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30 agosto 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro < Cap. VI >

 

< Capítulo VI >

O REGRESSO

 

Meu retorno de Tabatinga para o INCRA de Manaus, em agosto de 1.979, foi para mim uma dupla vitória: calei a boca das ‘Cassandras’, que diziam que eu “iria regredir” em Tabatinga (o que era bastante provável dada a sua localização geográfica), naquele “fim de mundo” perdido na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia e passei em outro vestibular.

Em Tabatinga predominam até hoje as atividades militares.

São muitas as notícias de contrabando; de tráfico de drogas.

Para se ter uma ideia da “longitude” desse lugar, naquela época as comunicações entre o ‘PIC-TBT’ e o ‘PF-Manaus’ se davam via rádio. Por isso, aprendi o código alfabético utilizado nesse tipo de comunicações: ‘Alfa’, ‘Beta’, ‘Charles’... E por aí vai. O nosso “endereço” via rádio era: “papa-índia-charles” (PIC) “tango-beta-tango” (TBT). Quem comandava o rádio do PIC-TBT era o funcionário e ex-jogador de futebol “Tapioca”.

O tenente ‘R-2’, que era o Executor do PIC-TBT, tinha uma ‘pinimba’ desgraçada com o Tapioca. Dava “mijadas” homéricas nele. Eu sentia muita vergonha alheia por causa disso. Mas o Tapioca iria se vingar disso. Como o Tapioca era também o responsável pelas cópias “xerox” da repartição, montou um dossiê contra o ‘R-2’ e entregou-o na Polícia Federal, cuja delegacia ficava no outro lado da Av. da Amizade (única e principal via urbanizada de Tabatinga na época), que fazia a interligação com Letícia, capital colombiana do ‘Departamento del Amazonas’.

O ‘R-2’, no final de 1.977, tomou a fatídica decisão de sacar todo o dinheiro do ‘PIC-TBT’ que era destinado ao custeio dos serviços de abertura das estradas vicinais do PIC, e guardá-lo nas gavetas da repartição.  Todos ficaram sabendo disso. Tapioca inclusive. A “justificativa” dada pelo ‘R-2’ era a falta de tempo para realizar os serviços regularmente. Assim, com esse dinheiro “vivo” em mãos, passou a fazer os serviços por meio de prestadores de serviços locais, sem os cuidados licitatórios regulares.

Como o ‘R-2’ tinha outra atividade burocrática na Sede do INCRA em Manaus, como Chefe do ASI-SNI, era muito ausente do PIC-TBT, deixando em seu lugar um substituto que comandava a Administração e a contabilidade. Deixava também com ele toda aquela dinheirama e recibos assinados em branco, para que este fizesse os pagamentos dos serviços já mencionados e pegasse as assinaturas dos prestadores dos serviços nesses ‘recibos’, e assim montasse as prestações de contas.

Essa, digamos, documentação, caiu nas mãos do Tapioca, que montou o mencionado ‘dossiê’ e entregou-o na PF.  Por essa causa, o ‘R-2’ caiu... O ‘R-2’ se viu às voltas com sindicâncias, processos administrativos, etc., e foi exonerado das funções que exercia no serviço público federal.

Com isso aprendi uma lição: ter muito cuidado com servidor público magoado.

O ‘R-2’ foi substituído por um engenheiro agrônomo do INCRA chamado Manoelito.

Era radicalmente o oposto do ‘R-2’. Tratava bem todo mundo. Não se envolvia em polêmica.

Voltando ao ponto do meu retorno a Manaus...

Como já mencionei, o meu retorno ao INCRA de Manaus (PF-Manaus), em agosto de 1.979, representou para mim uma dupla vitória. Primeiro, porque consegui demarcar não apenas o Projeto Integrado de Colonização do INCRA de Tabatinga (PIC Tabatinga); segundo, porque também demarquei a área de treinamento do CF-SOL (localizada ao Norte do PIC); demarquei também as duas reservas indígenas daquela localidade: a reserva dos Tacanas, a Oeste do PIC; e a reserva dos Ticunas, a Leste do PIC.

De sorte que a cidade do Marco-Tabatinga restou demarcada como um enclave ao Sul (banhada pelo Rio Amazonas). Isso está bem definido no mapa de Tabatinga.

Outra vitória pessoal minha foi o extremo preparo que adquiri para passar em concurso vestibular: passei para ‘Administração Noturno’, em dezembro/janeiro de 1979; e, depois, para ‘Direito Noturno’, em dezembro/janeiro de 1.985. Dois cursos até hoje bastante prestigiados e disputados pelos concurseiros. Portanto, NÃO REGREDI! Progredi!

Ao mesmo tempo em que eu prestava vestibular, nascia meu primeiro filho, Adriel, em 02/01/1.980. Tive mais dois filhos com a d. Suderly: André (1.981) e Alexandre (1.985). Tive ainda outros dois filhos de outro relacionamento: Daniel (1.990) e Eduardo (1.991); e ainda a Bruna (2.000) em Manacapuru. A  Alice nasceu em 2.006. Minha mãe Alzira morreu nesse mesmo ano, aos 84 anos, sem conhecer a neta. Minha última filha, Clara, nasceu em 2.010. A todos eles dedico esta crônica.

Eu havia perdido o interesse em retornar ao curso de ‘Matemática’, que foi deixado para trás em 1.977, e passei a cursar minha nova paixão: ‘administração’.

Contudo, parece que “o INCRA” não queria mesmo que eu estudasse.

Meu chefe Sarmento me mandava para o interior resolver questões de terras a cada quinze dias. Dessa forma, eu não conseguia estudar. Isso forçou a que eu buscasse me transferir para o recém-criado ‘Instituto de Terras do Amazonas’ (ITERAM), para onde vários colegas meus de INCRA já haviam se transferido.

Para isso, entrei em acordo com meu chefe do PF-Manaus-INCRA, Alfredo Goulart Sade, e este mandou me demitir em maio de 1.980.

Assim é que, com muita relutância, deixei o INCRA e fui trabalhar no ITERAM, que foi para mim como se fosse uma “sucursal” do INCRA, pela quantidade de ex-colegas do INCRA que se transferiram para esse Instituto de Terras. No ITERAM trabalhei por quase cinco anos, tempo suficiente para me formar em Administração, o que ocorreu em julho/agosto de 1.984. Sou muito grato a Deus e ao ITERAM por isso.

No entanto, como um carma, minha demissão do ITERAM se deu no mesmo ano no qual me formei em ‘administração’. Essa demissão foi bastante traumática para mim. Ser demitido nunca é uma boa experiência! Isso ocorreu em razão de politicagem, que passo a relatar a seguir.

No ITERAM, além do cargo de topógrafo, assumi funções comissionadas como chefe da ‘Seção de Levantamentos’ (topografia) e chefe do ‘Departamento de Cartografia’. Nessas funções, fui “obrigado” a produzir resultados técnicos com efeitos eleitorais, utilizados na campanha eleitoral de 1.982, primeira eleição estadual após o Regime Militar. Fui obrigado a elaborar enorme quantidade de ‘títulos definitivos’ (TDs), tanto em Manaus quanto no interior do Estado, para entregar durante o período eleitoral.

Também foi muito utilizada politicamente a nova ‘divisão territorial’ do Estado do Amazonas nos atuais sessenta e dois municípios. Por esse trabalho cartográfico, tenho muito orgulho de ter participado juntamente com uma equipe multidisciplinar, que incluía: cartógrafos; agrônomos; agrimensores; geógrafos; antropólogos; sociólogos; engenheiro civil; advogados; etc. Por essa redivisão territorial, seriam criados quinze novos municípios. No entanto, apenas cinco deles foram efetivamente instalados em 1.985: ‘Apuí’; ‘Rio Preto da Eva’; ‘Presidente Figueiredo’; ‘São Sebastião do Uatumã’; e ‘Itamarati’. Os demais foram considerados ‘inconstitucionais’ pelo STF, uma vez que não possuíam os requisitos para se transformarem em município, quais sejam, ‘população’ e ‘renda’. O governador Lindoso inverteu essa lógica justamente para levar desenvolvimento para essas regiões por meio do Fundo de Participação do Municípios (FPM) e outras rendas.

Fui eu que tracei os arruamentos de ‘Rio Preto da Eva’ e de ‘Presidente Figueiredo’.

Como já foi dito, além da redivisão territorial do Amazonas, fui “obrigado” a produzir ‘Títulos Definitivos’ (TDs) de terras a rodo, a fim de servir de lastro político para o candidato do governador José Lindoso, o deputado estadual e radialista Josué Filho. Um político astuto e pragmático que acabou apoiando o governo de Gilberto Mestrinho e mais tarde se elegeu deputado estadual. Foi guindado a conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE).

Também fui “obrigado” a informatizar a Cartografia do ITERAM. Como nessa época não haviam programas disponíveis, me obriguei a tornar-me ‘programador de computador’, utilizando a linguagem ‘Basic’. Aprendi com isso que toda “crise” traz juntamente as ‘oportunidades’. Sempre as aproveitei em minha vida. Essa eleição de 1.982 acabou fazendo com que o ex-governador Gilberto Mestrinho retornasse à cena política do Estado pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

Quando este assumiu, substituiu a direção do ITERAM por pessoas interessadas em outras questões não-técnicas, e que me envolveram em questões políticas, passando a me tratarem como adversário político. Como agente do Partido Democrático Social (PDS), o partido que substituiu a Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Acabei demitido. Foi uma experiência terrível para mim. Com dois filhos ainda bem novos, tive de vender o carro.

A minha formatura em administração, em agosto de 1.984, permitiu o meu rompimento com cargos de nível médio, me forçando a ir em busca de assunção de cargos superiores, já como ‘administrador’.

Meu professor ‘Felismino Soares’, de grata memória, me levou com ele para o recém-criado ‘Conselho de Contas do Município’ (que viria a ser o ‘Tribunal de Contas do Município, depois extinto); mas fiquei pouco tempo com o ‘Felismino’ em razão do convite feito a mim pelo meu ex-colega e Diretor Técnico do ITERAM, Johnny De Carli, o qual tinha assumido a ‘Diretoria Executiva’ da ‘Fundação Centro de Apoio ao Distrito Agropecuário’ (FUCADA), da SUFRAMA. Ele me convidou para que eu assumisse meu primeiro cargo superior como ‘administrador’, na FUCADA.

Portanto, de ‘desempregado’, passei a ‘administrador’. Passei a ganhar não mais os seis salários mínimos de piso como ‘técnico de nível médio’, mas sim os mais de quinze salários mínimos como administrador. Deus sabe o que faz. Fé não costuma “faiá”...

 

29 agosto 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. V >

 

< Capítulo V >

UM TOPÓGRAFO DO INCRA "DEGREDADO" PARA TABATINGA-AM

 

Em julho de 1.977, meu aniversário de 23 anos não poderia ter sido mais digno de pena...

Dentre tantos aniversários meus quantos já haviam se passado sem qualquer comemoração, este foi o menos comemorativo ainda.

Valdé, de tanto beber cachaça, morreu de câncer de estômago em fevereiro daquele ano, com apenas cinquenta e quatro anos. Tinha a mesma idade que minha mãe Alzira. Ambos eram de 1.923.

Minha mãe Alzira o chamava carinhosamente de Valdé, quando não estava furiosa com ele. Por culpa dele mesmo, alcoólatra que era.

