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29 novembro 2012

Minha vida - Parte III-A (Estudos e trabalho - Manaus, 1967-1972)

Quando cheguei em Manaus em dezembro de 1966, "minha mala era um saco e o cadeado era um nó". Minha mãe colocou em meu bolsa da camisa algum dinheiro que nunca soube precisar o valor, e um bilhete rascunhado o endereço de minha tia, que havia se mudado da casa onde havia nascido, na rua de Ramos Ferreira para a rua de Visconde de Porto Alegre. Chegando na escadaria da Igreja dos Remédios, saltei do barco e perguntei de um taxista se ele saberia me levar no endereço que constava do papel em meu bolso. Ele disse que sim e eu perguntei se o dinheiro que tinha daria para pagar a viagem. Ele também disse que sim e ficou com todo o dinhero.
Assim cheguei em casa da minha tia levando no saco algumas frutas.
Disse a ela que estava chegando para morar com ela e estudar. Ela e meus primos me receberam muio bem, mas minha tia me advertiu que teria de realmente estudar, caso contrário voltaria para o Careiro.
Tive todo o apoio de meus primos Maria Emília e José Brito, bem como dos filhos deste - também meus primos: Heriberto James, Herivelton Jansen, Lady Elaine, todos com nomes "artísticos" em homenagem a astros de Hollywood (nos anos subsequentes, de 1967 a 1972, período em que morei com eles, nasceriam ainda Hudson, Herberth, Lilybeth Audrey e Lislie Ellen), o que tornaria minha presença em 1972, digamos, um tanto quanto "demais".
Como cheguei muito matuto do Careiro/Cambixe, em pleno dezembro de 1966, lembro de ter perguntado aos meus primos como é que se comia ameixa, que nunca tinha visto, e José Brito (recém falecido aos 76 anos) as comeu todas para me ensinar... Chorei muito pela burla. E olha que estava com 12 anos de idade... Para matuto toda idade é válida para fazer bobagens.
Como estava ali para estudar, meus primos Heriberto e Lady, filhos de José Brito, passaram a me dar lições de português. Minhas primeiras tentativas de escrever algo em uma folha de papel esbarrava na dificuldade de segurar um lápis na mão, de posicioná-los entre os dedos. Eu sabia o que diziam as palavras, mas não conseguia copiá-las para outro papel. Sofri bastante para isso. Mesmo com a assessoria da professora Terezinha, amiga de minha prima Maria Emília. Da cópia, passei para o ditado. Claro que as dificuldades aumentaram, porque uma coisa é copiar algo que está vendo, outra é saber como grafar os fonemas ditados. Essa é a grande dificuldade por que passa todo alfabetizando. Das letras passei para os números. Não precisa dizer quanto mais difícil foi para mim compreender como funcionavam as 4 operações...Somar, dividir, multiplicar e dividir eram algo abstrato demais para mim, acostumado a fazer isso empíricamente na hora de separar o gado, categorizá-los como bezerros, novilhas, garrotes, vacas, touros e dizer quantos haviam, quantos faltavam, etc. Em meus aprendizados, sempre gosto de fazer essa redução sociológica entre o abstrato e o concreto, pois facilita em muito essa tarefa. Entender é melhor do que simplesmente decorar sem uma conexão com a realidade. Ajuda a memorizar. E minha memória, herdada de meum repentista da viola, sempre me foi uma grande vantagem competitiva. Aprendi rapidamente a tabuada, de trás pra frente e vice-versa. Passei a ganhar as rodadas de palmatória mesmo entre os meus primos, que nesse ponto não estavam assim lá muito melhor que eu... Fazia isso com lágrimas nos olhos, tanto na hora de apanhar quanto de bater.
Assim, após essas aulas básicas de alfabetização, minha tia Alice me matriculou no terceiro anos primáro da Escola Industrial Salesiana, uma escola da paróquia de São José, vinculada ao Dom Bosco, mas conhecida como Domingos Sávio, o santo menino italiano pupilo de Dom Bosco, da cidade de Turim... Contou para isso com a ajuda da professora Terezinha Hagge Cavalcante, professora dessa escola. Lembro o nome dela completo pela importância dela nesse início de minha vida estudantil, cuja memória não poderia falhar neste momento. Ela era a melhor amiga de minha prima Maria Emília.
Contra todas os meus prognósticos, fui muito bem nos estudos. Passei com notas altas, tanto no terceiro quanto no quarto ano primário, sendo considerado o melhor aluno das turmas nos anos de 1967-68, ganhando duas medlhas de honra ao mérito. Também ganhei duas outras medalhas por bom comportamento. Me senti inteiramente recompensado por meus esforços.
Nesse meio religioso também me tornei interessado pela história cristã, pela leitura da bíblia e pela condição da alma com suas culpas e seus pacados; também da salvação que há em Cristo Jesus.
Outra maneira magistral que os salesianos tem de manter unida a congregação é por meio dos esportes, da leitura, da arte. No oratório Domingos Sávio aprendi a praticar diversos esportes: futebol de campo e de salão, spireball, tênis de mesa, etc. Brincadeiras de salão como cabra sega e corrida de saco. Nas festas juninas tinha batata assada na fogueira, pau-de-sebo... Mas o que encantava mesmo eram as sessões de cinema às segundas-feiras, as quais assistia gratuitamente em razão da presença nos domingos nas missas pela manhã e catecismos pela tarde, com carimbos na carteirinha. Assisti a todos os filmes de capa-e-espada, westerns; seriados de Zorro, Búfalo Bill; os filmes de Elvis Presley, Jerry Lewis, Mazzaropi, Oscarito e Grande Hotelo, desenhos e filmes de Walt Disney, bem como a filmes de cunho religiosos: a vida e a paixão de Cristo, Marcelino pão-e-vinho, etc. Aproveitava para comprar, vender e trocar os gibis que adorava ler, tais como: Superman, Batman, Aquaman, Liga da Justiça, Walt Disney, etc. 
Como se tratava de uma escola industrial, tínhamos oportunidade de aulas de artesanato em madeira, na oficina de marcenaria, onde fazíamos diversos objetos artísticos como veleiros, automóveis, barcos regionais, etc., que eram exposto e vendidos para a comunidade em dezembro, o que dava um orgulho danado na gente em ver nossas artes em exposição.
Mas isso não era tudo. Tinha de desempemhar em casa uma série de tarefas obrigatórias, tais como cuidar de galos de briga de meu primo, que era então "galista", os quais tinha de treinar, tratar e limpar os casulos individuais, vem como das galinhas soltas no quintal. Ainda tinha de ir buscar sobras de pão e sopa na casa dos sogros de meu primo José Brito, na rua Ipixuna com Emílio Moreira, sobras do boxe de café que eles possuíam no mercado Adolfo Lisboa. Eram tarefas árduas, que fazia como parte do meu acordo de permanência na casa de minha tia Alice, cuja vida dedicava a cuidar dos netos, cozinhando, lavando e passando roupa, além de tudo o mais. Fazia por mim e por ela, com denodo e dedicação. Todos os dias tinha de comprar pão ma padaria, milho e cigarro para meu primo José Brito. Era uma troca justa.
No entanto, ao final dos dois anos na EIS, minha tia me disse que "não podia mais pagar para mim aulas particulares e que eu tinha de prestar concurso na Escola Técnica Federal do Amazonas porque lá não se pagava nada". Foi muito triste para mim essa informação e repto para sair de minha querida escola EIS, onde já contava com a aprovação de todos e era honrado com prêmios de honra ao mérito. Mas a realidade se impunha e então passai os dois meses restantes de 1968 estudando para a prova de seleção da Etfam. Graças a Deus passei, mas meu primo Heriberto, infelizmente, não logrou êxito, o que foi para mim uma surpresa, poiser fora ele quem mais me ensinara ao chegar em Manaus. A vida é assim mesmo, paciência!
Na Etfam tudo para mim foi diferente, começando pela distância que tinha de percorrer a pé todos os dias. Ia pela Visconde e voltava pela Duque, para quebrar a rotina.
Uma coisa boa era que a Etfam fornecia o fardamento: tecido para a calça, de caqui, o brim, forte como uma lona, e camisa semelhante, com o bolso bordado. A mulher de meu primo, José, a Ruth, é quem costurava as peças. Não sabia costurar direito para homens e minhas calças saiam meio tortas, com fundão...
A Etfam era infestada de "bandidos", todos homens, grosseiros, violentos mesmo. Meu protetor era o seu Oswaldo, bedel que cuidava da (in)disciplina na entrada e saída do portão, e era rígido e inflexível com o horário. Quando não conseguia chegar a tempo a única saída era pular o alto muro daquela "penitenciária".
No ginásio industrial da Etfam, além das disciplinas normais (português, matemática, ciências, Ospb, etc.), tínhamos aulas obrigatórias de Artes Industriais em cada uma das oficinas: Eletricidade; Tipografia e encadernação; Carpintaria e marcenaria; Serralheria e solda; Mecânica de autos e de máquinas (Tornearia, frezagem, furadeiras, limadeiras, etc.), além de desenhos (técnico, arquitetônico, mecânico, artístico - com Moacir Andrade).
Para mim, que era oriundo do campo, achava eu, seria melhor me dedicar à agricultura e pecuária. Tinha um verdadeiro pavor daquelas oficinas elétricas, mecânicas... Gostava de desenhar.
Os estudos eram extremamente exigentes em matemática, física, resistência dos materiais, etc.
Se praticavam ali também muito esporte, o que para mim se assemelhava à EIS, aonde somente teria tido mais um ano, o quinto, pois ali não havia o curso ginasial (a segunda metade do hoje fundamental).
O bom das práticas industriais era que podíamos vender as peças produzidas e assim conseguir alguns trocados. Fazia isso com piões feitos nos tornos de marcenaria, com troncos de goiabeira; com peças de alumínio e de ferro, como batedor de carne, martelos, etc. Comecei de forma tímida a lidar com essa realidade e acabei por gostar disso. Me adaptei rápido. Passei mesmo a me sentir gratificado com os progressos que fazia nesse tipo de estudo e comecei a vislumbrar ali um futuro promissor.
Aprendi Ciência dentro do laboratório! O professor apresentava o "case" no carderno de Ciência e nós, os alunos, fazíamos os experimentos e descrevendo os resultados ali, na hora, explicando o que acontecia, fosse de química, física ou biologia. Assim não há quem não aprenda, não é mesmo? Fui um privilegiado, não resta dúvida. Isso é que os governos deveriam fazer: colocar um pequeno laboratório de Ciência dentro de cada escola.
Assim, ao término dos qutro anos do ginásio industrial na Etfam - que foi acabando essa modalidade de ensino justamente no ano em que ingressei -, estava apto a exercer uma penca de profissões...
Tive também a felicidade de ter sido avaliado como o melhor aluno desses quatro anos e recebi uma caneta Cross dourada. O segundo colocado foi o Samuel Câmara, hoje pastor da Boas Novas Assembléia de Deus, com quem tive meus primeiros contatos com a Igreja Evangélica e cheguei a visitar a sua igreja.

