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23 setembro 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (IX)

 

< Capítulo IX >


A ‘VOLTA POR CIMA’ NO INCRA

  

Em 1990, para surpresa geral, fui designado para o cargo de ‘Superintendente do INCRA’! Daquele mesmo órgão público do qual fui defenestrado por perseguição política (por isso sou anistiado político, mas, atenção! NÃO RECEBO "BOLSA-DITADURA", mas que seria justo seria). Como já relatado, fui transferido manu militari (literalmente) de Manaus, onde estudava matemática na UA (hoje UFAM) e estava me preparando para casar, etc., para Tabatinga, na tríplice fronteira com a Colômbia e o Peru. Neste momento me vem um nó na garganta só de lembrar desse episódio tão sombrio na minha vida. Mas superei. Poderia ter sido bem pior se tivesse sido demitido do INCRA em Manaus.

A coisa, isto é, a nomeação para superintendente do INCRA, aconteceu assim:

Em 1989, houve a primeira eleição para Presidente da República (PR). Após uma disputa acirrada entre ‘Collor de Melo’ e ‘Lula’ (um eterno candidato a PR), com escaramuças de lado a lado, nem sempre ‘republicanas’, Collor sagrou-se vencedor. Quer dizer, o stablishiment o escolheu. Até então, ainda se utilizavam urnas de lona e votos em papel. Era um processo moroso na contagem dos votos, mas era transparente, porque um ato público, como manda a CF. Hoje ninguém sabe se os eleitos o foram realmente. Apesar das juras de amor às urnas eletrônicas. Um povo analfabeto digital não sabe o que acontece nas linhas de um programa (software). Como já dito em outro capítulo, desde 1982 eu participei das eleições como fiscal/delegado do PTB, meu primeiro e único partido. Outro caso de amor.

Nesses atos eleitorais, principalmente os da apuração dos votos, sempre primei pela correção, tanto nas fiscalizações da votação quanto nas apurações dos votos.

Nessa época, como estudante de Direito e secretário geral do PTB, eu ajudava os juízes eleitorais a ‘apaziguarem os ânimos’ dos diversos candidatos e seus fiscais, dentro das regras existentes. Geralmente, as confusões se davam quando das interpretações acerca da 'vontade do eleitor' ao o mesmo grafar nas cédulas de papel nomes errados, rasurados, números sem correspondência com o partido ou o nome do candidato, etc.

Nessa época, como eu era 'delegado da Agricultura', me tornei amigo do senador Bernardo Cabral (eleito em 1.986). Por isso, acompanhei de perto a sua relatoria da Constituição Federal. Observei as inúmeras negociações que ele fazia entre os atores das diversas subcomissões. Bernardo era, como já dito, era o Relator-geral da Constituição. Como estudante de Direito foi uma experiência muito rica para mim acompanhar o seu trabalho.

Como resultado de suas habilidades políticas, como grande negociador e conhecedor da CF/88, Bernardo foi o primeiro ministro - e logo o da Justiça! - a ser anunciado por Collor, passando assim o mesmo a ter um grande protagonismo nas nomeações dos demais ministros.

Na oportunidade do anúncio do nome de Bernardo como ‘ministro da Justiça’, eu me encontrava de férias em Teresópolis (RJ) juntamente com uma amiga comum, a Nilza. Ligamos ao Bernardo para lhe dar os parabéns, com o 'Diário de Teresópolis' nas mãos. Foi quando ele agradeceu e perguntou: - “Onde vocês estão?" Respondemos que estávamos em Teresópolis e ele retrucou: - “Venham para Brasília agora! ”. Obedecemos e decemos da serra, e pegamos um voo para Brasília.

 Nos hospedamos no Hotel Itamarati, hoje Econ Hotel.

 Aguardamos o contato dele.

 Quando Bernardo apareceu no Hotel com aquele aparato estatal de segurança, ninguém no Hotel entendeu nada...

Após uma breve conversa, o Bernardo perguntou a mim: - “O que você quer? ”, referindo-se a cargo no governo federal.  Disse a ele que estava feliz no MINAGRI, que não queria outro cargo. A Nilza retrucou- “Ele quer ir para o INCRA! ”.

 Nunca tinha falado com ela sobre isso. O Bernardo então nos disse: - “Está resolvido! Você vai para o INCRA. Mande seu currículo! ”.

Isso foi para mim uma coisa inusitada! Incrível! Se eu tivesse planejado isso não teria dado certo. Matutei:  Como seria isso de eu dar a volta por cima e me tornar Superintendente do INCRA?

Assim, deixei o MINAGRI, em abril de 1990, para assumir o INCRA.

Portanto, contra a vontade de muita gente poderosa, assumi o cargo máximo do meu antigo amor platônico - e desafeto: o INCRA “velho de guerra”.

 Nem precisa repetir que isso para mim foi um retorno “glorioso”, uma “volta por cima”!

Como muitos sabem, as circunstâncias me forçaram a deixar o INCRA em 1980 para poder estudar. E assim ingressei no Instituto de Terras do Amazonas (ITERAM). Portanto, se passaram dez anos entre um evento e outro.

Agora, não era mais ‘topógrafo’ (nem ‘fotógrafo’, rá-rá-rá!), mas Superintendente do INCRA! Um salto e tanto!

 Meus antigos colegas não entenderam nada!

 Alguns se alegraram comigo; outros me olhavam com um misto de desconfiança e pasmo. E até desprezo. Talvez por ciúmes. Ou inveja, vá saber...

 Uns diziam que eu iria “me vingar”; “trocar todo mundo”. Outros diziam que eu “não teria força política para trocar ninguém! ”. Todo mundo ali tinha “padrinhos”. Etc.

Não atendi às expectativas de nenhum dos grupos antagônicos: troquei quem eu achava que devia ser trocado; e deixei quem eu achei que devia permanecer nas funções. Na paz! Na paz! Com transparência e lealdade. Não pelo Diário Oficial, mas antes disso face a face.

Fique ouco tempo no cargo em razão dos resultados das eleições estaduais daquele ano, que foi contrária a Collor em muitos Estados, inclusive no Amazonas, elegendo Mestrinho novamente. Foi a volta do 'Boto Navegador'.

O presidente do INCRA tentou me envolver nas disputas e me mandou “fazer um relatório detalhado sobre a Reforma Agrária no Amazonas”. Imaginei o resultado disso.

Consultei o Ministro Bernardo, que me disse, claro: - “Faça! ”.

Consultei meu antigo chefe no ITERAM, Bernardes Lindoso, que era Diretor de Colonização do INCRA, e ele me disse: “- Faça! E não se esqueça de relatar tais e tais Projetos" (eivados de vícios! - "Mas não entregue o Relatório em mãos. Dê entrada no Protocolo do INCRA”, me disse o Bernardo.

Foi a minha salvação! Esse Relatório foi “nitroglicerina pura" do ponto de vista político, pois atingiria muita 'gente boa' ".

O presidente do INCRA teve de abrir Inquérito para apurar as denúncias, e o MPF abriu vários processos na Justiça Federal para apurar os fatos ali relatados.

Para se ter ideia do que continha o Relatório, passo a enumerar algumas das irregularidades por mim detectadas nos levantamentos de campo que eu mesmo fiz:

1.                   Desapropriações de terras superavaliadas e/ou inadequadas para agricultura;

2.                   Desapropriações de terras imprestáveis para agricultura e ocupadas por público não elegível para assentamentos, como ‘comerciantes’ e outros ‘profissionais liberais’;

3.                   Construção de aeroporto sem utilização, no Apuí;

4.                   Demarcação de terras improdutivas, o que resultava em suas recusas/desistências  de ocupação;

5.                   Ocupação de terras produtivas e não demarcadas, e vice-versa;

6.                   Construções de equipamentos públicos como ‘postos médicos’ e ‘escolas’ em áreas demarcadas, mas desocupadas, etc. E falta dos mesmo nas ocupaçoes de fato.

Portanto, foram milhões de dinheiros públicos “jogados no lixo”, por má administração e/ou por interesses escusos.

Por essas denúncias, ganhei a admiração de uns e a inimizade de outros tantos.

Contudo, nessa minha breve passagem pelo INCRA como superintendente, resolvi dois casos emblemáticos:

1. o caso da ‘Raymond-Fazendas Unidas’, ao encerrar os processos administrativos mandando pagar as ‘benfeitorias’ em dinheiro; e a ‘terra nua’, em Títulos da Dívida Agrária (TDAs), como mandava a Lei; e

2. o caso da “quase desapropriação” de uma vasta área de terras entre os km 50 a 60 da rodovia ‘Manoel Urbano’ (AM-070: Manaus-Manacapuru), a qual pertencia a um polonês de nome Zigmund. Fiz isso a pedido do então ministro do Meio Ambiente Ratzemberg, e pela justeza do pedido. Trtatava-se de uma área registrada em cartório como Reserva Ecológica particular, que servia de base para Hotéis de Selva e locações cinematográficas.

A área seria desapropriada para assentamento predatório ao meio ambiente, sem nenhuma garantia de produção.

Portanto, a área era uma enorme APA (Área de Proteção Ambiental) particular, com cerca de dez quilômetros pela rodovia (no sentido Norte-Sul), margeando o Rio Negro, de um lado (a Oeste); e margeando o Rio Amazonas, de outro lado (a Leste).

Repetindo, era uma Área de Proteção privada, onde funcionava um hotel de selva, às margens do Paraná do Miriti (que faz divisa entre os municípios de Iranduba e Manacapuru), área essa registrada em cartório como APA.

Para o desenrolar do imbróglio, fiz um acordo entre as partes: entre o proprietário Zigmund e os ‘invasores’ das margens da Rodovia. O proprietário Zigmund reconheceria as posses (com a assistência da FETAGRI – Federação da Agricultura); e os invasores garantiriam a proteção contra novas invasões, mantendo assim o restante da área preservada. Assim foi feito. Está lá até hoje como monumento dessa minha ação, da qual me orgulho muito. Minha 'boa consciência' ficou intacta...

No entanto, com a substituição de Bernardo Cabral no Ministério da Justiça, perdi as condições políticas de permanecer no INCRA como superintendente. Fui exonerado no final de 1990. Assim é a vida política...

