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26 abril 2014

A cizânia está formada: Dilma versus Lula. Alvíssaras!

NA VEJA DESTA SEMANA – A disputa de poder no PT expõe um racha inédito na história do partido
dilma x lula
Por Daniel Pereira e Adriano Ceolin, na VEJA.com:
A presidente Dilma Rousseff enfrenta um momento inédito de fragilidade. Além de ter problemas na economia, como o crescimento baixo, a inflação persistente e o desmantelamento do setor elétrico, ela perdeu apoio popular e força para barrar, no Congresso, iniciativas capazes de desgastá-la. A aprovação ao governo caiu a um nível que, segundo os especialistas, ameaça a reeleição. Partidos aliados suspenderam as negociações para apoiá-la na corrida eleitoral. Já os oposicionistas conseguiram na Justiça o direito de instalar uma CPI para investigar exclusivamente a Petrobras. Acuada, Dilma precisa mais do que nunca da ajuda do PT, mas essa ajuda lhe é negada. Aproveitando-se da conjuntura desfavorável à mandatária, poderosas alas petistas pregam a candidatura de Lula ao Planalto e conspiram contra a presidente. O objetivo é claro: retomar poderes e orçamentos que foram retirados delas pela própria Dilma. A seis meses da eleição, o PT está rachado entre lulistas e dilmistas — e, para os companheiros mais pragmáticos, essa divisão, e não os rivais Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), representa a maior ameaça ao projeto de poder do partido.
Com carreira política construída na resistência à ditadura militar e posteriormente no PDT, Dilma nunca teve alma petista. Ao assumir a Presidência, ela herdou boa parte da cúpula do governo Lula, como ministros, dirigentes de estatais e até a então chefe do escritório da Presidência em São Paulo, Rosemary Noronha. O governo era de continuidade mesmo nos nomes escalados para comandar o país. O plano de Dilma era dar uma feição própria à sua gestão de forma gradativa, reduzindo a influência do antecessor ao longo do tempo. Antonio Palocci, seu primeiro chefe da Casa Civil, ilustrou a estratégia: “No primeiro ano de mandato, será um governo Lula-Dilma. No segundo, um governo Dilma-Lula. No terceiro, será Dilma-Dilma”. Esse cronograma, no entanto, foi atropelado pelos fatos. Já em 2011 a presidente foi obrigada a demitir seis ministros acusados de corrupção e tráfico de influência — quatro deles egressos do governo anterior. Dilma se mostrava intransigente com os malfeitos, ao contrário de Lula, acostumado a defender políticos pilhados em irregularidades. Com a chamada faxina ética, ela atingiu recordes de popularidade e conseguiu força para tirar das mãos de notórios esquemas partidários setores estratégicos da administração. Nem mesmo o PT foi poupado nessa ofensiva.
O partido perdeu terreno em fundos de pensão e na Petrobras, que teve sua diretoria reformulada em 2012. A faxina ética era acompanhada da profissionalização da gestão. Com essas mudanças, muitos petistas estrelados, como o mensaleiro preso José Dirceu, perderam influência. Havia um distanciamento crescente entre a presidente e a engrenagem partidária, mas Lula mantinha o PT unido e silencioso. Ele alegava que a “mídia conservadora” — ao exaltar as demissões promovidas pela sucessora, com o intuito claro de atacá-lo — ajudava Dilma a conquistar eleitores que historicamente tinham aversão ao PT. Ou seja: a comparação entre os dois beneficiava o partido. Se alguns petistas registravam prejuízos em casos isolados, o conjunto estava sendo fortalecido. Esse discurso manteve a companheirada sob controle até 2013, quando a popularidade da presidente despencou devido à inflação e às manifestações populares de junho. Petistas, então, passaram a criticar Dilma, conspirar contra ela no Congresso e defender a candidatura de Lula. A cizânia interna se desenhava, mas ainda era incipiente e restrita aos bastidores. Esse dique foi rompido pelo escândalo da Petrobras.
Hoje, o PT testemunha uma batalha pública e cruenta entre a soldadesca dos dois presidentes. Palocci não previu, mas o último ano de mandato também tem seu epíteto: governo Dilma versus Lula.
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Para ler a continuação dessa reportagem compre a edição desta semana de VEJA no IBA, no tablet, no iPhone ou nas bancas.

24 abril 2014

Rosa Weber surpreende e manda instalar a CPI da Petrobras

Republico aqui com muito prazer o que vai no blog de Ricardo Setti (Veja.com)
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ROSA WEBER DETERMINA CPI EXCLUVIDA DA PETROBRAS 
Ministra do Supremo Tribunal Federal atende pedido da oposição e Comissão Parlamentar não será ampliada para outros temas como desejava o governo
Do site de VEJA
A ministra do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber determinou nesta quarta-feira a instalação pelo Senado de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) exclusiva para investigar a Petrobras.
Leia também:
Petrobras é campeã mundial – em queda de ações na bolsa 