Minha vida - Parte II (Manaus-Careiro, 1960-67)

Em 1960,  meu pai convenceu minha mãe em vender a herdade de seus país e se mudar para Manaus. Meus 5 tios - Maria (que vivia em Porto Velho), Edgar (Déga), Antonio, Alice e Waldemar - eram todos contra, mas afinal "cederam à pressão" e cada um recebeu sua parte. Morar em Manaus era e ainda é o sonho de todo interiorano desavisado. Na capital não se vive como no interior. Este é esquecido pelas autoridades, mas pelo menos lá não se passa fome e nem chegam os tributos (?), os  aluguéis, as contas de água e luz. Tem ITR, mas "é pouquinho" (?!). Tem essa "vantagem", o que, na maioria dos casos, não é pouca. E ainda se pode comer da terra, que tudo dava.
Já em Manaus, onde chegamos sem a menor ideia do que iríamos encontrar e de como iríamos viver, meus tios encontraram perto de onde moravam, e de onde eu tinha nascido, uma casinha de dois pisos feita de madeira e coberta de palha - na época quase uma unanimidade. Eram os ricos que podiam ter suas casas cobertas de telha, ou zinco, ou alumínio. A casa ficava, na verdade, em um "buraco" da rua de Jônathas Pedrosa (onde hoje está chegando o Prosamin), entre a rua de Ramos Ferreia e a rua Ipixuna (na verdade um "buraco" nessas imediações). Como não havia lenha, usávamos carvão. Nessa época o carvão era vendido medido em latas de querosene, em quiosques exclusivos para isso. Nessa época estava chegando em Manaus uma grande novidade que era o fogão a querosene. Marca "Jacaré". Compramos um. Aos poucos o carvão foi sendo substituído pelo quersosene e pelo gás GLP, outra novidade. Naqueles tempos até o ferro de engomar (passar) roupa era a carvão. Somente "ricos" podiam ter fogão a gás e ferro elétrico, além de geladeira.
A nossa cama era de madeira com colchão de capim, que quando ficava velho soltava uma poeira infernal. Não sei se ácaro sobrevibia nesse ambiente. Mas com certeza minha rino-cinusite se estabeleceu definitivamente. Até hoje é minha companheira inseparável. Não tem cura, apenas controle. Portanto, há tempos sofro de uma doença incurável.
Com a constante ausência de nosso pai-artista-da-viola, mais conhecido como "Estrela-do-Norte", "vivíamos", eu e meu irmão, na casa de nossa tia Alice (onde eu nasci), onde brincávamos com nossos primos Heriberto James, Herivelton Jansen e Lady Elaine (todos com nomes artísticos de cinema, aos quais depois se somariam Lilibeth Audrey, Lislie Ellen, Herbert, Hudson e... ). De minha tia Alice - um misto de tia e segunda mãe, principalmente para mim -, era de onde levávamos todos os dias sopa e pão a fim de saciar a fome. Em Manaus tudo era comprado, aprendemos rapidinho. Próximo de casa havia muitas mangueiras e nos aventurávamos a colher algumas pelo chão, quase sempre tendo de correr com medo de tiros. Até hoje não sei se fictícios ou reais, pois quando os outros meninos gritavam "corre que o Adelino vem aí", não ficava ninguém para dizer quem e como era esse "Adelino". Acho que um dia vi sua sombra entre as árvores da encosta do "buraco", na subida da rua Jônathas Pedrosa para a rua Visconde de Porto Alegre.
A solidariedade entre os vizinhos também era coisa muito comum. Havia solidariedade entre os pobres de então. Acho que hoje não há mais. Os pobres dividiam o que tinham entre si, de forma que aprendi uma importante lição: a da gratidão para com aqueles que nos ajudam.
Com sete anos de idade, não sei como aprendi, mas já sabia "ler", pois amava os gibis que conseguia comprar e depois trocar nas sessões de cinema no Oratório Domingos Sávio, onde jogava futebol todos os dias, manhã, tarde e noite. Até aprender. E muito bem. Era tempos de Pelé, Garrincha, Didi, Vavá. Brasil Bi-campeão do mundo de futebol! Não sabia empinar pipa, pois me enrolava todo com linha, rabiola, falta de vento, "papagaio cangula" (pipa malfeita), goma, serol, essas coisas. Como vingança às vezes puía com os dentes, de leve, a linha dos "meninos malvados", para ver suas pipas "quedar". Me divertia com isso. Hoje me arrependo um pouquinho. Eu não fazia mal a quase ninguém.
Nesse tempo, "estudei" em vários colégios próximos, mas não tinha progresso nenhum nos estudos, acostumado que estava ainda com a vida no campo, cuja saudade era mais forte que tudo.
Nossa "casa" em Manaus foi sendo "destiorada" até ao ponto em que meu pai resolveu vendê-la com a família dentro - alcoolismo é uma desgraça! Recebeu metade do valor, que dilapidou com bebidas e mulheres, que lhe furtaram o restante - acho que já nesse tempo existia o golpe "boa noite cinderela", rupinol, essas coisas -, e a outra metade foi dividida em 12 parcelas. Terminadas essas parcelas, ficamos sem "casa", ou o que restou dela. Chovia mais dentro do que fora. Fomos morar de favor lá pelas bandas do Japiim, que nessa época não tinha nenhuma urbanização. Era apenas "mato". Tínhamos de andar a pé margeando igarapés ali por onde hoje fica a Nilton Lins e a Unisol, na rua Tefé. Ficava muito longe da casa de  minha tia e assim "perdemos", ou quase perdemos a ajuda dela.
Minha mãe então apelou para um amigo comum de meu pai - o "Estrela-do-Norte", lembram? - o qual amigo tinha uma fazenda no paraná do Cambixe, no Careiro, que fica bem próximo à sede, a Vila Velha.