Ele mesmo se dizia chamar-se Waldetário (quando estava sóbrio) e Walter Dário (quando bêbado). Ele disse a mim que viera fugido do sertão pernambucano, porque lá havia matado um cabra. Por essa razão se alistou como 'soldado da borracha'. Vá saber...

Eu, cumprindo o 5º Mandamento de Deus (honrar pai e mãe), fiquei estoicamente cuidadndo de Valdé até seus momentos finais numa cama ambulatorial do hospital Santa Casa de Misericórdia de Manaus. Tristes momentos! A fim de interna-lo para tratamento, lutei no INSS para torná-lo meu dependente. Consegui a duras penas. Ele nunca trabalhara como CTPS assinada. Não era amparado nem pela previdência pública. Internei-o em meio a crises de vômitos. Vomitava mesmo sem ter nada de comida no estômago. O tumor já não permitia que ele bebesse nem água. Já estava, como se diz nesses casos, somente “pele e osso”.

Internei-o na antiga ‘Santa Casa de Misericórdia’ (hoje em escombros). Na rua 10 de julho, centro de Manaus. O famoso Dr. João Lúcio fez sua cirurgia, retirando o tumor do estômago e do esôfago de Valdé. Perguntei ao Dr. João Lúcio: - “Ele vai sobreviver, doutor? ”. A resposta foi sem muita convicção: - “Sim. Por um ano”. Morreu semanas depois. Não tinha como sobreviver...

Por conta da doença e internação de Valdé, praticamente “abandonei” o INCRA por três meses, para cuidar dele no hospital. Meus colegas de INCRA me deram ‘cobertura’ (sem que eu pedisse). Não deixaram que eu levasse faltas e ficasse sem salário e, eventualmente, fosse demitido por abandono de cargo. E todos compareceram ao cemitério para renderem, em respeito a mim, as últimas homenagens ao Valdé. Meu sentimento de perda se misturava com alegria pela solidariedade demonstrada pelos meus colegas de INCRA. Cheguei a sorrir de nervosismo e gratidão. Meus colegas de INCRA foram todos no ônibus do INCRA. Registro isso para homenagear meus colegas, com o coração imensamente grato por tanta bondade para comigo.

Porém, no dia 30 de julho (um dia após o meu aniversário de 23 anos), numa daquelas “tardes qualquer de julho” – parafraseando Euclides da Cunha -, “rápidas tardes sem crepúsculos, prestes afogadas na noite, os relâmpagos, precípites, sarjavam a imprimadura negra da tormenta” que se avizinhava e logo os “cúmulos e nimbos cairiam como num aguaceiro diluviano”. numa tarde como esta fui surprendido pelo anúncio de que eu iria ser transferido pelo INCRA, do Projeto de Manaus para o Projeto de Tabatinga, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Meu mundo caiu!

Mesmo com chuva, a temperatura média em Manaus era de 35o Um verdadeiro ‘inferno verde’ (Euclides de Cunha). Para quem não sabe, Euclides da Cunha morou em Manaus no início do século 20, numa casa em frente ao cemitério ‘São João Batista’ (hoje uma agência do BB). Euclides foi o grande responsável pela ‘demarcação’ das fronteiras do Brasil com a Colômbia, o Peru e a Venezuela. Encontrei vários marcos de concreto implantados por Euclides ao longo dessas fronteiras.

Nessa tarde do dia 31 de julho de 1.977, no dia posterior ao meu indigitado aniversário, o coronel ‘José Carioca’ ao seu milico tenente R-2 do exército que fosse buscar-me em "minha" sala, “sob vara”, na ‘seção de topografia’ do INCRA, onde eu exercia a função de ‘topógrafo’.

Como já relatado, eu havia ingressado no INCRA por “seleção pública” na ETFAM, em 1975, recrutado que fora dentre alunos dos terceiro e quarto anos do curso de ‘Estradas’.

Tanto naqueles tempos quanto nestes, “ordem dada era ordem que devia ser cumprida”. Assim, prontamente, o ‘tenente’ ‘R-2’ (chefe da ‘Assessoria de Serviços de Informações’ - ASI-SNI) fez questão de ir pessoalmente lá na “minha” sala, onde eu exercia minha mencionada função para me buscar.

Chegando lá na sala da topografia, agarrou-me pelo braço e levou-me pelo extenso corredor, sob os olhares surpresos e atônitos dos demais colegas de INCRA. Todos devem ter imaginado o seguinte: - “Coisa boa ele não fez!". Teria ele (eu) ‘aprontado alguma’?

Vivíamos com medo, pois, como estudante de Matemática da UA (hoje UFAM) e ‘servidor’ da ‘Reforma Agrária’, com certeza eu era ‘visado’ pelos meganhas do Regime Militar, que se implantara no país em 1964.

Na verdade, eu tinha a admiração de todos os meus colegas de INCRA pelo fato de que, em 1976, eu fui o único empregado do INCRA a lograr êxito no vestibular daquele ano. E passei logo para o curso de ‘matemática’! Terror do brasileiro em geral. Essa disciplina era – e ainda é – o “bicho papão” de todos os alunos brasileiros!

E, como muitos hoje acham, naqueles tempos as Universidades haviam se transformado em “viveiros” de comunistas. Na verdade, as IFES se tornaram em pièce de rèsistance ao ‘regime militar’, o que fez com que os milicos cressem que havia um ‘inimigo’ atrás de cada escrivaninha; de cada mesa de desenho; de cada líder entre grupos de trabalho.

Voltando à minha ‘condução coercitiva’ para a sala do superintendente do INCRA - após superado o “corredor polonês” -, fui então ingressado na sala do coronel ‘Zé Carioca’ (não é piada!). O nome do coronel era José de Azevedo Carioca. Por obra do destino, hoje minha foto se encontra na galeria de ex-superintendentes do INCRA, na entrada , na recepção. Mais na frente relatarei essa incrível proeza...

Na sala de Zé Carioca, presentes apenas eu, ele e o tenente, houve um suspense no ar! Quebrado apenas pela voz ‘tonitruante’ e ‘cavernosa’ do coronel: - “Você vai ser transferido amanhã para Tabatinga”!

Tentei argumentar, balbuciando a seguinte frase: - “Mas o que foi que eu fiz”?

Fui então prontamente interrompido pelos berros do coronel: - “Não tem essa de perguntar ‘o que foi que eu fiz’ coisa nenhuma! ”. E emendou: - “Se você não for, estará demitido”. Eu era celetista. Não tinha estabilidade dos estatutários.

Meu Deus! Como eu poderia ser demitido do cargo de topógrafo? A minha grande paixão profissional!? E deixar de ganhar aquela grana toda que eu já estava ganhando desde quando na Prefeitura de Manaus fui contratado como ‘Auxiliar de Engenharia’? Ganhava seis salários mínimos desde 1973. No INCRA, ganhava mais as 25 diárias de campo por mês! Naquela época, o salário de ‘topógrafo’, ou de qualquer ‘Técnico de nível médio’, era de 6 (seis) salários mínimos. Era o piso do CREA.

Já me considerava rico com esse salário! Como perder isso tudo?

E ainda teria de largar o ‘curso de matemática’, minha outra paixão... Parec que as minhas paixões sempre foram o “meu fim”...

Um dia, minha namorada foi lá no INCRA procurando pelo ‘Nonato fotógrafo’, que ela achava que eu era... Até isso! Meus colegas não perdoaram. Dizia o Luís “Biquíni”: - “Tem uma moça aí na recepção procurando por um tal de ‘Nonato fotógrafo’..., com aquele risinho sacana. E ainda me perguntou a fim de ferir mais fundo meu ego: - És tu? ” .

Para se ter uma ideia do desprestígio (por ignorância, claro) de que gozava um topógrafo, na novela da Globo das 20h o diálogo de duas personagens deixava isso claro. Dizia uma: - “Você sabia que a Fulana está namorando um soldado do exército”? Ao que a outra retrucou: - “Pior é a Sicrana, que está namorando um topógrafo”! Suprema humilhação! Nada contra os soldados...

Voltando ao assunto da transferência ‘manu militari’, que aconteceu na sala do Zé Carioca, aquela tarde fez-se noite para mim. Tinha feito aniversário no dia anterior, trinta de julho. E agora estava sendo ameaçado de demissão sumária.

Eu e meus colegas do ‘Projeto Fundiário Manaus’ éramos todos ‘celetista’. Portanto, sem nenhuma estabilidade. Bastava um olhar feio do chefe que qualquer um de nós podia ser demitido a qualquer momento, sumariamente. Ao contrário dos estatutários, que podiam ficar com os pés sobre a suas mesas, lendo jornais e fumando charutos. Como era o caso do Sabbá, um agrônomo negão lá de Minas Gerais.

Naquela noite (literalmente), tentei buscar conselho no colo de minha mãe Alzira, mas a mesma – não por maldade dela, mas por amor – me disse “na lata”: - “Vá! Ou você quer voltar para a “lama” de onde nós já saímos”? Diante daquela opinião cruel, mas sincera, não pensei duas vezes. Deixei tudo para trás: curso de matemática; namorada; colegas; amigos; mãe; irmãos e fui...

Meus “amigos” de INCRA/Manaus me disseram: - “Vais regredir lá em Tabatinga”!

Principalmente o Brito, que recém tinha sido transferido de Borba para Manaus. Sabia o que era morar no interior do Amazonas... Então, criei coragem e ousei perguntar aos milicos, meus inquisidores: - “Quando eu poderei retornar ao INCRA de Manaus”? Ao que me responderam em tom de ironia e sarcasmo, com um misto de descrença em minha capacidade profissional: - “Quando você demarcar todo o Projeto” em Tabatinga. Depois fiquei sabendo que, em dez anos de existência do PIC-Tabatinga (Projeto Integrado de Colonização Tabatinga, do INCRA), ainda não havia sido demarcado nenhum mísero metro quadrado. Quão alentador, não!?

De partida de Manaus para Tabatinga, fui submetido a outra “tortura chinesa”: me vi embarcado, pela primeira vez, em um avião! O tenente ‘R-2’ foi me levando junto. Nunca tinha voado numa estrovenga dessas. Me perguntava: -  “como pode um barco tão grande e pesado se sustentar no ar”? Sabia, porém, pelas aulas de física aplicada ministradas pelos ótimos professores da Escola Técnica, que são forças muito bem estruturadas por Leis imutáveis, que possibilitam a incrível sustentação de um avião no ar. Aproveitei para praticar um pouco de fé – em Deus e nos homens.

Ufa! Uma hora e meia depois, cheguei inteiro em Tabatinga, sempre acompanhado pelo tenente.... Enfim, sobrevivi.

Ainda tentando entender a razão de tanta perseguição no INCRA, deparei-me com as seguintes perguntas que fiz a mim mesmo: - “Será que é porque os milicos pensam que eu sou comunista, como o meu colega de INCRA João Pedro”? Ou, talvez, tenha sido porque eu demarcava os lotes dos caboclos que não constavam dos Projetos? O que dá no mesmo. Mas os caboclos estavam lá, abandonados da sorte! Na verdade, eram vítimas da desídia funcional dos técnicos do INCRA responsáveis pelas ‘identificações’ e pelas ‘vistorias’ dos ocupantes de terras, os quais deveriam ser objetos de regularização fundiária e que deveriam constar dos Projetos de demarcação. Os posseiros estavam lá, meu Deus do céu! Nos fundos dos terrenos.