Câmara convida Mantega e Gabrielli para explicar Pasadena
Com a decisão, a ministra atendeu o pedido dos partidos de oposição e ignorou a tentativa do governo federal de empilhar na CPI outros temas.
Além do escândalo da Petrobras, a base governista tentou ampliar a investigação para os contratos de trens do metrô de São Paulo e a construção do Porto de Suape e da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco – uma forma de atingir os adversários políticos e pré-candidatos à Presidência Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB).
Durante a queda de braço entre integrantes do governo e da oposição, o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) fraudou o conteúdo de um acordão para enterrar a CPI exclusiva, como revelou Reinaldo Azevedo em seu blog no site de VEJA.
A decisão de Rosa Weber tem caráter liminar até que o plenário do STF decida sobre o tema. “Defiro em parte a liminar. A definição, no momento oportuno, será do plenário desta Suprema Corte”, escreveu a ministra.
Supremo – O caso foi levado ao Supremo pela oposição, que exige a instalação imediata da investigação exclusiva sobre a Petrobras. O processo chegou ao gabinete da ministra Rosa Weber há duas semanas. Apesar de analisar apenas as duas CPIs propostas no Senado, pela oposição e pela base governista, a decisão de Rosa Weber deve se refletir sobre as duas CPIs mistas criadas no Congresso, mas que ainda não foram votadas.

21 abril 2014

Um vídeo definitivo sobre a "PeTebras"

O Implicante http://www.implicante.org/ edita um vídeo definitivo sobre esse imbroglio da "PeTbras". Assistam:



Dilma perde no segundo turno para Aécio e Campos entre os eleitores que conhecem os três

Quem conhece bem ou um pouco Dilma, Aécio e Eduardo Campos, não vota em Dilma no segundo turno (que parece seja certo). Veja a análise que faz Reinaldo Azevedo (Veja. com) sobre os números da Datafolha:
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Dillma careta
Já escrevi aqui algumas vezes que, em parte, a liderança da presidente Dilma Rousseff (foto) nas pesquisas de opinião se deve ao fato de que ela é conhecida, e seus adversários não. Parece que o Datafolha confirma isso. Vamos ver.
O instituto constatou, por exemplo, que 57% conhecem Dilma muito bem, índice que cai para 17% com o tucano Aécio Neves e 8% com Eduardo Campos, do PSB. Não conhece a presidente 1% do eleitorado — 25% no caso de Aécio e 42% no de Campos.
Não obstante, a rejeição dos três é de 33%. Observei, então, que muita gente não vota em Dilma porque a conhece, e muitos não votam nos oposicionistas porque não os conhecem. Algumas pessoas chiaram. Chiadeira ociosa.
Outro dado do Datafolha chama a atenção: 17% disseram conhecer bem ou um pouco os três candidatos. E aí se dá algo notável: nesse universo, os três estão tecnicamente empatados: Campos fica com 28%; Dilma, com 26%, e Aécio com 24%. Mais: nesse universo dos que conhecem os candidatos, nem que seja um pouco, a presidente perde as simulações de segundo turno: ela é derrotada pelo tucano por 47% a 31% e, pelo peessebista, por 48% a 31%.
É claro que se trata de números preocupantes para a presidente. Afinal, o objetivo de uma campanha política é justamente tornar conhecidos os candidatos. Isso demonstra como é remota a chance de Dilma, caso não seja solapada por Lula — não creio nisso, deixo claro! —, vencer a disputa no primeiro turno. Na verdade, é mais um indício que aponta o risco de derrota.
Lembrem-se de que a mais recente pesquisa do Ibope já apontou que, hoje, muito provavelmente, é maior o número de brasileiros que reprovam o jeito de Dilma governar do que o dos que aprovam: 48% a 47%. Há um mês, o placar era favorável à presidente: 51% a 43%. Vale dizer: nesse pequeno período, houve uma mudança de nove pontos percentuais contra Dilma Rousseff.
Esses números do Datafolha indicando virtual empate entre os eleitores que conhecem, ao menos um pouco, os candidatos é compatível com certo sentimento de enfaro que se percebe nas ruas. Se ele vai se traduzir, efetivamente, em voto, ainda não se sabe. Que Dilma não tem razões para comemorar os números, isso é evidente.
Assim, não havia, efetivamente, nada de errado com aquela minha conclusão: muita gente não vota em Dilma porque a conhece, e muitos não votam em Aécio e Campos porque não os conhecem.