Assim, em 1964 voltamos ao Careiro. Agora como caseiros da fazenda do Sr. Adalto Leite, cuja família era grande e abastada, sendo um de seus membros meu padrinho de batismo, o Sr. Oscar Leite, de terna e grata memória para mim, pois era em sua fazenda, que ficava no baixo Cambixe, onde passava tempos, sob os cuidados maternais de minha madrinha Ana e de meu padrinho Oscar, que dispensavam a mim um carinho enorme e me davam muitos presentes, principalmente roupas. E onde me aventurei pela primeira vez a montar cavalos e tocar bois no campo. De madrugada ia ao curral para apreciar os vaqueiros tirar leite das vacas. Tentava aprender. Sempre fui muito curioso. Ia também pescar no lago dos Reis com os filhos do meu padrinho, que me tratavam como membro da família, mas me aprontavam medos terríveis, tal como alagar a canoa bem no meio daquele imesno lago, fazendo "guerra-de-peixe" (uns jogando peixes nos outros). A profundidade do lago, todavia, não passava de 1,5 metro, mas era para mim um oceano fundíssimo, abissal. Á noite ouvir Pedrito y su ritmo na vitrola. Sou muito grato a Deus por essas doces lembranças.
No comércio dos Canafés próximo, na verdade um flutuante (casa sobre troncos dentro d´água), uma das irmãs de meu padrinho Oscar, a Preta - cujo ditado popular "fala mais do que a Preta-doLeite" se tornou lendário em razão de sua prosa infindável, virando sinônimo de mulher faladeira, conhecido em muitos lugares do Estado do Amazonas. A Dona Preta também me dava tratamento carinhoso, e ali aprendi a fabricação de queijo, manteiga e vivia meu pai bebendo até... ficar bêbado, mas ele gostava de me apresentar como o seu filho predileto e inteligente. Gostava apenas desta parte, pois não me sentia honrado em ser filho predileto de um bêbado. Contudo, amava meu pai a ponto de ter morriddo um pouco com ele, cuja lembrança me leva às lágimas, como neste exato momentto em que escrevo... O câncer lhe comeu as entranhas entre 1972-77, Deus do céu!
Ia para o baixo Cambixe justamente em busca de meu pai, a quem encontrava invariavelmente bêbado, para minha vergonha. Mas menino tem uma capacidade de amar sem limite, como Jesus afirmou. Amava meu pai mais que tudo. Admirava seu canto, sua inteligência com as rimas, sua haibilidade com a viola. Mas não lhe dirigia nenhum admiração visível, pois associava a sua arte à sua bebida, que o afastava de nós. Pouco vivia com ele em "nossa" casa. Afinal, essa é a sina de todo filho de "artista", como ele gostava de se intular. Dizia mesmo que foi amigo de Gonzagão, do que nunca duvidei. Gonzagão teve mais sorte na vida no Rio de Janeiro.
De lá do baixo Cambixe voltava para a fazenda de Adalto Leite na "boca do Cambixe", levando algum dinheiro e "rancho" que meu pai mandava para minha mãe. Mas ele mesmo não voltava para casa. Ele morava no mundo e passeava em casa.
Na fazenda de Adalto Leite, eu, meus irmãos e minha mãe fazíamos de tudo para que ele não nos mandasse embora dali pela "falta do caseiro". Adalto mesmo gostava muito de meu pai e o tolerava muito pela admiração que tinha pela sua arte. Chegou e fazer cantoria na fazenda, como se fosse um "convidado" e não o seu caseiro - que na verdade nunca foi. Nós, seus filhos, é que servíamos como peões e zeladores da fazenda, de cuja casa, de tão grande, nos servíamos apenas de um de seus inúmeros quartos para morar.
Lembro das vaquejadas, dos transbordos de gado do barco para os campos e vice-versa, pois a fazenda servia apenas como "engorda" para o gado que seria vendido em Manaus, para abate. O gado "de leite" era apenas para manutenção da fazenda. Em volta da casa grande havia muitas fruteiras.
Contudo, aos 13 anos, em 1967, resolvi de minha própria vontade, sem considerar a opinião de meu pai ausente - que podia se tornar violento quando bêbado -, morar em Manaus com minha tia Alice. Assim fiz. Deixei minha mãe e meus irmãos no Cambixe e fui novamente aventurar a vida em Manaus, a fim de, quem sabe, estudar e "ser alguém na vida". Analfabeto, ou semi, cheguei na casa de minha tia, qua nessa época morava na rua de Visconde de Porto Alegre, sempre próximo de onde nasci. Desta vez, porém, minha tia Alice me instou a "estudar mesmo" ou então retornaria para o Careiro. Isso me fez pensar seriamente em estudar, porque, apesar de não considerar a "volta para o Careiro" uma penalidade em si, considerava que ali não teria nenhum futuro melhor do que tinha qualquer vaqueiro: deixar esgotar as forças em um trabalho árduo e morrer como indigente. Isso não queria.
Minha tia pagou então para eu estudar por dois anos, 1967 e 1968, na Escola Industrial Salesiana Domingos Sávio, próximo de onde morávamos, tendo a mesma professora da manhã, Terezinha Hage Cavalcante - amiga de minha prima Maria Emília -, como professora de "aula-de-reforço", à tarde. Pela primeira vez na vida compreendi o quanto os estudos podiam ser penosos e gratificantes ao mesmo tempo. Não desperdicei mais nenhuma chance de aprender. Até hoje aprendo. Jamais deixarei de aprender. O que mais me faz querer ser salvo por Cristo é ter uma vida eterna para aprender. Sou egoísta! Aliás, Adão, nosso primeiro pai, caiu por que queria aprender o que não devia...
Estes escritos são muito mais uma homenagem a essas pessoas do que simplesmente um desejo narcisista de deixar impressa minha vida para os pósteros.
No próximo post tratarei de minha vida acadêmica, como aluno da EIS, da Etfam e da UA (hoje Ufam).

Minha vida - Parte I (Careiro, 1954-1960)