Por causa disso, levei muitas broncas do meu chefe ‘Sarmento’. Mas fiz o que achei que devia fazer. Fiz isso em razão de minha consciência de caboclo, me identificando com os posseiros, pois sabia de onde eu tinha vindo: do interior do ‘Careiro da Várzea’.

Como já relatado, essa vinda do interior  do Careiro da Várzea para Manaustinha se dado em dezembro de 1.966, quando deixei a casa dos meus pais, no Cambixe.

Aqui cabe uma digressão muito importante (pelo menos para mim): nasci em Manaus, em 1954, fugindo da ‘cheia’ de 1953 (ou alagação – fenômeno recorrente na Ilha do Careiro e na região amazônica). Contudo, vivi até os doze anos - entre idas e vindas -, no ‘Careiro da Várzea’, a cerca de 20 km de Manaus. Ali, minha mãe houvera herdado um pequeno sítio dos meus avós maternos, que mais tarde viera a perder por conta das maluquices do Valdé, como também já relatado.

Assim foi que, com doze anos, em 1.966, resolvi deixar o ‘Paraná do Cambixe’ (um Paraná de 150 km que corta a Ilha do Careiro de ponta a ponta. Paraná é um rio sem foz nem estuário.

Resolvi sair da fazenda do Sr. Adalto Leite, onde minha mãe era caseira, e resolvi morar com minha tia Alice em Manaus, para poder estudar e garantir “uma vida melhor” para minha mãe e meus irmãos.

Meu pai, o Valdé, era “artista” e vivia viajando com a viola no saco, a caixa de ferramentas de ourives, cantando pelos beiradões, nas fazendas da região. Como bom pernambucano da serra do Araripe, cantava ‘cordel’ e fazia ‘repentes’, ‘desafios’, ‘coco’, essas coisas; como ourives e relojoeiro, fazia e consertava joias e relógios. Valdé esquecia que tinha mulher e filhos.

Assim é que, em dezembro de 1.966, já em Manaus, morando com minha tia Alice, cursei os dois anos do curso primário, a terceira e a quarta séries, que foram pagos pela minha tia, na ‘Escola Industrial Salesiana’(EIS) ‘Domingos Sávio’, na rua Visconde de Porto Alegre. Isso se deu entre 1.967 e 1.968. Dois anos que valeram por quatro. No ano seguinte, em 1.969, sem que minha tia tivesse mais como continuar pagando escola particular para mim, pois a casa já estava cheia de netos para alimentar, e eu era mais uma boca,  “obrigado” por ela a ingressar na Escola Técnica Federal do Amazonas (ETFAM), para cursar o ginásio industrial. Fui desobrigado de estudar a 5ª série primária na ‘IES’.

Já na ETFAM desde 1.969, e daí pelos próximos quatro anos, fui literalmente obrigado a fazer oito cursos profissionalizantes: eletricidade; tipografia e encadernação; marcenaria e carpintaria; serralheria e soldas; mecânica de automóveis; e mecânica geral (tornearia, frezagem, furadeiras, limadeiras, desenhos arquitetônico, mecânico e em perspectiva, etc.).

Para um menino oriundo da várzea, acostumado com o campo, foi uma tortura ter de lidar com eletricidade, choque, maçarico, ferragem, tornos, etc.

Finalmente, entre 1973-76, na mesma ETFAM, cursei o ‘Técnico em Estradas’, e então, como já relatado, fui recrutado e selecionado como ‘topógrafo’ pelo INCRA, em 1975. Apos ter sido contratado pela SEMOB como Auxiliar de Engenharia entre 1972-73, após um ano de estágio.

Mas minha fixação era mesmo topografia.

Finda a digressão, voltemos ao caso do meu “degredo” para Tabatinga. O certo é que o ‘Zé Carioca’ “me pegou pra Cristo”.

No mesmo momento em que eu estava chegando em Tabatinga, em julho de 1.977, um grupo de funcionários do Banco do Brasil estava sendo transferido para Manaus, e seus integrantes gritavam da porta do avião: - “Adeus, desgraça! ”, referindo-se à “cidade de Tabatinga”. Isso me deu um “frio” na espinha...

Pelo menos fui bem recepcionado pelos meus novos colegas de trabalho no INCRA/Tabatinga. Mas, para meu espanto, ao chegar, fiquei sabendo que o tenente ‘R-2’ era o chefe do PIC-TBT. Estava explicado o grande interesse dele por mim. Por meu serviço. E em ir junto comigo no avião...

Em parte, a demarcação do PIC-TBT não progredia pela falta de um topógrafo. E foi assim que ele conseguiu um. Como não havia outro topógrafo mesmo, eu tive que assumir a chefia de mim mesmo e dei início ao planejamento dos trabalhos. Aliás, havia um outro funcionário contratado como topógrafo, mas que não sabia o que fazer nessa função. Não tinha experiência e nem treinamento. Era meu único funcionário. Os demais eram temporários, prestadores de serviços.

Em outras palavras, o outro “topógrafo” era um autêntico “servidor público”. Não era por culpa dele.

Resolvi ensiná-lo, treiná-lo. Tornou-se um excelente topógrafo graças à sua vontade de aprender aquilo que para mim já estava se tornando um “carma”. Até hoje o Repolho (sobrenome dele) segue na profissão de topógrafo. Não sei o que ele viu nisso... Mas me parece feliz. Vejo-o pelo Facebook.

Lembrei-me do que meus colegas do INCRA de Manaus me disseram: - “Vvais regredir em Tabatinga”!

Decidi progredir. Comprei bons livros: de História Geral e do Brasil; de Geografia Geral e do Brasil; de Espanhol; etc. Estudei muito. Afinal, o que mais se tem numa “penitenciária” é tempo. Tabatinga para mim foi como se fosse uma penitenciária a céu aberto.

Li a Bíblia quatro vezes. Uma delas em espanhol. Me tornei erudito em bíblia espanhola.

Aprendi a falar “Piél Roja” estampada na carteira de cigarro (ou melhor, ‘cigarrillo’) que me apresentaram e me desafiaram a falar aquela palavra, que era também uma famosa marca de cigarro colombiano. Estas foram as “boas vindas” que os meus novos colegas de INCRA me propuseram logo ao chegar em Tabatinga. Para verem se eu aprenderia ou não o ‘portunhol’ praticado naquela tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

Acabei passando mais tempo em Letícia, capital da Província ‘del Amazonas” – Colômbia. Com o câmbio favorável, na razão de $ 2,5 x 1, passei a luxar em Letícia.

Ao contrário do meu colega Ernani, agrônomo, que comprou um curso de Inglês e enchia o saco ouvindo as aulas, eu me dediquei ao espanhol. Consegui falar fluentemente.

Tanto estudo autodidata me fez passar em mais dois vestibulares após retornar a Manaus em 1.979/80. Até hoje sou autodidata. Consigo aprender “qualquer coisa”. Até “japonês em braule da música do Djavan.

Como se podem ver, nem tudo foi péssimo para mim em Tabatinga. Tem a história de minha esposa Suderly, a qual fui buscar em Manaus em junho de 1978. Chegando em Tabatinga, ela chorava o dia todo pela falta da mãe e pela “cidade” em si. Fiquei com peso na consciência. Aí, resolvi fazer um filho nela para “lhe mostrar quem sou” (Cazuza) e a coisa ficou ainda pior: agora ela chorava e vomitava o dia todo...

Num “belo” dia, chegou no PIC-TBT um major aviador e perguntou com aquela arrogância que somente os militares sabem demonstrar: - “Quem é o topógrafo? ”. Todos sabiam, inclusive eu, que somente existia um: eu mesmo. O outro ainda não se podia ser acusado disso. Pensei: minha “má fama” já correu a fronteira...Assim, como somente restava eu, me acusei: - “Sou eu! ”. Então aquela figura aterradora do major me falou: - “O comandante está chamando você lá no QG”.

Me despedi de todos e novamente fui conduzido “sob vara” – desta vez em um jipe da PE do exército – para falar com um coronel e comandante. Pensei: - "Será que vai me mandar para a ‘Cabeça do Cachorro?". Fui então ingressado pelo major na imponente sala do coronel Berg, comandante do QG, o qual, para minha completa surpresa e posterior deboche, era quase um “anãozinho”, de voz fina como a do lutador Anderson. Ele fez a mesma pergunta do major – como a duvidar de mim: – “Você é o topógrafo? ”. Eu não podia negar, mas me perguntei: - “Por que diabos eu havia de me ‘apaixonar’ por essa desgraça de profissão de topógrafo”? Respondi ao Coronel como da outra vez havia respondido ao major - já duvidando de mim mesmo: - “Já disse que Sou eu”! (lembrei-me também de Jesus no Getsêmane - que Ele me perdoe pela blasfêmia!). Só faltou-me perguntar: - “A quem buscais”?

 O “coronelzinho” Berg então me falou com aquela voz fina de castrato - mas mesmo assim arrogante dentro do possível para ele -: - “VOCÊ VAI DEMARCAR A ÁREA DE TREINAMENTO DO CF-SOL (Comando de Fronteira do Solimões) ”! Eu, então, mal disfarçando a vontade de rir, disse a ele - empostando a voz de ‘baixo profundo’: - “SIM, SENHOR CORONEL”! (Rá-rá-rá...).

Ele, então, vendo que já “havíamos nos entendido”, perguntou: - “Então, do que você vai precisar”?

Disse-lhe que precisaria de gente para abrir picadas na selva e fazer todo tipo de serviços próprios de demarcação topográfica. O coronel então me disse que eu comandaria um ‘pelotão’ de ‘cabos velhos’, composto por ex-combatentes no Araguaia uma década ante (o que me soou como ameaça!).

Falou para o seu intendente me passar todas aquelas ‘tralhas’ de selva (kit com rede, talheres, prato, garfo, faca, cantil, etc., e, de maneira especial, mandou o intendente me entregar um uniforme de capitão. Afinal, precisaria de alta patente para comandar ‘cabos velhos’. Todos eles ‘especializados’ em matar guerrilheiros do PCdoB, segundo eles mesmos. Pronto! De maneira inusitada, passei de topógrafo ‘proscrito’ pelo INCRA a ‘capitão’ do exército brasileiro. Passei dois anos nessa função, que me fizeram ‘especialista’ em sobrevivência de selva. E olha que houvera eu sido dispensado de servir nesse mesmo exército por “insuficiência física”.

Depois, quando comecei a comer (bem e muito!), passei facilmente a pesar 70 kg, que os conservo até hoje. Sob os apupos de minha médica e de minha nutricionista. Coitadas! Não sabem o que é a memória de um ex-faminto.

Assim é que demarquei quatro áreas de terras naquela amada fronteira – que hoje delimitam a cidade de Tabatinga:

- Ao Norte, fica a área de treinamento do exército (CF-SOL); - ao Sul, a cidade do Marco Tabatinga e o Rio Solimões; - a Leste, fica a reserva indígena dos Ticunas; e a - Oeste, a reserva indígena dos Tacanas. É só verificar no mapa da cidade de Tabatinga.

Conforme o prometido em julho de 1.979 pelos milicos de Manaus, após eu demarcar o PIC-TBT, retornei a Manaus para outras histórias que renderão pelo menos mais alguns capítulos sobre a minha conturbada, rica e pobre vida de matuto, topógrafo, administrador, advogado e professor.

