absoluta, é que democracia não é.
Também é uma estupidez, manifestação de ignorância, misto de populismo com falta de leitura, classificar de avanço da democracia uma maior participação política do que chamam “massas”. Por si, não é, não. Pode até ser o oposto disso, como provam o bolchevismo e o fascismo no século passado — ou o regime bandoleiro-fascistóide de Hugo Chávez, na Venezuela. Assim, a saída de milhões ou de meio bilhão da pobreza ou a “emergência das massas” no processo político nada dizem, sozinhos, da qualidade da democracia. Mais do que isso: tais elementos podem servir para ocultar o enrijecimento e a esclerose do padrão democrático.
Ainda uma outra observação antes que volte àqueles especialistas de si mesmos alçados à condição de pensadores do futuro. A democracia que não se encarrega de promover o bem-estar da população acaba encontrando, cedo ou tarde, um candidato a tirano que se propõe a resolver, pela via não-institucional, o que chamará de “desigualdades”. Não serve de exemplo para ninguém. Um governo que se diz dedicado à correção de desigualdades atropelando as leis democraticamente instituídas está se candidatando a ser o coveiro da democracia. E também não serve. Pronto! Esclareci alguns princípios que orientam a minha questão.
Que diabo de nova era é essa?
Nova era democrática com o governo Lula? Por quê? Começo reconhecendo, sim, aquela que foi a grande conquista do… governo FHC: não há mais força política relevante no Brasil que se proponha a virar a mesa. Um Plínio de Arruda Sampaio no debate entra quase como uma ilustração antiga. Eu o vi, ontem, a propósito, a lembrar os “bons tempos” em que os alunos da escola pública eram do “Caetano Campos” — e citou outros colégios outrora tradicionais de São Paulo. O “socialista com liberdade” (risos) tem saudade de quando a escola pública era para os filhos da elite… Mas deixemos a criatura de lado para voltar ao essencial.
FHC devolveu o Brasil ao mundo moderno ao estabilizar a economia. Imaginem: em 1993, a inflação havia chegado a mais de 2.700% aos ano — e tinha sido muito maior no governo Sarney,com correção diária de preços e mensal de salários. No primeiro ano do Plano Real, a que o PT se opôs, foi de 1,8%. O Real, sim, foi o grande golpe dado na pobreza no Brasil — coisa que os vigaristas e mistificadores de agora não reconhecem. E só isso seria o bastante para desqualificar a tal “nova era lulista”. Mas há mais, muito mais.
Direitos individuais
Os oito anos de governo Lula foram caracterizados pela violação sistemática de direitos individuais protegidos pela Constituição. Não há mais sigilo bancário, fiscal, telefônico ou de correspondência. Do caseiro ao banqueiro, passando por dirigentes da oposição, qualquer um está exposto a uma espécie de polícia política. Um ex-funcionário de um bunker contou à revista VEJA como funcionava o esquema — ou funciona ainda. Nova era democrática?
Estado de direito
Nestes anos, setores da Polícia Federal, sem dúvida, cumpriram a sua função e honraram os princípios do departamento. Mas outros, partidarizados, ideologizados, comportaram-se como uma tropa de assalto do regime, intimidando, violando sistematicamente princípios do Estado de direito. Esbirros do poder foram mobilizados no subjornalismo, financiados com dinheiro público, para fazer a guerrilha de desqualificação dos adversários. Nova era democrática?
Assédio à imprensa
A imprensa também está sendo assediada. Não fossem as tentativas de criar embaraços legais para o livre exercício do jornalismo, a Presidência da República — Lula — estimulou a realização de conferências, pouco importando o tema que as reunisse, que tinham uma pauta só: controle da imprensa. A proposta foi aprovada na Conferência Nacional de Direitos Humanos, na Conferência Nacional de Comunicação e na Conferência Nacional de Cultura. Só falta agora realizar uma Conferência Nacional da Liberdade de Imprensa para propor o fim da liberdade de imprensa. Nova era democrática?
TCU
Lula sancionou anteontem a lei que simplesmente alija o Tribunal de Constas da União dos principais gastos feitos pelo Executivo e pelas estatais. O governo Lula passou três anos girando em torno do próprio eixo para dar início às obras da Copa do Mundo e chegou, depois de tanta inoperância, à brilhante conclusão de que não dá para fazer nada sob a vigilância da lei. E isso, com efeito, parece coisa normal a muitos. Nova era democrática?
Leis de ocasião
O presidente da República mudou uma lei para legalizar uma operação que, na verdade, já havia acontecido: a compra da Brasil Telecom pela Oi. A compra, ainda ilegal, foi feita com financiamento de um banco público, o BNDES. Tudo efetivado, Lula criou, então, a nova lei. Com efeito, nunca antes na história destepaiz se agiu assim. E olhem que nem entro no mérito. Pode até ser que a coisa tenha sido necessária. Não importa! Na República, fazem-se negócios de acordo com a lei, e não lei de acordo com os negócios. Nova era democrática?
O mau exemplo do chefe
O chefe do Executivo torna-se um contumaz desrespeitador da legislação eleitoral, transformando-se numa máquina de receber multas irrelevantes, que jamais serão pagas, e casa, abertamente, como se viu anteontem em Minas, a agenda do governo com a agenda de sua candidata, evidenciando que dá uma vistosa banana para o aparato legal. Nova era democrática?
Ditaduras
No front externo, no grupo dos amigos dos tiranos, o Brasil se torna o primus inter pares. Nenhuma diplomacia, como a brasileira, foi tão longe da defesa de facínoras e na proteção que lhes oferece. Não bastasse a atuação pessoal de Lula nesse sentido, o Itamaraty tentou transformar isso numa Teoria Geral da Relação Entre Países. Enviou um documento à ONU em que pede, na pratica, uma pouco mais de calma com as tiranias. Acredita que elas precisam de mais papo, não de pressão. Nova era democrática?
Aparelhamento
O estado nunca esteve tão aparelhado, e os sindicatos e centrais sindicais — agora recebendo parte do Imposto Sindical e também livres da vigilância do TCU — estão, mais do que a nunca, a serviço da política; no caso, usam recursos que não pertencem a suas respectivas direções, para a campanha eleitoral. E já não se ocupam de disfarçar o seu “trabalho” porque desrespeitar a lei, nesse caso, é inócuo quando não é vantajoso. Nova era democrática?
E que fique claro antes de avançar: estou deixando de lado o que não funciona no país — este paraíso… — porque o propósito deste texto é listar as muitas agressões que a democracia sofreu nesses anos. E também não toco, não neste artigo, na fantástica máquina de mentiras e empulhação, como é o caso do PAC — ou um, o dois e o nenhum!
Caminhando para o fim
Eu poderia recomendar a essa gente que fosse estudar para definir primeiro os critérios do que chama democracia — que sofreu, isto sim, um grande retrocesso nos anos Lula. Que democracia é essa em que você tem a certeza de que eles ouvem o que você diz ao telefone e sabem o que você escreveu num e-mail se quiserem — ainda que você não queira? Em que eles escarafuncham a sua vida fiscal se quiserem — ainda que você não queira? Em que eles vasculham as suas contas bancárias se quiserem — ainda que você não queira? E tudo, obviamente, ao arrepio da lei, sem ordem judicial.
Essa é a democracia exemplar? É aquela em que o governo se outorga o direito de gastar o que e como quiser sem que seja vigiado por ninguém? Não! Eles não vão querer estudar porque isso toma tempo, e muito melhor é descolar alguma grana de algum trouxa e realizar uma “pesquisa empírica”, como se orgulham tanto, fazendo com que um teoria qualquer brote de suas porcentagens — desde que seja adesista.
A democracia brasileira sofreu um queda brutal de qualidade. Porque não basta que mais pessoas se tornam consumidoras; não basta que mais pessoas participem, de algum modo, do processo político. Para que avance, o regime democrático tem de estar consolidado. E ele se consolida com o respeito estrito às leis (democraticamente instituídas, é claro), e não com a transgressão continuada, patrocinada, em muitos casos, pelo próprio Poder Executivo.
A questão é saber o que se quer. Eu quero a democracia representativa, organizada segundo um estado de direito. E ele há de ser tolerante o bastante para que se perceba a emergência no novo — e nossa Constituição o é — e firme o bastante para tornar pilares inamovíveis os direitos individuais, que são protegidos pela Carta brasileira. Ocorre que ela está sendo assediada pela demagogia barata. E noto que entes encarregados de pôr freios no apetite sempre grande do Executivo — em qualquer país do mundo, diga-se — estão já um tanto contaminados não pelo espírito das leis, mas pelo espírito da militância. Temo que essa onda já tenha chegado ao Supremo!
Nova era? Não! O governo Lula aproveitou a bonança da economia internacional para tentar casar o bom momento do país com uma agenda que, no espírito e na prática, agride o regime de liberdades. E resistir a isso é um dever dos que defendem a democracia. Eu resisto!
Dia desses me deparo com alguns desses anunciando que o Brasil, com Lula, vive uma espécie de “nova era democrática”. Não! Não vou contestá-los porque, muito provavelmente, votaremos em candidatos distintos ou porque algum valor ideológico nos divida. Ainda que muitos não acreditem, gosto quando encontro algo que considero consistente e que vai na contramão do que eu penso. Não saio batendo em tudo de que discordo, não! Ao contrário: aprendo com aquilo que me surpreende e que não condiz com o meu pensamento. “Nova era democrática”? Por quê? Antes que entre no mérito da questão e demonstre por que o que há de novo não é bom e o que há de bom não é exatamente novo, algumas considerações de princípio.
Questões de princípio
Não se deve confundir a satisfação da maioria — na suposição de que ela exista — no Brasil ou em qualquer país com qualidade ou avanço da democracia. São coisas distintas. O exemplo óbvio a mais não poder foi o regime militar no Brasil. O auge da repressão — e só os muito burros e os de má fé supõem que eu pudesse concordar com aquilo se tivesse idade para tanto — coincidiu com o auge da satisfação com o governo. É fato! Podemos avançar no tempo, aos dias atuais, e viajar lá para as paragens chinesas. Nos últimos 20 anos, o país não tirou 12 milhões da pobreza, mas, ATENÇÃO!, meio bilhão de pessoas!
É uma falácia confundir elevação do bem-estar econômico e social com aperfeiçoamento da democracia política. Ou, sem dúvida, a China seria hoje uma das maiores referências democráticas do mundo. E, no entanto, trata-se de uma tirania. Talvez alguns gostassem de debater se um país com aquelas características tem alternativa à ditadura e se não é melhor mantê-lo debaixo do porrete. Não me chamem para tal debate. O que sei, e com certeza absoluta, é que democracia não é.
Também é uma estupidez, manifestação de ignorância, misto de populismo com falta de leitura, classificar de avanço da democracia uma maior participação política do que chamam “massas”. Por si, não é, não. Pode até ser o oposto disso, como provam o bolchevismo e o fascismo no século passado — ou o regime bandoleiro-fascistóide de Hugo Chávez, na Venezuela. Assim, a saída de milhões ou de meio bilhão da pobreza ou a “emergência das massas” no processo político nada dizem, sozinhos, da qualidade da democracia. Mais do que isso: tais elementos podem servir para ocultar o enrijecimento e a esclerose do padrão democrático.