Nasci em Manaus em 30.07.1954, na rua de Ramos Ferreira, entre as ruas de Jônthas Pedrosa e de Visconde de Porto Alegre.
Na verdade, a família de minha mãe era do Careiro (da várzea, pois o do "Castanho" ainda não existia). Essa família se constituía de dois troncos da família Pinheiro, uma oriunda de Crato, no Ceará (dos meus avós maternos, Guilherme e Maria), e outra oriunda de Granito (de meu pai e avós paternos). Meu pai se chamava Waldetário Pinheiro de Almeida e minha mãe Alzira Pinheiro de Almeida. Aliás, meu pai se apresentava com dois nomes: um quando estava sóbrio, e outro, Walter Dário, quando estava "trêbado". Em razão de ter provalvemente abandonado a servidão dos seringais como "soldado" da borracha, aí por volta de 1942-45.
Meu pai, portanto, tenha o nome que tiver, veio para o Amazonas em 1941 como "soldado da borracha" e foi direto para os seringais do Purús, Acre, Boca do Acre, saindo de lá possivelmente em fuga do sistema servil a que fora submetido, ou seja, como desertor do exército. Ao chegar no Careiro da Várzea, conheceu minha mãe e com ela se casou. Ambos tinham 33 anos de idade.
Meu nascimento em Manaus foi fruto da enchente de 1953, uma das maiores de todos os tempos. Minha mãe foi a Manaus para ficar em casa de minha tia Alice Pinheiro Bastos, onde nasci. Portanto, sou manauara graças a um evento cíclico da natureza. Tanto é que logo após as águas baixarem minha mãe retornou comigo para o Careiro, onde vivia no sítio herdado de meus avós - uma estreita faixa de terra de cerca de 150m de frente que se estendia até ao lago dos Reis, ao fundo. Portanto, a minha memória mais antiga é referente à vida de criança que levava nesse paraíso da várzea, juntamente com meu irmão Renato, nascido em 1956.
A fertilidade de suas terras de várzea e de seus lagos, proporcionavam momentos indizíveis na minha vida e do meu irmão, na verdade de qualquer ser humano que tenha o privilégio de viver imerso em um ambiente pródigo em fauna e flora de rara belezas, ao mesmo tempo um ambiente desafiador pela completa ausência de elementos do Estado, onde o caboclo vivia sua vida como que "esquecido de Deus e dos homens". Ali não se conhecia dinheiro, pois as trocas de produtos por produtos era rotina natural, o velho escambo, com valores nem sempre justos.
A caça e a pesca eram atividades "obrigatórias", assim como a criação de animais como bois, porcos, galinhas, ovelhas, cabras e outros. Também se plantava de tudo o que da terra se podia colher - e a terra ali dava de tudo!
Meu pai, oriundo do Nordeste, do sertão onde Pernambuco e Ceará se encontram, na serra do Araripe, entre Crato-CE e Granito-PE, onde a água desaparece como que por encanto, que meu pai tinha de ir em sua busca por léguas em lombo de jumento, se maravilhava com tanta água e terra fértil aqui no Amazonas. Ele era violeiro, ourives, carpinteiro, dentre outras artes que dominava, e também sabia cultivar a terra com esmero, da qual extraía de tudo: tomate, pimentão, cebolinha, couve, pepino, limão, batata, macacheira (aipim), mandioca, farinha, feijão de metro, além de frutas como manga, abacate, melancia, melão, etc., produtos esses que "vendia" por quase nada ao atravessador que passava de madrugada de porto em porto recoclhendo os produtos para revender em Manaus por preço absurdamente alto, como até hoje acontece.
Portanto, meu pai, que fugira do seringal em razão da servidão a que fora submetido, via que outra servidão lhe reservara a falta de apoio a atividades como a agricultura, por parte do governo amazonense, como até hoje se verifica, como se fosse uma determinação atávica e insuperável. Mesmo  após  a criação pelo governador Plínio Coelho, nos anos de 1955-59, das empresas amazonenses "Trasnportamazon", "Alimentamazon", "Celetramazon", dentre outras, para dar suporte às atividades do interior, tirando o Amazonas do estado de "porto-de-lenha" em que se encontrava. Assim, meu pai preferia ganhar a vida como "cantador" nas noites das fazendas, e como ourives, de dia, ao longo dos paranás e rios do Careiro e arredores como Autazes, Varre Vento, Terra Nova, Anveres, Janauacá, Manaquiri, etc., em longas jornadas de 3 meses, voltando ao final para casa, por poucos dias, e retornando a suas "turnês artísticas", tornando a sua viola em instrumento inseparável, com o qual acompanhava o canto dos cordéis, dos "desafios", dos "martelos" e dos "galopes". Infelizmente, bebia muito. Cachaça. Por isso não me dediquei, infelizmente, a aprender a tocar viola e cantar, cujo dom me era dadivosamente também estendido por Deus. Meu filho André hoje faz as honras da casa levando sua arte aos salões sacros da Igreja Adventista, para honra e glória de Deus.
Infelizmente, minha mãe acabou por aceitar a sugestão de meu pai e vender o sítio do Careiro e se transferir para Manaus, ficando apenas com um sexto do valor, o que se deu em 1960, quando a família já contava com 5 membros: eu, pai, mãe e dois irmãos - Renato, que nasceu em 1956, e minha irmã Jânia (em homenagem ao presidente Jânio Quadros), nascida justamente em 1960.
No próximo post tratarei de minha vida, dos 6 aos 10 anos, em Manaus.


28 novembro 2012

Lula: "o Bebum de Rosemary"

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Publicado no blog de Augusto Nunes (Veja.com)

Charge de Sponholz fornece o título que faltava para a chanchada pornopolítica

A versão brasileira do grande filme de Roman Polansky tem tudo para transformar-se num clássico da chanchada pornopolítica. O título provisório ─ “Os bebês de Rosemary” ─ tropeçava num problema: inspirado nos irmãos Paulo Vieira e Rubens Vieira, homenageava dois gatunos que, embora desempenhem papéis que qualquer ator talentoso cobiçaria, não são os protagonistas da história.
A grande charge de Sponholz liquidou o assunto. A versão brasileira de “O Bebê de Rosemary” já tem título definitivo.

27 novembro 2012

A fábula do partido que criou a “Carteirinha Corrupção”

Este texto do Reinaldo Azevedo é daqueles impossíveis de não se gostar. Leiam:

O PTT, num país chamado Banânia, criou a Carteirinha Corrupção!

Os meus leitores sabem do apreço que tenho por Robert Musil e por “O Homem Sem Qualidades”. Os eventos — ou não eventos — que ele narra se passam num país chamado Kakânia.
Kakânia é um lugar imaginário em que a corrupção, quando há, se dá na esfera das vontades; as covardias, nunca grandes demais, se revelam na área do intelecto; a decadência, inexorável, é a da inteligência. As pusilanimidades são quase existenciais, traduzidas por suspiros, nunca por estrondos (esse contraste já é um clichê, mas não resisti).
Falta a Kakânia a exuberância tropical. Não socorrem aquele país os pistoleiros do sangue quente que estão abaixo da linha do Equador, onde só há perdão, nunca pecado. Kakânia não conhece as graças bonachonas e incivilizadas do “homem cordial”. Kakânia não tem nem mesmo o hábito de punir os santos, como se faz, dizem, em certo país ignoto, de que falarei. E é punição preventiva, com características de chantagem e tortura! Põe-se, por exemplo, a imagem do santinho de ponta-cabeça, às vezes mergulhado num copo d’água. Se ele quiser sair daquela situação difícil, que trate de realizar o desejo do esperançoso e doce torturador. É a forma que a crença tomou, dizem, em tal terra estranha.
Chamemos aquelas paragens exuberantes, em homenagem a Musil, de Banânia. Pronto! Em Banânia, os amores e os ódios estão sempre à flor da pele. Banânia não tem ascetas e monges para inspirar uma filosofia da contemplação e da medida; para exaltar as ideias “magras e severas”. Em Banânia, os que pensam a economia do espírito são os sátiros e os beberrões. O direito do outro e o direito dos outros são vistos como censura à liberdade individual e incapacidade para o gozo. Qualquer um, em Banânia, pode ser ruim da cabeça; a única coisa indesculpável é ser doente do pé. Os bananienses são, à sua maneira, fatalistas e acham que não há homem na Terra que resista a certas paixões, como caipirinha (bebida local) e bundalelê (bundalelê local).
A carteirinha
Este país singular, conta-me um nativo, deu à luz uma nova forma de gestão do Estado que é a “Carteirinha Corrupção”. É isto mesmo. Ela é fornecida por um partido político para evitar que os amorosos achacadores, olê, olê, olê, olá, exagerem na cobrança de propina. Eu explico.
Deu-se em Banânia algo realmente notável. Empresas das mais diversas áreas, prestadoras de serviço ou fornecedoras, têm duas tabelas: uma para seus parceiros da própria iniciativa privada e outra para o governo. O Poder Público, em Banânia, costuma contratar serviços por um preço que pode corresponder a cinco vezes o valor de mercado. É que vai embutida, entre outras delicadezas da civilização da cordialidade, a propina que tem de ser paga ao partido (em Banânia, quem dá as cartas é o PTT), ao chefe da área, ao chefão do chefão…
Conta-me um nativo de Banânia que, num desses acertos de conta mensais, o representante do “Sistema” afirmou que o valor que estava na maleta já não era mais suficiente; doravante, teria de ser o dobro. O pagador se espantou e resolveu subir a escala hierárquica para reclamar: “Como pode? Assim o negócio fica inviável!”.
Recebeu, então, uma “carteirinha” — a “Carteirinha Propina”. Foi informado de que o documento o protegia de achacadores fora do controle, entenderam? Aquele documento deixaria claro que ele já era um “colaborador” e que nada de extra lhe poderia ser, então, exigido.
Banânia, vejam vocês, é, então, este país encantador, notório por sua aversão à institucionalização de procedimentos; conhecido por sua hostilidade a um estado impessoal, que fosse gerido por um burocracia regular, estatutária, avessa a arranjos e jeitinhos. Ao contrário: esse país gosta da informalidade e considera que a rigidez legal é coisa de povos tristes, que ainda não se deixaram amolecer pelos trópicos. E é justamente essa Banânia a ter esses caprichos, não é?, que resultam na formalização da corrupção e da propina. É, assim, como se fosse um passe-livre fornecido por um comando militar em tempos de guerra, que dá ao portador o direito de ir e vir sem ser importunado pela soldadesca de mais baixa estirpe.
Isso acontece em Banânia, conta-me o nativo da terra. Ele me disse que o tal PTT sempre considerou que faltava à economia de mercado a devida dimensão ética, que consiste, ele entende agora, não na criação de uma ética do mercado, mas de um mercado da ética.
Eu fiquei espantadíssimo com os sucessos de Banânia. E mais espantado fiquei quando ele me contou que se descobriu que uma quadrilha operava no coração do próprio governo. “Mas a imprensa no seu país, ao menos, é livre, né?”, indaguei. Ele me disse que sim. “Que bom! Ao menos isso!” Mas aí ele emendou: “É livre, sim! E boa parte dela está aplaudindo o governo que nomeou a quadrilha por sua suposta coragem de demiti-la”.
Olhei com tristeza e até com compaixão meu amigo de Banânia!