Contudo, em 1991, por indicação do senador Carlos Alberto De Carli, fui conduzido para ocupar a ‘Delegacia Federal’ do ‘Ministério dos Transportes e das Comunicações’ (MTC). Isso coincidiu com o processo político de ‘impeachment’ do presidente Collor, também por perda das condições políticas no Congresso Nacional e engajamento da esquerda, com Lula à frente. Sempre ele!

Devo, neste ponto, dar o meu testemunho acerca da correção com que os senadores Cabral e De Carli sempre se portaram para comigo, nunca pedindo ou sugerindo qualquer ato não-republicano da minha parte, se é que me entendem. Por isso, estou com a minha consciência tranquila.

Como ‘Delegado Federal’ do MTC, pouco pude fazer em razão do clima político do tipo “barata voa” reinante em Brasília nesse período, pois só se falava do ‘impeachment’. Assim, resolvi me dedicar aos estudos e concluir o curso de ‘Direito’, o que consegui em julho de 1992. Logo em seguida, passei no exame da ‘Ordem dos Advogados do Brasil’ (OAB-AM). Mais uma vitória para mim, um ‘ex-matuto’ do ‘Careiro da Várzea’: tornei-me advogado!

O senador De Carli foi o meu primeiro cliente como advogado. Assumi um imbróglio que se arrastava há anos no Tribunal de Justiça do Amazonas acerca dos casos ‘Raymond-Fazendas Unidas’ (aquele mesmo que já havia resolvido administrativamente, como superintendente do INCRA, em 1990).

Por conta de minha atuação nesse processo criminal da ‘Raymond-Fazendas Unidas’, conseguindo o arquivamento dos mesmos por prescrição, fiquei ‘famoso’ dentro do TJA, tendo tido a minha indicação informal de vários desembargadores para que eu assumisse casos criminais difíceis. Infelizmente para mim não segui essa especialização por puro preconceito de minha parte. Advogados criminalistas não se encontram facilmente...

Após minha formatura em ‘Direito’, passei a advogar e continuei como professor do CIESA - a primeira faculdade particular do Amazonas -, pertencente a um salesiano, Orígenes Martins. Havia me tornado professor dessa nascente Instituição de Ensino Superior (IES) desde 1990 como professor de ‘administração em Comércio Exterior’, levado pelo meu amigo e colega de “Jaqueira” Alberto Bezerra, que viria a tornar-se ‘Procurador do Estado’ e também meu colega de UFAM, do Departamento acadêmico de Administração. Hoje é juiz do 11o. TRT.

Após decorridos cinco anos de CIESA, em 1994, passei em concurso para ‘professor de administração’ da UFAM, abandonando assim os cargos comissionados que, embora prestigiosos, não dava tranquilidade financeira, porque instáveis.

Antes disso, nesse mesmo ano de 1994, ingressei com pedido de ‘anistia política’ com base no art. 8º, parágrafo 1º, dos ADCTs da CF/88, e logrei êxito. Fui reintegrado ao INCRA como Topógrafo. Portanto, sou anistiado político desde então, em razão daquela minha transferência ‘manu militari’ para Tabatinga, em julho de 1977. Minha “vingança” se completou com essa ação. Sim, o INCRA mantém minha foto no rol dos seus ‘ex-superintendentes’, para meu orgulho. Obrigado, de coração, a todos os meus ex-colegas de INCRA!

Mas tive de novamente optar, em 1994, entre o INCRA e a UFAM. Optei pela UFAM, claro. Meu caso de amor platônico com o INCRA se encerrou. Dei a volta por cima. Foi o bastante! Seguiria agora meu novo amor: a academia de administração da UFAM.

Dei início assim ao meu próximo ‘caso de amor’: a Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

03 setembro 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) (Cap. VIII)

 

< Capítulo VIII >

DELEGADO DA AGRICULTURA


Como já relatado, iniciei minha “vida política” ao ingressar no PTB, em 1.986, a convite do meu professor de Direito Comercial, Dr. Plínio Ramos Coelho, ex-governador do Amazonas no período entre 1955-60. Dr. Plínio foi o responsável pelo fim da oligarquia Rego Menteiro.

Nessa função de secretário-geral do PTB no Amazonas, aproveitei para estudar bem o trabalhismo no Amazonas, no Brasil e no mundo. Isso incluiu a ‘história do sindicalismo’ e o ‘Marxismo’. Esses estudos, mais tarde, me foram extremamente úteis como professor da disciplina ‘Relações Sindicais’, na Faculdade de Estudos Sociais da UFAM. Aliado ao fato de ter sido sindicalista do Sindicato dos Professores da UFAM (ADUA – Associação dos Docentes da UA), onde fui primeiro tesoureiro (em 2.012). Mas isso é matéria para outra crônica.

Como secretário-geral do PTB, a partir de 1.986, participei ativamente das eleições municipais de Manaus e das eleições estaduais daí em diante.

Nas eleições municipais de Manaus, em 1.988, nós elegemos o ‘primeiro vereador’ do PTB após o ‘retorno à democracia’ - justamente o meu amigo Dr. Johnny De Carli, que havia deixado o Ministério da Agricultura (MINAGRI), onde era o ‘Delegado Federal’. Bom agrônomo e bom político, estava fazendo um bom trabalho de renovação no MINAGRI. Seu trabalho foi recompensado.

Novamente, dois anos antes, em 1.986, como secretário-geral do PTB, tive a sorte de receber como membro do partido a figura do senador ‘Carlos Alberto De Carli’, tio do vereador eleito, Johnny De Carli. O senador ‘Carlos Alberto De Carli’, como Presidente Regional do PTB, me encarregou de estruturar o Partido em todo o Estado do Amazonas. Eu já havia conhecido todo o Estado como ‘topógrafo/cartógrafo’ do INCRA e do ITERAM. Agora o faria novamente como ‘secretário-geral’ do PTB.

 Assim é que, até por ser o ‘secretário-geral’ do PTB, fui, surpreendentemente, nomeado como ‘delegado federal’ do Ministério da Agricultura (MINAGRI), por indicação do Dr. Johnny e agora vereador eleito do PTB de Manaus, e do senador ‘De Carli’, como senador da República. Para mim isso foi realmente algo inesperado. Quem leu os primeiros capítulos desta auto-biografia sabe que assim foi.

Nunca imaginei e nem planejei tal desfecho em minha vida. Mas, como em todas as oportunidades que tive, aproveitei a chance de crescer mais ainda profissionalmente. Passei a estudar a agropecuária do Estado do Amazonas e do Brasil, a fim de compreender bem minha alta função e demonstrar que tinha ‘competência técnica’ para isso. Um bom administrador administra desde um ‘carrinho de pipoca’ a uma nação. José do Egito me veio novamente à lembrança, mas sem querer me comparar com esse fantástico personagem bíblico que, de escravo, veio a administrar todo o Egito. Deus no comando.

Por conta dessa função de ‘Delegado Federal’ do MINAGRI, passei a transitar com mais desenvoltura nas lides políticas do Estado, mantendo bom relacionamento com as bancadas municipal, estadual e federal. Isso não tem preço em termos de conhecimento e prestígio. Claro que cuidados se tem de ter nessa área.

Assim é que, como ‘delegado federal’ do MINAGRI no Amazonas, tive de estudar as questões técnico-jurídicas que faziam parte das competências exigidas nessa função, pois representava o Ministro de Estado perante as autoridades municipais e estaduais do Amazonas. Falava em nome do Ministro e o representava, inclusive, no Conselho de Administração da SUFRAMA (CAS) - quando o ministro não podia comparecer às reuniões. Isso me dava também uma projeção Regional no Norte uma vez que os ‘governadores’ dos estados do Norte tinham - e ainda têm -, assento no CAS.

Para se ter uma ideia da importância do MINAGRI, este era - e ainda é -, o responsável pela ‘fiscalização’ das atividades agropecuárias, tais como:

1.       - Abatedouros (Serviço de Inspeção Federal - SIF);

2.       - Autorização / fiscalização de funcionamento de estabelecimentos que ‘processam’ e ‘vendem’ produtos de origem ‘vegetal’ e ‘animal’;

3.       - Compravendatransportearmazenamento - estocagem, de produtos de origem animal e/ou vegetal;

  1. - Processamento e venda de bebidas;
  2. - Fomento da produção, e o controle, de ‘sementes’ e ‘mudas’;
  3. - Alvará de permissão de ‘transporte de animais vivos’ entre Estados e Municípios, ou para o exterior;
  4. - ‘Eximport’ de peixes ornamentais, dentre outras atividades.

Como delegado do MINAGRI também participava das Feiras Agropecuárias e fazia o ‘controle sanitário’ e ‘vacinação’ dos animais em exposições e fiscalizava as ‘vacinações’ contra doenças animais, etc.

Essas competências exigiram de mim o conhecimento dos normativos de cada setor. Mas isso me possibilitou expandir meus conhecimentos.

Infelizmente, o setor agropecuário deixou de receber a atenção das autoridades estaduais. O Amazonas, durante todo o período da Zona Franca de Manaus (ZFM) ficou dependente desse modelo de desenvolvimento, como se o mesmo fosse perene, o que não é. Tanto que, nesses últimos 50 anos, a ZFM viveu aos sobressaltos em razão de decisões burocráticas do Ministério da Economia. Bernardo Cabral até tentou blindar a ZFM inscrevendo-a nos Atos das Disposições Constitucionais Transitóérias (ADCTs), que, como o próprio título propõe, são ‘atos transitório’. Assim é que a ZFM viveu esses anos todos sob a falsa ideia de ‘constitucionalização’.

Aliás, se há uma crítica a se fazer sobre a nossa Carta Constitucional é a tendência dos “constituintes” de constitucionalizar grande parte das questões nacionais.

O Amazonas é um Estado rico, mas dependente de um Modelo exótico, de montagem de produtos cujos componentes e partes vêm importados ou de São Paulo, ou importados do exterior.