Ainda uma outra observação antes que volte àqueles especialistas de si mesmos alçados à condição de pensadores do futuro. A democracia que não se encarrega de promover o bem-estar da população acaba encontrando, cedo ou tarde, um candidato a tirano que se propõe a resolver, pela via não-institucional, o que chamará de “desigualdades”. Não serve de exemplo para ninguém. Um governo que se diz dedicado à correção de desigualdades atropelando as leis democraticamente instituídas está se candidatando a ser o coveiro da democracia. E também não serve. Pronto! Esclareci alguns princípios que orientam a minha questão.
Que diabo de nova era é essa?
Nova era democrática com o governo Lula? Por quê? Começo reconhecendo, sim, aquela que foi a grande conquista do… governo FHC: não há mais força política relevante no Brasil que se proponha a virar a mesa. Um Plínio de Arruda Sampaio no debate entra quase como uma ilustração antiga. Eu o vi, ontem, a propósito, a lembrar os “bons tempos” em que os alunos da escola pública eram do “Caetano Campos” — e citou outros colégios outrora tradicionais de São Paulo. O “socialista com liberdade” (risos) tem saudade de quando a escola pública era para os filhos da elite… Mas deixemos a criatura de lado para voltar ao essencial.
FHC devolveu o Brasil ao mundo moderno ao estabilizar a economia. Imaginem: em 1993, a inflação havia chegado a mais de 2.700% aos ano — e tinha sido muito maior no governo Sarney,com correção diária de preços e mensal de salários. No primeiro ano do Plano Real, a que o PT se opôs, foi de 1,8%. O Real, sim, foi o grande golpe dado na pobreza no Brasil — coisa que os vigaristas e mistificadores de agora não reconhecem. E só isso seria o bastante para desqualificar a tal “nova era lulista”. Mas há mais, muito mais.
Direitos individuais
Os oito anos de governo Lula foram caracterizados pela violação sistemática de direitos individuais protegidos pela Constituição. Não há mais sigilo bancário, fiscal, telefônico ou de correspondência. Do caseiro ao banqueiro, passando por dirigentes da oposição, qualquer um está exposto a uma espécie de polícia política. Um ex-funcionário de um bunker contou à revista VEJA como funcionava o esquema — ou funciona ainda. Nova era democrática?
Estado de direito
Nestes anos, setores da Polícia Federal, sem dúvida, cumpriram a sua função e honraram os princípios do departamento. Mas outros, partidarizados, ideologizados, comportaram-se como uma tropa de assalto do regime, intimidando, violando sistematicamente princípios do Estado de direito. Esbirros do poder foram mobilizados no subjornalismo, financiados com dinheiro público, para fazer a guerrilha de desqualificação dos adversários. Nova era democrática?
Assédio à imprensa
A imprensa também está sendo assediada. Não fossem as tentativas de criar embaraços legais para o livre exercício do jornalismo, a Presidência da República — Lula — estimulou a realização de conferências, pouco importando o tema que as reunisse, que tinham uma pauta só: controle da imprensa. A proposta foi aprovada na Conferência Nacional de Direitos Humanos, na Conferência Nacional de Comunicação e na Conferência Nacional de Cultura. Só falta agora realizar uma Conferência Nacional da Liberdade de Imprensa para propor o fim da liberdade de imprensa. Nova era democrática?
TCU
Lula sancionou anteontem a lei que simplesmente alija o Tribunal de Constas da União dos principais gastos feitos pelo Executivo e pelas estatais. O governo Lula passou três anos girando em torno do próprio eixo para dar início às obras da Copa do Mundo e chegou, depois de tanta inoperância, à brilhante conclusão de que não dá para fazer nada sob a vigilância da lei. E isso, com efeito, parece coisa normal a muitos. Nova era democrática?
Leis de ocasião
O presidente da República mudou uma lei para legalizar uma operação que, na verdade, já havia acontecido: a compra da Brasil Telecom pela Oi. A compra, ainda ilegal, foi feita com financiamento de um banco público, o BNDES. Tudo efetivado, Lula criou, então, a nova lei. Com efeito, nunca antes na história destepaiz se agiu assim. E olhem que nem entro no mérito. Pode até ser que a coisa tenha sido necessária. Não importa! Na República, fazem-se negócios de acordo com a lei, e não lei de acordo com os negócios. Nova era democrática?
O mau exemplo do chefe
O chefe do Executivo torna-se um contumaz desrespeitador da legislação eleitoral, transformando-se numa máquina de receber multas irrelevantes, que jamais serão pagas, e casa, abertamente, como se viu anteontem em Minas, a agenda do governo com a agenda de sua candidata, evidenciando que dá uma vistosa banana para o aparato legal. Nova era democrática?
Ditaduras
No front externo, no grupo dos amigos dos tiranos, o Brasil se torna o primus inter pares. Nenhuma diplomacia, como a brasileira, foi tão longe da defesa de facínoras e na proteção que lhes oferece. Não bastasse a atuação pessoal de Lula nesse sentido, o Itamaraty tentou transformar isso numa Teoria Geral da Relação Entre Países. Enviou um documento à ONU em que pede, na pratica, uma pouco mais de calma com as tiranias. Acredita que elas precisam de mais papo, não de pressão. Nova era democrática?
Aparelhamento
O estado nunca esteve tão aparelhado, e os sindicatos e centrais sindicais — agora recebendo parte do Imposto Sindical e também livres da vigilância do TCU — estão, mais do que a nunca, a serviço da política; no caso, usam recursos que não pertencem a suas respectivas direções, para a campanha eleitoral. E já não se ocupam de disfarçar o seu “trabalho” porque desrespeitar a lei, nesse caso, é inócuo quando não é vantajoso. Nova era democrática?
E que fique claro antes de avançar: estou deixando de lado o que não funciona no país — este paraíso… — porque o propósito deste texto é listar as muitas agressões que a democracia sofreu nesses anos. E também não toco, não neste artigo, na fantástica máquina de mentiras e empulhação, como é o caso do PAC — ou um, o dois e o nenhum!
Caminhando para o fim
Eu poderia recomendar a essa gente que fosse estudar para definir primeiro os critérios do que chama democracia — que sofreu, isto sim, um grande retrocesso nos anos Lula. Que democracia é essa em que você tem a certeza de que eles ouvem o que você diz ao telefone e sabem o que você escreveu num e-mail se quiserem — ainda que você não queira? Em que eles escarafuncham a sua vida fiscal se quiserem — ainda que você não queira? Em que eles vasculham as suas contas bancárias se quiserem — ainda que você não queira? E tudo, obviamente, ao arrepio da lei, sem ordem judicial.
Essa é a democracia exemplar? É aquela em que o governo se outorga o direito de gastar o que e como quiser sem que seja vigiado por ninguém? Não! Eles não vão querer estudar porque isso toma tempo, e muito melhor é descolar alguma grana de algum trouxa e realizar uma “pesquisa empírica”, como se orgulham tanto, fazendo com que um teoria qualquer brote de suas porcentagens — desde que seja adesista.
A democracia brasileira sofreu um queda brutal de qualidade. Porque não basta que mais pessoas se tornam consumidoras; não basta que mais pessoas participem, de algum modo, do processo político. Para que avance, o regime democrático tem de estar consolidado. E ele se consolida com o respeito estrito às leis (democraticamente instituídas, é claro), e não com a transgressão continuada, patrocinada, em muitos casos, pelo próprio Poder Executivo.
A questão é saber o que se quer. Eu quero a democracia representativa, organizada segundo um estado de direito. E ele há de ser tolerante o bastante para que se perceba a emergência no novo — e nossa Constituição o é — e firme o bastante para tornar pilares inamovíveis os direitos individuais, que são protegidos pela Carta brasileira. Ocorre que ela está sendo assediada pela demagogia barata. E noto que entes encarregados de pôr freios no apetite sempre grande do Executivo — em qualquer país do mundo, diga-se — estão já um tanto contaminados não pelo espírito das leis, mas pelo espírito da militância. Temo que essa onda já tenha chegado ao Supremo!
Nova era? Não! O governo Lula aproveitou a bonança da economia internacional para tentar casar o bom momento do país com uma agenda que, no espírito e na prática, agride o regime de liberdades. E resistir a isso é um dever dos que defendem a democracia. Eu resisto!
10 agosto 2010
Os passados de FHC e de Lula_In Augusto Nunes
Entre uma lágrima e outra pela perda iminente do empregão, o presidente Lula resolveu queixar-se do Senado que, sob o comando do amigo de infância José Sarney, vêm há anos consumando, com zelo de vassalo interesseiro, todos os serviços sujos encomendados pelo Planalto. E continua criticando obsessivamente Fernando Henrique Cardoso. Dilma Rousseff, entre uma frase sem final e outra sem começo, tenta dizer que oposição “quer baixar o nível da campanha”. E desafia José Serra a discutir o passado.
O que espera a oposição para aproveitar essas bolas levantadas pela dupla e partir para a goleada? A viagem pelo tempo poderia começar em 1969. O Brasil saberia que Dilma Rousseff jamais renegou a opção pelo stalinismo farofeiro feita na juventude, trocou o PDT de Leonel Brizola (que a qualificou de “traidora”) pelo PT para continuar no secretariado gaúcho e — fora o resto — não tem uma única foto que a mostre numa das incontáveis manifestações em defesa da democracia. Só aquela em que se fantasiou e Norma Bengell.
E o que espera Serra para uma esclarecedora mirada no retrovisor? Tanto Lula quanto Dilma precisam ser urgentemente confrontados com os incontáveis momentos vergonhosos que escurecem a trajetória do PT. Foram resumidos no post publicado em novembro de 2009 sob o título Anotações para uma Reedição da História Universal da Infâmia.
Em novembro de 1984, por não enxergar diferenças entre Paulo Maluf e Tancredo Neves, o Partido dos Trabalhadores optou pela abstenção no Colégio Eleitoral que escolheria o primeiro presidente civil depois do ciclo dos generais. Em janeiro de 1985, por entenderem que não se tratava de um confronto entre iguais, três parlamentares do PT ─ Airton Soares, José Eudes e Bete Mendes ─ votaram em Tancredo. Foram expulsos pela direção.
Em 1988, num discurso em Aracaju, o deputado federal Luiz Inácio Lula da Silva qualificou o presidente José Sarney de “o grande ladrão da Nova República”. No mesmo ano, a bancada do PT na Constituinte recusou-se a assinar o texto da nova Constituição. Lula e Sarney hoje são bons companheiros e cúmplices em manobras políticas imorais ou ilegais.
Em 1989, derrotados no primeiro turno da eleição presidencial, Ulysses Guimarães, candidato do PMDB, e Mário Covas, do PSDB, declararam que ficariam ao lado de Lula na batalha final contra Fernando Collor. Rechaçado de imediato, o apoio acabou aceito por insistência dos parceiros repudiados. Num comício em frente do estádio do Pacaembu, Ulysses e Covas apareceram no palanque ao lado do candidato do PT. Foram vaiados pela plateia companheira.