23 novembro 2012

Lula e o seu desprezo pelo Congresso: ‘Missão cumprida’, por Dora Kramer


PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA
DORA KRAMER
O desrespeito do cidadão Luiz Inácio da Silva pelo Congresso ficou conhecido quando qualificou a Casa como reduto de “300 picaretas”. Faz quase 20 anos.
Sua indiferença pelo Legislativo já ficara patente na atuação displicente e inexpressiva passagem como deputado constituinte.
Quando Lula ganhou a eleição para presidente, logo ficou claro que além do desdém havia o intento de investir na desqualificação do Parlamento. Fazê-lo servil, enquadrá-lo de vez ao molde da presumida vigarice.
Não é conjectura, é fato: foi a partir de 2003 que o chamado baixo clero passou a assumir posição de destaque, a dominar os postos importantes, a assumir posições estratégicas.
Era uma massa até então quase incógnita, em sua maioria bastante maleável às investidas do Executivo e disposta a fazer do mandato um negócio lucrativo.
Note-se que na época o encarregado de fazer a “ponte” entre o Parlamento e o Planalto era ninguém menos que Waldomiro Diniz, o braço direito de José Dirceu na Casa Civil, cujos métodos ficariam conhecidos quando apareceu um vídeo onde extorquia o bicheiro Carlos Cachoeira.
A maneira como seria tratado o Congresso era perceptível no tom das lideranças petistas recentemente investidas no poder, quando a conversa era a formação da base governista.
Não se falava em compra financeira de apoio tal como se viu depois quando Roberto Jefferson rompeu a lei da Omertà e denunciou o mensalão, mas se dizia abertamente que a cooptação seria fácil agora que estavam na posse do aparelho de Estado.
Uma das consequências dessa inflexão ladeira abaixo foi o isolamento gradativo e por vezes voluntário, de deputados e senadores de boa biografia, com nome a zelar e atuação legislativa relevante.
Ao longo dos dois mandatos de Lula o Parlamento “caiu” na mesma proporção em que a figura do presidente se sobressaiu, em franca evidência de desequilíbrio entre Poderes.
Com o patrocínio da CPI que se encerra em grau inédito de desmoralização, cujo sentido vexativo não será eliminado com um remendo no relatório final, o ex-presidente conseguiu completar sua obra e cumprir o vaticínio sobre os “300 picaretas”.
Não que não existam. Existem e pela degeneração do desempenho é possível que seja esse o número aproximado. Mas o Congresso não é só isso e disso dá notícia outra época em que ali a regra era a atividade política. As transações condenáveis se não chegavam a ser exceção, ao menos ficavam relegadas a um segundo plano.
Embora quem não acompanhe de perto o Parlamento seja cético quanto a isso, as coisas por lá já foram muito diferentes. E se foram melhores podem voltar a ser.
Cabe ao Poder Legislativo compreender a gravidade da derrocada nesse poço que parece não ter fundo, reunir as parcas forças ali ainda existentes e de alguma maneira reagir para o bem da saúde democrática.
Supremacia. Consistente, firme, autônomo, convicto de seus valores. Assim pareceu o novo presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, em seu discurso sem enfeites.
Defendeu uma Justiça que não tarde, não falhe e preserve a independência do juiz. Assim como ele.
Celebrá-lo pelo quesito cor da pele é olhar só a parte de fora de uma obra sólida.
Desfeita. Se com o semblante fechado a presidente Dilma Rousseff quis demonstrar contrariedade em relação ao ministro Joaquim Barbosa, conseguiu destacar-se pela deselegância em momento de homenagem.
Queira o bom senso que a presidente não tenha escolhido a fisionomia zangada pelo mesmo critério que o deputado Odair Cunha escolheu os indiciados no relatório da CPI: para dar uma satisfação a Lula.

19 novembro 2012

MEC: um dia "nós pega os peixe"...

Leiam o que informa a VEJA Online:
As metas para o ensino médio brasileiro em 2012 não foram alcançadas, revela relatório do Ministério da Educação publicado nesta segunda-feira no Diário Oficial da União. Tanto o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) como a taxa de frequência escolar para esse ciclo do ensino ficaram aquém do esperado pelo governo. 
A avaliação de desempenho é referente ao período de 1º de novembro de 2011 a 31 de outubro de 2012. Em uma escala de 1 a 10, o governo estabeleceu que o ensino médio brasileiro deveria atingir 3,8 pontos no Ideb, que combina o desempenho em exames nacionais com a taxa de reprovação. Contudo, a nota obtida foi 3,7 pontos.
Também nas séries finais do ensino fundamental (5º a 9º ano), o desempenho ficou ligeiramente abaixo do estabelecido pelo MEC, 4,1 pontos, sendo que o esperado era 4,2 pontos. A única etapa que superou as expectativas foram as séries iniciais do ensino fundamental (1º a 4º ano): nota 5 pontos, ante os 4,8 pontos esperados.
No quesito frequência escolar, as metas para o ensino médio também não foram atingidas, aponta o balando do MEC. Para o período analisado, esperava-se que 86% dos jovens entre 15 e 17 anos estivessem na escola, mas apenas 83,7% estavam matriculados em uma instituição de ensino no período analisado. 
Já a taxa de frequência das outras etapas da educação básica evoluíram dentro do esperado. Atualmente, 20,8% das crianças entre 0 e 3 anos estão matriculadas em creches, superando os objetivos para este ano (20%). A pré-escola abriga 77,4% das crianças entre 4 e 5 anos (a meta era de 76%) e o ensino fundamental está perto da universalização, abrigando 98,2% dos brasileiros entre 6 e 14 anos (a meta era de 98%). 
No ensino superior, as duas metas estabelecidas pelo MEC foram cumpridas. A primeira delas previa um crescimento de 2% das matrículas. De acordo com dados do último censo, esse crescimento ultrapassou os 6%. A pasta do ministro Aloizio Mercadante previa ainda a publicação de 3.000 atos regulatórios e de supervisão dos cursos superiores. O balanço desta segunda-feira aponta que foram mais de 6.000. 
Já os objetivos para o ensino técnico foram negligenciadas. O principal deles previa abertura de 108 novas unidades dos institutos de educação tecnológica e profissional, vinculadas aos Institutos de Educação, Ciência e Tecnologia (Ifes). No entanto, foram abertas de fato apenas 30 unidades.

16 novembro 2012

MENSALÃO: “Querer evitar a prisão de políticos poderosos e banqueiros pretextando a péssima situação do sistema carcerário é debochar da opinião pública”

Alguém já disse que o PT começou com "presos políticos" e vai terminar com "políticos presos". Será por isso que está tão preocupado agora com o estado dos presídios nacionais? Não contavam com a condenação! Devem agora começar a construir cadeias dignas de sua cúpula partidária.
Vejam o que disse Merval Pereira:

Celso de Mello: "Superlotação na delegacia do município de Serra, no Espírito Santo, transformada em cadeia" (Foto: Claudio Gatti)
Superlotação na delegacia de Serra (ES), transformada em cadeia. Para Celso de Mello, o no sistema prisional brasileiro "é um depósito de presos, pessoas abandonadas à própria sorte por irresponsabilidade do poder público" (Foto: Claudio Gatti)