O Modelo da ZFM passou por três fases (de conformidade com o Modelo Brasileiro de Substituição de Importações): 1) o de compras, de 1967 até 1975; 2) o de montagens, de 1676 a 1990; 3) o de livre importação no país a partir de 1.990, tirando da ZFM a sua exclusividade nas importações. Isso foi o fim do Modelo Brasileiro de Substituição de Importações, o que demonstra toda a nossa fragilidade. Isso foi feito no governo Collor com a justificada crítica de que este modelo engessara a indústria nacional e a tornara sucateada pela proteção tarifária. A ZFM era uma exceção, portanto, do restante do país. Portanto, faltou aos dirigentes estaduais ‘visão estratégica’ ao não prepararem o Estado para a eventual extinção do Modelo ZFM. Ainda hoje se estão tentando articular o funcionamento do Centro de Biotecnologia do Amazonas (CBA).

Como ‘Delegado da Agricultura’ no Estado, fui muitas vezes alvo de chacotas por parte dos ‘zona-franquistas’. Diziam: - “Lá vem o representante do setor ‘primitivo’! “. Ora, isso não era fruto do MINAGRI, mas do descaso das autoridades estaduais para com o interior do Estado, que foi esvaziado em razão do “sonho de cidade grande” que tomou conta dos nossos interioranos, que abandonaram o interior para virem morar em Manaus em condições sub-humanas. O Amazonas é um grande vazio demográfico em seu interior, com menos de um habitante por quilômetro quadrado. Enquanto que Manaus é uma cidade-estado, com mais da metade dos habitantes do Amazonas.

No entanto, paradoxalmente, o Amazonas é um Estado de imenso potencial econômico em razão dos seus minérios; de sua fauna e flora (biota); de sua hidrologia; etc.

Contudo, sem os fatores econômicos de produção: 1) capital (investidores interessados em investir no interior do Amazonas); 2) mão-de-obra (qualificada para lidar com a terra, com os recursos florestais, agrícolas e hídricos); e 3) infraestrutura (energia, transporte, incentivos fiscais, etc.), estaremos fadados a sermos, para o Brasil, o primitivismo. É lamentável!

Isso hoje está cobrando o seu “preço”...

Permaneci dois anos nessa função de Delegado da Agricultura, de 1988 a 1990. E continuava estudando ‘Direito’...

Em 1990, fui guindado a Superintendente do INCRA, mas isso fica para o próximo capítulo. 

01 setembro 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro. (Cap. VII)

 

< Capítulo VII >

ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

Iniciei, em maio de 1.985, minha caminhada como administrador na Fundação Centro de Apoio ao Distrito Agropecuário (FUCADA), Fundação Pública vinculada à Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA).

O exercício dessa função superior por mim na FUCADA foi a prova da assertividade com a qual tanto havia perseguido estudar, nos cinco anos anteriores.

O INCRA (na verdade, seus dirigentes) não entendiam dessa forma. Já os dirigentes do Instituto de Terras do Amazonas (ITERAM), sim. Principalmente o seu Diretor Técnico Isaías. Por isso que serei eternamente grato. Estou falando de dirigentes como Bernardes Lindoso (seu primeiro Presidente); de Isaías, seu Diretor Técnico; e de tantos outros colegas, que deram total apoio. Confiança se conquista.

Administração se tornara para mim a grande nova paixão de minha vida profissional! Tem um ditado que diz que uma paixão antiga somente se esquece por meio de uma nova paixão. Assim foi o que aconteceu comigo em relação à ‘topografia’ (que já tinha evoluído para ‘cartografia’). E à matemática.

Esse desenlaqce teve início ainda em Tabatinga, onde fui topógrafo (proscrito, é bem verdade) e chefe do setor. Essa chefia me “obrigou” a exercer atividades burocráticas.

Como sempre gostei de saber o 'porquê das coisas, me interessei pela administração como disciplina científica. Comecei a estudar ‘administração’ por conta própria. Assim é que fui “inoculado” por essa nova paixão. Contudo, guardei no meu coração a gratidão a Deus pelo que havia me proporcionado o exercício da ‘topografia’/’cartografia’. Matemática não se esquece. Sempre a pratiquei em apoio àquelas disciplinas outras.

Agora como ‘administrador’, minha nova paixão, tive meu primeiro desafio: elaborar o Regimento Interno (RI) e o 'Plano de Carreiras e Salários (PCCS)' da FUCADA. Esse desafio me serviu também de “laboratório” como administrador. E foi para mim motivo de muito orgulho! O Conselho de Administração da SUFRAMA aprovou sob aplausos.

Dada minha origem humilde de ‘matuto’ do ‘Careiro da Várzea’, esse fato foi para mim o cumprimento de um sonho, que julgava quase impossível. Para minha sorte e júbilo, as ‘peças técnicas’ por mim produzidas na FUCADA, quais sejam, o ‘Organograma’ e o ‘Regimento’, bem como o ‘PCCS’, apresentados para aprovação no Conselho de Administração (CAS) da SUFRMA, foram bastante elogiados e aprovados à unanimidade, para minha satisfação e do Diretor Johnny de Carli. Tanto que o meu colega administrador, Sérgio Kusbick, se referiu a esse evento como tendo sido uma verdadeira ‘rasgação de seda’...

Contudo, não me dei por satisfeito em atuar como administrador, essa profissão de tanto prestígio profissional!

Como já mencionei em outro capítulo, em 1985 prestei novo vestibular para ‘Direito Noturno’ e obtive sucesso. Assim, passei a perseguir essa outra nova profissão de enorme prestígio no mundo acadêmico e social. Pena que hoje esteja tão vilipendiada. Como professor de Direito Constitucional; Direito Administrativo; Direito Tributário; Direito municipal, etc., estou perplexo com as recentes decisões da nossa mais alta corte.

Iniciei o primeiro semestre de estudos do curso de Direito nesse mesmo ano de 1985, já trabalhando como administrador da FUCADA.

Assim, cumpri o primeiro período de Direito, o período básico, no primeiro semestre de 1.985.

Como administrador já formado, aproveitei no curso de Direito sessenta créditos cumpridos no curso de ‘Administração’ no curso de ‘Direito’. Portanto, tive de cursar apenas ‘cento e vinte créditos’ no curso de ‘Direito’, o que me facilitou bastante, mas, por outro lado, deixei de cursar várias disciplinas que me fizeram falta mais tarde e que acabei tendo de estudar como autodidata.

Este ‘ex-matuto’ não tinha noção, mas estava quebrando vários tabus sociais ao ascender para um seleto grupo de profissionais de grande prestígio: a advocacia. Para isso, no entanto, tive de enfrentar problemas de ordem logística que não tornava nada fácil essa tarefa. Como a sede da FUCADA – uma fazenda-modelo que, depois de estruturada, seria entregue para a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) – ficava no km 38 da BR-174, no início da área pertencente à SUFRAMA, no Distrito Agropecuário, isso me obrigava a, todo dia, ir de Manaus para a Fazenda, e vice-versa, a fim de poder estudar na Faculdade de Direito.

Nesse tempo, a BR-174 não era asfaltada, o que tornava a viagem de grande dificuldade em razão dos atoleiros causados pelas intensas chuvas, típicas da Região Amazônica. Entre dezembro a junho de cada ano, as chuvas de monção acontecem na Região. Dois colegas já haviam morrido nesse trecho da rodovia por conta disso. Bateram com seu carro de frente com um caminhão-tanque que estava estacionado à margem da estrada. Morreram um advogado e um agrônomo, deixando duas famílias enlutadas. O advogado era marido de uma Assistente Social da SUFRAMA muito querida.

Vendo esse meu novo sacrifício para estudar, o Diretor Executivo da FUCADA, Johnny De Carli, me mandou trabalhar, a partir do primeiro semestre de 1.986, na sede da SUFRAMA, no Distrito Industrial (DI), onde a FUCADA tinha um escritório de representação. Assim, minha vida de estudante de Direito foi facilitada. Ao que agradeço penhoradamente a Deus e ao Johnny, meu querido amigo.

Para garantir minha permanência na sede da SUFRAMA, o Dr. Johnny me incentivou a disputar as eleições para vice-presidente da ‘Associação dos Servidores da SUFRAMA’ (ASFRAMA), da qual faziam parte, além dos servidores da SUFRAMA, os da FUCAPI e da FUCADA. A FUCAPI era a ‘Fundação de Apoio ao Distrito Industrial’, da SUFRAMA. Obtive sucesso nessa empreitada graças à participação maciça dos servidores da FUCADA naquela eleição - a única função eleitoral da qual participei em toda a minha vida! Portanto, por essa 'manobra,' fiquei agora trabalhando na SUFRAMA como administrador e vice-presidente da ASFRAMA, até 1.988.

Em 1986, como Secretário Geral do PTB, função que assumi por convite do meu professor de ‘Direito Comercial’ e ex-governador, Dr. Plínio Ramos Coelho, de saudosa memória, e também por incentivo do Dr. Johnny De Carli, participei, naquele ano, como ‘coordenador’ das ‘fiscalizações das eleições’ para governador, senador, deputados federais e estaduais.

A atuação política era para mim um desafio desde 1.982 Naquele ano meio que 'empurrado'. Desta vez, não. Fiz de maneira voluntária e capacitada como administrador e aluno de Direito.

Essa empreitada valeu para mim como ‘porta de entrada’ para outras atividades de grande prestígio social, como é sabido por todos: a ocupação de cargos ‘comissionados’ no governo federal. Assim é que, dois anos mais tarde, em 1.988, haveria as eleições municipais, as quais mudariam minha vida profissional. O Dr. Johnny De Carli, que fora guindado à função política de ‘Delegado Federal’ do Ministério da Agricultura (MINAGRI), resolveu participar como candidato a ‘vereador’ de Manaus pelo PTB. Dada sua habilidade política, obteve improvável êxito!

Isso me abriu a oportunidade de substituí-lo no MINAGRI como ‘Delegado Federal’. Assim foi que me tornei ‘Delegado Federal’ da Agricultura em seu lugar. Mérito técnico e político meus. E generosidade do Johnny.

No próximo capítulo falarei mais sobre essas atividades comissionadas de grande prestígio político.

(*) Prof. Pinheiro. Téc. em Estradas; Administrador; advogado; especialista em docência superior; e mestre em administração.


30 agosto 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro < Cap. VI >

 

< Capítulo VI >

O REGRESSO

 

Meu retorno de Tabatinga para o INCRA de Manaus, em agosto de 1.979, foi para mim uma dupla vitória: calei a boca das ‘Cassandras’, que diziam que eu “iria regredir” em Tabatinga (o que era bastante provável dada a sua localização geográfica), naquele “fim de mundo” perdido na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia e passei em outro vestibular.