Há, sim, passei a amar aquela fronteira. E o major aviador se tornou, por conta própria, meu ‘amigo’ e me levava com ele, como seu copiloto, no avião anfíbio Catalina, da segunda guerra mundial, toda vez que ele ia levar rancho para os pelotões de fronteira ao longo dos 400 km, desde Tabatinga até a Cabeça do Cachorro. De certa forma, acabei indo parar na “Cabeça do Cachorro”...

O "desgraçado" do major gostava de me mostrar “o quanto viajar de avião era seguro”, principalmente naquele Catalina da II Guerra Mundial: segundo ele, porque aquele avião “tinha dois comandos; dois motores; dois tanques de combustíveis; voava sobre os rios; planava (desligava os motores para me mostrar); voava baixo, enfrentando as turbulências das tempestades”...

Por conta desse “miserável”, nunca mais tive medo de voar de avião.

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. IV >

 

 < Capítulo IV >

UM ESTAGIÁRIO DE SUCESSO DA ETFAM

 

    Em maio de 1973, após cinco meses de muita “mijada” da gerente Cleide da loja Central da Moto Importadora - a qual não tinha paciência com seu empregado matuto (no caso, eu), que não sabia a diferença entre ‘sanduiche de queijo com pão de forma’ e ‘sanduiche de queijo com pão francês’, nem muito menos o que era ‘queijo prato’, ou ‘queijo mozzarella’ - depois de 'infernizar' os ouvidos do prof Hamilton, coordenador do CIEE, este me incluiu na lista de indicados como estagiários de 'estradas' para a Secretaria Municipal de Obras (SEMOB).

Após 3 dias ausente do trabalho na Moto Importadora em razão de uma forte gripe que me forçou a ficar hospitalizado, levei uma punição muito injusta de suspensão de três dias, aplicado pela Cleide. Meu atestado médico foi tido e havido pela gerente como sendo “fake” (essa prática é até hoje utilizada por empregados descontentes com seus chefes e seus empregos).

Na verdade, tive que baixar ao hospital do INSS que fica na Av. Getúlio Vargas, em razão dessa forte bronquite, ou já pneumonia, única vez que isso me aconteceu. A segunda vez foi em 2021, na COVID-19, no HUGV.

Como eu ia para o trabalho e voltava para casa de pés (para economizar o valor da passagem de ônibus), tanto pela manhã, na ida, quanto ao meio dia, na hora do almoço. Mesmo durante o trabalho, eu pegava muito sol e chuva, sem nenhuma proteção, por isso caí doente.

A gerente Cleide não sabia, mas eu já estava “negociando” no SIEE uma saída honrosa dessa situação, na qual eu estava sofrendo ‘assédio moral’. Por isso, deixei ela “famosa” lá no SIEE.

O prof. Hamilton ouviu toda a minha lamúria e, de tanto eu “chorar” na sua frente, este resolveu me incluir em uma turma de ‘estágio’ da ‘Secretaria de Obras’ (SEMOB), da Prefeitura de Manaus. Assim, eu me “vinguei” da peste, digo, da gerente. Apresentei a ela meu pedido de demissão. Ela pasmou! Não acreditava que eu lhe deixaria sem seu especial objeto de sadismo.

Contudo, foram cinco meses de muito aprendizado trabalhando na Moto Importadora, onde me meti com atividades não próprias de um office boy, tais como:

> “Vendas” de balcão (ao contrário dos balconistas, eu conseguia ler em inglês os manuais dos produtos importados e demonstrar seus funcionamentos para os clientes);

> “organização” dos estoques (por conta própria), a fim de facilitar as vendas ao encontrar rapidamente qualquer item;

> “análise de crédito”: os clientes aguardavam na porta da loja para saberem antecipadamente se suas compras seriam aprovadas ou não; ou se necessitariam de avalista; ou de maior entrada, etc.

Tudo isso fazendo uso de meus conhecimentos já adquiridos nos últimos cinco anos de ETFAM, no Ginásio Industrial, e já no primeiro ano do curso técnico de ‘Estradas’.

Como já relatado, ingressei na ETFAM em 1969 para cursar o ‘Ginásio Industrial’ uma vez que minha tia Alice não podia mais pagar para que eu estudasse na ‘Escola Industrial Salesiana’ (EIS) ‘Domingos Sávio’.

Na ETFAM, além das disciplinas típicas desse grau de estudo, ou seja, ‘língua portuguesa’; ‘língua francesa’ ou ‘inglesa’; ‘matemática’; ‘desenho geométrico’; ‘ciências’; etc., fui “obrigado” a cursar uma disciplina chamada ‘Artes Industriais’, a qual me fazia aprender ‘duas profissões’ por ano, ou seja, uma ‘profissão’ a cada semestre. Portanto, ao final de quatro anos, já havia adquirido as seguintes profissões: ‘eletricidade’; ‘tipografia’ e ‘encadernação’ (1969); ‘marcenaria/carpintaria’; ‘mecânica de autos’ (1970); ‘serralheria’ e ‘soldas’ (1971); ‘tornearia’; ‘mecânica geral’ (fresa; furadeira; limadeira, etc.) (1972).

Além dessas profissões, fiz cursos paralelos de suporte para cursar tais disciplinas profissionalizantes, que foram: ‘desenho arquitetônico’; ‘desenho mecânico’; ‘desenho artístico’ (com o famoso pintor e professor da ETFAM, Moacir Andrade!); ‘desenho em perspectiva’; e ‘metrologia’ em geral.

Portanto, estudando na ETFAM, eu já estava sendo preparado para a vida.

Na verdade, já estava mesmo ganhando dinheiro como aluno, vendendo aos vizinhos os artefatos oriundos das aulas práticas da ETFAM: ‘piões’ de madeira; ‘martelos’ de alumínio para bater carne (é assim que pobre transforma “carne de pescoço” em “filé”); ‘martelos de bola’, etc.

Após esses últimos quatro anos de ginásio industrial na ETFAM (últimos anos desse ciclo na ETFAM) (1969-72), a Administração da ETFAM fez um levantamento para saber ‘qual o melhor aluno’ desses últimos quatro anos do curso de ‘Ginásio Industrial’. Para minha grata surpresa, eu tinha conseguido a melhor média geral. Ganhei, em solenidade feita especialmente para isso, uma ‘caneta’ dourada da marca Cross!

O segundo colocado foi o meu colega Samuel Câmara, que era nosso orador oficial nas horas cívicas aos sábados (como parte das disciplinas OSPB e Educação Moral e Cívica). Ele ganhou uma caneta Cross prateada. Depois virou pastor da Assembléia de Deus.

Portanto, eu era muito inteligente, mas o Samuel era muito mais ‘esperto’ do que eu, como o passar da vida demonstrou.

Sem a necessidade de fazer nenhum teste (a não ser teste ‘psicotécnico’, para avaliar a qualificação ou predisposição para cursar um dos cursos ‘técnicos’, de nível médio, da ETFAM), fui matriculado no curso técnico de ‘Estradas’ (engenharia de estradas). Talvez o mais difícil.

Meu teste ‘psicotécnico’ informou minha grande aptidão com números. Assim, me matriculei no ‘curso técnico’ de ‘estradas’. Nesse curso, me senti como ‘peixe n’água’ em razão da grande exigência em matemática, cálculos em geral. O teste estava certíssimo. Mais tarde, em 1976, passar no vestibular para o curso de licenciatura em ‘Matemática’ foi algo ‘natural’ para mim.

Desta maneira, eu me achava muito capacitado para ficar trabalhando levando “mijada” daquela gerente sem noção, em um cargo de serviçal, na loja Moto Importadora.

Por obra e graça do prof. Hamilton, que me incluiu na turma de estágio da SEMOB, em julho de 1973, dei início ao meu ‘estágio’ como aluno de ‘Estradas’ da ETFAM, ganhando dois salários mínimos (!), ou seja, o dobro do que ganhava na loja Moto Importadora. Atrasava, mas eram pagos.

Porém, havia um problema: como eu era aluno ainda do 1º ano de ‘Estradas’, não dominava as informações técnicas necessárias para lidar com ‘Projetos de Estradas’ e outras tantas disciplinas teóricas.  Somente nos 2º e 3º anos essas disciplinas eram ministradas. Pedi a Deus uma solução...

Fui atendido (fé não costuma falhar): enquanto meus “colegas” foram destinados ao ‘bem-bom’ do ‘escritório’ (que lidava basicamente com ‘planejamento’), a mim me mandaram para o ‘campo’, isto é, para a ‘execução’, para tomar conta das ‘patrulhas mecânicas’, no “sol e na chuva”, a depender do clima. Portanto, na lama. Ou na poeira. Chegava à noite na ETFAM enlameado ou empoeirado. Tomava banho no vestiário do campo de futebol e ia pra sala de aula.

Ninguém dos meus colegas de ‘estágio’ queria ir para o campo... Com certeza eles sabiam da minha condição de ‘aluno de primeiro ano’. Todos se conheciam. Mas não fui denunciado.

 Eu aceitei ir para o ‘campo’ com alegria, claro. Virei “engenheiro” de campo. Vestido a caráter: calças jeans; camisa de brim; coturnos do Exército, ou da Aeronáutica, etc. Eu era objeto de flertes por parte das meninas, que faziam questão de me servirem água gelada pelas janelas das salas de suas casas. Eu parecia ‘pinto em merda’...

Sem ter ainda muitas teorias na cabeça, parti para o aprendizado autodidata ‘teórico-prático’. Corri atrás das teorias (de forma autodidata) que me faltavam. E complementava imediatamente com a prática. Tem ‘mal’ que vem para o ‘bem’.

Diferentemente da loja da Moto Importadora, agora eu tinha à minha disposição ‘carro com motorista’ para me apanhar pela manhã em casa e me deixar à noite na ETFAM. O nosso motorista ‘Rubão’ era muito ‘nó cego’. Às vezes me deixava esperando em casa das 7h às 9h, para meu desespero. Mas já vinha juntamente com o Dr. Fonseca, o qual chegava com um sorriso de troça enorme, sabendo de minha ansiedade. Como peão de ‘trecho’, eu tinha alimentação farta e boa no canteiro de obras.

Meus colegas de turma, no escritório, cumpriam apenas quatro horas trabalho. Eu, porém, nos trabalhos de campo, estendia voluntariamente meu horário de ‘estágio’ por seis horas, mas não me importava com isso. Estava feliz da vida com esse meu trabalho. Mas meu sonho mesmo era ser topógrafo! Vá entender...

De cara, participei da urbanização do conjunto ‘Parque Dez de Novembro’. ‘Urbanizei’ todas as trinta e duas ruas. E também dos bairros: Santo Antônio; Petrópolis; Colônia Oliveira Machado; a área da UTAM; a área dos Bombeiros, na Rua Codajás; etc.

Aprendi a operar as máquinas pesadas. Os operadores, na hora do almoço, me davam as chaves de suas máquinas para que eu treinasse.

Eu também fazia o controle dos ‘estoques de materiais de construção’; a apropriar o valor das horas trabalhadas (ou paradas) das máquinas pesadas; enfim, fazia o ‘dimensionamento dos equipamentos’, ou seja, dependendo do trabalho, decidia ‘quais’ e ‘quantos’ equipamentos eram necessários. O maior custo de construção de estradas é o transporte de material por meio de caçambas. Tanto dos materiais chamados de ‘bota-fora’ (camadas vegetais removidas pelas máquinas pesadas, tais como: ‘moto-scrapers’; ‘trator de esteira’; ‘retroescavadeiras’; ‘pás mecânicas’, etc.), quanto os materiais de ‘base’, ou seja, piçarras (laterita); brita e pó de brita; etc.

