
"Tenho
visto profissionais, às vezes de sessenta ou setenta anos, fazendo
plantão nas emergências do Sistema Único de Saúde (SUS). Comem mal, não
dormem, são ameaçados..." (Foto: Dedoc / Editora Abril)
Artigo de Milton Pires, médico em Porto Alegre e leitor do blog "Ricardo Setti" (Veja.com)
AGONIA DE UMA PROFISSÃO – CARTA AOS MÉDICOS BRASILEIROS
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Permitam-me
os colegas fazer uso no presente artigo dos dois discursos que mais
encantam o “meio intelectual brasileiro” – o marxista e o psicanalítico.
Esqueçam, por alguns instantes, aquilo que ambos dizem do mérito e da
caridade humanos. Espero que minhas conclusões não os choquem e sugiro
ainda que, em caso de indignação, adotem como saída elegante afirmar que
não gosto de ser médico; passa a impressão de profissionalismo e pena
profundos de alguém como eu….rss
Tenho visto profissionais, às vezes de sessenta ou setenta anos,
fazendo plantão nas emergências do Sistema Único de Saúde (SUS).
Comem mal, não dormem (ou o fazem em quartos imundos), são ameaçados
ou agredidos pelos próprios pacientes, alguns roubam medicações
controladas para uso próprio, e muitos acabam como notícia no Jornal Nacional.
Seu instrumento de trabalho mais importante é um carimbo e seu chefe é
uma enfermeira. Eles assistem pacientes morrerem por falta de
medicamentos, leitos, cirurgias e métodos diagnósticos. Dia após dia,
independentemente de posição política ou tempo de formatura, são
representantes legítimos de um delírio cujo início remonta a década de
setenta.
Naquela época, um médico brasileiro, ex-assessor para saúde na
Nicarágua, e que depois viria se eleger deputado por um partido
comunista, pensou ser possível trazer à terra aquilo que nem Jesus
Cristo imaginou: um sistema de saúde com livre demanda, cobertura
completa de custos, e acesso imediato aos serviços. Sim, meus amigos, o
Brasil deve ao Dr. Sérgio Arouca e aos seus “companheiros” o fato de
homens maravilhosos como Fernandinho Beira-Mar e Marcola terem o mesmo
direito a um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) que qualquer
trabalhador.
Certamente, se vivo, o Dr. Arouca ficaria exultante ao ver como
nossas UTIs são numerosas e estão bem equipadas e eu gostaria de saber
como ele explicaria o fato de Lula não tratar seu câncer no SUS.
Uma década antes, no governo Castelo Branco, o Brasil assistia ao
início de uma proliferação de faculdades que nos lembra que nem só de
futebol somos campeões. Daqueles bancos saíram médicos, e continuam
saindo, que vêem no futuro a possibilidade de uma prática liberal que a
muito deixou de existir.
A verdade é que nos tornamos empregados! O estereótipo do médico
recém-formado que vai para o interior casar com a filha de um
latifundiário e depois disputar algum cargo municipal é cada vez mais
difícil de ser encontrado.
Ao que nos parece, em 1964 os militares viram na classe médica uma
ameaça política e trataram de tomar providências. A primeira delas, em
silêncio garantido pelas paredes da Escola Superior de Guerra, foi
determinar que saúde era uma questão de segurança nacional. A segunda,
bem mais simples, foi submeter os médicos a mais elementar lei de
mercado: oferta e procura.
E o que houve daí em diante? Tornamo-nos muitos, empobrecemos, nos
sindicalizamos, e acima de tudo passamos a crer, como bons marxistas,
que tínhamos um poder de transformação social até então adormecido. Era
preciso ser um “trabalhador da saúde”. Médicos ligados à saúde pública
começaram a despontar na cena política, mas desta vez ligados aquilo que
se chamava na época de “esquerda”.
O país assistia então ao nascimento do Partido dos Trabalhadores e
quem não lutava por eleições diretas não tinha coração. Enquanto isso,
em silêncio mas de forma contínua, o sistema que fazia diferença entre
aqueles que trabalhavam e contribuíam ou não para os gastos com a saúde
nacional extinguia-se aos poucos.
Alheios a tudo, os antigos mestres das Escolas de Medicina,
consagrados pelo tempo e saber, continuavam ensinando que o importante
era a relação médico-paciente, que a medicina não podia se desumanizar e
conseguiram com isso contribuir para a visão maniqueísta que passou a
nos dividir entre “técnicos-frios” ou preocupados “com o paciente como
um todo”.

"Pobre do país cujos médicos estão doentes! Era neles que se depositava
a esperança de alívio de um povo que agora percebe que ele, povo,
cuidou muito mal dos seus próprios médicos" (Foto: Luiz Mourier)
Orientaram nossos acadêmicos a fazer estágio nos Estados Unidos. Para
lá partiram aos comboios, quase sempre financiados pelos pais,
lembrando os adolescentes brasileiros que visitam a Disneylandia.
Mas a mim me parece que o sonho está acabando. Voltamos de lá e
estamos de plantão. O que poderia ter saído errado? Nossos pacientes já
não nos respeitam e querem apenas atendimento de graça. Não nos
esqueçamos dos famosos exames – quem não os pede não pode ser bom
médico!
Será generalizada entre os colegas esta minha sensação? Medicação
antidepressiva, menos trabalho e um salário melhor não resolveriam meu
caso? Estas respostas ficam por conta de quem até aqui gastou seu tempo a
me ler.
Uma vez Freud escreveu que a capacidade do indivíduo ser feliz está
relacionada à realização no amor e no trabalho. Da vida pessoal de meus
colegas pouco sei, mas tenho visto em pequenas salas (chamadas pelos
otimistas de estar médico), em que se toma cafezinho frio, uma
verdadeira legião de gente triste.
Isso mesmo, meus colegas, tristes é como estamos em função do que
fazemos para sustentar nossas famílias. Aos dezoito anos de idade, com
todas as alegrias desta época da vida, estávamos, muitos de nós, em
frente a cadáveres. Quantas noites sem dormir por causa dos exames da
faculdade? E o que dizer então da disputa por uma vaga na residência?
Somos médicos, mas antes de tudo somos humanos e é nesta última
condição que a natureza e a doença vem cobrar seu preço. Aumenta cada
vez mais o número de colegas com problemas por causa do álcool e das
drogas. Patologias mentais entre nós avançam em número e gravidade.
Frieza, discussões, insensibilidade com a dor, e raiva das queixas
frívolas dos nossos pacientes são cada vez mais comuns nas emergências
em que trabalhamos com condições quase veterinárias.
Pobre do país cujos médicos estão doentes! Era neles que se
depositava a esperança de alívio de um povo que agora percebe que ele,
povo, cuidou muito mal dos seus próprios médicos. Estamos pedindo
socorro a pessoas comuns, sem treinamento, mas nem por isso sem coração e
vontade de ajudar.
Alguém há que nos possa e queira ajudar?
Uma vez aquele que foi considerado o maior escritor de todos os
tempos – James Joyce – disse que achava impossível escrever sem ofender
as pessoas. Termino aqui. Longe de mim ofendê-los por mais tempo ou ter a
audácia de pensar que Joyce pudesse estar errado.