FUGINDO DA CADEIA

Por Merval Pereira, em O Globo

É meio vergonhoso para o PT, há dez anos no poder, que a situação desumana de nosso sistema penitenciário vire tema de debate só agora que líderes petistas estão sendo condenados a penas que implicam necessariamente regime fechado.
Chega a ser patético que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, no final das contas responsável pelo monitoramento das condições em que as penas são cumpridas, diga em público que preferiria morrer caso fosse condenado a muitos anos de prisão.
Dois anos no cargo, e o ministro só se mobiliza para pôr a situação das prisões brasileiras em discussão no momento em que companheiros seus de partido são condenados a sentir na própria pele as situações degradantes a que presos comuns estão expostos há muitos e muitos anos, os dez últimos sob o comando do PT.
Também o ministro revisor Ricardo Lewandowski apressou-se a anunciar que muito provavelmente o ex-presidente do PT José Genoino vai cumprir sua pena em prisão domiciliar porque não há vagas nos estabelecimentos penais apropriados para reclusões em regime semiaberto.
Ministro José Eduardo Cardozo: declaração patética para quem deveria monitorar as condições em que as penas são cumpridas (Foto: Wilson Dias / Agência Brasil)
Para culminar, vem Dias Toffoli defender que as condenações restritivas da liberdade sejam trocadas por penas alternativas e multas em dinheiro. Tudo parece compor um quadro conspiratório para tentar evitar que os condenados pelo mensalão acabem indo para a cadeia, última barreira a ser superada para que a impunidade que vigora para crimes cometidos por poderosos e ricos deixe de ser a regra.
Dias Toffolli, para justificar sua tentativa de tirar da cadeia os petistas condenados, defendeu a tese de que eram meros assaltantes dos cofres públicos, sem objetivos políticos: “Os réus cometeram desvios com intuito financeiro, não atentaram contra a democracia, que é mais sólida que tudo isso! Era o vil metal. Que se pague com o vil metal.”
Luiz Fux chegou a lembrar que apenas o Congresso pode mudar o Código Penal, que no momento estipula penas restritivas de liberdade para o tipo de crime que está sendo julgado.
Gilmar Mendes, que, quando foi presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), comandou mutirão nacional para regularizar a situação de condenados em situação irregular nas cadeias depois de cumpridas as penas, lamentou que o ministro da Justiça tivesse falado só agora, “já que esse tema é conhecido desde sempre e é muito sério”.
Ele não esqueceu a culpa da própria Justiça, que “não consegue julgar no tempo adequado estas questões”, mas ressaltou que “há uma grande responsabilidade de todos os governos se aí não há recursos para fazer presídios”.
O decano do Supremo, Celso de Mello, foi objetivo sobre “a grande a responsabilidade do Ministério da Justiça”, lembrando que um dos órgãos mais expressivos na estrutura penitenciária é o Departamento Penitenciário Nacional, ao qual cabe acompanhar as normas de execução penal em todo o território nacional, fiscalizar periodicamente o sistema prisional.
“O que temos visto no sistema prisional brasileiro é um depósito de presos, pessoas abandonadas à própria sorte por irresponsabilidade do poder público. É importante que o ministro tenha feito essa observação de maneira muito cândida, mas é preciso que o poder público exerça a parte executiva, sob pena de se frustrar a finalidade para a qual a pena foi concebida”, ressaltou Celso de Mello.
Para o decano da Corte, a prática da lei de execução penal “tornou-se um exercício irresponsável de ficção jurídica, uma vez que o Estado mantém-se desinteressado desta fase delicadíssima de implantação das sanções penais proclamadas pelo Poder Judiciário”.
E lembrou que um artigo da Lei de Execução Penal determina que a pena deve ser cumprida em um local com dormitório, aparelho sanitário e lavatório, salubridade do ambiente, área mínima de seis metros quadrados. E o que se tem em realidade é um “inferno carcerário”.
Querer evitar a prisão de políticos poderosos e banqueiros pretextando a péssima situação de nosso sistema carcerário é debochar da opinião pública, menosprezar os que já estão vivendo essa situação degradante e não encarar um problema gravíssimo que exige política de governo em vez de uma esdrúxula campanha.

15 novembro 2012

Más notícias: governo usa a Petrobras para segurar a inflação, empresa não cumpre metas — e o país voltará a importar petróleo em 2013

Publicado no blog de Ricardo Setti (Veja.com):

EQUAÇÃO NEGATIVA -- Plataforma da Petrobrás na Bacia de Campos: a eficiência operacional caiu e equipamentos foram entregues com atraso, impedindo a prospecção de novos poços (Foto: Bruno Domingos / Reuters)
EQUAÇÃO NEGATIVA -- Plataforma da Petrobrás na Bacia de Campos: a eficiência operacional caiu, equipamentos foram entregues com atraso, impedindo a prospecção de novos poços, e a meritocracia entre funcionários cedeu lugar a exigências sindicais (Foto: Bruno 
Domingos / Reuters)

Matéria de Helena Borges, com reportagem de Marcelo Sakate, publicada em edição impressa de VEJA

 O ENROSCO DO SUBSÍDIO
Dilma manda a Petrobras segurar o preço dos combustíveis para conter a inflação, mas isso debilita a empresa e mata a autossuficiência
Foi bom enquanto durou. No próximo ano, o Brasil voltará a ser dependente da importação de petróleo. Adeus, autossuficiência, celebrada com fervor nacionalista em 2006, quando o país passou a produzir mais petróleo do que consumia.
O então presidente Lula deu contornos épicos ao feito, que comparou à “segunda independência do Brasil”. A propaganda escondia que a conquista da autossuficiência ainda deixava um déficit na conta externa de energia, pois o Brasil continuaria a vender petróleo cru e a importar gasolina e diesel.
Porém, apesar do saldo externo negativo, produzir tanto petróleo internamente ajudou a diminuir a vulnerabilidade da economia a choques externos, como os catastróficos eventos das décadas de 70 e 80, quando a produção brasileira de petróleo totalizava menos de um décimo da atual. Voltar a ser dependente da importação é, portanto, uma má notícia.
Um estudo inédito do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), obtido com exclusividade por VEJA, mostra que, já em 2013, o Brasil estará consumindo mais óleo do que será capaz de produzir. Se teve seus méritos na conquista da autossuficiência, o governo também é culpado pela perda desse privilégio.
Feitiçarias heterodoxas
Por duas razões: a primeira foi forçar a Petrobras a subsidiar o preço ao consumidor da gasolina e do diesel, mantendo-o estável mesmo com o aumento do custo internacional do petróleo; a segunda foi incentivar a venda de carros novos com crédito farto e corte de impostos, o que aumentou a frota nacional e, claro, o consumo.
Essas feitiçarias heterodoxas têm efeitos imprevisíveis. Ao proibir a Petrobras de repassar os aumentos ao preço do petróleo, o governo conseguiu impedir um acréscimo médio de cerca de 0,4 ponto porcentual no índice de inflação, que já está bem acima da meta de 4,5% estipulada para 2012.
Mas, ao bancar o subsídio, que só neste ano já provocou um prejuízo de 12,8 bilhões de reais, a Petrobras perdeu sua capacidade de investimento, não modernizou os poços já produtivos, interrompeu a prospecção de novas jazidas e atrasou a extração da riqueza do óleo de grande profundidade, o pré-sal.
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Dilema que não tem solução fácil nem indolor
Como despiu um santo para vestir outro, a presidente Dilma Rousseff se encontra agora em um dilema severo. Se desafogar o caixa da Petrobras autorizando o repasse dos preços externos, a inflação subirá mais rapidamente.
Se mantiver a política de subsídio pela companhia, vai se arriscar não apenas a perder a autossuficiência como a entrevar irreparavelmente a empresa que é orgulho nacional, o retrato a óleo do Brasil emoldurado pelos sonhos de grandeza de tantas gerações. Esse dilema não tem solução fácil nem indolor. É uma daquelas situações em que as opções são perder ou perder.