Meu professor da disciplina ‘Dimensionamento dos Equipamentos’, do curso de Estradas, ficou pasmo com meu conhecimento dessa disciplina. Pois eu conseguia aliar o conhecimento teórico com o conhecimento prático. Me tornara seu preceptor.

Meu engenheiro-chefe na SEMOB, o Dr. Fonseca, gostava muito do meu trabalho e confiava inteiramente em mim. A ponto de me deixar tomando conta dos trabalhos enquanto ele participava das reuniões no staff da Secretaria.

Ao fim de um ano do meu ‘estágio’, ele havia se tornado ‘secretário de obras’ da SEMOB. Foi aí que tive a certeza da minha aprovação como ‘estagiário’: o Dr. Fonseca fez comigo muito parecido com o que houvera feito o ‘Zeca Brito’ dois anos antes. Fonseca me falou o seguinte, com aquele sotaque baiano: - “Nonato, bichim, pegue seus documentos e vamos lá na Prefeitura, ômi...”. Obedeci, claro.

Chegando lá na Prefeitura, na Praça D. Pedro II, próximo aos escombros do ‘Cabaré Chinelo’, onde as quengas faziam ‘ponto’ desde sempre, ele então falou para a d. Teresa Bahia, chefa de Pessoal, apontando para mim: - “Contrate ele como ‘Auxiliar de Engenharia’, visse! ”. Ela prontamente obedeceu, dizendo: “viu!’. A prova disso se encontra registrada na minha CTPS: “Aux. de Eng., Nível I-7.A”.

Mais uma vez me senti como ‘José do Egito’: honrado por Deus, me tirando da humilhação!

Após esse um ano e meio de ‘estágio’, e após a minha contratação como ‘Aux. de Enga, I-7-A’, o Dr. Fonseca viajou de férias para a Bahia e não voltou mais. Fora convidado para trabalhar na Bahia, sua terra. Recentemente, em 2016, morei em Salvador com minhas filhas Alice e Clara. Elas continuam morando lá. Eu retornei a Manaus em 2017. Salvador é uma cidade maravilhosa!

Sem a proteção do Dr. Fonseca, fiquei, então, “jogado às feras”. O Dr. Fonseca até que tentou me ‘proteger’, me recomendando para o outro engenheiro do grupo de trabalho, Dr. Juan, que assumiu o seu lugar. Mas este também acabou por passar em concurso do INSS e se mandou, me deixando como “boi de piranha”.

Pedi, então, que me transferissem para o ‘escritório’ e para a ‘Topografia’, esperando ter melhor sorte lá, pois já estava iniciando o terceiro ano de estradas e já estava perfeitamente habilitado teoricamente.

Fui atendido, mas apenas para que eu fosse vítima da vingança de meus ex-colegas de ‘estágio’, pois se sentiam “traídos” por terem sido passados por alto com a minha contratação como ‘auxiliar de engenharia’. Queriam para eles esse cargo.

O chefe do setor de topografia, Dr. Braga, um engenheiro quase anão e pinguço (morreu anos depois com cirrose hepática), serviu de meu algoz e passou a tentar me humilhar, me mandando fazer serviços desqualificados, típicos de ‘peão’, tais como ‘cortar piquete’, o que recusei e fui demitido. Estávamos em 1974.

 Contudo, um ano depois, o INCRA necessitava contratar cinco ‘topógrafos’ para o Projeto Fundiário ‘Manaus’ e fez um uma seleção entre os alunos dos terceiro e quarto anos de Estradas da ETFAM. Eu já estava no final do terceiro ano. Me alegrei com a perspectiva de passar no teste e ser contratado como topógrafo – minha paixão – do INCRA.

Passamos no teste eu e mais quatro colegas do terceiro ano de Estradas da ETFAM. Nossa turma do terceiro ano era constituída por ‘feras”! Eu fui o quarto colocado no teste. Juntamente comigo, foram trabalhar no INCRA: o Pedro Marçal; o José das Graças; o Darlindo Jr.; o Tadashi. Se me lembro bem.

O colega Franck, de apenas dezesseis anos, desistiu do emprego porque o pai não deixou que ele trabalhasse ness idade.

No ano seguinte (1976), eu e vários colegas de turma, do 4º ano de ‘Estradas’, passamos no vestibular da UA (hoje UFAM). Eu e o Raimundo Nonato Braga, para ‘Matemática’; o Jonas e a Eliana, para engenharia; o Jozeuter Ferro, para ‘Direito’ (um gênio!); e o Franck para Geologia. Todos éramos NERDS!

Foi assim que, em outubro de 1975, eu cumpri meu ideal: tornei-me topógrafo do INCRA.

Por uma questão de justiça, porém, devo mencionar a minha rápida passagem pelos Correios entre 1974 e 1975, onde fui contratado como carteiro, mas fazia o trabalho de ‘manipulador de cartas’. Era necessário rapidez e grande memória para triar as correspondências sem erro de destinação. Hoje, esta atividade está automatizada e robotizada. Nesse cargo, ganhava o mesmo que o ‘aux. de engenharia’ da Prefeitura, para se ter uma ideia do grande valor deste profissional naquela época. Para isso, fiz um concurso no qual ‘gabaritei’ a prova. O Sr. Oswaldo foi como um pai para mim. Até que surgiu o concurso do INCRA.

Rendo aqui minhas homenagens aos colegas Petrus Emile Abi-Abib e Miguel Emile Abi-Abib, os quais, com enorme competência souberam lidar conosco, formando, conduzindo, orientando, torcendo por nós, um graupo de meninos cheios de álgebra linear e sonhos.

Deus seja louvado! “Fé não costuma faiá” (Gilberto Gil).

28 agosto 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. III >

 

< Capítulo III >

UM MATUTO SEMIANALFABETO DE VOLTA À CIDADE GRANDE


Ao eu chegar novamente em Manaus, naquele dezembro de 1.966, aos doze anos e meio, matuto e semianalfabeto (sabia ler somente), era como se os taxistas já estivessem “me aguardando” no porto da ‘Escadaria dos Remédios’. Desci do barco ‘José Mitonho’, agarrado em meu saco com frutas, e levei-o até ao primeiro taxi e perguntei ao taxista:

- “Por quanto você me leva neste endereço? ”. E lhe apresentei o papel rabiscado pela minha mãe onde se podia ler (isso eu sabia): “Rua Visconde de Porto Alegre, 1.010”.

O taxista me perguntou:

- “Quanto você tem aí? ”. Mostrei-lhe então todo o dinheiro que minha mãe havia colocado no meu bolso da camisa. Ele então me falou: - “É isso mesmo, vamos embora! ”.

Nem desconfiei que pudesse estar sendo enganado por ele. Na verdade, nunca soube quanto dinheiro tinha no meu bolso. No interior não se utilizavam dinheiro, mas se faziam trocas, produto por produto, praticando um verdadeiro escambo. Na maioria das vezes uma troca injusta, desproporcional. Daí a importância da moeda na história da humanidade. Como reserva de valor e facilitadora das trocas. Toda moeda deve ser confiável por todos. Por essa razão foi, por muitos séculos, geralmenteera cunhada em prata ou ouro, ou em ambos os metais preciosos.  E seu peso e quantidade era  representativa do produto. Depois, a moeda passou a ser escritural, isot é, impressa em papel especial, mas cujo valor ainda era representado pela quantidade de prata e ouro guardado no Banco Central. Era o famoso lastro-ouro. Isso também não foi mais utilizado desde o fim da I Guerra Mundial, quando a moeda passou a ser meramente escritural e cuja fé é estipulada pelo governo, pelo Produto Interno Bruto (PIB) e pela confiança que o cidadão deposita em seu governo, que promete não emitir moeda sem lastro no PIB (teoria quantitativa da moeda). 

Durante a viagem no taxi, ia reconhecendo os lugares por onde já havia antes transitado, num misto de alegria e surpresa por me encontrar novamente em Manaus, a cidade grande. Agora, por minha própria conta e risco. Portanto, a partir deste momento tomei as rédeas de minha vida em minhas próprias mãos. Minha tia Alice me recebeu com um misto de alegria e de preocupação. Perguntou-me sobre “o que eu estava fazendo ali sozinho”. Respondi-lhe que “tinha ido morar com ela para poder estudar”. Ela então baixou o ‘decreto’: - “Então você VAI ESTUDAR! ”, como que desconfiando de meus propósitos. E disse mais:

- “Você vai ajudar (na verdade fazer tudo sozinho) nos afazeres aqui de casa”. Depois entendi que ela disse isso para me 'blindar' contra as opiniões contrárias dos meus inúmeros “primos” e outros agregados.

Meus primos já eram muitos. Mais de dez. Todos filhos do meu primo mais velho de primeiro grau, José Brito, o ‘Zeca Brito’. Todo ano ‘Zeca Brito’ fazia um primo novo na Rute, sua mulher magra e de aspecto fraco. Somente na aparência, pois a mesma ainda está viva e forte até hoje. Fora os primos que ela abortava espontaneamente.

Dessa forma, para mim, ‘comer’ se tornou um exercício de extrema complexidade. E competitividade.

Como cheguei praticamente no Natal, meu primo ‘Zeca Brito’ me “aprontou logo uma”, fazendo troça deste matuto, que não sabia comer ‘uvas passas’ e nem ‘ameixas secas’, ou em ‘caldas’. Me perguntou: - “você conhece isso? ”, como na música do Zeca Pagodinho sobre conhecer ‘caviar’. Respondi:

- “Não sei, nunca vi, eu só ouço falar”. Na verdade, eu não conhecia muita coisa da cidade grande. Principalmente sobre as novidades da Zona Franca de Manaus (ZFM) e sua quinquilharias. Nessa época, vivíamos a fase de importação da ZFM.

‘Zeca Brito’, então, me “ensinou” a comer: pegou minhas tvas passas e minhas ameixas em calda e as comeu todinhas. Fiz cara de choro. e minha tia Alice brigou com ele e me deu novamente aquelas iguarias típicas de Natal para eu comer. Que delícias! Foi assim que aprendi rapidinho a comer ‘uvas passas’ e ‘ameixas’ secas e em caldas. Eram deliciosas, apesar do aspecto feio.

A professora Terezinha, amiga de minha prima Maria Emília, fez comigo umas ‘provas’ para verificar em qual série do ensino primário eu me enquadraria. Terezinha era professora da ‘Escola Industrial Salesiana’ (EIS) ‘Domingos Sávio’, que funcionava na paróquia de ‘São José’, que ficava na mesma quadra onde morávamos, na Praça 14, esquina das Ruas Visconde Porto Alegre e Ramos Ferreira. Bem próximo de onde eu havia nascido. Não foi necessário muito tempo para ela verificar que eu era o próprio “Sócrates”, ou seja: eu ‘nada sabia’! Em termos de escrita e aritimética.

Meus primos de segundo grau (filhos do ‘Zeca Brito’), ‘Heriberto James’ e ‘Lady Elaine’ (todos os meus primos tinham nomes artísticos em homenagens aos artistas dos filmes de Holywood, os quais estrelavam os filmes que se passavam nos cinemas do Centro de Manaus: ‘Polyteama’; ‘Guarany’; ‘Avenida’; ‘Odeon’, com exceção dos cines 'Popular' ou ‘Poeira’ - que ficava na Praça 14; e o cine ‘Ypiranga’ - que ficava na Cachoeirinha.