Durante a campanha, o candidato à presidência do PT acusou o adversário Fernando Collor de “filhote da ditadura”. Depois do impeachment, qualificou-o mais de uma vez de “corrupto” mais de uma vez. Hoje Lula e Collor são comparsas. O ex-presidente disputa o governo de Alagoas com o apoio do atual, que em 1989 considerava “ignorante”, “cambalacheiro” e “incapaz de distinguir uma fatura de uma duplicata”.
Em 1993, a ex-prefeita Luiza Erundina, uma das fundadoras do partido, aceitou o convite do presidente Itamar Franco para assumir o comando de um ministério. Foi suspensa e acabou empurrada para fora do PT. Em 1994, ainda no governo de Itamar Franco, os parlamentares petistas lutaram com ferocidade para impedir a aprovação do Plano Real. No mesmo ano, transformaram a revogação da providencial mudança de rota na economia, que erradicou a praga da inflação, numa das bandeiras da campanha presidencial.
Entre o começo de janeiro de 1995 e o fim de dezembro de 2002, a bancada do PT votou contra todos os projetos, medidas e ideias encaminhados ao Legislativo pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Todos, sem exceção. Uma das propostas mais intensamente combatidas foi a que instituiu a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Em janeiro de 1999, mal iniciado o segundo mandato de Fernando Henrique, o deputado Tarso Genro, em nome do PT, propôs a deposição do presidente reeleito e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. O lançamento da campanha com o mote “Fora FHC!” foi justificado por acusações, desacompanhadas de provas, que Tarso enfeixou num artigo publicado pela Folha de S. Paulo. Trecho: Hoje, acrescento que o presidente está pessoalmente responsabilizado por amparar um grupo fora da lei, que controla as finanças do Estado e subordina o trabalho e o capital do país ao enriquecimento ilegítimo de uns poucos. Alguns bancos lucraram em janeiro (evidentemente, por ter informações privilegiadas) US$ 1,3 bilhão, valor que não lucraram em todo o ano passado!
O que diriam Tarso, Lula e o resto da companheirada se tal acusação, perfeitamente aplicável ao atual chefe de governo, fosse subscrita por alguém do PSDB, do DEM ou do PPS? Coisa de traidor da pátria, inimigo da nação, gente que aposta no quanto pior, melhor, estariam berrando todos. “Tem gente que torce pra que tudo dê errado”, retomaria Lula a ladainha desde janeiro de 2003. Desde a ressurreição da democracia brasileira, a ação do PT oposicionista foi permanentemente orientada por sentimentos menores, miúdos, mesquinhos. É compreensível que os Altos Companheiros acreditem que todos os políticos são movidos pelo mesmo combustível de baixíssima qualidade.
Depois da eleição de 2002, Fernando Henrique Cardoso impediu que a inflação fosse ressuscitada pelo medo decorrente da folha corrida do PT, comandou a primeira transição civilizada da história republicana e entregou a casa em ordem. Para manter a política econômica fixada pelo governo anterior, Lula entregou a direção do Banco Central a Henrique Meirelles, eleito deputado federal pelo PSDB de Goiás. Assim que tomou posse, o sucessor começou a recitar a falácia da “herança maldita.
Desfigurado pela metamorfose nauseante, o chefe de governo não teria sossego se o intratável chefe da oposição ainda existisse. O condutor do rebanho não tem semelhanças com o Lula do século passado, mas continua ouvindo os balidos aprovadores do rebanho companheiro. O caçador de gatunos hoje é padroeiro da quadrilha federal. O parlamentar que recusou a conciliação proposta por Tancredo é o presidente que se reconcilia com qualquer abjeção desfrutável. O moralizador da República presidiu e abafou o escândalo incomparável do mensalão.
Mas não admite sequer criticas formuladas sem aspereza pelo antecessor que atacava com virulência. É inveja, grita Lula. O espelho reflete o contrário. Nenhum homem culto prefere ser ignorante, nenhum homem educado sonha com a grosseria, gente honrada não quer conversa com delinquentes.
Lula jamais esquecerá que foi derrotado por FHC duas vezes, ambas no primeiro turno. E sabe que o vencedor nunca inveja o vencido.
O que espera a oposição para aproveitar essas bolas levantadas pela dupla e partir para a goleada? A viagem pelo tempo poderia começar em 1969. O Brasil saberia que Dilma Rousseff jamais renegou a opção pelo stalinismo farofeiro feita na juventude, trocou o PDT de Leonel Brizola (que a qualificou de “traidora”) pelo PT para continuar no secretariado gaúcho e — fora o resto — não tem uma única foto que a mostre numa das incontáveis manifestações em defesa da democracia. Só aquela em que se fantasiou e Norma Bengell.
E o que espera Serra para uma esclarecedora mirada no retrovisor? Tanto Lula quanto Dilma precisam ser urgentemente confrontados com os incontáveis momentos vergonhosos que escurecem a trajetória do PT. Foram resumidos no post publicado em novembro de 2009 sob o título Anotações para uma Reedição da História Universal da Infâmia.
Em novembro de 1984, por não enxergar diferenças entre Paulo Maluf e Tancredo Neves, o Partido dos Trabalhadores optou pela abstenção no Colégio Eleitoral que escolheria o primeiro presidente civil depois do ciclo dos generais. Em janeiro de 1985, por entenderem que não se tratava de um confronto entre iguais, três parlamentares do PT ─ Airton Soares, José Eudes e Bete Mendes ─ votaram em Tancredo. Foram expulsos pela direção.
Em 1988, num discurso em Aracaju, o deputado federal Luiz Inácio Lula da Silva qualificou o presidente José Sarney de “o grande ladrão da Nova República”. No mesmo ano, a bancada do PT na Constituinte recusou-se a assinar o texto da nova Constituição. Lula e Sarney hoje são bons companheiros e cúmplices em manobras políticas imorais ou ilegais.
Em 1989, derrotados no primeiro turno da eleição presidencial, Ulysses Guimarães, candidato do PMDB, e Mário Covas, do PSDB, declararam que ficariam ao lado de Lula na batalha final contra Fernando Collor. Rechaçado de imediato, o apoio acabou aceito por insistência dos parceiros repudiados. Num comício em frente do estádio do Pacaembu, Ulysses e Covas apareceram no palanque ao lado do candidato do PT. Foram vaiados pela plateia companheira.
Durante a campanha, o candidato à presidência do PT acusou o adversário Fernando Collor de “filhote da ditadura”. Depois do impeachment, qualificou-o mais de uma vez de “corrupto” mais de uma vez. Hoje Lula e Collor são comparsas. O ex-presidente disputa o governo de Alagoas com o apoio do atual, que em 1989 considerava “ignorante”, “cambalacheiro” e “incapaz de distinguir uma fatura de uma duplicata”.
Em 1993, a ex-prefeita Luiza Erundina, uma das fundadoras do partido, aceitou o convite do presidente Itamar Franco para assumir o comando de um ministério. Foi suspensa e acabou empurrada para fora do PT. Em 1994, ainda no governo de Itamar Franco, os parlamentares petistas lutaram com ferocidade para impedir a aprovação do Plano Real. No mesmo ano, transformaram a revogação da providencial mudança de rota na economia, que erradicou a praga da inflação, numa das bandeiras da campanha presidencial.
Entre o começo de janeiro de 1995 e o fim de dezembro de 2002, a bancada do PT votou contra todos os projetos, medidas e ideias encaminhados ao Legislativo pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Todos, sem exceção. Uma das propostas mais intensamente combatidas foi a que instituiu a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Em janeiro de 1999, mal iniciado o segundo mandato de Fernando Henrique, o deputado Tarso Genro, em nome do PT, propôs a deposição do presidente reeleito e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. O lançamento da campanha com o mote “Fora FHC!” foi justificado por acusações, desacompanhadas de provas, que Tarso enfeixou num artigo publicado pela Folha de S. Paulo. Trecho: Hoje, acrescento que o presidente está pessoalmente responsabilizado por amparar um grupo fora da lei, que controla as finanças do Estado e subordina o trabalho e o capital do país ao enriquecimento ilegítimo de uns poucos. Alguns bancos lucraram em janeiro (evidentemente, por ter informações privilegiadas) US$ 1,3 bilhão, valor que não lucraram em todo o ano passado!
O que diriam Tarso, Lula e o resto da companheirada se tal acusação, perfeitamente aplicável ao atual chefe de governo, fosse subscrita por alguém do PSDB, do DEM ou do PPS? Coisa de traidor da pátria, inimigo da nação, gente que aposta no quanto pior, melhor, estariam berrando todos. “Tem gente que torce pra que tudo dê errado”, retomaria Lula a ladainha desde janeiro de 2003. Desde a ressurreição da democracia brasileira, a ação do PT oposicionista foi permanentemente orientada por sentimentos menores, miúdos, mesquinhos. É compreensível que os Altos Companheiros acreditem que todos os políticos são movidos pelo mesmo combustível de baixíssima qualidade.
Depois da eleição de 2002, Fernando Henrique Cardoso impediu que a inflação fosse ressuscitada pelo medo decorrente da folha corrida do PT, comandou a primeira transição civilizada da história republicana e entregou a casa em ordem. Para manter a política econômica fixada pelo governo anterior, Lula entregou a direção do Banco Central a Henrique Meirelles, eleito deputado federal pelo PSDB de Goiás. Assim que tomou posse, o sucessor começou a recitar a falácia da “herança maldita.
Desfigurado pela metamorfose nauseante, o chefe de governo não teria sossego se o intratável chefe da oposição ainda existisse. O condutor do rebanho não tem semelhanças com o Lula do século passado, mas continua ouvindo os balidos aprovadores do rebanho companheiro. O caçador de gatunos hoje é padroeiro da quadrilha federal. O parlamentar que recusou a conciliação proposta por Tancredo é o presidente que se reconcilia com qualquer abjeção desfrutável. O moralizador da República presidiu e abafou o escândalo incomparável do mensalão.
Mas não admite sequer criticas formuladas sem aspereza pelo antecessor que atacava com virulência. É inveja, grita Lula. O espelho reflete o contrário. Nenhum homem culto prefere ser ignorante, nenhum homem educado sonha com a grosseria, gente honrada não quer conversa com delinquentes.
Lula jamais esquecerá que foi derrotado por FHC duas vezes, ambas no primeiro turno. E sabe que o vencedor nunca inveja o vencido.
Como é ser prisioneiro das Farcs_In Augusto Nunes
Ele não dorme numa cama há quase 12 anos. Atravessa as noites acorrentado pelo pescoço, pelos braços ou pelas pernas a um tronco de árvore, com o corpo estendido sobre uma camada de plástico fino como o dos sacos de lixo, exposto a picadas de insetos ou ataques de animais da selva. Há 143 meses não vê televisão, não usa computador, não lê revistas nem jornais, não conversa sem restrições sobre qualquer assunto. E está proibido de manter relações sexuais há mais de 4 mil dias.