20 abril 2014

Especial VEJA: Juscelino Kubitschek ─ A reeleição que nunca houve

Publicado por Augusto Nunes (Veja.com)
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Publicado na edição impressa de VEJA
jk
Havia seis candidatos a presidente em 1964. Todos, portanto, interessados em chegar até 1965. Ou seja, empurrar a crise até a próxima eleição presidencial. O mais interessado de todos era Juscelino Kubitschek (os outros candidatos eram os governadores Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e Miguel Arraes; além do próprio presidente João Goulart e seu cunhado Leonel Brizola, no caso de uma feitiçaria constitucional que os livrasse da inelegibilidade). As pesquisas de opinião já davam 37% dos votos para que ele voltasse à elegante cidade que havia criado do nada, deixando uma nada bela encrenca econômica, mas a imagem de político inovador nas realizações públicas e conciliador nas tratativas particulares. À véspera do golpe, conciliação era uma moeda em falta até mesmo no trato entre dois homens pouco sanguíneos como JK e Jango. A aliança política entre o PTB de Goulart e o PSD de Juscelino estava irreversivelmente deteriorada.
Em 1963, o presidente avisou o senador, eleito por Goiás, que ele não mais poderia contar com o apoio do PTB para sua candidatura presidencial. Em 15 de março, propôs ao Congresso mudar a Constituição e permitir a sua reeleição. “Ele passou dos limites. Saiu da legalidade que o sustentava”, reagiu Juscelino. Mesmo contra todas as evidências, na manhã de 31 de março Juscelino ligou para o Palácio Laranjeiras. Quando finalmente o atenderam, mandou chamar o oficial do dia e ditou: “Aqui está falando o senador Juscelino Kubitschek. Anote no seu livro de ocorrências que eu estou tentando telefonar para o presidente João Goulart há várias horas e ninguém atende”. Quando Jango retornou a chamada, JK apelou-lhe que interrompesse a marcha da insensatez. Suas palavras não surtiram efeito e, se surtissem, dificilmente mudariam o rumo dos acontecimentos.
Quarenta minutos depois, Juscelino soube por José Maria Alkmin ─ que havia sido seu ministro da Fazenda e era casado com uma prima sua ─ que o golpe já estava em curso. Às 4 horas da tarde, Jango pediu a JK que o visitasse no já quase vazio Laranjeiras. Recebeu-o no quarto. Juscelino sentou-se em uma das camas e fez o apelo final: “Você tem de fazer dois manifestos. Um tranquilizando a nação em relação ao problema do comunismo. O outro, às Forças Armadas, em que você evoca para si o problema da Marinha e resolve tudo no respeito aos regulamentos e à hierarquia”. Como havia feito com todos os conselhos semelhantes, Jango se recusou: “Se eu fizer isso dou uma demonstração de medo, e um homem com medo não pode governar o país”. JK, que havia sobrevivido às próprias crises militares e aplicava só dosadamente a tática do confronto, tinha uma máxima mais realista: “No Brasil, elege-se pelo povo, mas governa-se com os olhos voltados para as classes armadas”.
Onze dias depois, JK votava no Congresso para que o general Humberto Castello Branco se tornasse o primeiro presidente do regime militar. Em pouco tempo, como todos os outros candidatos em potencial à eleição que nunca existiu em 1965, estava cassado e exilado. “Caí na armadilha do Castello Branco”, disse anos depois. “Caímos todos.” Menos o primo torto, José Maria Alkmin, que virou vice de Castello.
Colaboradores: André Petry, Augusto Nunes, Carlos Graieb, Diogo Schelp, Duda Teixeira, Eurípedes Alcântara, Fábio Altman, Giuliano Guandalini, Jerônimo Teixeira, Juliana Linhares, Leslie Lestão, Otávio Cabral, Pedro Dias, Rinaldo Gama, Thaís Oyama e Vilma Gryzinski.

18 abril 2014

Especial VEJA: Carlos Lacerda ─ A tragédia da vitória

(publicado no blog de Augusto Nunes em Veja.com)


Publicado na edição impressa de VEJA
Carlos Lacerda
“Os civis também sabem morrer”, disse Carlos Lacerda a Humberto Castello Branco quando o general tentou convencê-lo a abandonar o Palácio Guanabara, sede do governo estadual, na noite de 31 de março de 1964. Ou pelo menos é assim que, já perto da morte, em 1977, preferiu lembrar o mais fenomenalmente dramático personagem político em ação à época, capaz de misturar tragédia grega e dramalhão mexicano com mente de intelectual canônico, tradutor de Júlio César, de Shakespeare, e de John Kenneth Galbraith, e coração de apresentador de auditório.
Quando se trancafiou no Guanabara, protegido por um batalhão da PM, caminhões de lixo, a fina flor da sociedade carioca e voluntários portando lenços azuis e brancos, tudo podia acontecer. Até um momento descrito como “emocionante” por Marcelo Garcia, assessor de Lacerda: a chegada dos generais e marechais reformados, que vinham aderir à rebelião e defender o Guanabara. “A essa altura, já não havia fuzis nem metralhadoras. Houve distribuição de pistolas. O brigadeiro Eduardo Gomes apareceu dizendo ter sido informado de que Aragão iria atacar o Palácio”, contou Garcia.
Cândido Aragão, almirante esquerdista que havia apoiado a revolta dos marinheiros, e seus fuzileiros nunca apareceram. Tiros, só os da retórica do homem que tinha o apelido de Corvo e a fama de “derrubador de governos”. Alvo de uma tentativa de assassinato, ele virou o jogo e empurrou Getúlio Vargas ao suicídio, também teve influência na patética renúncia de Jânio Quadros e contra João Goulart usava todos os truques do manual. Principalmente os sujos. Em 1963, em uma entrevista ao Los Angeles Times, ele denunciou a infiltração comunista no governo, com a ressalva de que Jango não era propriamente da turma: “Ele é um totalitário, à moda sul-americana. É um caudilho com todos os recursos dos tempos modernos”. A entrevista motivou uma malograda tentativa de prendê-lo (ou sequestrá-lo, já que a ordem de prisão, a ser efetuada por militares, não era oficial).
No dia do golpe, usando uma japona preta sobre a camisa branca para dificultar que fosse alvejado, conseguiu fazer pronunciamentos no rádio, na televisão e por altofalantes instalados no palácio. Comparou Jango ao fratricida Caim: “O que fizeste de teus irmãos que iam ser mortos por teus cúmplices comunistas, de teus irmãos que eram roubados para que tu te transformasses no maior latifundiário e ladrão do Brasil? Abaixo João Goulart!”. Desafiou o comandante dos fuzileiros: “Aragão, covarde, incestuoso, deixe os seus soldados e venha decidir comigo essa parada. De homem para homem. Quero matá-lo com o meu revólver”. Como nada disso aconteceu, caiu de joelhos e agradeceu a Deus quando os míseros três tanques que guardavam o Laranjeiras, o palácio presidencial, passaram para o Guanabara. Três anos depois, estava na Rua Leyenda Patria, em Montevidéu. “Estou procurando a casa do presidente João Goulart. Não sei o número porque perdi o papel”, disse a uma brasileira que não reconheceu. Maria Thereza Goulart levou-o ao marido. Os dois ex-inimigos, ambos cassados, abraçaramse e planejaram a nunca materializada Frente Ampla. A ditadura havia definitivamente derrubado o “derrubador de governos”.