12 novembro 2012

Marco Antonio Villa: Lula é um Pedro Malasartes da República em frangalhos

(Publicado no blog de Augusto Nunes (Veja.com)

Gerado pela cultura popular da Península Ibérica, Pedro Malasartes transformou-se, em sua versão brasileira, num matuto espertalhão, que coleciona embustes amparado na astúcia, no cinismo, na falta de escrúpulos e na ausência de remorsos. Um Lula, constatou  o historiador Marco Antonio Villa no artigo “Tempos sombrios, tempos petistas”, publicado no Estadão deste domingo. Mais uma leitura indispensável. (AN)
Luiz Inácio Lula da Silva está calado. O que é bom, muito bom. Não mais repetiu que o mensalão foi uma farsa. Também, pudera, após mais de três meses de julgamento público, transmitido pela televisão, com ampla cobertura da imprensa, mais de 50 mil páginas do processo armazenadas em 225 volumes e a condenação de 25 réus, continuar negando a existência da “sofisticada organização criminosa”, de acordo com o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, seria o caso de examinar o ex-presidente. Mesmo com a condenação dos seus companheiros ─ um deles, o seu braço direito no governo, José Dirceu, o “capitão do time”, como dizia ─, aparenta certa tranquilidade.
Como disse o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), Lula é “um sujeito safo”. É esperto, sagaz. Conseguiu manter o mandato, em 2005, quando em qualquer país politicamente sério um processo de impeachment deveria ter sido aberto. Foi uma manobra de mestre. Mas nada supera ter passado ao largo da Ação Penal 470, feito digno de um Pedro Malasartes do século 21.
Mas se o silêncio público (momentâneo?) de Lula é sempre bem visto, o mesmo não pode ser dito das articulações que promove nos bastidores. Uma delas foi o conselho para que Dilma Rousseff não comparecesse à posse de Joaquim Barbosa na presidência do STF. Ainda bem que o bom senso vigorou e ela vai ao ato, pois é presidente da República, e não somente dos petistas. O artífice de diversas derrotas petistas na última eleição (Recife, Belo Horizonte e Campinas são apenas alguns exemplos) continua pressionando a presidente pela nomeação de um “ministro companheiro” na vaga aberta pela aposentadoria de Carlos Ayres Brito. E deve, neste caso, ser obedecido.
O ex-presidente quer se vingar do resultado do julgamento do mensalão. Nunca aceitou os limites constitucionais. Considera-se vítima, por incrível que pareça, de uma conspiração organizada por seus adversários. Acha que tribunal é partido político. Declarou recentemente que as urnas teriam inocentado os quadrilheiros. Como se urna fosse toga. Nesse papel tem apoio entusiástico do quarteto petista condenado por corrupção ativa, peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Eles continuam escrevendo, dando entrevistas, participando de festas e eventos públicos, como se nada tivesse acontecido. Ou melhor, como se tivessem sido absolvidos.
O que os petistas chamam de resistência não passa de um movimento orquestrado de escárnio da Justiça. José Dirceu, considerado o chefe da quadrilha por Roberto Gurgel, tem o desplante de querer polemizar com o ministro Joaquim Barbosa, criticando seu trabalho. Como se ele e Barbosa estivessem no mesmo patamar: um não fosse condenado por corrupção ativa (nove vezes) e formação de quadrilha e o outro, o relator do processo e que vai assumir a presidência da Suprema Corte. Pior é que a imprensa cede espaço ao condenado como se ele – vejam a inversão de valores da nossa pobre República ─ fosse uma espécie de reserva moral da Nação. Chegou até a propor o financiamento público de campanha. Mas os petistas já não o tinham adotado?
Outro condenado, João Paulo Cunha, foi recebido com abraços, tapinhas nas costas e declarações de solidariedade pelos colegas na Câmara dos Deputados. Já José Genoino pretende assumir a cadeira de deputado assim que abrir a vaga. E como o que é ruim pode piorar, Marco Maia, presidente da Câmara, afirmou que a perda de mandato dos dois condenados é assunto que deve ser resolvido pela Casa, novamente desprezando a Constituição.
O julgamento do mensalão desnudou o Partido dos Trabalhadores (PT). Sua liderança assaltou o Estado sem pudor. Como propriedade do partido. Sem nenhum subterfúgio. Os petistas poderiam ter feito uma autocrítica diante do resultado do julgamento. Ledo engano. Nada aprenderam, como se fossem os novos Bourbons. Depois de semanas e semanas com o País ouvindo como seus dirigentes se utilizaram dos recursos públicos para fins partidários, na semana que passou Dilma (antes havia se reunido com o criador por três horas) recebeu no Palácio da Alvorada, residência oficial, para um lauto jantar, líderes do PT e do PMDB. A finalidade da reunião era um assunto de Estado? Não. Interessava apenas aos dois partidos. Fizeram uma analise das eleições municipais e traçaram planos para 2014. Ninguém, em sã consciência, é contrário a uma reunião desse tipo. O problema é que foi num prédio público e paga com dinheiro público. Imagine o leitor se tal fato ocorresse nos EUA ou na Europa. Seria um escândalo. Mas na terra descoberta por Cabral, cujas naus, logo vão dizer, tinham a estrela do PT nas velas, tudo pode. E quem protesta não passa de golpista.
Nesta República em frangalhos, resta esperar o resultado final do julgamento do mensalão. As penas devem ser exemplares. É o que o STF está sinalizando na dosimetria do núcleo publicitário. Mas a Corte sabe que não será tarefa nada fácil. O PT já está falando em controle social da mídia, nova denominação da “censura companheira”. Não satisfeito, defende também o controle – observe o leitor que os petistas têm devoção pelo Estado todo-poderoso ─ do Judiciário (qual, para eles, deve ser a referência positiva: Cuba, Camboja ou Coreia do Norte?). Nesse ritmo, não causará estranheza o PT propor que a Praça dos Três Poderes, em Brasília, tenha somente dois edifícios… Afinal, “aquele” terceiro edifício, mais sóbrio, está criando muitos problemas.
O País aguarda o momento da definição das penas do núcleo político, especialmente do quarteto petista. Será um acerto de contas entre o golpismo e o Estado Democrático de Direito. Para o bem do Brasil, os golpistas mensaleiros perderam. Mais que perderam. Foram condenados. E serão presos.

03 novembro 2012

Ministra Eliana Calmon

Vejam uma síntese sobre a minstra Eliana Calmon (ex-presidente do CNJ), em Ricardo Setti (Veja.com):
DIRETO NO FÍGADO: a condenação dos poderosos envolvidos com o mensalão é bom pretexto para lembrar das frases cortantes da “ministra sem papas na língua”, Eliana Calmon