Sequestrado pelas Farc em 13 de outubro de 1998, Elkin Rivas sobrevive há quase 100 mil horas ao mais brutal dos cativeiros. Ele tinha 22 anos e era tenente da polícia colombiana quando foi capturado sem ter cometido qualquer crime e sentenciado, sem julgamento formal, a um tipo de horror que não tem prazo para terminar. Aos 34, não sabe quando ─ ou se ─ retomará a vida interrompida. Enquadrado na categoria dos “reféns políticos”, Elkin é um dos 13 remanescentes do grupo cuja soltura as Farc condicionam desde 2006 ao indulto de 500 narcoterroristas capturados pelo governo e condenados pela Justiça.
O governo de Álvaro Uribe recusou a troca quando os cativos eram 60 e havia entre senadores, entre os quais a ex-candidata à presidência Ingrid Betancourt, vários deputados, um general e três agentes americanos. É improvável que o presidente Juan Manuel Santos aceite um acordo agora que só restaram oficiais de baixa patente. Se tiver muita sorte, uma operação militar poderá devolver a Elkin o direito de ir e vir. Mas nada lhe devolverá o que perdeu além da liberdade.
Perdeu para sempre os melhores anos da mocidade. Ao contrário de todos os amigos que continuaram longe da selva, não pôde namorar, casar-se, ter filhos, conversar nas mesas dos bares, conviver com a família, ir ao cinema, dançar, jogar futebol, comer o prato preferido, comemorar o aniversário ─ foram-lhe confiscados todos os pequenos prazeres inseparáveis do ato de viver. Se o tempo na selva escorre com apavorante lentidão para todos os sequestrados ─ mais de 600, calcula-se ─ o mundo segue seu curso com velocidade crescente. E mudou de século e de cara entre o outono de 1998 e o inverno de 2010.
Enquanto perdia a saúde para as doenças da selva, enquanto perdia as forças em caminhadas na mata que frequentemente duram sete dias, Elkin perdeu a chance de contemplar as mudanças na paisagem planetária. A Colômbia realizou três eleições presidenciais, alguns países nasceram e outros morreram, as Torres Gêmeas sumiram, os Estados Unidos se envolveram em três guerras e elegeram um presidente negro, um cardeal alemão tornou-se papa. Elkin não viu nada disso.
A China se transformou na segunda potência, um homem correu 100 metros em 9 segundos e 58 milésimos, Plutão deixou de ser planeta, descobriu-se que existe água em Marte e na Lua. Houve três Olimpíadas, três Copas do Mundo, o enforcamento de Saddam Hussein, o tsunami no Pacífico, o terremoto no Haiti, a troca de Fidel Castro pelo irmão Raúl. A União Européia adotou o euro como moeda padrão, a Voyager ultrapassou as fronteiras do sistema solar, o dialeto do universo digital incorporou à linguagem corrente expressões, palavras e siglas como pen-drive, Orkut, iPod, Wikipédia, Youtube, iPhone, Twitter, Facebook ou Google. Elkin perdeu tudo isso.
Só não perdeu de vez a esperança por não ter perdido a mãe, Magdalena Rivas, que há quase 12 anos impede o filho de sucumbir ao medo do esquecimento. Entre as fobias que escoltam permanentemente um refém, nenhuma é tão angustiante. “O governo precisa lembrar-se dos que continuam prisioneiros das Farc”, repetiu Magdalena em 6 de junho, depois de receber a prova mais recente de que o filho continua vivo: num vídeo, Elkin diz que está bem e pede desculpas aos pais “pelo sofrimento que causou”.
Em julho, Magdalena animou-se com a bem sucedida operação que resgatou o general Luis Mendieta, o coronel Enrique Murillo, o capitão Willian Donato e o sargento Arbey Delgado. Mas logo foi assaltada pela hipótese aflitiva: “Essa gente pode agir em represália contra os sequestrados”, assustou-se. “Eles continuam lá, acorrentados, numa situação que uma mãe não consegue entender”.
O presidente Hugo Chávez não só compreende como aprova, apoia e financia os quase 8 mil carcereiros das Farc. Denunciado por Álvaro Uribe por hospedar 1.500 narcoterroristas, Chávez primeiro tentou desmentir o crime copiosamente documentado, depois rompeu relações com a Colômbia e, ao enfim admitir a existência das bases paramilitares em território venezuelano, reiterou as juras de inocência. Neste domingo, voltou a simular interesse pela sorte dos reféns supliciados pela organização criminosa que patrocina.
“O Brasil tem uma posição neutra sobre as Farc”, disse ao jornal francês Le Figaro o conselheiro presidencial Marco Aurélio Garcia. Como se não fosse obscena a neutralidade que iguala um governo constitucional a um bando narcoterrorista. O presidente Lula faz de conta que nunca houve o desafio reiterado pelas Farc desde 1964. “Nós não temos guerras neste continente”, recitou o chefe de governo ao candidatar-se a mediador da crise que envolve a Colômbia e a Venezuela. “Só existem conflitos verbais”. São declarações deploráveis, retrucou Uribe.
O adjetivo é brando. Como advertiu o presidente colombiano, quem não enxerga nas Farc uma ameaça intolerável à democracia é, na hipótese mais misericordiosa, um comparsa de liberticidas e um cúmplice de carrascos. Se não há guerra, como fantasia Lula, então não há prisioneiros de guerra. Os elkins acorrentados na selva, portanto não existem.
Entre 1998 e 2010, o governante sessentão saboreou os melhores anos da vida, oito dos quais desfrutados em palanques e palácios. É demais cobrar compaixão de quem não sabe o que é isso. Mas os homens decentes devem exigir que Lula pelo menos renuncie ao cinismo.
Sequestrado pelas Farc em 13 de outubro de 1998, Elkin Rivas sobrevive há quase 100 mil horas ao mais brutal dos cativeiros. Ele tinha 22 anos e era tenente da polícia colombiana quando foi capturado sem ter cometido qualquer crime e sentenciado, sem julgamento formal, a um tipo de horror que não tem prazo para terminar. Aos 34, não sabe quando ─ ou se ─ retomará a vida interrompida. Enquadrado na categoria dos “reféns políticos”, Elkin é um dos 13 remanescentes do grupo cuja soltura as Farc condicionam desde 2006 ao indulto de 500 narcoterroristas capturados pelo governo e condenados pela Justiça.
O governo de Álvaro Uribe recusou a troca quando os cativos eram 60 e havia entre senadores, entre os quais a ex-candidata à presidência Ingrid Betancourt, vários deputados, um general e três agentes americanos. É improvável que o presidente Juan Manuel Santos aceite um acordo agora que só restaram oficiais de baixa patente. Se tiver muita sorte, uma operação militar poderá devolver a Elkin o direito de ir e vir. Mas nada lhe devolverá o que perdeu além da liberdade.
Perdeu para sempre os melhores anos da mocidade. Ao contrário de todos os amigos que continuaram longe da selva, não pôde namorar, casar-se, ter filhos, conversar nas mesas dos bares, conviver com a família, ir ao cinema, dançar, jogar futebol, comer o prato preferido, comemorar o aniversário ─ foram-lhe confiscados todos os pequenos prazeres inseparáveis do ato de viver. Se o tempo na selva escorre com apavorante lentidão para todos os sequestrados ─ mais de 600, calcula-se ─ o mundo segue seu curso com velocidade crescente. E mudou de século e de cara entre o outono de 1998 e o inverno de 2010.
Enquanto perdia a saúde para as doenças da selva, enquanto perdia as forças em caminhadas na mata que frequentemente duram sete dias, Elkin perdeu a chance de contemplar as mudanças na paisagem planetária. A Colômbia realizou três eleições presidenciais, alguns países nasceram e outros morreram, as Torres Gêmeas sumiram, os Estados Unidos se envolveram em três guerras e elegeram um presidente negro, um cardeal alemão tornou-se papa. Elkin não viu nada disso.
A China se transformou na segunda potência, um homem correu 100 metros em 9 segundos e 58 milésimos, Plutão deixou de ser planeta, descobriu-se que existe água em Marte e na Lua. Houve três Olimpíadas, três Copas do Mundo, o enforcamento de Saddam Hussein, o tsunami no Pacífico, o terremoto no Haiti, a troca de Fidel Castro pelo irmão Raúl. A União Européia adotou o euro como moeda padrão, a Voyager ultrapassou as fronteiras do sistema solar, o dialeto do universo digital incorporou à linguagem corrente expressões, palavras e siglas como pen-drive, Orkut, iPod, Wikipédia, Youtube, iPhone, Twitter, Facebook ou Google. Elkin perdeu tudo isso.
Só não perdeu de vez a esperança por não ter perdido a mãe, Magdalena Rivas, que há quase 12 anos impede o filho de sucumbir ao medo do esquecimento. Entre as fobias que escoltam permanentemente um refém, nenhuma é tão angustiante. “O governo precisa lembrar-se dos que continuam prisioneiros das Farc”, repetiu Magdalena em 6 de junho, depois de receber a prova mais recente de que o filho continua vivo: num vídeo, Elkin diz que está bem e pede desculpas aos pais “pelo sofrimento que causou”.
Em julho, Magdalena animou-se com a bem sucedida operação que resgatou o general Luis Mendieta, o coronel Enrique Murillo, o capitão Willian Donato e o sargento Arbey Delgado. Mas logo foi assaltada pela hipótese aflitiva: “Essa gente pode agir em represália contra os sequestrados”, assustou-se. “Eles continuam lá, acorrentados, numa situação que uma mãe não consegue entender”.
O presidente Hugo Chávez não só compreende como aprova, apoia e financia os quase 8 mil carcereiros das Farc. Denunciado por Álvaro Uribe por hospedar 1.500 narcoterroristas, Chávez primeiro tentou desmentir o crime copiosamente documentado, depois rompeu relações com a Colômbia e, ao enfim admitir a existência das bases paramilitares em território venezuelano, reiterou as juras de inocência. Neste domingo, voltou a simular interesse pela sorte dos reféns supliciados pela organização criminosa que patrocina.
“O Brasil tem uma posição neutra sobre as Farc”, disse ao jornal francês Le Figaro o conselheiro presidencial Marco Aurélio Garcia. Como se não fosse obscena a neutralidade que iguala um governo constitucional a um bando narcoterrorista. O presidente Lula faz de conta que nunca houve o desafio reiterado pelas Farc desde 1964. “Nós não temos guerras neste continente”, recitou o chefe de governo ao candidatar-se a mediador da crise que envolve a Colômbia e a Venezuela. “Só existem conflitos verbais”. São declarações deploráveis, retrucou Uribe.
O adjetivo é brando. Como advertiu o presidente colombiano, quem não enxerga nas Farc uma ameaça intolerável à democracia é, na hipótese mais misericordiosa, um comparsa de liberticidas e um cúmplice de carrascos. Se não há guerra, como fantasia Lula, então não há prisioneiros de guerra. Os elkins acorrentados na selva, portanto não existem.
Entre 1998 e 2010, o governante sessentão saboreou os melhores anos da vida, oito dos quais desfrutados em palanques e palácios. É demais cobrar compaixão de quem não sabe o que é isso. Mas os homens decentes devem exigir que Lula pelo menos renuncie ao cinismo.