16 abril 2014

A CHARGE DE SPONHOLZ: Dilma, gato e lebre


a charge 01

Volta, FHC!

Processo de revalorização dos anos FHC leva ex-presidente a ser festejado publicamente, inclusive com pedidos de “volta, volta, volta!”
FHC ovacionado em convenção do PSDB: tem ocorrido em suas palestras, como a dos donos de postos de gasolina mencionados neste post (Foto: Ed Ferreira / Agência Estado)
Em foto de arquivo, FHC é ovacionado em convenção do PSDB: tem ocorrido em suas palestras, como a dos donos de postos de gasolina mencionados neste post (Foto: Ed Ferreira / Agência Estado)

PUBLICADO NO BLOG DE RICARDO SETTI (VEJA.COM)

O blog publicou pesquisa de opinião realizada por empresa do Paraná mostrando que, nos Estados do Sul — Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul –, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso agrega mais votos ao presidenciável tucano Aécio Neves do que faz Lula com a presidente Dilma Rousseff.
O processo de revalorização dos oito anos de governo do ex-presidente e da recuperação pública de sua imagem — que levará FHC a participar intensamente da campanha de Aécio, inclusive no horário eleitoral — não é novidade para quem vem testemunhando, em lugares públicos, manifestações espontâneas de simpatia para com o presidente de honra do PSDB.
FHC tem sido aplaudido em teatros, restaurante e shoppings que frequenta, não apenas em São Paulo, sua terra adotiva e sua base política, mas em vários outros Estados. Suas palestras em eventos a que comparece como conferencista vêm se revestindo de tom político por parte das plateias, que o aplaudem calorosamente.
Um dos casos mais recentes aconteceu no hotel Iberostar, em Salvador, durante convenção patrocinada pela Shell do Brasil para mais de 2.000 donos de posto de gasolina de todos os Estados — pequenos e médios empresários, portanto.
Convidado a proferir uma palestra no evento, FHC falou pouco mais de uma hora, expondo seus pontos de vista sobre como promover mudanças necessárias para o país crescer e melhorar seus padrões éticos, e ocupou apenas parte do tempo em fazer críticas pontuais ao desempenho do governo da presidente Dilma.
Ao terminar, foi ovacionado. Depois, os mais de 2.000 presentes começaram a aplaudir de pé. No final, o auditório pedia, em coro:
– Volta, volta, volta!

15 abril 2014

Musiquinha do balacobaco_clique no link

‘O Doleiro Furado’, de Luiz Trevisani

O DOLEIRO FURADO
Todo brasileiro,
quando quer ganhar dinheiro,
tenta a sorte na loteria.
Já eu mudei para Brasília
e montei uma quadrilha
pra operar uma lavanderia.
Negócio arriscado,
que não dá pra dar bobeira,
mas pode garantir
a independência financeira.
Agora que eu fui pego,
vejam que situação:
minha fortuna é em dólar,
minha vida é que não vale um tostão.
Tem negociata
que o lucro é batata,
só precisa de um doleiro
Mas pra assaltar o Estado
só se for com um deputado
que seja muito parceiro.
Se eu e o gordinho
formos juntos pra fogueira,
lá se vai a nossa
independência financeira
Agora que eu fui pego…
Tem muito mais gente
envolvida na sujeira,
todo mundo atrás
da independência financeira
Agora que eu fui pego…