Em Tabatinga predominam até hoje as atividades militares.

São muitas as notícias de contrabando; de tráfico de drogas.

Para se ter uma ideia da “longitude” desse lugar, naquela época as comunicações entre o ‘PIC-TBT’ e o ‘PF-Manaus’ se davam via rádio. Por isso, aprendi o código alfabético utilizado nesse tipo de comunicações: ‘Alfa’, ‘Beta’, ‘Charles’... E por aí vai. O nosso “endereço” via rádio era: “papa-índia-charles” (PIC) “tango-beta-tango” (TBT). Quem comandava o rádio do PIC-TBT era o funcionário e ex-jogador de futebol “Tapioca”.

O tenente ‘R-2’, que era o Executor do PIC-TBT, tinha uma ‘pinimba’ desgraçada com o Tapioca. Dava “mijadas” homéricas nele. Eu sentia muita vergonha alheia por causa disso. Mas o Tapioca iria se vingar disso. Como o Tapioca era também o responsável pelas cópias “xerox” da repartição, montou um dossiê contra o ‘R-2’ e entregou-o na Polícia Federal, cuja delegacia ficava no outro lado da Av. da Amizade (única e principal via urbanizada de Tabatinga na época), que fazia a interligação com Letícia, capital colombiana do ‘Departamento del Amazonas’.

O ‘R-2’, no final de 1.977, tomou a fatídica decisão de sacar todo o dinheiro do ‘PIC-TBT’ que era destinado ao custeio dos serviços de abertura das estradas vicinais do PIC, e guardá-lo nas gavetas da repartição.  Todos ficaram sabendo disso. Tapioca inclusive. A “justificativa” dada pelo ‘R-2’ era a falta de tempo para realizar os serviços regularmente. Assim, com esse dinheiro “vivo” em mãos, passou a fazer os serviços por meio de prestadores de serviços locais, sem os cuidados licitatórios regulares.

Como o ‘R-2’ tinha outra atividade burocrática na Sede do INCRA em Manaus, como Chefe do ASI-SNI, era muito ausente do PIC-TBT, deixando em seu lugar um substituto que comandava a Administração e a contabilidade. Deixava também com ele toda aquela dinheirama e recibos assinados em branco, para que este fizesse os pagamentos dos serviços já mencionados e pegasse as assinaturas dos prestadores dos serviços nesses ‘recibos’, e assim montasse as prestações de contas.

Essa, digamos, documentação, caiu nas mãos do Tapioca, que montou o mencionado ‘dossiê’ e entregou-o na PF.  Por essa causa, o ‘R-2’ caiu... O ‘R-2’ se viu às voltas com sindicâncias, processos administrativos, etc., e foi exonerado das funções que exercia no serviço público federal.

Com isso aprendi uma lição: ter muito cuidado com servidor público magoado.

O ‘R-2’ foi substituído por um engenheiro agrônomo do INCRA chamado Manoelito.

Era radicalmente o oposto do ‘R-2’. Tratava bem todo mundo. Não se envolvia em polêmica.

Voltando ao ponto do meu retorno a Manaus...

Como já mencionei, o meu retorno ao INCRA de Manaus (PF-Manaus), em agosto de 1.979, representou para mim uma dupla vitória. Primeiro, porque consegui demarcar não apenas o Projeto Integrado de Colonização do INCRA de Tabatinga (PIC Tabatinga); segundo, porque também demarquei a área de treinamento do CF-SOL (localizada ao Norte do PIC); demarquei também as duas reservas indígenas daquela localidade: a reserva dos Tacanas, a Oeste do PIC; e a reserva dos Ticunas, a Leste do PIC.

De sorte que a cidade do Marco-Tabatinga restou demarcada como um enclave ao Sul (banhada pelo Rio Amazonas). Isso está bem definido no mapa de Tabatinga.

Outra vitória pessoal minha foi o extremo preparo que adquiri para passar em concurso vestibular: passei para ‘Administração Noturno’, em dezembro/janeiro de 1979; e, depois, para ‘Direito Noturno’, em dezembro/janeiro de 1.985. Dois cursos até hoje bastante prestigiados e disputados pelos concurseiros. Portanto, NÃO REGREDI! Progredi!

Ao mesmo tempo em que eu prestava vestibular, nascia meu primeiro filho, Adriel, em 02/01/1.980. Tive mais dois filhos com a d. Suderly: André (1.981) e Alexandre (1.985). Tive ainda outros dois filhos de outro relacionamento: Daniel (1.990) e Eduardo (1.991); e ainda a Bruna (2.000) em Manacapuru. A  Alice nasceu em 2.006. Minha mãe Alzira morreu nesse mesmo ano, aos 84 anos, sem conhecer a neta. Minha última filha, Clara, nasceu em 2.010. A todos eles dedico esta crônica.

Eu havia perdido o interesse em retornar ao curso de ‘Matemática’, que foi deixado para trás em 1.977, e passei a cursar minha nova paixão: ‘administração’.

Contudo, parece que “o INCRA” não queria mesmo que eu estudasse.

Meu chefe Sarmento me mandava para o interior resolver questões de terras a cada quinze dias. Dessa forma, eu não conseguia estudar. Isso forçou a que eu buscasse me transferir para o recém-criado ‘Instituto de Terras do Amazonas’ (ITERAM), para onde vários colegas meus de INCRA já haviam se transferido.

Para isso, entrei em acordo com meu chefe do PF-Manaus-INCRA, Alfredo Goulart Sade, e este mandou me demitir em maio de 1.980.

Assim é que, com muita relutância, deixei o INCRA e fui trabalhar no ITERAM, que foi para mim como se fosse uma “sucursal” do INCRA, pela quantidade de ex-colegas do INCRA que se transferiram para esse Instituto de Terras. No ITERAM trabalhei por quase cinco anos, tempo suficiente para me formar em Administração, o que ocorreu em julho/agosto de 1.984. Sou muito grato a Deus e ao ITERAM por isso.

No entanto, como um carma, minha demissão do ITERAM se deu no mesmo ano no qual me formei em ‘administração’. Essa demissão foi bastante traumática para mim. Ser demitido nunca é uma boa experiência! Isso ocorreu em razão de politicagem, que passo a relatar a seguir.

No ITERAM, além do cargo de topógrafo, assumi funções comissionadas como chefe da ‘Seção de Levantamentos’ (topografia) e chefe do ‘Departamento de Cartografia’. Nessas funções, fui “obrigado” a produzir resultados técnicos com efeitos eleitorais, utilizados na campanha eleitoral de 1.982, primeira eleição estadual após o Regime Militar. Fui obrigado a elaborar enorme quantidade de ‘títulos definitivos’ (TDs), tanto em Manaus quanto no interior do Estado, para entregar durante o período eleitoral.

Também foi muito utilizada politicamente a nova ‘divisão territorial’ do Estado do Amazonas nos atuais sessenta e dois municípios. Por esse trabalho cartográfico, tenho muito orgulho de ter participado juntamente com uma equipe multidisciplinar, que incluía: cartógrafos; agrônomos; agrimensores; geógrafos; antropólogos; sociólogos; engenheiro civil; advogados; etc. Por essa redivisão territorial, seriam criados quinze novos municípios. No entanto, apenas cinco deles foram efetivamente instalados em 1.985: ‘Apuí’; ‘Rio Preto da Eva’; ‘Presidente Figueiredo’; ‘São Sebastião do Uatumã’; e ‘Itamarati’. Os demais foram considerados ‘inconstitucionais’ pelo STF, uma vez que não possuíam os requisitos para se transformarem em município, quais sejam, ‘população’ e ‘renda’. O governador Lindoso inverteu essa lógica justamente para levar desenvolvimento para essas regiões por meio do Fundo de Participação do Municípios (FPM) e outras rendas.

Fui eu que tracei os arruamentos de ‘Rio Preto da Eva’ e de ‘Presidente Figueiredo’.

Como já foi dito, além da redivisão territorial do Amazonas, fui “obrigado” a produzir ‘Títulos Definitivos’ (TDs) de terras a rodo, a fim de servir de lastro político para o candidato do governador José Lindoso, o deputado estadual e radialista Josué Filho. Um político astuto e pragmático que acabou apoiando o governo de Gilberto Mestrinho e mais tarde se elegeu deputado estadual. Foi guindado a conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE).

Também fui “obrigado” a informatizar a Cartografia do ITERAM. Como nessa época não haviam programas disponíveis, me obriguei a tornar-me ‘programador de computador’, utilizando a linguagem ‘Basic’. Aprendi com isso que toda “crise” traz juntamente as ‘oportunidades’. Sempre as aproveitei em minha vida. Essa eleição de 1.982 acabou fazendo com que o ex-governador Gilberto Mestrinho retornasse à cena política do Estado pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

Quando este assumiu, substituiu a direção do ITERAM por pessoas interessadas em outras questões não-técnicas, e que me envolveram em questões políticas, passando a me tratarem como adversário político. Como agente do Partido Democrático Social (PDS), o partido que substituiu a Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Acabei demitido. Foi uma experiência terrível para mim. Com dois filhos ainda bem novos, tive de vender o carro.

A minha formatura em administração, em agosto de 1.984, permitiu o meu rompimento com cargos de nível médio, me forçando a ir em busca de assunção de cargos superiores, já como ‘administrador’.

Meu professor ‘Felismino Soares’, de grata memória, me levou com ele para o recém-criado ‘Conselho de Contas do Município’ (que viria a ser o ‘Tribunal de Contas do Município, depois extinto); mas fiquei pouco tempo com o ‘Felismino’ em razão do convite feito a mim pelo meu ex-colega e Diretor Técnico do ITERAM, Johnny De Carli, o qual tinha assumido a ‘Diretoria Executiva’ da ‘Fundação Centro de Apoio ao Distrito Agropecuário’ (FUCADA), da SUFRAMA. Ele me convidou para que eu assumisse meu primeiro cargo superior como ‘administrador’, na FUCADA.

Portanto, de ‘desempregado’, passei a ‘administrador’. Passei a ganhar não mais os seis salários mínimos de piso como ‘técnico de nível médio’, mas sim os mais de quinze salários mínimos como administrador. Deus sabe o que faz. Fé não costuma “faiá”...