Para sque se tenham ideia do verdadeiro cast de artistas que foi se formando na casa de minha tia Alice, meus outros primos se chamavam: Hudson Jansen; Lislie Helen; Herbert; Lilibeth Audrey; e assim por diante. Faltaram Gina Lolobrígida; Bo Dereck; Johnny Weismuller...

Os meus primos mais velho, Heriberto e Lady, passaram a me ensinar o que já sabiam. Por isso lhes sou muito grato até hoje. Me ensinaram desde ‘pegar’ em um lápis a ‘fazer cópias’ de textos. Aprender tabuada foi para mim um exercício particularmente dolorido em razão do método empregado: palmadas com as famosas palmatórias de madeira. Funcionava! Jean Piaget ficaria impressionado!

Foi então que eu redescobri minha capacidade de memorização fácil e rápida.

Em poucas semanas fiquei apto a ingressar no terceiro ano primário da ‘EIS Domingos Sávio’, que minha tia passou a pagar para eu estudar. Até hoje não faço ideia do valor. Foi um sacrifício dela ao qual correspondi com muito afinco nos estudos. Esse meu esforço me rendeu dois anos de ‘primeiros lugares’ das turmas do ‘terceiro’ (1967) e do ‘quarto’ (1968) anos primários, que me propiciaram as condições de passar no ‘exame de admissão’ ao ‘ginásio industrial’, da Escola Técnica Federal do Amazonas (ETFAM). 

Assim, concluí o quarto ano primário na ‘EIS’ ‘Domingos Sávio’ e já fui direto para a ETFAM, a fim de economizar o dinheiro de minha tia Alice. Na verdade, ela me ‘intimou’ a ir para a ETFAM, justamente porque era gratuita. meu primo Heriberto não conseguiu. Foi estudar na escola Benjamin Constant. Confesso que fiquei (sem razão, claro) com inveja dele.

Assim foi o início de minha vida acadêmica na cidade grande. Até hoje considero esse período de fundamental importância para minha vida.

Na ETFAM, paralelamente às matérias normais como: ‘Língua Portuguesa’; ‘Matemática’; ‘Ciências’; ‘Geografia’; ‘História’, etc., tive de realizar cursos ‘profissionalizantes’, como parte da disciplina ‘Artes Industriais’, que relatarei em capítulo específico mais à frente, dada a sua importância para vida profissional.

Como um bom ‘mateiro’ que eu era, minha tia me responsabilizou pelas ‘criações’ dela: galos de briga do Zeca Brito; galinhas poedeiras e de corte; porcos, que eram mortos nos aniversários de ‘Zeca Brito’ e de ‘Maria Emília’ (minha outra prima, irmã de Zeca), ambos no dia 24 de dezembro, que coincidiam com o Natal. Sempre me perguntava: ‘que “culpa tinham” os pobrezinhos’ para morrerem assim? “na véspera”, como os perus.

Treinei tão bem os galos de briga do Zeca que chegamos a ser campeões na rinha de galos. Eu era o “nutricionista” e o “médico veterinário” da galinhagem. Comprava ração, milho, remédios, etc. E aplicava emplastros de andiroba e copaíba nos bichos. Ficavam novinhos em folha.

Como ‘José do Egito’, um de meus heróis bíblicos, consegui ótimos resultados com a “criação” de minha tia e do Zeca Brito, que também era conhecido como Zé Galo. 

Além de cuidar da criação, todos os dias, após retornar da aula na ETFA, eu tinha de caminhar, sob sol no zênith (a pino), para buscar ‘sopa’ e ‘pão’ na casa dos sogros de ‘Zeca Brito’ , que tinham banca de café no ‘mercado grande’, ‘Adolfo Lisboa’ (meu velho conhecido dos tempos de “colheita” das bananas, que o Arnaldo fazia utilizando Gillete e ia colocando num saco pra guardar as ditas cujas dos olhares das pessoas curiosas).

Aoós andar quatro quarteirões, eu chegava, por volta do meio dia, esbaforido, na casa de ‘Donatila’, sogra de ‘Zeca Brito’. Ela me dava sopa, almoço e sossego. Após o almoço, eu aproveitava para ler as revistas e gibis do futuro médico, Dr. Ricardo, estudante autodidata incansável para passar no concurso vestibular para medicina da UA. Ricardo viria a se tornar médico cardiologista. Aprendi com ele a ter disciplina autodidata nos estudos. Ele foi para mim um grande exemplo de dedicação aos estudos. Uma inspiração.

O trajeto que eu fazia entre a casa de ‘Donatila’ e da minha tia Alice era de uns seiscentos metros (quatro quarteirões).

Como se faz no interior para buscar água no rio, eu improvisei uma vara para pôr as panelas com sopas quentíssimas, uma panela em cada extremidade, e assim facilitar seus transportes. A vara ia nos meus ombros. O saco com pães, também. Porém, mais achegados ao meu corpo, para não desbalancear a carga.

O sacana do ‘Passarinho’ – um moleque velhinho entroncado que gostava de bater nos meninos mais novos –, sempre me sacaneava quando eu passava com as panelas quentes cheias de sopas, ameaçando de me bater. Eu também o ameaçava de jogar a sopa quente nele. Assim, com medo de ser “escaldado”, ele me deixava passar em paz. Todo dia era isso. O Zeca Brito, porém, policial civil que era acostumado a bater em bandido, me dizia o seguinte:

- “Se você chegar aqui da rua ‘apanhado’, vai levar mais peia”.

Com esse encorajamento, eu ficava arrogante e batia na meninada que se atrevia a me desafiar. Mesmo sendo franzino. Ao ponto de terem me apelidado de “Maceta”, “Hércules”, “Tarzan”, “Maciste”. Maceta foi o prferido pela canalha!

Dizia eu para a garotada “bandida”:

- “O Zeca Brito, policial civil, é meu primo, hein! ”, em tom de ameaça. Funcionava.

Chegando em casa mais esbaforido ainda, lá pelas treze horas, ou mais, ao ponto de um dia ter desejado a morte, assim como fez Elias no deserto.

Ao chegar, porém, essa “vontade de morrer” passava porque eu tomava rapidamente meu banho com aquela água danada de fria, que era armazenada em tambores metálicos, e que chegava nas casas por meio de canos ‘galvanizados’ (os tubos PVC ainda não eram empregados), água essa sem nenhum tratamento. Sobrevivi.

Após o banho, fazia as tarefas de aula; depois, ouvia rádio FM e músicas MPB na vitrola que ‘Zeca Brito’ comprou na ZFM para o nosso deleite. Era um móvel grande e sofisticado para a época. Dessa maneira, formei uma memória musical considerável. Ouvia de tudo, tais como:

 ‘Cauby Peixoto’; ‘Agnaldo Timóteo’; ‘Ângela Maria’; ‘Tim Maia’; ‘Trio Los Panchos’; ‘Júlio Jaramillo’; ‘Altamiro Carrilho’; Nelson Gonçalves’; ‘Renato e seus Blue Caps’; ‘Jovem Guarda’; ‘Carlos José’; ‘Beatles’; ‘Armando Manzzanero’; ‘Bossa Nova’ (Tom, Vinicius, Toquinho); ‘Cascatinha e Inhãna’; ‘Altemar Dutra’; ‘The Fevers’; ‘Frank Sinatra’; ‘Dorival Caymi’; ‘Francisco Petrônio’; ‘Carlos Galhardo’; ‘Edith Piaf’; ‘Ray Charles’;etc.

Após esses momentos de ‘sossego’, lá pelas 15h, era a vez de eu cuidar dos galos, galinhas, pintos, ou seja, de alimentar a “criação”... Das 16h até às 18h, íamos, eu e meu primo pernas-de-pau Heriberto, brincar de bola no ‘Oratório Domingos Sávio’. Futebol de quadra. Esse meu primo ‘Heriberto James’ era muito ruim de bola! Já eu, me saia muito bem nessa arte. Era muito rápido e habilidoso com a pelota (em alusão à bola feita de pélas de seringa). Me achava mesmo um Pelé. Mas era muito franzino!

Essa rotina na casa de minha tia Alice durou os cinco anos nos quais morei com ela, ou seja, de 1967 a 1971. Neste ano, mandei buscar minha mãe e meus irmãos do ‘Careiro da Várzea’, em razão da grande alagação.

Minha mãe tinha sido “despejada” do quarto da fazenda do Sr. Adalto Leite, no Cambixe, em razão da ausência do Valdé, o qual “vivia pelo mundo” (em lugar incerto e não sabido). Fiquei sabendo disso da pior maneira possível: ao desembarcar no porto da fazenda. Um dos filhos do Sr. Adalto Leite, que viajara comigo de Manaus para o Cambixe no barco ‘José Mitonho’, me falou disso a poucos minutos antes do desembarque, dizendo: - “Sua mãe não mora mais aqui! ”.

Essa foi para mim uma notícia desconcertante! Eu não esperava por isso! Tive, então, de andar de volta, a pés, por vários quilômetros entre a fazenda de ‘Adalto Leite’ até a casa onde, provavelmente, minha mãe deveria estar morando de favor: a casa da d. Antônia, sua vizinha e comadre.

Por ironia do destino, minha mãe foi se abrigar justamente na casa da d. Antônia, filha do ‘Severino das Canas’ (Severino Souza, o ‘SS’), cujo sítio era vizinho do sítio que minha mãe e meus tios haviam vendido para o ‘SS’ onze anos antes. Todos os dias, o velhinho SS passava na frente de nossa casa com sua carroça cheia de canas, para dar para o gado comer na ‘maromba’ (uma estrutura de madeira sobre um piso de terra elevada e coberta de zinco).

Não foi fácil a caminhada! Eu ia caminhando e me perguntando: “onde estará morando a minha mãe, d. Alzira? ”. Ninguém sabia dizer...

Porém, logo a encontrei na casa de d. Antônia - como imaginara -, e fiquei muito feliz! Como foi bom revê-la e aos meus irmãos, Renato e Jânia! E também aos meus colegas de infância, Gregório e Manoel, filhos da d. Antônia, que era “uma mãe para nós”. E eles, como irmãos!

Minha mãe era muito querida pelas inúmeras ‘comadres’ que tinha nas redondezas da ‘Vila Velha’ do ‘Careiro da Várzea’.

Uma dessas ‘comadres’, dona da fazenda vizinha, esposa do Sr. José Alves, e suas filhas, com a ajuda do prefeito, fizeram uma casinha para minha mãe morar (com restos de madeiras de materiais de construção e telhas de barro, doados pelo prefeito). Ficava nas terras de sua fazenda (fazenda ‘dos Alves’), entre a casa de d. Antônia e a delas próprias.

Para nós era uma ‘boa casa’, a não ser pelo fato de ter sido construída em uma baixada, que acabou se transformando em um “furo”, quando as águas do ‘Paraná do Careiro’ atingiram seu nível máximo e transbordavam, e corriam velozmente no rumo do Lago dos Reis por esses ‘furos’. Era um fenômeno recorrente.

Os Alves não foram os únicos a fazerem casa para minha mãe morar. Antes, a esposa do Severino das Canas, d. ‘Dista’, já tinha feito a mesma coisa, ao lado de sua casa grande da fazenda.

Assim também fizera outra filha de d. Antônia, casada com Francisco Souza, filho do SS, no alto do Careiro.

Na verdade, a casa que os ‘Alves’ fizeram para minha mãe foi a última dessa fase, antes de eu mandar buscar minha mãe para Manaus, em 1971.