05 agosto 2010
Gazeta institucionalizada na CMM e na ALE
Os vereadores de Manaus tomaram uma decisão perfeitamente consentânea com as práticas atuais e antigas: decretaram um recesso branco para cada um cuidar de suas campanhas a deputados estaduais. Aliás, com eleição a cada dois anos “nestepaiz”, não se pode esperar nada diferente. Os políticos profissionais estão sempre pensando na próxima eleição, pois, afinal de contas não sabem fazer outra coisa. Ou melhor, não há nenhuma atividade que seja mais lucrativa do que a política.
Estamos “carecas” de saber que nossos políticos em geral – salvo raras exceções de alguns espíritos altruístas – e nossos vereadores em particular são caras-de-pau. E não adianta irmos para a imprensa falar mal deles porque eles sabem muito bem que a população votante não lê jornal. E se lê não entende. E, se entende se cala. Ou seja, isso vai se repetir sem limitações e nada de mal lhes acontecerá, a não ser que percam as eleições. O mal lhes baterá na porta como conseqüência de perder os ganhos que poderá significar perder as eleições. Nesse sentido Lula lhes mostra que esse é o caminho.
Assim se comporta o presidente da República – que é quem deveria dar o exemplo maior pela moralidade e faz exatamente o inverso -, tornando a política uma atividade ética relativista, pela qual os fins eleitorais justificam todos os meios empregados, lícitos e ilícitos, éticos ou aéticos, uma vez que a sociedade parece não se importar com esses valores porque lhe dá índices de popularidade “nunca vistos na este país”.
Os vereadores de Manaus sabem muito bem que a sociedade está anestesiada pelo sistema político perverso em que suas lideranças tratam o povo como bovinos, inconscientes de sua própria existência, pois não pensam suas realidades a partir da massa encefálica, mas sim das entranhas saciadas pelo pão advindo das “bolsas” que o governo entrega em troca de votos. Lula antes achava a “bolsa” como eleiçoeira e hoje a considera uma moeda extremamente interessante para se manter no poder pelo poder.
Como Lula, os vereadores sabem que a moeda de troca é o voto e que, portanto, se os tiverem depositados bovinamente na urna tudo lhes será perdoado em termos das piores transgressões possíveis.
Está bastante claro que a reforma do judiciário, com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), trouxe imensos benefícios para a administração da Justiça – aqui com sentido de “gestão” e não da entrega do “direito” pelo juiz propriamente dita - e por conseguinte vemos a necessidade da aplicação dos mesmos princípios na área política: é necessário que se crie um órgão de controle social da classe política que atue permanentemente para coibir seus abusos e não apenas antes e durante o processo eleitoral ou não veremos essa atividade reprimida em suas imensas possibilidades de produzir cretinices.
Não basta dizer que a classe política sofre o controle social a cada período eleitoral porque essa não é a realidade dos fatos. Com base na utilização patrimonialista da coisa pública pela classe política, grande parte dos políticos termina por se “eternizar” nos cargos eletivos quando se utiliza dos recursos públicos para se manter no poder. Nesse sentido não existem políticos honestos. A desonestidade está no coração do sistema.
Exemplarmente, veja-se o caso da atuação do CNJ no Amazonas. Somente a partir de sua atuação pudemos perceber o quanto as práticas administrativas dos juízes em nada diferem da dos políticos em geral. E o pior é que, ao contrário da classe política, nem foram “eleitos” para isso. E mesmo que o fossem não poderiam fazê-lo pelo princípio da moralidade que rege a administração pública. Neste sentido é exemplar a atitude do atual presidente do TJAM, João Simões, que não está omitindo as mazelas daquele Poder e nem sendo corporativista digno dos encômios da sociedade amazonense. Não podemos deixá-lo sozinho nesse esforço.
Se ficarmos apenas com este princípio – que afinal é um princípio da vida social – do qual todos os demais são corolários, ou seja, a legalidade, a publicidade, a impessoalidade são todos decorrentes da moralidade. Esta é, portanto, superior àquelas. Aqui a classe política está flagrantemente em desvantagem quanto a isso.
No caso da gazeta institucionalizada na Câmara Municipal de Manaus e na Assembléia Legislativa do Amazonas – que deve ser o reflexo do que ocorre país afora – que põe em completa nudez a falta de compromisso moral e ético da classe política, que faz uso descarado dos recursos públicos, no mais crasso patrimonialismo – e que torna disputa desigual em relação aos que – ainda – não contam com mandato eletivo, e assim tendem a se “perpetuar” nos cargos políticos eletivos.
Ao mesmo tempo em que os políticos com mandato partem para o uso descarado dos recursos públicos põem em desequilíbrio qualquer disputa eleitoral. O incrível de tudo isso é que a possibilidade de mudança passa pela vontade dos mesmos que hoje estão se aproveitando dessa realidade, ou seja, a classe política. Dessa forma, a única possibilidade de mudança é a atuação direta da população, por meio das Instituições sociais, elaborando e negociando no âmbito do Poder Legislativo a mudança desse estado de coisas, como foi o caso de diversas leis no âmbito político, partidário e eleitoral, das inelegibilidades, do abuso do poder econômico e da “ficha limpa”.
A classe política vive chafurdando entre a legalidade e a imoralidade a justificar seus atos injustificáveis e, quando alguém tenta se diferençar dessa realidade, é tida como ‘demagogo’ e ‘traidor’ da classe, como mo caso da vereadora Vilma Queiroz, que optou por não receber salários quando ausente da Câmara nessa quadra eleitoral mesmo que institucionalmente tenham sido permitidas essas faltas, contrariamente ao que manda a lei e a moral.
Estamos “carecas” de saber que nossos políticos em geral – salvo raras exceções de alguns espíritos altruístas – e nossos vereadores em particular são caras-de-pau. E não adianta irmos para a imprensa falar mal deles porque eles sabem muito bem que a população votante não lê jornal. E se lê não entende. E, se entende se cala. Ou seja, isso vai se repetir sem limitações e nada de mal lhes acontecerá, a não ser que percam as eleições. O mal lhes baterá na porta como conseqüência de perder os ganhos que poderá significar perder as eleições. Nesse sentido Lula lhes mostra que esse é o caminho.
Assim se comporta o presidente da República – que é quem deveria dar o exemplo maior pela moralidade e faz exatamente o inverso -, tornando a política uma atividade ética relativista, pela qual os fins eleitorais justificam todos os meios empregados, lícitos e ilícitos, éticos ou aéticos, uma vez que a sociedade parece não se importar com esses valores porque lhe dá índices de popularidade “nunca vistos na este país”.
Os vereadores de Manaus sabem muito bem que a sociedade está anestesiada pelo sistema político perverso em que suas lideranças tratam o povo como bovinos, inconscientes de sua própria existência, pois não pensam suas realidades a partir da massa encefálica, mas sim das entranhas saciadas pelo pão advindo das “bolsas” que o governo entrega em troca de votos. Lula antes achava a “bolsa” como eleiçoeira e hoje a considera uma moeda extremamente interessante para se manter no poder pelo poder.
Como Lula, os vereadores sabem que a moeda de troca é o voto e que, portanto, se os tiverem depositados bovinamente na urna tudo lhes será perdoado em termos das piores transgressões possíveis.
Está bastante claro que a reforma do judiciário, com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), trouxe imensos benefícios para a administração da Justiça – aqui com sentido de “gestão” e não da entrega do “direito” pelo juiz propriamente dita - e por conseguinte vemos a necessidade da aplicação dos mesmos princípios na área política: é necessário que se crie um órgão de controle social da classe política que atue permanentemente para coibir seus abusos e não apenas antes e durante o processo eleitoral ou não veremos essa atividade reprimida em suas imensas possibilidades de produzir cretinices.
Não basta dizer que a classe política sofre o controle social a cada período eleitoral porque essa não é a realidade dos fatos. Com base na utilização patrimonialista da coisa pública pela classe política, grande parte dos políticos termina por se “eternizar” nos cargos eletivos quando se utiliza dos recursos públicos para se manter no poder. Nesse sentido não existem políticos honestos. A desonestidade está no coração do sistema.
Exemplarmente, veja-se o caso da atuação do CNJ no Amazonas. Somente a partir de sua atuação pudemos perceber o quanto as práticas administrativas dos juízes em nada diferem da dos políticos em geral. E o pior é que, ao contrário da classe política, nem foram “eleitos” para isso. E mesmo que o fossem não poderiam fazê-lo pelo princípio da moralidade que rege a administração pública. Neste sentido é exemplar a atitude do atual presidente do TJAM, João Simões, que não está omitindo as mazelas daquele Poder e nem sendo corporativista digno dos encômios da sociedade amazonense. Não podemos deixá-lo sozinho nesse esforço.
Se ficarmos apenas com este princípio – que afinal é um princípio da vida social – do qual todos os demais são corolários, ou seja, a legalidade, a publicidade, a impessoalidade são todos decorrentes da moralidade. Esta é, portanto, superior àquelas. Aqui a classe política está flagrantemente em desvantagem quanto a isso.
No caso da gazeta institucionalizada na Câmara Municipal de Manaus e na Assembléia Legislativa do Amazonas – que deve ser o reflexo do que ocorre país afora – que põe em completa nudez a falta de compromisso moral e ético da classe política, que faz uso descarado dos recursos públicos, no mais crasso patrimonialismo – e que torna disputa desigual em relação aos que – ainda – não contam com mandato eletivo, e assim tendem a se “perpetuar” nos cargos políticos eletivos.
Ao mesmo tempo em que os políticos com mandato partem para o uso descarado dos recursos públicos põem em desequilíbrio qualquer disputa eleitoral. O incrível de tudo isso é que a possibilidade de mudança passa pela vontade dos mesmos que hoje estão se aproveitando dessa realidade, ou seja, a classe política. Dessa forma, a única possibilidade de mudança é a atuação direta da população, por meio das Instituições sociais, elaborando e negociando no âmbito do Poder Legislativo a mudança desse estado de coisas, como foi o caso de diversas leis no âmbito político, partidário e eleitoral, das inelegibilidades, do abuso do poder econômico e da “ficha limpa”.
A classe política vive chafurdando entre a legalidade e a imoralidade a justificar seus atos injustificáveis e, quando alguém tenta se diferençar dessa realidade, é tida como ‘demagogo’ e ‘traidor’ da classe, como mo caso da vereadora Vilma Queiroz, que optou por não receber salários quando ausente da Câmara nessa quadra eleitoral mesmo que institucionalmente tenham sido permitidas essas faltas, contrariamente ao que manda a lei e a moral.
Vereadores criam nova CPI do cartel de postos de combustíveis
Da mesma natureza cínica pela qual os vereadores se dão uma licença remunerada para fazer campanha política é a tentativa de se criar mais uma CPI na Câmara Municipal de Manaus para pretensamente ‘apurar’ a existência de cartel nos postos de combustíveis em Manaus: auferir moeda de troca do sistema político.
Basta o simples ato de abastecer em postos diferentes para constatar o fato meridional de que existe sim um cartel de combustível em Manaus. Somente os vereadores de Manaus não conseguem chegar a essa conclusão – nem querendo – seja com quantas CPI’s produzam.
De duas, três: ou se está brincando com essa questão, ou se está chantageando os ‘empresários de combustível’. Ou se está querendo holofote fácil como mais uma vantagem dos vereadores candidatos a deputado estadual sobre os que não detêm mandato e com isso ferindo a moralidade e a legislação eleitoral.