 

29 agosto 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. V >

 

< Capítulo V >

UM TOPÓGRAFO DO INCRA "DEGREDADO" PARA TABATINGA-AM

 

Em julho de 1.977, meu aniversário de 23 anos não poderia ter sido mais digno de pena...

Dentre tantos aniversários meus quantos já haviam se passado sem qualquer comemoração, este foi o menos comemorativo ainda.

Valdé, de tanto beber cachaça, morreu de câncer de estômago em fevereiro daquele ano, com apenas cinquenta e quatro anos. Tinha a mesma idade que minha mãe Alzira. Ambos eram de 1.923.

Minha mãe Alzira o chamava carinhosamente de Valdé, quando não estava furiosa com ele. Por culpa dele mesmo, alcoólatra que era.

Ele mesmo se dizia chamar-se Waldetário (quando estava sóbrio) e Walter Dário (quando bêbado). Ele disse a mim que viera fugido do sertão pernambucano, porque lá havia matado um cabra. Por essa razão se alistou como 'soldado da borracha'. Vá saber...

Eu, cumprindo o 5º Mandamento de Deus (honrar pai e mãe), fiquei estoicamente cuidadndo de Valdé até seus momentos finais numa cama ambulatorial do hospital Santa Casa de Misericórdia de Manaus. Tristes momentos! A fim de interna-lo para tratamento, lutei no INSS para torná-lo meu dependente. Consegui a duras penas. Ele nunca trabalhara como CTPS assinada. Não era amparado nem pela previdência pública. Internei-o em meio a crises de vômitos. Vomitava mesmo sem ter nada de comida no estômago. O tumor já não permitia que ele bebesse nem água. Já estava, como se diz nesses casos, somente “pele e osso”.

Internei-o na antiga ‘Santa Casa de Misericórdia’ (hoje em escombros). Na rua 10 de julho, centro de Manaus. O famoso Dr. João Lúcio fez sua cirurgia, retirando o tumor do estômago e do esôfago de Valdé. Perguntei ao Dr. João Lúcio: - “Ele vai sobreviver, doutor? ”. A resposta foi sem muita convicção: - “Sim. Por um ano”. Morreu semanas depois. Não tinha como sobreviver...

Por conta da doença e internação de Valdé, praticamente “abandonei” o INCRA por três meses, para cuidar dele no hospital. Meus colegas de INCRA me deram ‘cobertura’ (sem que eu pedisse). Não deixaram que eu levasse faltas e ficasse sem salário e, eventualmente, fosse demitido por abandono de cargo. E todos compareceram ao cemitério para renderem, em respeito a mim, as últimas homenagens ao Valdé. Meu sentimento de perda se misturava com alegria pela solidariedade demonstrada pelos meus colegas de INCRA. Cheguei a sorrir de nervosismo e gratidão. Meus colegas de INCRA foram todos no ônibus do INCRA. Registro isso para homenagear meus colegas, com o coração imensamente grato por tanta bondade para comigo.

Porém, no dia 30 de julho (um dia após o meu aniversário de 23 anos), numa daquelas “tardes qualquer de julho” – parafraseando Euclides da Cunha -, “rápidas tardes sem crepúsculos, prestes afogadas na noite, os relâmpagos, precípites, sarjavam a imprimadura negra da tormenta” que se avizinhava e logo os “cúmulos e nimbos cairiam como num aguaceiro diluviano”. numa tarde como esta fui surprendido pelo anúncio de que eu iria ser transferido pelo INCRA, do Projeto de Manaus para o Projeto de Tabatinga, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Meu mundo caiu!

Mesmo com chuva, a temperatura média em Manaus era de 35o Um verdadeiro ‘inferno verde’ (Euclides de Cunha). Para quem não sabe, Euclides da Cunha morou em Manaus no início do século 20, numa casa em frente ao cemitério ‘São João Batista’ (hoje uma agência do BB). Euclides foi o grande responsável pela ‘demarcação’ das fronteiras do Brasil com a Colômbia, o Peru e a Venezuela. Encontrei vários marcos de concreto implantados por Euclides ao longo dessas fronteiras.

Nessa tarde do dia 31 de julho de 1.977, no dia posterior ao meu indigitado aniversário, o coronel ‘José Carioca’ ao seu milico tenente R-2 do exército que fosse buscar-me em "minha" sala, “sob vara”, na ‘seção de topografia’ do INCRA, onde eu exercia a função de ‘topógrafo’.

Como já relatado, eu havia ingressado no INCRA por “seleção pública” na ETFAM, em 1975, recrutado que fora dentre alunos dos terceiro e quarto anos do curso de ‘Estradas’.

Tanto naqueles tempos quanto nestes, “ordem dada era ordem que devia ser cumprida”. Assim, prontamente, o ‘tenente’ ‘R-2’ (chefe da ‘Assessoria de Serviços de Informações’ - ASI-SNI) fez questão de ir pessoalmente lá na “minha” sala, onde eu exercia minha mencionada função para me buscar.

Chegando lá na sala da topografia, agarrou-me pelo braço e levou-me pelo extenso corredor, sob os olhares surpresos e atônitos dos demais colegas de INCRA. Todos devem ter imaginado o seguinte: - “Coisa boa ele não fez!". Teria ele (eu) ‘aprontado alguma’?

Vivíamos com medo, pois, como estudante de Matemática da UA (hoje UFAM) e ‘servidor’ da ‘Reforma Agrária’, com certeza eu era ‘visado’ pelos meganhas do Regime Militar, que se implantara no país em 1964.

Na verdade, eu tinha a admiração de todos os meus colegas de INCRA pelo fato de que, em 1976, eu fui o único empregado do INCRA a lograr êxito no vestibular daquele ano. E passei logo para o curso de ‘matemática’! Terror do brasileiro em geral. Essa disciplina era – e ainda é – o “bicho papão” de todos os alunos brasileiros!

E, como muitos hoje acham, naqueles tempos as Universidades haviam se transformado em “viveiros” de comunistas. Na verdade, as IFES se tornaram em pièce de rèsistance ao ‘regime militar’, o que fez com que os milicos cressem que havia um ‘inimigo’ atrás de cada escrivaninha; de cada mesa de desenho; de cada líder entre grupos de trabalho.

Voltando à minha ‘condução coercitiva’ para a sala do superintendente do INCRA - após superado o “corredor polonês” -, fui então ingressado na sala do coronel ‘Zé Carioca’ (não é piada!). O nome do coronel era José de Azevedo Carioca. Por obra do destino, hoje minha foto se encontra na galeria de ex-superintendentes do INCRA, na entrada , na recepção. Mais na frente relatarei essa incrível proeza...

Na sala de Zé Carioca, presentes apenas eu, ele e o tenente, houve um suspense no ar! Quebrado apenas pela voz ‘tonitruante’ e ‘cavernosa’ do coronel: - “Você vai ser transferido amanhã para Tabatinga”!

Tentei argumentar, balbuciando a seguinte frase: - “Mas o que foi que eu fiz”?

Fui então prontamente interrompido pelos berros do coronel: - “Não tem essa de perguntar ‘o que foi que eu fiz’ coisa nenhuma! ”. E emendou: - “Se você não for, estará demitido”. Eu era celetista. Não tinha estabilidade dos estatutários.

Meu Deus! Como eu poderia ser demitido do cargo de topógrafo? A minha grande paixão profissional!? E deixar de ganhar aquela grana toda que eu já estava ganhando desde quando na Prefeitura de Manaus fui contratado como ‘Auxiliar de Engenharia’? Ganhava seis salários mínimos desde 1973. No INCRA, ganhava mais as 25 diárias de campo por mês! Naquela época, o salário de ‘topógrafo’, ou de qualquer ‘Técnico de nível médio’, era de 6 (seis) salários mínimos. Era o piso do CREA.

Já me considerava rico com esse salário! Como perder isso tudo?

E ainda teria de largar o ‘curso de matemática’, minha outra paixão... Parec que as minhas paixões sempre foram o “meu fim”...

Um dia, minha namorada foi lá no INCRA procurando pelo ‘Nonato fotógrafo’, que ela achava que eu era... Até isso! Meus colegas não perdoaram. Dizia o Luís “Biquíni”: - “Tem uma moça aí na recepção procurando por um tal de ‘Nonato fotógrafo’..., com aquele risinho sacana. E ainda me perguntou a fim de ferir mais fundo meu ego: - És tu? ” .

Para se ter uma ideia do desprestígio (por ignorância, claro) de que gozava um topógrafo, na novela da Globo das 20h o diálogo de duas personagens deixava isso claro. Dizia uma: - “Você sabia que a Fulana está namorando um soldado do exército”? Ao que a outra retrucou: - “Pior é a Sicrana, que está namorando um topógrafo”! Suprema humilhação! Nada contra os soldados...

Voltando ao assunto da transferência ‘manu militari’, que aconteceu na sala do Zé Carioca, aquela tarde fez-se noite para mim. Tinha feito aniversário no dia anterior, trinta de julho. E agora estava sendo ameaçado de demissão sumária.

Eu e meus colegas do ‘Projeto Fundiário Manaus’ éramos todos ‘celetista’. Portanto, sem nenhuma estabilidade. Bastava um olhar feio do chefe que qualquer um de nós podia ser demitido a qualquer momento, sumariamente. Ao contrário dos estatutários, que podiam ficar com os pés sobre a suas mesas, lendo jornais e fumando charutos. Como era o caso do Sabbá, um agrônomo negão lá de Minas Gerais.

Naquela noite (literalmente), tentei buscar conselho no colo de minha mãe Alzira, mas a mesma – não por maldade dela, mas por amor – me disse “na lata”: - “Vá! Ou você quer voltar para a “lama” de onde nós já saímos”? Diante daquela opinião cruel, mas sincera, não pensei duas vezes. Deixei tudo para trás: curso de matemática; namorada; colegas; amigos; mãe; irmãos e fui...

Meus “amigos” de INCRA/Manaus me disseram: - “Vais regredir lá em Tabatinga”!