Cái mais um bastião do Estado brasileiro nas garras do PT: IBGE

Publicado no blog de Augusto Nunes. Denunciem a mutreta.
‘O IBGE sob domínio petista’, editorial do Estadão
Publicado no Estadão deste domingo
A suspensão, pela diretoria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da divulgação dos resultados trimestrais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) – que apresenta a situação do mercado de trabalho no País – deixa claro que, se for necessário para evitar que informações eventualmente negativas sobre o desempenho da economia causem danos à candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição, o governo do PT não hesitará um segundo para intervir em qualquer órgão público. Nem mesmo instituições como o IBGE, que construíram ao longo dos anos uma reputação reconhecida internacionalmente pela qualidade e isenção de seu trabalho e produzem informações essenciais para a formulação de políticas públicas e para decisões das empresas privadas e das famílias, escapam da volúpia petista pela permanência no poder.
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12 abril 2014

Revista Veja fecha o cerco contra os corruPTos

Petrobras: o encontro entre a corrupção e a política, contra os brasileiros
capa veja petrobras paulo roberto costa
A reportagem de VEJA teve acesso a uma parte do material apreendido pela Polícia Federal nos domínios do engenheiro Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Refino da Petrobras, preso na operação Lava Jato, a mesma que levou para a cadeia o doleiro Alberto Youssef e apagou de vez a fulgurante, à sua moda, carreira do deputado petista André Vargas. A reportagem, de seis páginas, é a capa da revista desta semana.
O conteúdo de uma simples agenda já é explosivo. Fica evidente que Costa, indicado para o cargo pelo PP e abrigado na Petrobras no âmbito dos acordos políticos do ex-presidente Lula, usava a empresa para intermediar acordos com fornecedores e empreiteiras, receber propina, distribuir uma parte de dinheiro a políticos e, obviamente, pegar o seu próprio quinhão. Como costuma acontecer com outros de sua estirpe, gostava de fazer anotações meticulosas.
Segue um trecho da reportagem de Rodrigo Rangel e Hugo Marques. Na sequência, um pedaço da agenda de Paulo Roberto e sua tradução. Leia a íntegra na edição impressa da revista.
(…)
 reportagem Petrobras 1reportaem Petrobras 2reportagem petrobras 3Agenda Paulo Roberto Costa

11 abril 2014

Dilma faz "experimento" econômico no Brasil. Hipótese: juros baixos e inflação não têm relação. Tese reprovada pelos fatos

No pior dos mundos: o governo cortou a Selic imaginando que juros baixos não trariam inflação. Agora há preços represados, juros altos e incertezas
TUDO PARA CIMA -- Sobem os juros, a inflação continua em alta, o déficit público aumenta... Só o crescimento continua medíocre
TUDO PARA CIMA — Sobem os juros, a inflação continua em alta, o déficit público aumenta… Só o crescimento econômico continua medíocre
Reportagem publicada em edição impressa de VEJA
O governo de Dilma Rousseff prestou uma inestimável contribuição para os estudos econômicos. Usou o país de cobaia e o submeteu a um experimento destinado a comprovar a hipótese segundo a qual uma redução abrupta na taxa de juros não teria efeitos sobre a inflação.
Julgava, dessa maneira, colocar contra a parede todo o conhecimento sobre política monetária acumulado nos últimos quarenta anos. Resultado do teste de laboratório: a hipótese é completamente furada.
Na concepção da equipe econômica e de seus colaboradores, a economia brasileira estaria preparada para funcionar em um ambiente de juros mais baixos, similares aos de países desenvolvidos.
Sob essa premissa, a taxa básica, a Selic, foi derrubada rapidamente no fim de 2011 e em 2012, chegando a 7,25%, o menor valor já registrado. Mas a inflação começou a subir ainda mais, distanciando-se do centro da meta de 4,5% ao ano. O governo custou a dar o braço a torcer e tentou conter a escalada dos preços lançando mão de expedientes tão antiquados quanto ineficientes, entre eles o controle dos preços dos combustíveis e a manipulação de tarifas.
A inflação, apesar do represamento de reajustes, permaneceu teimosamente elevada. Só então o Banco Central voltou a subir os juros. Na semana passada, a taxa Selic foi elevada para 11% ao ano – acima, portanto, dos 10,75% herdados por Dilma.
Juros mais altos, subsídios, contas públicas sendo arruinadas…
O país acabou no pior dos mundos. O governo desestruturou o arcabouço que dava base à estabilidade econômica sem com isso ter alcançado o seu objetivo de reduzir, de maneira duradoura, a Selic. O novo ciclo de alta deixou a taxa básica maior do que era no fim de 2010, carregando para cima os juros bancários cobrados dos consumidores e das empresas.
A inflação, nos anos Dilma, não ficou em nenhum momento no centro da meta oficial de 4,5% e ameaça estourar mais uma vez o limite superior, de 6,5%. Isso mesmo com o adiamento nos reajustes dos combustíveis e da eletricidade.
Ao mesmo tempo, os subsídios distribuídos para sustentar os bancos públicos e segurar as tarifas de energia estão arruinando as contas públicas, para não falar no choque nas finanças da Petrobras e da Eletrobras. Por fim, o déficit nas contas externas se aprofundou, deixando o país mais vulnerável a capitais especulativos. Todas essas dificuldades resultaram exclusivamente das ações de governo, e não foram obra de crises externas, como no passado.
Na avaliação do economista Mário Mesquita, sócio do banco Brasil Plural e ex-diretor do BC, o governo parece ter se esquecido de que a inflação é um efeito monetário, ou seja, inevitavelmente aumenta quando existe mais dinheiro em circulação.
De acordo com Mesquita, não fossem as interferências no valor das tarifas e no preço dos combustíveis, a inflação já estaria rodando acima de 7%. “A queda nos juros não foi amparada pela política fiscal”, diz Mesquita. “As despesas públicas aumentaram, e houve também expansão dos gastos parafiscais.”
Por “parafiscais” entendam-se os fartos financiamentos liberados pelos bancos públicos nos últimos anos, que, por determinação do governo, mantiveram os cofres abertos, tornando ainda mais difícil a tarefa do BC de conter as expectativas de alta inflacionária.
“Certamente, a deterioração dos indicadores tem mais a ver com os erros da política econômica do que com a crise global”, afirma Mário Torós, sócio da Ibiuna Investimentos e também ex-diretor do BC. “A atividade econômica está de fraca para fraquejante. Existe uma grande probabilidade de a inflação ficar acima do teto da meta, e em 2015 teremos um ano complicado, com o inadiável reajuste de energia, transportes e combustíveis. A tudo isso se junta uma possível crise energética. A alta recente nos juros não foi suficiente para reduzir as expectativas em relação à inflação futura.”
O experimento do governo serviu para atestar a debilidade da hipótese inicial, mas o preço do equívoco será pago por um bom tempo. A confiança na trajetória da economia ruiu, e o efeito foi o desincentivo aos investimentos e a queda no crescimento.
Quanto mais a inflação demorar a ceder, maior o estímulo para a reindexação de preços, o que torna o seu combate mais difícil.