Os vereadores criarem a cada momento que seus interesses determinam uma nova CPI dos combustíveis é achar que nós todos somos imbecis – e somos mesmo! – os vereadores a cada esbirro criarem uma CPI, o que acaba por desmoralizar esse instrumento de investigação das minorias parlamentares – isso quando a maioria permite que a minoria exista.
Manaus parece terra de ninguém, onde uma turma de desocupados se aboleta nos escaninhos da Câmara Municipal como vereadores e passam o tempo imaginando maneiras de como se perpetuarem nos cargos – única forma fácil que descobriram de como ganhar dinheiro sem trabalhar. Se foram postos na rua por incompetência, não serão capazes de montar um parafuso em uma ruela.
Esse delírio é parte de uma ópera bufa em que a nossa democracia formalista impõe e existência desse Poder como órgão instrumental do Poder Executivo – que na verdade é quem legisla visto que 99% dos Projetos de Leis aprovados têm origem nesse Poder – o que torna o Legislativo uma força auxiliar e “paga” no sentido da viabilização daquela “moeda de troca” política dos políticos que torna suas participações “vendáveis” para que essas participações sejam, como diríamos, auto-sustentável”, isto é, sem ganhos financeiros e eleitorais não há como um político – seja ele vereaador, deputado ou senador –se manter como tal.
Daí que os políticos vivem imaginando fórmulas de como “se manterem no sistema”,ou seja, se não conseguirem auferir ganhos financeiros e eleitorais eles não conseguem reproduzir o ambiente social e político necessário para sua manutenção.
Nesse sentido não haverá solução sem que a sociedade faça o verdadeiro “controle” do “sistema” – o que nunca se dará pelo voto apenas. Para isso, será necessário dotar a população de capacidade de perceber os erros desse sistema, de perceber que seu voto não vale apenas uma “bolsa”, uma benesse, uma emenda parlamentar, um cargo público para empregar cabos eleitorais, um repasse para sua ONG, uma CPI para aparecer na TV Câmara, importunar os empresários de combustível que fazem cartel, auferir ganho a partir da chantagem, etc.
Portanto, desse ponto de vista, não é nenhum absurdo o que estamos assistindo quanto ao que os vereadores de Manaus estão fazendo. Como não seria se tentassem novamente uma CPI sobre o “sistema” de transportes coletivos urbanos a fim de perturbar o prefeito e os “empresários” de ônibus. Mas neste caso não há interesse uma vez que esse tema é tabu para o Poder Executivo uma vez que este não consegue equacionar o problema nem que tenha 10 dez mandatos. Assim, como haveria nenhum ganho para a “classe política” no poder, passa a não ser um tema de interesse embora os cidadãos de Manaus estejam sofrendo na pele o pior “sistema” de transporte coletivo talvez do país ou quiçá do mundo.
Assim, os vereadores não estão preocupados com a verdade dos fatos, mas sim com os seus interesses políticos imediatos. Se forem em algum momento questionados acerca de temas que os deixem desconfortados, dirão que é “problema do Poder Executivo” – como se este fosse uma entidade distante e sem vínculo com suas próprias atividades.
Somente após uma reforma político-partidária-eleitoral talvez seja possível superar esse sistema cínico que trata o cidadão como palerma, mas isto é como o “rato” colocar o guizo no pescoço do “gato”: como modificar um “sistema” político cretino em um sistema político mais socialmente responsável quando os atuais beneficiários é que tem o “poder formal” de alterá-lo?
Por esse ângulo, verifica-se que se está tratando de um sofisma, isto é, de uma questão filosófica sem saída – um beco sem saída -, sem que haja a tomada de posição pela sociedade civil organizada (visto que a população em geral não detém essa consciência), como foi o caso das últimas alterações da legislação eleitoral quanto ao abuso do poder econômico, da ficha-limpa e outros temas, que surgiram a partir de emenda popular, isto é, com a assinatura de mais de 1 milhão e meio de eleitores.
Basta o simples ato de abastecer em postos diferentes para constatar o fato meridional de que existe sim um cartel de combustível em Manaus. Somente os vereadores de Manaus não conseguem chegar a essa conclusão – nem querendo – seja com quantas CPI’s produzam.
De duas, três: ou se está brincando com essa questão, ou se está chantageando os ‘empresários de combustível’. Ou se está querendo holofote fácil como mais uma vantagem dos vereadores candidatos a deputado estadual sobre os que não detêm mandato e com isso ferindo a moralidade e a legislação eleitoral.
Os vereadores criarem a cada momento que seus interesses determinam uma nova CPI dos combustíveis é achar que nós todos somos imbecis – e somos mesmo! – os vereadores a cada esbirro criarem uma CPI, o que acaba por desmoralizar esse instrumento de investigação das minorias parlamentares – isso quando a maioria permite que a minoria exista.
Manaus parece terra de ninguém, onde uma turma de desocupados se aboleta nos escaninhos da Câmara Municipal como vereadores e passam o tempo imaginando maneiras de como se perpetuarem nos cargos – única forma fácil que descobriram de como ganhar dinheiro sem trabalhar. Se foram postos na rua por incompetência, não serão capazes de montar um parafuso em uma ruela.
Esse delírio é parte de uma ópera bufa em que a nossa democracia formalista impõe e existência desse Poder como órgão instrumental do Poder Executivo – que na verdade é quem legisla visto que 99% dos Projetos de Leis aprovados têm origem nesse Poder – o que torna o Legislativo uma força auxiliar e “paga” no sentido da viabilização daquela “moeda de troca” política dos políticos que torna suas participações “vendáveis” para que essas participações sejam, como diríamos, auto-sustentável”, isto é, sem ganhos financeiros e eleitorais não há como um político – seja ele vereaador, deputado ou senador –se manter como tal.
Daí que os políticos vivem imaginando fórmulas de como “se manterem no sistema”,ou seja, se não conseguirem auferir ganhos financeiros e eleitorais eles não conseguem reproduzir o ambiente social e político necessário para sua manutenção.
Nesse sentido não haverá solução sem que a sociedade faça o verdadeiro “controle” do “sistema” – o que nunca se dará pelo voto apenas. Para isso, será necessário dotar a população de capacidade de perceber os erros desse sistema, de perceber que seu voto não vale apenas uma “bolsa”, uma benesse, uma emenda parlamentar, um cargo público para empregar cabos eleitorais, um repasse para sua ONG, uma CPI para aparecer na TV Câmara, importunar os empresários de combustível que fazem cartel, auferir ganho a partir da chantagem, etc.
Portanto, desse ponto de vista, não é nenhum absurdo o que estamos assistindo quanto ao que os vereadores de Manaus estão fazendo. Como não seria se tentassem novamente uma CPI sobre o “sistema” de transportes coletivos urbanos a fim de perturbar o prefeito e os “empresários” de ônibus. Mas neste caso não há interesse uma vez que esse tema é tabu para o Poder Executivo uma vez que este não consegue equacionar o problema nem que tenha 10 dez mandatos. Assim, como haveria nenhum ganho para a “classe política” no poder, passa a não ser um tema de interesse embora os cidadãos de Manaus estejam sofrendo na pele o pior “sistema” de transporte coletivo talvez do país ou quiçá do mundo.
Assim, os vereadores não estão preocupados com a verdade dos fatos, mas sim com os seus interesses políticos imediatos. Se forem em algum momento questionados acerca de temas que os deixem desconfortados, dirão que é “problema do Poder Executivo” – como se este fosse uma entidade distante e sem vínculo com suas próprias atividades.
Somente após uma reforma político-partidária-eleitoral talvez seja possível superar esse sistema cínico que trata o cidadão como palerma, mas isto é como o “rato” colocar o guizo no pescoço do “gato”: como modificar um “sistema” político cretino em um sistema político mais socialmente responsável quando os atuais beneficiários é que tem o “poder formal” de alterá-lo?
Por esse ângulo, verifica-se que se está tratando de um sofisma, isto é, de uma questão filosófica sem saída – um beco sem saída -, sem que haja a tomada de posição pela sociedade civil organizada (visto que a população em geral não detém essa consciência), como foi o caso das últimas alterações da legislação eleitoral quanto ao abuso do poder econômico, da ficha-limpa e outros temas, que surgiram a partir de emenda popular, isto é, com a assinatura de mais de 1 milhão e meio de eleitores.
30 julho 2010
Os petralhas, o Vox Populi e o Data Folha
Os petralhas não são fácil, não! Quando o seu "instituto de pesquisa" Vox Populi se lança a campo, eles manipulam até a próxima pesquisa séria do Data Folha (que mostra Serra 1 ponto percentual à frente de Dilma). Os petralhas - de acordo com seu caráter, ou falta dele - se adiantam e apresentam números fraudulentos pelos quais sua Dilma aparece com 8, 9 pontos percentuais acima de Serra. Seu objetivo claro é perturbar os dados do Data Folha com seus números falsos e assim "convencer" a "massa" ignara de que sua "criatura" eleitoral tem vida própria...
29 julho 2010
Ópera dos malandros_In Augusto Nunes
(1989. Lula e Collor estão num estúdio de televisão, em bancadas próximas. Há um apresentador entre eles. O cenário informa que se trata de um debate eleitoral)
Lula: Meu adversário representa a elite exploradora. É moço na aparência, mas representa o Brasil antigo, o Brasil velho, o Brasil que precisa acabar.
Collor: O outro candidato defende abertamente a luta armada, a invasão de casas e apartamentos. (Vira-se para Lula). Você é um cambalacheiro. Fez cambalacho com o Sarney.
Lula: O Sarney é um incompetente, incapaz. Mas se quiser pode votar em mim. (Vira-se para Collor). Você também pode. Mas mesmo assim eu não teria nada de parecido com você.
Collor: Você não saba a diferença entre uma duplicata e uma fatura. É um ignorante.
(1989. Lula está sozinho num estúdio de TV. O cenário mostra que se trata do programa eleitoral do PT)
Lula: Meu adversário é o candidato dos corruptos. Ele representa a elite que sempre explorou os pobres do Brasil.
(1989. Collor está sozinho num estúdio de TV. O cenário mostra que se trata do programa eleitoral do PRN)
Collor: Não sou eu quem diz que Lula quis forçar o aborto. Quem diz é Miriam Cordeiro, mãe da Lurian.
(1992. Lula está num estúdio de rádio ao lado de um jornalista. O jornalista pergunta se tem pena de Collor. O entrevistado responde com voz pausada)
Lula: Tenho pena do Collor. Não é que eu tenho pena. Como ser humano eu acho que uma pessoa que teve uma oportunidade que aquele cidadão teve de fazer alguma coisa de bem para o Brasil, um homem que tinha respaldo da grande maioria do povo brasileiro, ou seja. E ao invés de construir um governo, construir uma quadrilha como ele construiu, me dá pena, porque deve haver qualquer sintoma de debilidade no funcionamento do cérebro do Collor. Efetivamente eu fico com pena, porque eu acho que o povo brasileiro esperava que essa pessoa pudesse pelo menos conduzir o país, se não a uma solução definitiva, pelo menos a indícios de soluções para os velhos problemas que nós vivemos. Lamentavelmente a ganância, a vontade de roubar, a vontade de praticar corrupção, fez com que o Collor jogasse o sonho de milhões e milhões de brasileiros por terra. Mas de qualquer forma eu acho que foi uma grande lição que o povo brasileiro aprendeu e eu espero que o povo brasileiro, em outras eleições, escolha pessoas que pelo menos eles conheçam o passado político”.