Principalmente o Brito, que recém tinha sido transferido de Borba para Manaus. Sabia o que era morar no interior do Amazonas... Então, criei coragem e ousei perguntar aos milicos, meus inquisidores: - “Quando eu poderei retornar ao INCRA de Manaus”? Ao que me responderam em tom de ironia e sarcasmo, com um misto de descrença em minha capacidade profissional: - “Quando você demarcar todo o Projeto” em Tabatinga. Depois fiquei sabendo que, em dez anos de existência do PIC-Tabatinga (Projeto Integrado de Colonização Tabatinga, do INCRA), ainda não havia sido demarcado nenhum mísero metro quadrado. Quão alentador, não!?

De partida de Manaus para Tabatinga, fui submetido a outra “tortura chinesa”: me vi embarcado, pela primeira vez, em um avião! O tenente ‘R-2’ foi me levando junto. Nunca tinha voado numa estrovenga dessas. Me perguntava: -  “como pode um barco tão grande e pesado se sustentar no ar”? Sabia, porém, pelas aulas de física aplicada ministradas pelos ótimos professores da Escola Técnica, que são forças muito bem estruturadas por Leis imutáveis, que possibilitam a incrível sustentação de um avião no ar. Aproveitei para praticar um pouco de fé – em Deus e nos homens.

Ufa! Uma hora e meia depois, cheguei inteiro em Tabatinga, sempre acompanhado pelo tenente.... Enfim, sobrevivi.

Ainda tentando entender a razão de tanta perseguição no INCRA, deparei-me com as seguintes perguntas que fiz a mim mesmo: - “Será que é porque os milicos pensam que eu sou comunista, como o meu colega de INCRA João Pedro”? Ou, talvez, tenha sido porque eu demarcava os lotes dos caboclos que não constavam dos Projetos? O que dá no mesmo. Mas os caboclos estavam lá, abandonados da sorte! Na verdade, eram vítimas da desídia funcional dos técnicos do INCRA responsáveis pelas ‘identificações’ e pelas ‘vistorias’ dos ocupantes de terras, os quais deveriam ser objetos de regularização fundiária e que deveriam constar dos Projetos de demarcação. Os posseiros estavam lá, meu Deus do céu! Nos fundos dos terrenos.

Por causa disso, levei muitas broncas do meu chefe ‘Sarmento’. Mas fiz o que achei que devia fazer. Fiz isso em razão de minha consciência de caboclo, me identificando com os posseiros, pois sabia de onde eu tinha vindo: do interior do ‘Careiro da Várzea’.

Como já relatado, essa vinda do interior  do Careiro da Várzea para Manaustinha se dado em dezembro de 1.966, quando deixei a casa dos meus pais, no Cambixe.

Aqui cabe uma digressão muito importante (pelo menos para mim): nasci em Manaus, em 1954, fugindo da ‘cheia’ de 1953 (ou alagação – fenômeno recorrente na Ilha do Careiro e na região amazônica). Contudo, vivi até os doze anos - entre idas e vindas -, no ‘Careiro da Várzea’, a cerca de 20 km de Manaus. Ali, minha mãe houvera herdado um pequeno sítio dos meus avós maternos, que mais tarde viera a perder por conta das maluquices do Valdé, como também já relatado.

Assim foi que, com doze anos, em 1.966, resolvi deixar o ‘Paraná do Cambixe’ (um Paraná de 150 km que corta a Ilha do Careiro de ponta a ponta. Paraná é um rio sem foz nem estuário.

Resolvi sair da fazenda do Sr. Adalto Leite, onde minha mãe era caseira, e resolvi morar com minha tia Alice em Manaus, para poder estudar e garantir “uma vida melhor” para minha mãe e meus irmãos.

Meu pai, o Valdé, era “artista” e vivia viajando com a viola no saco, a caixa de ferramentas de ourives, cantando pelos beiradões, nas fazendas da região. Como bom pernambucano da serra do Araripe, cantava ‘cordel’ e fazia ‘repentes’, ‘desafios’, ‘coco’, essas coisas; como ourives e relojoeiro, fazia e consertava joias e relógios. Valdé esquecia que tinha mulher e filhos.

Assim é que, em dezembro de 1.966, já em Manaus, morando com minha tia Alice, cursei os dois anos do curso primário, a terceira e a quarta séries, que foram pagos pela minha tia, na ‘Escola Industrial Salesiana’(EIS) ‘Domingos Sávio’, na rua Visconde de Porto Alegre. Isso se deu entre 1.967 e 1.968. Dois anos que valeram por quatro. No ano seguinte, em 1.969, sem que minha tia tivesse mais como continuar pagando escola particular para mim, pois a casa já estava cheia de netos para alimentar, e eu era mais uma boca,  “obrigado” por ela a ingressar na Escola Técnica Federal do Amazonas (ETFAM), para cursar o ginásio industrial. Fui desobrigado de estudar a 5ª série primária na ‘IES’.

Já na ETFAM desde 1.969, e daí pelos próximos quatro anos, fui literalmente obrigado a fazer oito cursos profissionalizantes: eletricidade; tipografia e encadernação; marcenaria e carpintaria; serralheria e soldas; mecânica de automóveis; e mecânica geral (tornearia, frezagem, furadeiras, limadeiras, desenhos arquitetônico, mecânico e em perspectiva, etc.).

Para um menino oriundo da várzea, acostumado com o campo, foi uma tortura ter de lidar com eletricidade, choque, maçarico, ferragem, tornos, etc.

Finalmente, entre 1973-76, na mesma ETFAM, cursei o ‘Técnico em Estradas’, e então, como já relatado, fui recrutado e selecionado como ‘topógrafo’ pelo INCRA, em 1975. Apos ter sido contratado pela SEMOB como Auxiliar de Engenharia entre 1972-73, após um ano de estágio.

Mas minha fixação era mesmo topografia.

Finda a digressão, voltemos ao caso do meu “degredo” para Tabatinga. O certo é que o ‘Zé Carioca’ “me pegou pra Cristo”.

No mesmo momento em que eu estava chegando em Tabatinga, em julho de 1.977, um grupo de funcionários do Banco do Brasil estava sendo transferido para Manaus, e seus integrantes gritavam da porta do avião: - “Adeus, desgraça! ”, referindo-se à “cidade de Tabatinga”. Isso me deu um “frio” na espinha...

Pelo menos fui bem recepcionado pelos meus novos colegas de trabalho no INCRA/Tabatinga. Mas, para meu espanto, ao chegar, fiquei sabendo que o tenente ‘R-2’ era o chefe do PIC-TBT. Estava explicado o grande interesse dele por mim. Por meu serviço. E em ir junto comigo no avião...

Em parte, a demarcação do PIC-TBT não progredia pela falta de um topógrafo. E foi assim que ele conseguiu um. Como não havia outro topógrafo mesmo, eu tive que assumir a chefia de mim mesmo e dei início ao planejamento dos trabalhos. Aliás, havia um outro funcionário contratado como topógrafo, mas que não sabia o que fazer nessa função. Não tinha experiência e nem treinamento. Era meu único funcionário. Os demais eram temporários, prestadores de serviços.

Em outras palavras, o outro “topógrafo” era um autêntico “servidor público”. Não era por culpa dele.

Resolvi ensiná-lo, treiná-lo. Tornou-se um excelente topógrafo graças à sua vontade de aprender aquilo que para mim já estava se tornando um “carma”. Até hoje o Repolho (sobrenome dele) segue na profissão de topógrafo. Não sei o que ele viu nisso... Mas me parece feliz. Vejo-o pelo Facebook.

Lembrei-me do que meus colegas do INCRA de Manaus me disseram: - “Vvais regredir em Tabatinga”!

Decidi progredir. Comprei bons livros: de História Geral e do Brasil; de Geografia Geral e do Brasil; de Espanhol; etc. Estudei muito. Afinal, o que mais se tem numa “penitenciária” é tempo. Tabatinga para mim foi como se fosse uma penitenciária a céu aberto.

Li a Bíblia quatro vezes. Uma delas em espanhol. Me tornei erudito em bíblia espanhola.

Aprendi a falar “Piél Roja” estampada na carteira de cigarro (ou melhor, ‘cigarrillo’) que me apresentaram e me desafiaram a falar aquela palavra, que era também uma famosa marca de cigarro colombiano. Estas foram as “boas vindas” que os meus novos colegas de INCRA me propuseram logo ao chegar em Tabatinga. Para verem se eu aprenderia ou não o ‘portunhol’ praticado naquela tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

Acabei passando mais tempo em Letícia, capital da Província ‘del Amazonas” – Colômbia. Com o câmbio favorável, na razão de $ 2,5 x 1, passei a luxar em Letícia.

Ao contrário do meu colega Ernani, agrônomo, que comprou um curso de Inglês e enchia o saco ouvindo as aulas, eu me dediquei ao espanhol. Consegui falar fluentemente.

Tanto estudo autodidata me fez passar em mais dois vestibulares após retornar a Manaus em 1.979/80. Até hoje sou autodidata. Consigo aprender “qualquer coisa”. Até “japonês em braule da música do Djavan.

Como se podem ver, nem tudo foi péssimo para mim em Tabatinga. Tem a história de minha esposa Suderly, a qual fui buscar em Manaus em junho de 1978. Chegando em Tabatinga, ela chorava o dia todo pela falta da mãe e pela “cidade” em si. Fiquei com peso na consciência. Aí, resolvi fazer um filho nela para “lhe mostrar quem sou” (Cazuza) e a coisa ficou ainda pior: agora ela chorava e vomitava o dia todo...

Num “belo” dia, chegou no PIC-TBT um major aviador e perguntou com aquela arrogância que somente os militares sabem demonstrar: - “Quem é o topógrafo? ”. Todos sabiam, inclusive eu, que somente existia um: eu mesmo. O outro ainda não se podia ser acusado disso. Pensei: minha “má fama” já correu a fronteira...Assim, como somente restava eu, me acusei: - “Sou eu! ”. Então aquela figura aterradora do major me falou: - “O comandante está chamando você lá no QG”.