Após eu retornar das férias a Manaus, em março de 1971, busquei pela ajuda da ‘Assistência Social’ da ETFAM, onde estudava. Consegui Cr$ 50, que dava para pagar um quarto em algum bairro de Manaus, para minha mãe e meus irmãos poderem morar em terra firme, longe da alagação. Dessa forma, estávamos de novo, todos reunidos na ‘Cidade Grande’.

Com exceção de Valdér que, como sempre, estava há três anos desaparecido, em lugar incerto e não sabido. Até coloquei ‘nota’ na Rádio Difusora na tentativa de que Valdé ouvisse e desse as caras lá em casa. Em vão.

Aliás, Valdé tinha aparecido lá na casa de minha tia Alice em plena copa do mundo de 1970, bêbado como um gambá. Para minha vergonha. Porém, Valdé não tinha esses escrúpulos, como todo alcoólatra. Eu tinha de praticamente expulsá-lo após assistirmos o vídeo-tape do jogo do Brasil, que chegava de avião e era transmitido de madrugada pela TV ‘Ajuricaba’, recém-inaugurada em Manaus., Os jogos passavam tarde da noite. Iniciavam lá pelas 23h e varava a madrugada.

Já morando em Manaus, em quartos alugados, de bairro em bairro, eu passava os finais de semana com minha mãe e meus irmãos no quartinho onde estivessem “morando”. Primeiro, no bairro de Petrópolis; depois, na Cachoeirinha; por fim, na Praça 14.

Ainda permaneci na casa de minha tia até julho de 1972, quando completei 18 anos e o ‘Zeca Brito’ me empregou na Moto Importadora. Nesse ano, fui dispensado do Exército por ‘insuficiência física’. Suprema humilhação! O bom disso é que já podia “tirar meus documentos” e, quem sabe, conseguir algum emprego. Consegui.

A conquista de meu primeiro emprego em CTPS foi assim:

‘Zeca Brito’, policial de muitos “amigos”, me disse: - “Pegue seus documentos e vamos ali no Centro” (centro da Zona Franca de Manaus). Eu, ainda muito matuto, não atinei para o ‘quê’...

Na Rua Guilherme Moreira, entramos na loja da ‘Moto Importadora’, que pertencia à esposa do Sr. Natan, fazendeiro do ‘Careiro da Várzea’, cujo filho, Odri, era meu colega de infância, o qual, anos mais tarde, viera a falecer em desastre de automóvel, fato que deixou sua família desestruturada e que acabou vendendo tudo em Manaus e se mudando para o Rio de Janeiro, sonho de todo amazonense.

‘Zeca Brito’ foi subindo comigo as escadas da loja Moto Importadora Central até ao piso superior, como se ele já conhecesse muito bem a loja. Na verdade, a loja ficava bem próxima da ‘Delegacia Geral de Polícia’, onde ele trabalhava. Quer dizer, “dava expediente”, em suas palavras. Tava explicado.

Chegando no piso superior da loja, entramos em uma ampla sala e, para minha surpresa, encontramos o ‘gerente de pessoal’ sentado atrás de sua mesa. Ele era, para mim, um dos “irmãos Metralhas” da ETFAM. Explico: como ele era aluno ‘veterano’ da ETFAM, tinha o “direito” de bater em nós, os ‘bichos’, novatos (neófitos) da Escola. Me assustei! Perguntei para mim mesmo: - “Que diabos deu no ‘Zeca Brito’ para trazer-me aqui?

Em poucos minutos estaria tudo esclarecido. Disse o ‘Zeca’ ao ‘Metralha’:

- “Consegue um emprego aqui para este meu primo! ”. O Metralha me olhou com desprezo e me falou, entregando-me um bilhete, dizendo: - “Desça e se apresente para a gerente na loja, lá embaixo”. Ainda sem saber do desfecho daquele inusitado “passeio” ao centro da cidade, desci e fiz como o ‘Metralha’ me mandou. Me apresentei para a gerente. Uma tal de Cleide.

Esta me olhou com mais desprezo ainda e berrou comigo: - “O que você está fazendo parado na minha frente? Pegue aqueles baldes, vassouras, panos-de-chão, e vá lavar o pátio, ali atrás! “.

Pronto! Agora eu entendi! Estava empregado. Com CTPS assinada e tudo. Era “Aprendiz de serviços gerais”, vulgo office boy. Era um “faz tudo”. Um tipo de estagiário (eles sabem do que estou falando!).

Foram cinco meses de “mijadas” e de grande aprendizado sobre ‘o que era ser um empregado’. Um office boy. Um aprendiz-sei-lá-de-quê. Na verdade, aprendi de tudo um pouco. Aplicava na prática o que eu já havia aprendido na ETFA.

Foi assim que, já empregado e com minha mãe e irmãos morando em Manaus, fui “convidado” pela minha tia e pelo ‘Zeca Brito’ (agindo em causa própria), a deixar a sua casa e ir morar com minha mãe. Uma boca a menos para sustentar. Como o Chaves, minha rede, entre “mihares”, ficava embaixo da mesa de centro. Era meu “barril”.

Como a casa de minha tia já estava entupida de primos, compreendi e, a partir dali, passei a “caminhar mais ainda com minhas próprias pernas”. Peguei minha maletinha e fui...


(*)  Prof. Pinheiro é técnico em estradas; administrador; advogado; especialista em docência superior; e mestre em administração.

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. II >


< Capítulo II >

A ILUSÃO DA CIDADE GRANDE

Alzira herdara de seus pais, Guilherme e Maria, meus avós, o sítio do Careiro da Várzea, próximo à ‘Vila Velha’ do Careiro da Várzea. Era uma casa de madeira construída no estilo ‘duas águas’, coberta de zinco. Lembro do enorme barulho da chuva ao bater sobre o telhado de zinco. Havia muitas árvores ao redor da casa. Pripalmente cacaueiros e seringueiras. À frente da casa, ficava o Paraná do Careiro. O porto era feito com dois troncos presos por tábuas e amarrados com cordas à margem., como são quase todos os portos de quem não pode construir um banheiro flutuante. De qualquer maneira, esses portos sobem e descem no barranco ao sabor do fluxo das águas, nas vazantes (que oos caboclos chamam de 'sêcas') e nas enchentes.

Nas constantes ausências de nosso pai Valdé, nossa mãe Alzira tinha muito medo de dormir na nossa própria casa e, por isso, toda noite se dirigia conosco para a casa da vizinha, D. Antônia, filha dofazendeiro conhecido como ‘Severino das Canas’. A casa de d. Antônia ficava ao lado da nossa, separadas apenas pelos cacaueiros e pelas seringueiras.

Como já dito, d. Alzira tinha muito medo dos mortos enterrados no cemitério que ficava quase em frente da nossa casa. Inclusive, seus pais e nossos avós estão enterrados ali. Por isso d. Alzira se deixou iludir por Valdé – nessa época já era reconhecidamente um alcoólatra – com o sonho (ou pesadelo?) de morar na cidade grande, na capital, perto de sua irmã Alice, que desde sempre a protegeu por ser única irmã do segundo casamento de meu avô Guilherme. A tia Alice protegia nossa mãe e a nós também.

Embora Manaus tivesse nessa época em torno de pouco menos de 300 mil habitantes, para nós era uma “cidade muito grande”, comparando com a meia dúzia de “ruas” existentes na Vila Velha do Careiro. Ao contrário das casas do Careiro da Várzea, as casas de Manaus ficavam na ‘Terra firme’. Ou seja, não alagavam. Isso para nós soava como algo muito bom. Mas não sabíamos que tudo em Manaus tinha ser comprado.

Era o ano de 1962. Já éramos cinco membros na família: pai (?) e mãe; dois irmãos homens (Raimundo Nonato e Francisco Renato) e uma menina de dois anos. Jânia Maria nasceu no ano eleitoral de 1960. Ganhou esse nome 'Jânia' em homenagem ao “homem da vassourinha”, Jânio Quadros, que acabou se tornando o primeiro alcoólatra presidente da República. Este, depois de uma cachaçada, renunciou à presidência da República numa jogada errada de marketing eleitoral (achava que o povo que o elegeu não deixaria que renunciasse). Seu vice comunista, João Goulart, levou o país para o caos e para os braços dos milicos, em 1964. Portanto, chegamos a Manaus na copa de 1962, quando o Brasil saiu-se vencedor, tornando-se bi-campeão mundial de futebol, no Chile. Só se falava em Pelé e Garrincha.

Não sei por qual valor o nosso sítio do Careiro da Várzea foi vendido. Meus tios diziam para minha mãe:

- “Não venda, mas se vender vai ter de dividir o valor entre todos os irmãos”. Imagina!

Contudo, o “medo dos mortos” de minha mãe, e a vontade de Valdé de “meter a mão na bufunfa”, falaram mais alto. Venderam o sítio para o “Severino das Canas” (um dos maiores fazendeiros do Careiro da Várzea e pai de nossa vizinha, D. Antônia) e dividiram a “fortuna”.

Eu era colega de infância dos netos do SS (Severino Souza, o das canas), que eram nossos vizinhos, filhs de d. Antônia. O SS agregou o “nosso” sítio ao seu, que naquela época já era um vasto campo de gado. Um dos poucos que tinha 'maromba' (um galpão elevado de terras, coberto com zinco, ou palha), para abrigar o gado de leite nas alagações.

Meus tios, Waldemar e Alice, fizeram com que a parte da herança de minha mãe Alzira fosse empregada na compra de uma casa de madeira próxima da casa da tia Alice. E do próprio Waldemar, que movava de aluguel na mesma Vila da Rua Ramos Ferreira, esquina com a Rua Jônathas Pedroza. Era uma casa de dois pisos, localizada no “buraco da Marreca” (continuidade da Rua Jônatas Pedrosa), depressão entre as ruas de Ramos Ferreira e Ipixuna. Hoje urbanizada pelo Projeto PROSAMIN.

Na verdade, nossa “nova” casa ficava ao lado de uma grande vala por onde corriam águas servidas, esgotos e águas das chuvas, que deixavam o lugar fétido e com aspecto de cratera, extremamente insalubre e propador de verminoses, foram outras doenças. Hoje faz parte do complexo ambiental do “PROSAMIM”. Mas que continua sem tratamento dos efluentes e esgotos.

Digno de nota foi a minha irmã Jânia ter crises de vermes em razão das condiçoes do local. Não gosto nem de lembrar. Muito em razão da ignorância de como evitar e tratar as verminoses e outras doenças típicas de quem mora nesses lugares insalubres. Triste realidade do paísainda até hoje. Manaus não tem esgotos tratados até hoje.

Nessa época (anos sessenta), se cozinhavam com fogão a lenha ou carvão. Quem podia, cozinhava em fogão a gás, mas isso era um luxo para poucos. Foi para nós um misto de alegria e desconfiança quando Valdé comprou um fogão a querosene, da marca “Jacaré”. Comida com gosto de querosene é bem pior que com gosto de lenha ou carvão.

Por falar em Valdé, este, assim como fazia no Careiro da Várzea, nos abandonava também em Manaus para continuar com suas aventuras artísticas no Careiro da Várzea, no Cambixe (corruptela de Cambridge, falado pelos gringos que passavam pelo local) e arredores, longe dos olhares de reprovação de minha mãe e dos meus tios, em razão de suas bebedeiras.

Quando Valdé estava em Manaus, vivia bêbado, sujo e fedorento, alcoólatra que era.