(2005. Collor está numa sala de sua casa em Maceió, ao lado de um jornalista)
Collor: O mensalão mostrou quem são os corruptos, os ladrões do país. Eles hoje estão no governo. O Lula é o chefe.
(2007. Lula está cercado de jornalistas numa sala grande no Palácio do Planalto)
Lula: O senador Fernando Collor tem tudo para fazer um grande mandato.
(2009. Claramente irritado, Collor está na tribuna do Senado)
Collor: Nenhum ataque ao presidente Lula ficará sem resposta!
(2009. Lula e Collor estão juntos num palanque em Alagoas)
Lula: Tenho de agradecer o companheiro Fernando Collor pelo bom trabalho que está fazendo.
(2010. Num palanque em Maceió, Lula, Collor e Dilma Rousseff estão de mãos dadas, dançando e cantando, em coro com a plateia, o refrão do jingle da campanha do candidato a governador de Alagoas)
Todos: É Lula apoiando Collor,/é Collor apoiando Dilma/pelos mais carentes./É Lula apoiando Dilma,/é Dilma apoiando Collor/para o bem da nossa gente.
**********
Vinte anos depois da cena inicial, Collor ajuda Lula a tentar eleger a sucessora e Lula ajuda Collor a reiniciar a aventura que resultou, entre outras obscenidades, no confisco da poupança, na roubalheira medonha e no despejo vergonhoso. A ausência de valores morais e princípios éticos é o traço comum que permitiu a dois sessentões descobrirem só agora que foram amigos de infância. A Ópera dos Malandros encontrou a apoteose mais que perfeita.
Lula: Meu adversário representa a elite exploradora. É moço na aparência, mas representa o Brasil antigo, o Brasil velho, o Brasil que precisa acabar.
Collor: O outro candidato defende abertamente a luta armada, a invasão de casas e apartamentos. (Vira-se para Lula). Você é um cambalacheiro. Fez cambalacho com o Sarney.
Lula: O Sarney é um incompetente, incapaz. Mas se quiser pode votar em mim. (Vira-se para Collor). Você também pode. Mas mesmo assim eu não teria nada de parecido com você.
Collor: Você não saba a diferença entre uma duplicata e uma fatura. É um ignorante.
(1989. Lula está sozinho num estúdio de TV. O cenário mostra que se trata do programa eleitoral do PT)
Lula: Meu adversário é o candidato dos corruptos. Ele representa a elite que sempre explorou os pobres do Brasil.
(1989. Collor está sozinho num estúdio de TV. O cenário mostra que se trata do programa eleitoral do PRN)
Collor: Não sou eu quem diz que Lula quis forçar o aborto. Quem diz é Miriam Cordeiro, mãe da Lurian.
(1992. Lula está num estúdio de rádio ao lado de um jornalista. O jornalista pergunta se tem pena de Collor. O entrevistado responde com voz pausada)
Lula: Tenho pena do Collor. Não é que eu tenho pena. Como ser humano eu acho que uma pessoa que teve uma oportunidade que aquele cidadão teve de fazer alguma coisa de bem para o Brasil, um homem que tinha respaldo da grande maioria do povo brasileiro, ou seja. E ao invés de construir um governo, construir uma quadrilha como ele construiu, me dá pena, porque deve haver qualquer sintoma de debilidade no funcionamento do cérebro do Collor. Efetivamente eu fico com pena, porque eu acho que o povo brasileiro esperava que essa pessoa pudesse pelo menos conduzir o país, se não a uma solução definitiva, pelo menos a indícios de soluções para os velhos problemas que nós vivemos. Lamentavelmente a ganância, a vontade de roubar, a vontade de praticar corrupção, fez com que o Collor jogasse o sonho de milhões e milhões de brasileiros por terra. Mas de qualquer forma eu acho que foi uma grande lição que o povo brasileiro aprendeu e eu espero que o povo brasileiro, em outras eleições, escolha pessoas que pelo menos eles conheçam o passado político”.
(2005. Collor está numa sala de sua casa em Maceió, ao lado de um jornalista)
Collor: O mensalão mostrou quem são os corruptos, os ladrões do país. Eles hoje estão no governo. O Lula é o chefe.
(2007. Lula está cercado de jornalistas numa sala grande no Palácio do Planalto)
Lula: O senador Fernando Collor tem tudo para fazer um grande mandato.
(2009. Claramente irritado, Collor está na tribuna do Senado)
Collor: Nenhum ataque ao presidente Lula ficará sem resposta!
(2009. Lula e Collor estão juntos num palanque em Alagoas)
Lula: Tenho de agradecer o companheiro Fernando Collor pelo bom trabalho que está fazendo.
(2010. Num palanque em Maceió, Lula, Collor e Dilma Rousseff estão de mãos dadas, dançando e cantando, em coro com a plateia, o refrão do jingle da campanha do candidato a governador de Alagoas)
Todos: É Lula apoiando Collor,/é Collor apoiando Dilma/pelos mais carentes./É Lula apoiando Dilma,/é Dilma apoiando Collor/para o bem da nossa gente.
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Vinte anos depois da cena inicial, Collor ajuda Lula a tentar eleger a sucessora e Lula ajuda Collor a reiniciar a aventura que resultou, entre outras obscenidades, no confisco da poupança, na roubalheira medonha e no despejo vergonhoso. A ausência de valores morais e princípios éticos é o traço comum que permitiu a dois sessentões descobrirem só agora que foram amigos de infância. A Ópera dos Malandros encontrou a apoteose mais que perfeita.
Mercadante e a educação brasileira-In Augusto Nunes
Na mais recente edição do Monitoramento de Educação para Todos, divulgado em janeiro pela Unesco, o Brasil ocupa um bisonho 88° lugar no ranking que incluiu 128 países. Nenhuma surpresa. O sistema educacional brasileiro está em frangalhos. Os investimentos do governo Lula são anêmicos. O ministro Fernando Haddad não consegue organizar sem sobressaltos sequer um exame do Enem. Existem no país 14,2 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais, metade dos quais sobrevive no Nordeste.
O Tribunal Superior Eleitoral divulgou há dias o tamanho e o perfil do eleitorado brasileiro. Como registra Roberto Pompeu de Toledo na edição de VEJA desta semana, 5,9% dos 135,8 milhões de eleitores são analfabetos, 14,6 dizem saber ler e escrever, mas não frequentaram a escola, e 33% frequentaram a escola, mas não chegaram a concluir o primeiro grau. “Na soma das três categorias, 53,5% do eleitorado na melhor das hipóteses resvalou pela escola”, constata o colunista.
Até os carrinhos de pipoca estacionados nas portas dos colégios sabem que São Paulo, embora também esteja longe do estágio alcançado por países do Primeiro Mundo, tem o desempenho menos lastimável entre todos os Estados. Só o senador Aloizio Mercadante não sabe disso ─ ou finge que não sabe, o que dá no mesmo. Nesta quarta-feira, durante a sabatina promovida pelo UOL, o candidato a governador ensinou que a educação vai bem no Brasil inteiro, menos em São Paulo. Por culpa dos tucanos, naturalmente.
Depois de afirmar que as escolas paulistas foram transformadas em fábricas de ignorantes (e por isso mesmo fortes candidatos ao desemprego), Mercadante declarou-se prisioneiro da angústia. “O que você fala para um menino que está há 12 anos na escola do PSDB e agora chega no final do ensino médio e não sabe o que vai fazer?”, perguntou aos brados o Herói da Rendição. “Como é que vai entrar no mercado de trabalho se não tem o domínio básico da leitura, das primeiras contas, da aritmética, da matemática, do conhecimento básico?”
Há pelo menos 30 anos, afinado com todos os companheiros diplomados ou não, ele garante que não é preciso estudar para ser presidente da República. Há pelo menos 20 recita que qualquer reparo à formação indigente do chefe é coisa de preconceituoso. Há sete anos e meio repete que o maior dos governantes desde a primeira caravela é a prova viva de que a acumulação de conhecimentos é hobby de elitista. Só agora resolveu inquietar-se com o fantasma da ignorância.
O que dizer a um jovem que precisa de emprego mas “não tem o domínio básico da leitura, das primeiras contas, da aritmética, da matemática, do conhecimento básico?” Boa pergunta, deveriam apartear em coro os jornalistas presentes, para em seguida responder aos berros: “Diga ao menino que ele pode virar presidente da República!” Talvez consiga um segundo mandato. E escreva o prefácio de outro livro do companheiro Aloízio Mercadante.
O Tribunal Superior Eleitoral divulgou há dias o tamanho e o perfil do eleitorado brasileiro. Como registra Roberto Pompeu de Toledo na edição de VEJA desta semana, 5,9% dos 135,8 milhões de eleitores são analfabetos, 14,6 dizem saber ler e escrever, mas não frequentaram a escola, e 33% frequentaram a escola, mas não chegaram a concluir o primeiro grau. “Na soma das três categorias, 53,5% do eleitorado na melhor das hipóteses resvalou pela escola”, constata o colunista.
Até os carrinhos de pipoca estacionados nas portas dos colégios sabem que São Paulo, embora também esteja longe do estágio alcançado por países do Primeiro Mundo, tem o desempenho menos lastimável entre todos os Estados. Só o senador Aloizio Mercadante não sabe disso ─ ou finge que não sabe, o que dá no mesmo. Nesta quarta-feira, durante a sabatina promovida pelo UOL, o candidato a governador ensinou que a educação vai bem no Brasil inteiro, menos em São Paulo. Por culpa dos tucanos, naturalmente.
Depois de afirmar que as escolas paulistas foram transformadas em fábricas de ignorantes (e por isso mesmo fortes candidatos ao desemprego), Mercadante declarou-se prisioneiro da angústia. “O que você fala para um menino que está há 12 anos na escola do PSDB e agora chega no final do ensino médio e não sabe o que vai fazer?”, perguntou aos brados o Herói da Rendição. “Como é que vai entrar no mercado de trabalho se não tem o domínio básico da leitura, das primeiras contas, da aritmética, da matemática, do conhecimento básico?”
Há pelo menos 30 anos, afinado com todos os companheiros diplomados ou não, ele garante que não é preciso estudar para ser presidente da República. Há pelo menos 20 recita que qualquer reparo à formação indigente do chefe é coisa de preconceituoso. Há sete anos e meio repete que o maior dos governantes desde a primeira caravela é a prova viva de que a acumulação de conhecimentos é hobby de elitista. Só agora resolveu inquietar-se com o fantasma da ignorância.
O que dizer a um jovem que precisa de emprego mas “não tem o domínio básico da leitura, das primeiras contas, da aritmética, da matemática, do conhecimento básico?” Boa pergunta, deveriam apartear em coro os jornalistas presentes, para em seguida responder aos berros: “Diga ao menino que ele pode virar presidente da República!” Talvez consiga um segundo mandato. E escreva o prefácio de outro livro do companheiro Aloízio Mercadante.