Me despedi de todos e novamente fui conduzido “sob vara” – desta vez em um jipe da PE do exército – para falar com um coronel e comandante. Pensei: - "Será que vai me mandar para a ‘Cabeça do Cachorro?". Fui então ingressado pelo major na imponente sala do coronel Berg, comandante do QG, o qual, para minha completa surpresa e posterior deboche, era quase um “anãozinho”, de voz fina como a do lutador Anderson. Ele fez a mesma pergunta do major – como a duvidar de mim: – “Você é o topógrafo? ”. Eu não podia negar, mas me perguntei: - “Por que diabos eu havia de me ‘apaixonar’ por essa desgraça de profissão de topógrafo”? Respondi ao Coronel como da outra vez havia respondido ao major - já duvidando de mim mesmo: - “Já disse que Sou eu”! (lembrei-me também de Jesus no Getsêmane - que Ele me perdoe pela blasfêmia!). Só faltou-me perguntar: - “A quem buscais”?

 O “coronelzinho” Berg então me falou com aquela voz fina de castrato - mas mesmo assim arrogante dentro do possível para ele -: - “VOCÊ VAI DEMARCAR A ÁREA DE TREINAMENTO DO CF-SOL (Comando de Fronteira do Solimões) ”! Eu, então, mal disfarçando a vontade de rir, disse a ele - empostando a voz de ‘baixo profundo’: - “SIM, SENHOR CORONEL”! (Rá-rá-rá...).

Ele, então, vendo que já “havíamos nos entendido”, perguntou: - “Então, do que você vai precisar”?

Disse-lhe que precisaria de gente para abrir picadas na selva e fazer todo tipo de serviços próprios de demarcação topográfica. O coronel então me disse que eu comandaria um ‘pelotão’ de ‘cabos velhos’, composto por ex-combatentes no Araguaia uma década ante (o que me soou como ameaça!).

Falou para o seu intendente me passar todas aquelas ‘tralhas’ de selva (kit com rede, talheres, prato, garfo, faca, cantil, etc., e, de maneira especial, mandou o intendente me entregar um uniforme de capitão. Afinal, precisaria de alta patente para comandar ‘cabos velhos’. Todos eles ‘especializados’ em matar guerrilheiros do PCdoB, segundo eles mesmos. Pronto! De maneira inusitada, passei de topógrafo ‘proscrito’ pelo INCRA a ‘capitão’ do exército brasileiro. Passei dois anos nessa função, que me fizeram ‘especialista’ em sobrevivência de selva. E olha que houvera eu sido dispensado de servir nesse mesmo exército por “insuficiência física”.

Depois, quando comecei a comer (bem e muito!), passei facilmente a pesar 70 kg, que os conservo até hoje. Sob os apupos de minha médica e de minha nutricionista. Coitadas! Não sabem o que é a memória de um ex-faminto.

Assim é que demarquei quatro áreas de terras naquela amada fronteira – que hoje delimitam a cidade de Tabatinga:

- Ao Norte, fica a área de treinamento do exército (CF-SOL); - ao Sul, a cidade do Marco Tabatinga e o Rio Solimões; - a Leste, fica a reserva indígena dos Ticunas; e a - Oeste, a reserva indígena dos Tacanas. É só verificar no mapa da cidade de Tabatinga.

Conforme o prometido em julho de 1.979 pelos milicos de Manaus, após eu demarcar o PIC-TBT, retornei a Manaus para outras histórias que renderão pelo menos mais alguns capítulos sobre a minha conturbada, rica e pobre vida de matuto, topógrafo, administrador, advogado e professor.

Há, sim, passei a amar aquela fronteira. E o major aviador se tornou, por conta própria, meu ‘amigo’ e me levava com ele, como seu copiloto, no avião anfíbio Catalina, da segunda guerra mundial, toda vez que ele ia levar rancho para os pelotões de fronteira ao longo dos 400 km, desde Tabatinga até a Cabeça do Cachorro. De certa forma, acabei indo parar na “Cabeça do Cachorro”...

O "desgraçado" do major gostava de me mostrar “o quanto viajar de avião era seguro”, principalmente naquele Catalina da II Guerra Mundial: segundo ele, porque aquele avião “tinha dois comandos; dois motores; dois tanques de combustíveis; voava sobre os rios; planava (desligava os motores para me mostrar); voava baixo, enfrentando as turbulências das tempestades”...

Por conta desse “miserável”, nunca mais tive medo de voar de avião.

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. IV >

 

 < Capítulo IV >

UM ESTAGIÁRIO DE SUCESSO DA ETFAM

 

    Em maio de 1973, após cinco meses de muita “mijada” da gerente Cleide da loja Central da Moto Importadora - a qual não tinha paciência com seu empregado matuto (no caso, eu), que não sabia a diferença entre ‘sanduiche de queijo com pão de forma’ e ‘sanduiche de queijo com pão francês’, nem muito menos o que era ‘queijo prato’, ou ‘queijo mozzarella’ - depois de 'infernizar' os ouvidos do prof Hamilton, coordenador do CIEE, este me incluiu na lista de indicados como estagiários de 'estradas' para a Secretaria Municipal de Obras (SEMOB).

Após 3 dias ausente do trabalho na Moto Importadora em razão de uma forte gripe que me forçou a ficar hospitalizado, levei uma punição muito injusta de suspensão de três dias, aplicado pela Cleide. Meu atestado médico foi tido e havido pela gerente como sendo “fake” (essa prática é até hoje utilizada por empregados descontentes com seus chefes e seus empregos).

Na verdade, tive que baixar ao hospital do INSS que fica na Av. Getúlio Vargas, em razão dessa forte bronquite, ou já pneumonia, única vez que isso me aconteceu. A segunda vez foi em 2021, na COVID-19, no HUGV.

Como eu ia para o trabalho e voltava para casa de pés (para economizar o valor da passagem de ônibus), tanto pela manhã, na ida, quanto ao meio dia, na hora do almoço. Mesmo durante o trabalho, eu pegava muito sol e chuva, sem nenhuma proteção, por isso caí doente.

A gerente Cleide não sabia, mas eu já estava “negociando” no SIEE uma saída honrosa dessa situação, na qual eu estava sofrendo ‘assédio moral’. Por isso, deixei ela “famosa” lá no SIEE.

O prof. Hamilton ouviu toda a minha lamúria e, de tanto eu “chorar” na sua frente, este resolveu me incluir em uma turma de ‘estágio’ da ‘Secretaria de Obras’ (SEMOB), da Prefeitura de Manaus. Assim, eu me “vinguei” da peste, digo, da gerente. Apresentei a ela meu pedido de demissão. Ela pasmou! Não acreditava que eu lhe deixaria sem seu especial objeto de sadismo.

Contudo, foram cinco meses de muito aprendizado trabalhando na Moto Importadora, onde me meti com atividades não próprias de um office boy, tais como:

> “Vendas” de balcão (ao contrário dos balconistas, eu conseguia ler em inglês os manuais dos produtos importados e demonstrar seus funcionamentos para os clientes);

> “organização” dos estoques (por conta própria), a fim de facilitar as vendas ao encontrar rapidamente qualquer item;

> “análise de crédito”: os clientes aguardavam na porta da loja para saberem antecipadamente se suas compras seriam aprovadas ou não; ou se necessitariam de avalista; ou de maior entrada, etc.

Tudo isso fazendo uso de meus conhecimentos já adquiridos nos últimos cinco anos de ETFAM, no Ginásio Industrial, e já no primeiro ano do curso técnico de ‘Estradas’.

Como já relatado, ingressei na ETFAM em 1969 para cursar o ‘Ginásio Industrial’ uma vez que minha tia Alice não podia mais pagar para que eu estudasse na ‘Escola Industrial Salesiana’ (EIS) ‘Domingos Sávio’.

Na ETFAM, além das disciplinas típicas desse grau de estudo, ou seja, ‘língua portuguesa’; ‘língua francesa’ ou ‘inglesa’; ‘matemática’; ‘desenho geométrico’; ‘ciências’; etc., fui “obrigado” a cursar uma disciplina chamada ‘Artes Industriais’, a qual me fazia aprender ‘duas profissões’ por ano, ou seja, uma ‘profissão’ a cada semestre. Portanto, ao final de quatro anos, já havia adquirido as seguintes profissões: ‘eletricidade’; ‘tipografia’ e ‘encadernação’ (1969); ‘marcenaria/carpintaria’; ‘mecânica de autos’ (1970); ‘serralheria’ e ‘soldas’ (1971); ‘tornearia’; ‘mecânica geral’ (fresa; furadeira; limadeira, etc.) (1972).

Além dessas profissões, fiz cursos paralelos de suporte para cursar tais disciplinas profissionalizantes, que foram: ‘desenho arquitetônico’; ‘desenho mecânico’; ‘desenho artístico’ (com o famoso pintor e professor da ETFAM, Moacir Andrade!); ‘desenho em perspectiva’; e ‘metrologia’ em geral.

Portanto, estudando na ETFAM, eu já estava sendo preparado para a vida.

Na verdade, já estava mesmo ganhando dinheiro como aluno, vendendo aos vizinhos os artefatos oriundos das aulas práticas da ETFAM: ‘piões’ de madeira; ‘martelos’ de alumínio para bater carne (é assim que pobre transforma “carne de pescoço” em “filé”); ‘martelos de bola’, etc.

Após esses últimos quatro anos de ginásio industrial na ETFAM (últimos anos desse ciclo na ETFAM) (1969-72), a Administração da ETFAM fez um levantamento para saber ‘qual o melhor aluno’ desses últimos quatro anos do curso de ‘Ginásio Industrial’. Para minha grata surpresa, eu tinha conseguido a melhor média geral. Ganhei, em solenidade feita especialmente para isso, uma ‘caneta’ dourada da marca Cross!

O segundo colocado foi o meu colega Samuel Câmara, que era nosso orador oficial nas horas cívicas aos sábados (como parte das disciplinas OSPB e Educação Moral e Cívica). Ele ganhou uma caneta Cross prateada. Depois virou pastor da Assembléia de Deus.

Portanto, eu era muito inteligente, mas o Samuel era muito mais ‘esperto’ do que eu, como o passar da vida demonstrou.

Sem a necessidade de fazer nenhum teste (a não ser teste ‘psicotécnico’, para avaliar a qualificação ou predisposição para cursar um dos cursos ‘técnicos’, de nível médio, da ETFAM), fui matriculado no curso técnico de ‘Estradas’ (engenharia de estradas). Talvez o mais difícil.