Especial VEJA: Cabo Anselmo, o inimigo dos amigos


Publicado na edição impressa de VEJA
caboanselmo
Um presidente fraco cercado de bons conselheiros a quem não ouvia e de péssimos palpiteiros por quem se deixava convencer, um cunhado em ebulição permanente, placas tectônicas políticas em choque, o oficialato revoltado, o que mais faltava para o 31 de março de 1964 dar no que deu? Um marinheiro de rosto de menino e lábia de agitador profissional chamado José Anselmo dos Santos.

Tão inocente na aparência e tão eficiente na agitação era o cabo Anselmo que suas culpas futuras foram antecipadas: colaborador das forças da repressão da ditadura na década de 70, passou a ser considerado, por uma ala da historiografia de esquerda, um agente da CIA plantado desde o começo para arrastar o governo Jango à desgraça. A versão CIA pode ser ilusão de perdedores, mas Anselmo realmente ajudou a afundar o governo.
Explorando o tratamento brutal dispensado à marujada, tornou-se um líder do movimento esquerdista nas fileiras mais baixas das Forças Armadas. Atingiu o ápice no discurso aos 2.000 marinheiros que, no Palácio do Aço, sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, aderiram à insurreição declarada contra o comando da Arma. Era 25 de março de 1964, em plena Semana Santa. João Goulart passou a mão na cabeça dos rebelados, o ministro da Marinha, Silvio Mota, pediu demissão e nem um único comandante militar da ativa aceitou substituí-lo.
Cabo Anselmo rumou para a clandestinidade. Depois de dois anos de treinamento de guerrilha em Cuba, voltou ao Brasil, foi preso, torturado e cooptado pela equipe do notório delegado Sérgio Fleury, que o apelidou de Kimble, personagem da série O Fugitivo. Por suas próprias contas, delatou “uns 100, 200″ companheiros. Ganhava salário para delatar os ex-colegas de guerrilha, analisar dados e instruir outros infiltrados. No mais devastador golpe individual, em 1973, ajudou o Dops a prender e fuzilar seis líderes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) no Recife, entre eles sua mulher, a paraguaia Soledad Barrett Viedma. “Existia entre nós um carinho muito grande. Esse negócio não está bem resolvido dentro de mim”, disse num programa Roda Viva.
Anselmo vive no interior de São Paulo, na região de Itatiba. “Já tive uns quinze endereços; agora cuido de uma horta e alimento minhas galinhas”, contou, por e-mail, a VEJA. É sustentado pelos poucos amigos, sendo o mais fiel deles o delegado Carlos Alberto Augusto, que durante a vida dupla fez a ponte entre o cabo e o Dops. Anselmo tem pronto um livro, com prefácio de Olavo de Carvalho, de 300 páginas.
Algum arrependimento? “Não existe remorso quando em tempo se reconhece o desastre iminente, contribuindo para salvar os passageiros de um naufrágio.”
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Colaboradores: André Petry, Augusto Nunes, Carlos Graieb, Diogo Schelp, Duda Teixeira, Eurípedes Alcântara, Fábio Altman, Giuliano Guandalini, Jerônimo Teixeira, Juliana Linhares, Leslie Lestão, Otávio Cabral, Pedro Dias, Rinaldo Gama, Thaís Oyama e Vilma Gryzinski.