A fim de comermos, tínhamos de comprar ‘fiado’, cujos valores eram anotados num caderninho, que Valdé um dia pagaria., quando voltasse de suas 'viagens'. Realmente pagava. E a vergonha tinha prosseguimento. Minha vergonha. Dele não. Quantas vezes tive de ouvir do taberneiro: - Chega! Não posso mais vender fiado! Mas a fome tem cara de herege. Insistia até ser atendido.

Quando sobrava algum dinheiro no bolso de Valdé, após a pinga, nos raros momentos em que este reaparecia em Manaus, ele pagava e começava tudo de novo.

Tão diferente do Careiro da Várzea, onde bastava estender a mão e apanhar as frutas das árvores, que produziam em profusão. Goiabas, mangas, graviolas, cupu-açú, etc. Tínhamos leite e seus derivados; carnes; peixes; frangos; ovos, etc. Além de caças.

Em Manaus, minha tia Alice ‘segurava as pontas’, nos oferecendo sopa todos os dias. Com pão, era nosso principal alimento.

Nossa vizinha no ‘Buraco da Marreca’ era cozinheira do ricaço do petróleo, Isaac B. Sabbá, que morava na Praça do Congresso. Essa praça ficou assim conhecida após a visita do Papa, João Paulo II, em um 'Congresso' católico.

Na enorme mansão de D. Irene Sabbá (sede do Ideal Club), eu e Arnaldo, o filho da vizinha no buraco da Marreca, apanhávamos as mangas que caiam no quintal da grande casa, e íamos vender as mangas na Avenida Eduardo Ribeiro. Dona Irene Sabbá contabilizava tudo, como boa judia que era e, ao final das vendas, ficava com a sua parte e nos dava a nossa. Isso foi para mim um grande ensinamento de como ‘se deve dar valor às coisas’, que as coisas se conquistam com esforço, e que “ninguém dá nada a ninguém”. Nada vem “de graça” nesta vida.

Arnaldo, o filho da vizinha do buraco da Marreca não era assim muito honesto, não. Gostava de “colher” bananas, uma a uma, dos cachos à venda na feira do mercado municipal Adolfo Lisboa. Para essa “colheita”, usava uma lâmina da marca Gillete. Assim ficava fácil. Ninguém percebia. Com essas bananas “pacovão”, sua mãe fazia mingaus para as famílias, a dela e a nossa. A vizinha também costumava trazer, da casa da patroa, D. Irene Sabbá, “canjas” feitas com muito arroz, gorduras e ossos. Era uma delícia para quem precisava se alimentar, “forrar o estômago”.

Não se podiam reclamar do método utilizado pelo filho da vizinha, mas isso me incomodava moralmente uma vez que eu assistia às missas e tinha aulas de catecismo na Paróquia de São José Operário. Meus escrúpulos de menino católico já estavam bastante aguçados em minha mente. Afinal, o oratório Domingos Sávio (na paóquia São José Operário), ali ao lado, era por nós frequentado todos os domingos, onde assistíamos às missas e recebíamos aulas de catecismo.

No oratório Domingos Sávio, jogávamos futebol de salão e outras brincadeiras, e onde havia uma sala de leituras aos domingos. Naquela sala tinha uma grande bíblia católica ilustrada. Foi meu primeiro contato com o “livro preto”. A Palavra de Deus!

 Aprendi a ler aos cinco/seis anos na escola chamada “dos gazeteiros”, com a professora Fany, que ficava na Rua Major Gabriel com Rua Ramos Ferreira.

Lembro que, por conta desse aprendizado rápido, fui escolhido para prestar exame oral frente aos fiscais do MEC (ou da Secretaria de Educação). Não é de hoje que as escolas se aproveitam de seus bons alunos para demonstrar o nível do ensino que praticam! Na época não entendi bem porque fora escolhido para prestar essa prova oral. Na verdade, lembro vagamente do método utilizado: juntar as sílabas, formando os sons das palavras, os fonemas. Minha memória herdada de Valdé já se fazia presente. Aprendi a ler de maneira tão “natural” que não lembro de como foi que aprendi. É como se já tivesse nascido sabendo ler.

Contudo, isso era o máximo de alfabetização que havia adquirido até os meus doze anos, o que para mim já era o bastante, pois assim podia ler os gibis do Oratório Domingos Sávio. Não só, mas também outros livros. Como já dito, até a Bíblia.

A casa onde morávamos no ‘Buraco da Marreca’ foi perdendo as condições de moradia, pois as palhas da cobertura se deterioraram e chovia ‘mais dentro do que fora’. As paredes da parte inferior foram sendo “canibalizadas” para consertar as paredes da parte superior. A casa já parecia uma garça de uma perna só.

Porém, Valdé deu um jeito na situação: vendeu a casa com a gente dentro. Vendeu em duas parcelas. Creio que numa espécie de separação de bens sem divórcio que fez com minha mãe, sem ela saber, claro. Vendeu a “casa” para a família de um conhecido do Careiro da Várzea. Não lembro o nome.

A parte da venda da casa que Valdé considerou como ‘sendo dele’, ele a “bebeu” toda de cachaça com os amigos e as quengas. A outra parte, que supostamente pertencia à minha mãe, nós a “comemos” parceladamente. Não lembro se em seis ou doze parcelas. Ficamos sabendo da venda pelo próprio comprador, que se meteu na casa com sua família, dizendo que tinha comprado a casa.

Passamos a morar juntos, nós e a família que comprou a casa de Valdé. Pelo menos a nova família ‘socialista’ mandou cobrir a casa com palhas novas. Portanto, já não chovia dentro. Ao final de certo tempo, fomos “convidados” a sair da casa, pois já havíamos “comido” toda a nossa parte do pagamento da casa.

Valdé, contudo, 'boa alma' que era, conseguiu emprestar um quarto em uma casa, também ‘socializada’, para nós morarmos, com outra família, lá pelas matas do Japiim, onde Manaus terminava, e que hoje é o bairro do Japiim.

Valdé, acho eu, era “socialista”. O que vocês acham?

Minha mãe, contudo, lembrou-se que tinha um conhecido fazendeiro do Careiro da Várzea, que era irmão de meu padrinho Oscar Leite. Chamava-se Adalto Leite. Alzira foi lá em sua bela casa na rua de Ramos Ferreira, próxima ao Clube Sociedade Portuguesa, e pediu ‘com fé’ para que o Sr. Adalto deixasse irmos morar como caseiros em sua fazenda, localizada no Paraná do Cambixe. O Sr. Adalto soube das peripécias de Valdé, que era seu conhecido das cantorias e sabe-se lá mais o quê. Quem não conhecia Valdé? Se autodenominava o ‘Estrela do Norte’, seu nome artístico...

Assim, após quatro anos de ilusão na cidade grande, retornamos de onde nunca devíamos ter saído: o Careiro da Várzea. O Cambixe. Um paraná que tem início no paraná do Careiro, próximo à Vila Velha, Sede do hoje município do Careiro da Várzea, e termina no mesmo paraná do Careiro, a 150 km rio abaixo.

Era 1964, eu estava com dez anos. Essa época no Brasil era o final da Bossa Nova e início da Jovem Guarda. Portanto, no melhor dos “anos dourados”, eu estava novamente me embrenhando na várzea. Sem rádio. Ouvia apenas o canto dos bichos, nas matas, nos rios e lagos. ‘Raízes Caboclas’, me socorram!

No Cambixe, nossa rotina, minha e de meu irmão Renato, era tocar gado para o curral; tirar leite na madrugada; fazer coalhada e queijo; nadar e pescar nos rios e lagos; correr de cavalo como cowboy. Era uma vida maravilhosa, lúdica, extremamente prazerosa, farta. Como já dito, havia muita fruta, peixes, carnes, ovos, galinhas. Passei dois anos e meio dessa forma lúdica. Até tentei estudar na ‘Escola Coronel Fiúza’, na ‘Vila Velha” do Careiro da Várzea, mas o ensino não me agradava e preferia correr de cavalo e fazer outras peripécias. Por exemplo, pegar o barco José Mitonho e ir procurar o Valdé no “baixo do Cambixe”, na fazenda de meu padrinho Oscar Leite e de minha madrinha Ana Leite. Sempre fui recebido por eles com muita alegria e satisfação. Essa coisa de “padrinho” e “madrinha” funcionava bem nessa época.

Na seca, essa parte do Cambixe onde ficava a fazenda de meu padrinho Oscar Leite (baixo Cambixe) era tomada por uma tapagem de vegetação típica da várzea, que mal permitia se locomoverem por canoa. Meu padrinho Oscar Leite, todos os dias nos quais eu ficva na sua fazenda, me levava com ele visitar sua irmão, a Preta do Leite, que ra casada com o Sr. Beca Canafé. Há muitas histórias e lendas sobre a ‘Preta do Leite’. Porque ela falava muito. Aliás, essa é uma característica do interiorano, onde as notícias e ideias se transmitiam oralmente.

Na fazenda do Sr. Beca Queiroz, ficava uma fábrica de queijo, onde se faziam queijos 'coalho' e queijos 'manteiga' (o meu preferido!) EU aproveitava para coletar os restos de queijo que sobravam no tacho onde se cozinhavam a coalhada até virar queijo. Eram as chamadas 'raspas', que rendiam mais de um quilo de queijo. Aprendi em Manaus que não se devem desperdiçar nada.

O Valdé sempre aparecia por lá pelo baixo Cambixe. Algumas vezes, por sorte, o encontrava. Como sempre, bêbado. Ele tinha orgulho de mim e eu vergonha dele.

Uma das garatas lembranças que guardo desses momentos que passava na fazenda do padrinho Oscar Leite foi a minha façanha de ter domado um potro branco, que nominei de 'Trancelim' (em alusão a um tipo de cordão de ouro extremamente fino). Comecei acariciando-lhes as crinas quando o mesmo se encostava à cerca. Depois fui aos poucos montando nele próximo à cerca. Até que finalmente ele permitiu que eu omontasse livremente, aceitou os arreios e galopava com o vento na cara. Me achei um verdadeiro cowboy.

Porém, ao fim de um certo tempo, eu voltava para o alto Cambixe, onde éramos caseiros do Sr. Adalto Leite.

 Morei com minha mãe e meus irmãos no Cambixe até que a saudade de Manaus, e das coisas que existiam lá, com as quais havia me acostumado, “falaram mais alto”. Tinha saudade de coisas como o cinema das segundas-feiras à noite no Oratório Domingos Sávio; tinha saudades dos gibis; das músicas no rádio... Televisão somente chegou em Manaus por volta de 1969-70. Em preto e branco.

Foi assim que decidi, por conta própria, que “iria morar com minha tia Alice”, em Manaus. “Para estudar” - dizia eu para minha mãe e para minha tia Alice. Minha mãe dizia: - “Teu pai vai de matar! ”. Dizia eu, com muita certeza: - “Mata nada! ”. E assim é que, em dezembro de 1966, eu peguei “minhas trouxas”, literalmente, e algumas frutas para levar como ‘agrado’ para minha tia, e fui morar com ela. Com ela e mais uma dezena de outras pessoas, primos e primas. Afinal, tinha aprendido o que era “socialismo” com o Valdé...

Minha mala, era um saco; o cadeado, era um nó. Como na música de Gonzagão.


 (*) Prof. Pinheiro é técnico em estradas; administrador; advogado; mestre em administração, e especialista em docência superior