Meu teste ‘psicotécnico’ informou minha grande aptidão com números. Assim, me matriculei no ‘curso técnico’ de ‘estradas’. Nesse curso, me senti como ‘peixe n’água’ em razão da grande exigência em matemática, cálculos em geral. O teste estava certíssimo. Mais tarde, em 1976, passar no vestibular para o curso de licenciatura em ‘Matemática’ foi algo ‘natural’ para mim.

Desta maneira, eu me achava muito capacitado para ficar trabalhando levando “mijada” daquela gerente sem noção, em um cargo de serviçal, na loja Moto Importadora.

Por obra e graça do prof. Hamilton, que me incluiu na turma de estágio da SEMOB, em julho de 1973, dei início ao meu ‘estágio’ como aluno de ‘Estradas’ da ETFAM, ganhando dois salários mínimos (!), ou seja, o dobro do que ganhava na loja Moto Importadora. Atrasava, mas eram pagos.

Porém, havia um problema: como eu era aluno ainda do 1º ano de ‘Estradas’, não dominava as informações técnicas necessárias para lidar com ‘Projetos de Estradas’ e outras tantas disciplinas teóricas.  Somente nos 2º e 3º anos essas disciplinas eram ministradas. Pedi a Deus uma solução...

Fui atendido (fé não costuma falhar): enquanto meus “colegas” foram destinados ao ‘bem-bom’ do ‘escritório’ (que lidava basicamente com ‘planejamento’), a mim me mandaram para o ‘campo’, isto é, para a ‘execução’, para tomar conta das ‘patrulhas mecânicas’, no “sol e na chuva”, a depender do clima. Portanto, na lama. Ou na poeira. Chegava à noite na ETFAM enlameado ou empoeirado. Tomava banho no vestiário do campo de futebol e ia pra sala de aula.

Ninguém dos meus colegas de ‘estágio’ queria ir para o campo... Com certeza eles sabiam da minha condição de ‘aluno de primeiro ano’. Todos se conheciam. Mas não fui denunciado.

 Eu aceitei ir para o ‘campo’ com alegria, claro. Virei “engenheiro” de campo. Vestido a caráter: calças jeans; camisa de brim; coturnos do Exército, ou da Aeronáutica, etc. Eu era objeto de flertes por parte das meninas, que faziam questão de me servirem água gelada pelas janelas das salas de suas casas. Eu parecia ‘pinto em merda’...

Sem ter ainda muitas teorias na cabeça, parti para o aprendizado autodidata ‘teórico-prático’. Corri atrás das teorias (de forma autodidata) que me faltavam. E complementava imediatamente com a prática. Tem ‘mal’ que vem para o ‘bem’.

Diferentemente da loja da Moto Importadora, agora eu tinha à minha disposição ‘carro com motorista’ para me apanhar pela manhã em casa e me deixar à noite na ETFAM. O nosso motorista ‘Rubão’ era muito ‘nó cego’. Às vezes me deixava esperando em casa das 7h às 9h, para meu desespero. Mas já vinha juntamente com o Dr. Fonseca, o qual chegava com um sorriso de troça enorme, sabendo de minha ansiedade. Como peão de ‘trecho’, eu tinha alimentação farta e boa no canteiro de obras.

Meus colegas de turma, no escritório, cumpriam apenas quatro horas trabalho. Eu, porém, nos trabalhos de campo, estendia voluntariamente meu horário de ‘estágio’ por seis horas, mas não me importava com isso. Estava feliz da vida com esse meu trabalho. Mas meu sonho mesmo era ser topógrafo! Vá entender...

De cara, participei da urbanização do conjunto ‘Parque Dez de Novembro’. ‘Urbanizei’ todas as trinta e duas ruas. E também dos bairros: Santo Antônio; Petrópolis; Colônia Oliveira Machado; a área da UTAM; a área dos Bombeiros, na Rua Codajás; etc.

Aprendi a operar as máquinas pesadas. Os operadores, na hora do almoço, me davam as chaves de suas máquinas para que eu treinasse.

Eu também fazia o controle dos ‘estoques de materiais de construção’; a apropriar o valor das horas trabalhadas (ou paradas) das máquinas pesadas; enfim, fazia o ‘dimensionamento dos equipamentos’, ou seja, dependendo do trabalho, decidia ‘quais’ e ‘quantos’ equipamentos eram necessários. O maior custo de construção de estradas é o transporte de material por meio de caçambas. Tanto dos materiais chamados de ‘bota-fora’ (camadas vegetais removidas pelas máquinas pesadas, tais como: ‘moto-scrapers’; ‘trator de esteira’; ‘retroescavadeiras’; ‘pás mecânicas’, etc.), quanto os materiais de ‘base’, ou seja, piçarras (laterita); brita e pó de brita; etc.

Meu professor da disciplina ‘Dimensionamento dos Equipamentos’, do curso de Estradas, ficou pasmo com meu conhecimento dessa disciplina. Pois eu conseguia aliar o conhecimento teórico com o conhecimento prático. Me tornara seu preceptor.

Meu engenheiro-chefe na SEMOB, o Dr. Fonseca, gostava muito do meu trabalho e confiava inteiramente em mim. A ponto de me deixar tomando conta dos trabalhos enquanto ele participava das reuniões no staff da Secretaria.

Ao fim de um ano do meu ‘estágio’, ele havia se tornado ‘secretário de obras’ da SEMOB. Foi aí que tive a certeza da minha aprovação como ‘estagiário’: o Dr. Fonseca fez comigo muito parecido com o que houvera feito o ‘Zeca Brito’ dois anos antes. Fonseca me falou o seguinte, com aquele sotaque baiano: - “Nonato, bichim, pegue seus documentos e vamos lá na Prefeitura, ômi...”. Obedeci, claro.

Chegando lá na Prefeitura, na Praça D. Pedro II, próximo aos escombros do ‘Cabaré Chinelo’, onde as quengas faziam ‘ponto’ desde sempre, ele então falou para a d. Teresa Bahia, chefa de Pessoal, apontando para mim: - “Contrate ele como ‘Auxiliar de Engenharia’, visse! ”. Ela prontamente obedeceu, dizendo: “viu!’. A prova disso se encontra registrada na minha CTPS: “Aux. de Eng., Nível I-7.A”.

Mais uma vez me senti como ‘José do Egito’: honrado por Deus, me tirando da humilhação!

Após esse um ano e meio de ‘estágio’, e após a minha contratação como ‘Aux. de Enga, I-7-A’, o Dr. Fonseca viajou de férias para a Bahia e não voltou mais. Fora convidado para trabalhar na Bahia, sua terra. Recentemente, em 2016, morei em Salvador com minhas filhas Alice e Clara. Elas continuam morando lá. Eu retornei a Manaus em 2017. Salvador é uma cidade maravilhosa!

Sem a proteção do Dr. Fonseca, fiquei, então, “jogado às feras”. O Dr. Fonseca até que tentou me ‘proteger’, me recomendando para o outro engenheiro do grupo de trabalho, Dr. Juan, que assumiu o seu lugar. Mas este também acabou por passar em concurso do INSS e se mandou, me deixando como “boi de piranha”.

Pedi, então, que me transferissem para o ‘escritório’ e para a ‘Topografia’, esperando ter melhor sorte lá, pois já estava iniciando o terceiro ano de estradas e já estava perfeitamente habilitado teoricamente.

Fui atendido, mas apenas para que eu fosse vítima da vingança de meus ex-colegas de ‘estágio’, pois se sentiam “traídos” por terem sido passados por alto com a minha contratação como ‘auxiliar de engenharia’. Queriam para eles esse cargo.

O chefe do setor de topografia, Dr. Braga, um engenheiro quase anão e pinguço (morreu anos depois com cirrose hepática), serviu de meu algoz e passou a tentar me humilhar, me mandando fazer serviços desqualificados, típicos de ‘peão’, tais como ‘cortar piquete’, o que recusei e fui demitido. Estávamos em 1974.

 Contudo, um ano depois, o INCRA necessitava contratar cinco ‘topógrafos’ para o Projeto Fundiário ‘Manaus’ e fez um uma seleção entre os alunos dos terceiro e quarto anos de Estradas da ETFAM. Eu já estava no final do terceiro ano. Me alegrei com a perspectiva de passar no teste e ser contratado como topógrafo – minha paixão – do INCRA.

Passamos no teste eu e mais quatro colegas do terceiro ano de Estradas da ETFAM. Nossa turma do terceiro ano era constituída por ‘feras”! Eu fui o quarto colocado no teste. Juntamente comigo, foram trabalhar no INCRA: o Pedro Marçal; o José das Graças; o Darlindo Jr.; o Tadashi. Se me lembro bem.

O colega Franck, de apenas dezesseis anos, desistiu do emprego porque o pai não deixou que ele trabalhasse ness idade.

No ano seguinte (1976), eu e vários colegas de turma, do 4º ano de ‘Estradas’, passamos no vestibular da UA (hoje UFAM). Eu e o Raimundo Nonato Braga, para ‘Matemática’; o Jonas e a Eliana, para engenharia; o Jozeuter Ferro, para ‘Direito’ (um gênio!); e o Franck para Geologia. Todos éramos NERDS!

Foi assim que, em outubro de 1975, eu cumpri meu ideal: tornei-me topógrafo do INCRA.

Por uma questão de justiça, porém, devo mencionar a minha rápida passagem pelos Correios entre 1974 e 1975, onde fui contratado como carteiro, mas fazia o trabalho de ‘manipulador de cartas’. Era necessário rapidez e grande memória para triar as correspondências sem erro de destinação. Hoje, esta atividade está automatizada e robotizada. Nesse cargo, ganhava o mesmo que o ‘aux. de engenharia’ da Prefeitura, para se ter uma ideia do grande valor deste profissional naquela época. Para isso, fiz um concurso no qual ‘gabaritei’ a prova. O Sr. Oswaldo foi como um pai para mim. Até que surgiu o concurso do INCRA.

Rendo aqui minhas homenagens aos colegas Petrus Emile Abi-Abib e Miguel Emile Abi-Abib, os quais, com enorme competência souberam lidar conosco, formando, conduzindo, orientando, torcendo por nós, um graupo de meninos cheios de álgebra linear e sonhos.

Deus seja louvado! “Fé não costuma faiá” (Gilberto Gil).