09 abril 2014

Os PTs mundo a fora

O nosso país é mesmo "do Kawaka"!
O partido do "polvo", que se auto-intitula "dos trabaiadô", aonde se instalam pelo mundo afora, têm em comum a destruição do Estado, a confusão entre este, o partido e o governo, de má fé ou por ignorância, ou ambas, tanto faz... Os movimentos sociais e sindicatos, que antes eram utilizados como instrumentos de sua "luta", são transformados em instrumentos de dominação.
Para se impor contra a sociedade, a qual engana com suas vãs promessas de um "paraíso" logo ali na esquina, os PTs lutam bravamente para ocuparem toda e qualquer função, seja ela pública ou privada, na estrutura da mesma sociedade por eles abduzida. É e sempre será o partido do "polvo". Aliás, os PTs fazem com o que é público como aquilo que eles fazem na privada.
A sua ética torta é capaz de auto-inocentar seus "companheiros" criminosos de qualquer crime, reputando-os como necessários para o atingimento daquele "paraíso" de araque antes "vendido" para as classes sociais, de alto a baixo. Antes de chegarem ao Poder - seja pela via das armas, seja pela via das urnas, tanto faz (a democracia para eles é apenas uma estratégia) -, os PTs denunciam toda e qualquer "maracutaia" (neologismo cunhado pela entidade petista Lula) dos outros... Uma vez instalados no Poder, começam montando uma máquina de apropriação do Estado, das empresas, dos empresários, do público e do privado, de sorte que se perpetuem no Poder e assim aufiram o méximo de fortunas possíveis. Ah, esses "santos" companheiros!
Em um país getulista como o Brasil, que se industrializou após 1930 por meio de empresas estatais na falta de capitais privados, e depois levou o estatismo aos píncaros da glória pelos milicos entre 1964-1980, que se diziam anti-estatistas, ou anti-comunistas, etc., etc., é fácil perceber porque aqui só existam "progressistas" de esquerda. Desenvolvimentistas cepalinos. Que privatizam à socalpa para si próprios aquilo que defendem como sendo públicos. As empresas estatais se transformam em empresas dos companheiros. Fazem o que bem querem. Não devem satisfação a ninguém.
Para que tenham sucesso é primordial que a sociedade enganada pelos companheiros nada saibam do que andam fazendo. É necessário calar os meios de comunicação que não estiverem sob seu controle com a falsa acusação de pertencerem às elites malvadas, anti-sociais, anti-povo. A receita é a mesma em todo lugar e tempo em que esses paquidermes se instalaram em nome do povo: na Itália de Mussolini; na Alemanha de Hitler; na Rússia de Stalin; na China de Mao; em Cuba dos Castros; nas republiquetas bananeiras da América Latina e por aí vai.
Distorcem estatísticas, mentem sobre tudo, atropelam a legislação, dominam os tribunais, as consciências, tudo. Nada escapa aos tentáculos desses PTs.
Contudo, muitos podem mentir para muitos por muito tempo, mas não podem mentir o tempo todo para todo o mundo. Um dia a casa cai. Corpos são estirados na praça pública. Monumentos da injustiça são derribados. Juízes são julgados. Carrascos se vêem frente a frente com verdugos.
A História está repleta de momentos como os que estamos vivendo.
Delenda, Catilina, abutere patientia nostra!

Uma charge vale mais que mil palavras...

SPONHOLZ: O candidato é Lula ou Dilma?
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06 abril 2014

Nossa burocracia é tão mastodôntica que permite haver despachantes milionários

Publicado no blog de Ricardo Setti (Veja.com)
Agregando valor ao cartório
Agregando valor ao cartório
Artigo de Pedro Burgos, editor-chefe do site Oene, publicado em edição impressa da revista Superinteressante