Ministra Eliana Calmon, com sua língua afiada
Ministra Eliana Calmon, a ministra sem papas na língua: trajetória e frases marcantes em dois anos como corregedora do Conselho Nacional de Justiça (Foto: Dedoc / Editora Abril)
Amigas e amigos do blog, as condenações que o Supremo Tribunal Federal vem impondo à quadrilha que comandou e fez operar o escândalo do mensalão fazem surgir no horizonte a perspectiva de que, enfim, figurões da política e do poder possam pagar por seus crimes.
É uma boa hora, então, para relembrar a recente trajetória da ministra do Superior Triubnal de Justiça Eliana Calmon como corregedora do Conselho Nacional de Justiça, cargo cuja função era fiscalizar e propor punições a juízes e tribunais que saíssem da linha.
Ela deixou o posto em setembro, após dois anos de trabalho, de mais de uma centena de juízes punidos e de uma franqueza que teve dois resultados: provocou críticas e boicotes por parte de colegas magistrados, e um grande aplauso da sociedade à “ministra sem papas na língua”.
Criadora, entre outras expressões, da fortíssima “bandidos de toga” para se referir a juízes corruptos, o blog homenageia a ministra — cuja atuação como que antecipou o que agora ocorre com os mensaleiros no Supremo — relembrando algumas de suas declarações marcantes e corajosas:
MENSALÃO –  ”O Supremo está dizendo que a corrupção, que durante dois séculos reinou neste país, a partir de agora tem um freio, e esse freio está no Poder Judiciário. Não haverá mais tolerância com a corrupção. Não tenho dúvida de que isso já está provocando mudanças nos planos de certos bandidos, inclusive os de toga”. —  VEJA, em 10 setembro de 2012
BANDIDOS DE TOGA – “Acho que [a atuação disciplinar do Conselho Nacional de Justiça] é o primeiro caminho para a impunidade da magistratura, que hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga” — Entrevista à Associação Paulista de Jornais (APJ), em 27 de setembro de 2011
JUIZ NÃO TEM AMIGOS – ”Eu só sou magistrada, não tenho aptidão para a política. Sou uma pessoa que fala as coisas, não faço favores. Os meus amigos dizem ‘Eliana não faz favores, não é amiga dos amigos’. Eu sou amiga, mas dentro da minha atividade profissional eu não tenho amigo, não faço favor porque é uma questão de princípio. No dia em que fizer um favor, eu faço dez”. — Estadão,em 13 de agosto de 2012
MAGISTRATURA SÉRIA X VAGABUNDOS INFILTRADOS – “Precisamos abrir diversos flancos para falar o que está errado dentro da nossa casa. Faço isso em prol da magistratura séria, decente e que não pode ser confundida com meia dúzia de vagabundos que estão infiltrados na magistratura” — Audiência na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em 28 de fevereiro de 2012
[JUIZ] CORRUPTO NÃO DEIXA DOCUMENTO – “É muito difícil [magistrado] corrupto deixar documento. Vou me valendo das provas que estão em inquérito ou que estão no Superior Tribunal de Justiça. Essas investigações patrimoniais são importantes porque através do imposto de renda e também desse compartilhamento de quebra de sigilo eu posso fazer alguma coisa” – Audiência na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em 28 de fevereiro de 2012
TRUQUES QUE AUMENTAM SALÁRIOS – “Estamos encontrando o seguinte: desembargadores ganham o teto, 26 mil reais, mas durante três meses do ano vem um penduricalho onde se dá uma gratificação monstruosa. Se somarmos tudo e dividirmos por 12, eles não ganham 26 (mil), ganham 50, 40 (mil)”. – Audiência na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em 28 de fevereiro de 2012
MARACUTAIAS NOS PRECATÓRIOS – “O precatório [título de dívida dos governos para com pessoas e empresas] está todo desorganizado e, muitas vezes, a desordem é para encobrir o malfeito” – Agência Brasil (entrevista coletiva), em 13 de fevereiro de 2012
CORPORATIVISMO E ELITISMO – “Estamos removendo 400 anos de representação elitista dentro do Judiciário (…) A modernidade vai tomando conta dos espaços públicos e deixando engessados os movimentos corporativistas” – Estadão, em 7 de fevereiro de 2012
A rebelde ministra: "Não faço favores" (Foto: GF fotografias)
A ministra, segundo a qual o Judiciário vive "gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga" (Foto: GF fotografias)
SÍMBOLO – “Acabei simbolizando um movimento de abertura do Judiciário” — Estadão, em 7 de fevereiro de 2012
OS PODERES DO CNJ – “Eu me emocionei a cada voto, contra ou a favor, fiquei muito emocionada. Ao final, quando tudo terminou, falaram ‘O que você vai fazer?’. Eu disse ‘Eu vou dormir, porque não durmo há três meses’” – Agência Brasil (entrevista coletiva), em 3 de fevereiro de 2012 (sobre conflito judicial sobre as competências do CNJ, julgado favoravelmente ao Conselho pelo Supremo Tribunal Federal)
ASSOCIAÇÕES DE MAGISTRADOS MENTIRAM – “Só posso lamentar [a polêmica], fruto de maledicência e irresponsabilidade da AMB [Associação dos Magistrados Brasileiros], Ajufe [Associação dos Juízes Federais do Brasil] e Anamatra [Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho], que mentirosamente desinformam a população ou informam com declarações incendiárias e inverossímeis”, pretendendo fazer um “linchamento moral” – Declarações feitas num debate no auditório da Folha de S.Paulo, em 21 de novembro de 2011 (a ministra rebatia informações de associações de magistrados segundo as quais o Conselho Nacional de Justiça havia quebrado os sigilos bancários e fiscais de juízes e levaria a cabo uma investigação sobre 270 mil pessoas. Segundo ela, havia já quatro anos que a corregedoria do CNJ realizava investigações sobre patrimônio de juízes, com base em suas declarações de imposto de renda, atividade prevista na legislação)
COLARINHO BRANCO – “O senhor conhece algum colarinho branco preso?” – Roda Viva, TV Cultura, em 14 de novembro de 2011
“Eu não posso resolver todos os problemas do Judiciário…, mas eu me posiciono” – Roda Viva, TV Cultura em 14 de novembro de 2011
BANDIDOS INFILTRADOS – “Eu não tenho que me desculpar. Estão dizendo que ofendi a magistratura, que ofendi todos os juízes do país. Eu não fiz isso de maneira nenhuma. Eu quero é proteger a magistratura dos bandidos infiltrados” — Coluna de Mônica Bergamo, Folha de S.Paulo, em 28 de setembro de 2011
"Não terei tolerância" (Foto: Agência Brasil)
"Os bandidos (na Justiça) são minoria, uma coisa mínima, de 1%, mas fazem um estrago absurdo" (Foto: Agência Brasil)
MINORIA QUE FAZ UM GRANDE ESTRAGO — “A quase totalidade dos 16 mil juízes do país é honesta, os bandidos são minoria. Uma coisa mínima, de 1%, mas que fazem um estrago absurdo no Judiciário”  – Coluna de Mônica Bergamo, Folha de S.Paulo, em 28 de setembro de 2011
COMPLÔ PARA NÃO PUNIR – “As portas estão se fechando. Parece haver um complô para que não se puna ninguém no Brasil” – Coluna de Mônica Bergamo, Folha de S.Paulo, em 28 de setembro de 2011
A DIFICULDADE DE INSPECIONAR O TJ DE SÃO PAULO – “Sabe que dia eu vou inspecionar São Paulo? No dia em que o sargento Garcia prender o Zorro. É um Tribunal de Justiça fechado, refratário a qualquer ação do CNJ e o presidente do Supremo Tribunal Federal é paulista” — Entrevista à Associação Paulista de Jornais (APJ), em 27 de setembro de 2011
OS PIORES MAGISTRADOS ACABAM CHEGANDO AO TOPO – ‘Hoje é a política que define o preenchimento de vagas nos tribunais superiores, por exemplo. Os piores magistrados terminam sendo os mais louvados. O ignorante, o despreparado, não cria problema com ninguém porque sabe que num embate ele levará a pior. Esse chegará ao topo do Judiciário” — VEJA, em setembro de 2010
NOS TRIBUNAIS SUPERIORES, SÓ CRITÉRIO POLÍTICO – “Para ascender na carreira, o juiz precisa dos políticos. Nos tribunais superiores, o critério é única e exclusivamente político” – VEJA, em setembro de 2010
FRUTO DE UM SISTEMA – “Certa vez me perguntaram se eu tinha padrinhos políticos. Eu disse: ‘Claro, se não tivesse, não estaria aqui’. Eu sou fruto de um sistema. Para entrar num tribunal como o STJ, seu nome tem de primeiro passar pelo crivo dos ministros, depois do presidente da República e ainda do Senado. O ministro escolhido sai devendo a todo mundo”– VEJA, em setembro de 2010
Eliana Calmon, do CNJ (Foto: Valter Campanato / ABr)
"Nós, magistrados, temos a tendência a ficar prepotentes e vaidosos. Isso faz com que o juiz se ache um super-homem (...). Precisamos ter cuidado para ter práticas de humildade dentro do Judiciário" (Foto: Valter Campanato / ABr)
AUTO-DEFINIÇÃO COMO “REBELDE” – “Eu não sou a única rebelde nesse sistema, mas sou uma rebelde que fala”– VEJA, em setembro de 2010
JUIZ NÃO PODE SER PREPOTENTE NEM VAIDOSO – “Nós, magistrados, temos tendência a ficar prepotentes e vaidosos. Isso faz com que o juiz se ache um super-homem decidindo a vida alheia. Nossa roupa tem renda, botão, cinturão, fivela, uma mangona, uma camisa por dentro com gola de ponta virada. Não pode. Essas togas, essas vestes talares, essa prática de entrar em fila indiana, tudo isso faz com que a gente fique cada vez mais inflado. Precisamos ter cuidado para ter práticas de humildade dentro do Judiciário. É preciso acabar com essa doença que é a ‘juizite’”– VEJA, em setembro de 2010
RETRATO DE JUSTIÇA CARA, LENTA E INEFICIENTE – “Pela primeira vez [com a criação do CNJ], foram feitos diagnósticos oficiais do funcionamento da prestação jurisdicional, dos serviços cartorários. Pela primeira vez, veio a conhecimento de todos, até dos próprios protagonistas da função judicante, o resultado de uma justiça cara, confusa, lenta e ineficiente” — Discurso de posse como ministra do CNJ, em 8 de setembro de 2010
OS VILÕES DO PODER – “Não está sendo fácil corrigir os rumos, implantar práticas administrativas modernas, desalojar os vilões do Poder e, principalmente, mudar os usos e costumes de um Judiciário desenvolvido à sombra de uma sociedade elitista, patrimonialista, desigual e individualista”. – Discurso de posse como ministra do CNJ, em 8 de setembro de 2010
AVISO PRÉVIO – “Terei tolerância zero” – Discurso de posse como ministra do CNJ, em 8 de setembro de 2010