22 julho 2010
Cuba é um bordel a céu aberto_Por Nelson Mota no Estadão_Comentado por Augusto Nunes
Enquanto a ditadura cubana solta presos políticos, o Congresso dos Estados Unidos debate a lei que libera os americanos para viajar à Disneylândia socialista. O momento histórico não é só dramático, também é muito irônico.
Há 51 anos, um dos orgulhos míticos da revolução é ter livrado Cuba de ser “um bordel dos americanos”. Com a liberação das viagens aos vizinhos, hordas de turistas mal-educados e cheios de dólares invadirão a ilha, e serão muito bem-vindos, como uma salvadora fonte de divisas para a indigente economia da ilha. Será o encontro feliz do consumismo com o comunismo.
Mesmo com a proibição, mais de 100 mil americanos viajaram para Cuba no ano passado, via México, se arriscando a multas e chateações judiciais. Imaginem liberando geral. Não haverá rum para tanta gente.
Viagens baratas, de pouco mais de meia hora de voo, levarão o melhor e o pior dos turistas americanos a Cuba, em busca de sol e mar, mas também de diversão, negócios, aventura e, naturalmente, sexo.
Com o agravamento da crise econômica e sem perspectiva de trabalho, jovens cubanos de todos os sexos e formações estão se prostituindo para sobreviver. Fidel fez piada, dizendo que em Cuba até as putas são universitárias, mas a ironia da história é que, em volta dos hotéis, dos bares e boates, Havana se tornou um bordel a céu aberto. Mas não só de americanos.
Como não há nada mais conservador do que a revolução cubana, só Fidel e a velha guarda do partido ainda continuam odiando e esperando a agressão dos “yankis”. As novas gerações os chamam, com simpatia, de “yumas”, admiram suas qualidades e sonham consumir as maravilhas que eles produzem com liberdade e tecnologia. Estão loucos para trocar ideias com eles. E, se possível, ganhar algum dinheiro, porque, apesar do salário de 20 dólares mensais, há cada vez mais desempregados.
Pior: ultimamente só foram criados empregos de fiscais, para tentar conter o roubo sistêmico nas fábricas e empresas estatais. Diz um amigo cubano que endureceu sem perder o humor: “O que vai mudar é que agora os que roubam para sobreviver vão ter que rachar com os fiscais.”
Embarco no artigo de Nelson Motta para espantar-me com outra ironia. Nos anos 50, quando Fidel Castro lutava pelo poder, havia em Cuba uma ditadura ultradireitista a derrubar, uma economia asfixiada pela monocultura da cana e prostitutas demais em Havana. Mais de meio século depois, há prostitutas demais na ilha inteira, um oceano de canaviais asfixiando a economia e uma ditadura comunista a derrubar. Fidel continua lutando pelo poder.
Há 51 anos, um dos orgulhos míticos da revolução é ter livrado Cuba de ser “um bordel dos americanos”. Com a liberação das viagens aos vizinhos, hordas de turistas mal-educados e cheios de dólares invadirão a ilha, e serão muito bem-vindos, como uma salvadora fonte de divisas para a indigente economia da ilha. Será o encontro feliz do consumismo com o comunismo.
Mesmo com a proibição, mais de 100 mil americanos viajaram para Cuba no ano passado, via México, se arriscando a multas e chateações judiciais. Imaginem liberando geral. Não haverá rum para tanta gente.
Viagens baratas, de pouco mais de meia hora de voo, levarão o melhor e o pior dos turistas americanos a Cuba, em busca de sol e mar, mas também de diversão, negócios, aventura e, naturalmente, sexo.
Com o agravamento da crise econômica e sem perspectiva de trabalho, jovens cubanos de todos os sexos e formações estão se prostituindo para sobreviver. Fidel fez piada, dizendo que em Cuba até as putas são universitárias, mas a ironia da história é que, em volta dos hotéis, dos bares e boates, Havana se tornou um bordel a céu aberto. Mas não só de americanos.
Como não há nada mais conservador do que a revolução cubana, só Fidel e a velha guarda do partido ainda continuam odiando e esperando a agressão dos “yankis”. As novas gerações os chamam, com simpatia, de “yumas”, admiram suas qualidades e sonham consumir as maravilhas que eles produzem com liberdade e tecnologia. Estão loucos para trocar ideias com eles. E, se possível, ganhar algum dinheiro, porque, apesar do salário de 20 dólares mensais, há cada vez mais desempregados.
Pior: ultimamente só foram criados empregos de fiscais, para tentar conter o roubo sistêmico nas fábricas e empresas estatais. Diz um amigo cubano que endureceu sem perder o humor: “O que vai mudar é que agora os que roubam para sobreviver vão ter que rachar com os fiscais.”
Embarco no artigo de Nelson Motta para espantar-me com outra ironia. Nos anos 50, quando Fidel Castro lutava pelo poder, havia em Cuba uma ditadura ultradireitista a derrubar, uma economia asfixiada pela monocultura da cana e prostitutas demais em Havana. Mais de meio século depois, há prostitutas demais na ilha inteira, um oceano de canaviais asfixiando a economia e uma ditadura comunista a derrubar. Fidel continua lutando pelo poder.
Bandoleiros do PT querem usar a estrela de xerife_Por Augusto Nunes
O primeiro presidente do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, atravessou o último quarto de século acusando de corruptos todos os políticos de outros partidos. Hoje é amigo de infância dos campeões da ladroagem.
O segundo, José Dirceu, passou anos berrando que “o PT não róba nem deixa robá”. Denunciado pela Procuradoria Geral da República como “chefe da organização criminosa sofisticada” que protagonizou o escândalo do mensalão, hoje aguarda julgamento no Supremo Tribunal Federal e prospera como facilitador de negócios.
O terceiro, José Genoíno, fez do combate à corrupção, em 2002, a principal bandeira da candidatura ao governo de São Paulo. Derrotado, formou com Delúbio Soares e Marcos Valério a trinca de gerentes do mensalão. Também aguarda julgamento no Supremo.
O quarto, Ricardo Berzoini, ficou nacionalmente conhecido pela ideia, que lhe ocorreu logo depois da posse no Ministério da Previdência, de exigir que todos os aposentados com mais de 90 anos provassem que estavam vivos. Na presidência do PT, consolidou a fábrica de dossiês malandros e a expandiu com a inauguração da filial paulista administrada pelos aloprados.
O quinto, José Eduardo Dutra, confirma a suspeita de que todos os ocupantes do cargo cobrem o rosto com pelos para prevenirem a remotíssima possibilidade do rubor provocado pelo descompasso entre o que dizem e o que fazem. Três preferiram defender-se com uma barba. Dois acharam que o cavanhaque é suficiente. Um deles é o sergipano José Eduardo Dutra. Pelo que já fez em tão pouco tempo, não vai demorar a encobrir o rosto inteiro.
Confrontado com a reativação da velha fábrica de dossiês malandros, para atender à encomenda dos interessados em divulgar abjeções inventadas para prejudicarem José Serra, Dutra acusou as vítimas e resolveu acionar judicialmente o candidato à Presidência. Confrontado com a criminosa quebra do sigilo fiscal de Eduardo Jorge Caldas Pereira, não ficou constrangido com o estupro das declarações de imposto de renda do vice-presidente do PSDB. “O PT age dentro dos limites do Estado de Direito”, fantasiou.
Em seguida, o cartola partidário que não age sem consultar José Dirceu (melhor amigo de Valdomiro Diniz) e Antônio Palocci (estuprador de contas bancárias) ameaçou processar o deputado Índio da Costa porque o candidato a vice de Serra disse o que até os bichos da selva colombiana sabem: o PT e os narcoguerrilheiros das FARC são muito mais que bons companheiros; são cúmplices. E conferiu dimensões assombrosas à ofensiva dos cínicos com a declaração de guerra contra a vice-procudoradora-geral eleitoral, Sandra Cureau, suspeita de acreditar que a lei vale para todos.
No começo do faroeste da Era Lula, os vilões se contentavam com a impunidade. Estava de bom tamanho farrear no saloon e colecionar bandidagens em paz. Agora andam bem mais atrevidos. Já tentam prender o mocinho. E querem botar no peito a estrela do xerife.
O segundo, José Dirceu, passou anos berrando que “o PT não róba nem deixa robá”. Denunciado pela Procuradoria Geral da República como “chefe da organização criminosa sofisticada” que protagonizou o escândalo do mensalão, hoje aguarda julgamento no Supremo Tribunal Federal e prospera como facilitador de negócios.
O terceiro, José Genoíno, fez do combate à corrupção, em 2002, a principal bandeira da candidatura ao governo de São Paulo. Derrotado, formou com Delúbio Soares e Marcos Valério a trinca de gerentes do mensalão. Também aguarda julgamento no Supremo.
O quarto, Ricardo Berzoini, ficou nacionalmente conhecido pela ideia, que lhe ocorreu logo depois da posse no Ministério da Previdência, de exigir que todos os aposentados com mais de 90 anos provassem que estavam vivos. Na presidência do PT, consolidou a fábrica de dossiês malandros e a expandiu com a inauguração da filial paulista administrada pelos aloprados.
O quinto, José Eduardo Dutra, confirma a suspeita de que todos os ocupantes do cargo cobrem o rosto com pelos para prevenirem a remotíssima possibilidade do rubor provocado pelo descompasso entre o que dizem e o que fazem. Três preferiram defender-se com uma barba. Dois acharam que o cavanhaque é suficiente. Um deles é o sergipano José Eduardo Dutra. Pelo que já fez em tão pouco tempo, não vai demorar a encobrir o rosto inteiro.
Confrontado com a reativação da velha fábrica de dossiês malandros, para atender à encomenda dos interessados em divulgar abjeções inventadas para prejudicarem José Serra, Dutra acusou as vítimas e resolveu acionar judicialmente o candidato à Presidência. Confrontado com a criminosa quebra do sigilo fiscal de Eduardo Jorge Caldas Pereira, não ficou constrangido com o estupro das declarações de imposto de renda do vice-presidente do PSDB. “O PT age dentro dos limites do Estado de Direito”, fantasiou.
Em seguida, o cartola partidário que não age sem consultar José Dirceu (melhor amigo de Valdomiro Diniz) e Antônio Palocci (estuprador de contas bancárias) ameaçou processar o deputado Índio da Costa porque o candidato a vice de Serra disse o que até os bichos da selva colombiana sabem: o PT e os narcoguerrilheiros das FARC são muito mais que bons companheiros; são cúmplices. E conferiu dimensões assombrosas à ofensiva dos cínicos com a declaração de guerra contra a vice-procudoradora-geral eleitoral, Sandra Cureau, suspeita de acreditar que a lei vale para todos.
No começo do faroeste da Era Lula, os vilões se contentavam com a impunidade. Estava de bom tamanho farrear no saloon e colecionar bandidagens em paz. Agora andam bem mais atrevidos. Já tentam prender o mocinho. E querem botar no peito a estrela do xerife.
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