A BALADA DA BUROCRACIA
Nosso país é um dos poucos que podem se dar ao luxo de ter despachantes milionários. Culpa de um labirinto burocrático que “desagrega valor” da nossa economia – e que nos afasta da área VIP do mundo
O rei do camarote gasta de R$ 5 mil “até o infinito” (R$ 70 mil, pela contabilidade do sujeito) em uma noite, boa parte em garrafas de champanhe com pirotecnia. Bom, esbanjadores exibicionistas sempre existiram, e não são exclusividade dos novos-ricos nacionais.
O que realmente intriga aí é outra coisa: de onde vem a fortuna do baladeiro. Alexander de Almeida é despachante. Não que isso seja ilegal ou imoral (ainda que engorde, caso você exagere no champanhe). O problema é termos uma burocracia tão mastodôntica que permite a existência de despachantes milionários.
No fundo, é como se alguém ganhasse dinheiro por vender cobertores para os pacientes largados nos corredores dos hospitais públicos: há um problema que poderia ser solucionado caso o Estado fosse mais eficiente no atendimento à população, mas, enquanto isso não acontece, alguém vê uma oportunidade a ser explorada. O Brasil seria um país melhor se eles não fossem tão necessários. Fato. Mas, infelizmente, eles são.
A burocracia brasileira passa pela necessidade de imensas pilhas de papel, filas em repartições públicas e carimbos de cartório até para procedimentos simples. Gasta-se muito tempo com todas essas necessidades artificiais: são em média 119 dias para abrir uma empresa (contra 20 nos países desenvolvidos).
Se tempo é dinheiro, empresas e mesmo pessoas comuns preferem economizar quando podem e escolhem contratar as pessoas que sabem quais os formulários, os atalhos e com quem falar. No Detran do Paraná, por exemplo, os 850 despachantes cadastrados são responsáveis por entrar com 70% dos processos. O que é natural: pouca gente tem tempo ou paciência para fazer por conta própria mudanças no cadastro de veículos ou recorrer de uma multa, indo até uma repartição que tem filas desde antes do expediente começar.
O excesso de processos também abre brechas para o surgimento de falsos despachantes e fraudadores. Próximo a qualquer Detran, há os chamados “zangões” – como são conhecidos os profissionais que exercem a função sem autorização -, que prometem de vistorias “rápidas” até carteira de habilitação sem a necessidade de exame.
No Rio de Janeiro, este ano, a corregedoria do Detran desmantelou um esquema que gerava R$ 2 milhões por mês a uma quadrilha. Os bandidos cobravam até R$ 1.000 para a aprovação rápida de vistorias. Sem a necessidade de filas, papéis – ou vistorias.
Mas não é preciso estar na ilegalidade para atingir altas cifras. A empresa do rei do camarote encontrou uma mina de ouro ao ligar a burocracia do Detran com a burocracia bancária. A empresa dele recupera automóveis de pessoas inadimplentes com financiamentos bancários, atualiza a documentação e guarda a frota em pátios até um leilão judicial acontecer. Prova de que nem grandes instituições financeiras têm como viver sem despachantes.
Outro mercado lucrativo para os intermediários da burocracia é o de importação. No terminal de cargas do Aeroporto de Guarulhos, onde chega grande parte das encomendas estrangeiras para o País, circulam 500 despachantes aduaneiros que prometem acelerar o processo de liberação do que estiver retido na Receita – e cobram cerca de 3% do valor da carga, que pode custar dezenas de milhares de reais.
É importante dizer que o mercado dos despachantes é só uma das faces da burocracia institucionalizada. Há, por exemplo, quase 15 mil cartórios no Brasil. Os maiores chegam a faturar R$ 5 milhões por mês, justamente porque há muita cópia a ser autenticada, firma a ser reconhecida e títulos a serem transferidos. Coisas que despachantes podem ajudar a fazer com a devida procuração, evidentemente.
É fácil colocar a culpa de toda essa burocracia no governo, ou na herança cartorialista portuguesa. Mas de acordo com uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria, para 63% dos brasileiros a burocracia é importante para evitar o uso indevido do dinheiro público. “No Brasil, em vez de se colocar o falsário na cadeia, obrigam-se todas as pessoas a provar sistematicamente, com documentos, que não são desonestas”, afirma o economista Hélio Beltrão, que foi “ministro da desburocratização” nos anos 80 – a pasta foi extinta depois de sete anos sem grandes progressos.
Para que haja menos processos, precisamos de uma sociedade não só mais eficiente, mas que tenha mais fé no cidadão e em suas instituições. Se a desconfiança parece estar arraigada na nossa cultura, há indícios de que processos mais eficientes são atingíveis em um curto espaço de tempo. O México, que também tem seus despachantes, começou em 2004 uma grande campanha para transferir os processos que precisavam de papel para a internet.
Pelo último relatório do Banco Mundial, a mudança ajudou a fazer com que o país virasse o melhor lugar para fazer negócios na América Latina, e o 35º do mundo. O Brasil está em 127º. Pesado…
Por outro lado, o horizonte é promissor. Iniciativas que reúnem várias repartições no mesmo lugar (como o Poupatempo em São Paulo) e a possibilidade de fazer mais processos online, como em alguns Detrans, sugerem que estamos caminhando na direção de processos mais rápidos e racionais. Quem sabe assim, um dia, o Brasil deixe de ser este “Boeing com piloto de teco-teco”.

04 abril 2014

Especial VEJA: Ernesto Geisel, do limbo ao Planalto

Publicado na edição impressa de VEJA
geisel
“Era uma espécie de cão leproso.” Assim o general Ernesto Geisel classificou a situação em que estava quando João Goulart tomou posse, no apressado arranjo parlamentarista, em 1961. Não teve cargo, comando nem prestígio junto ao novo chefe de governo, a quem considerava “um homem fraco e dominado pelas esquerdas”. Três anos depois, era um dos integrantes mais importantes do grupo chefiado pelo general Humberto Castello Branco.
A aproximação entre os dois futuros presidentes militares não tinha sido exatamente fácil. Conspirador de primeira hora, Geisel, tão austero que quando cursava a Escola Militar do Realengo não aceitava convites de fim de semana de colegas cariocas porque não tinha roupas que considerasse apresentáveis, fazia restrições ao cearense que gostava de poesia e seguia a linha legalista. “Muitos de nós não gostávamos do Castello na vida militar, inclusive eu e meu irmão Orlando, por causa do seu feitio, por ser irônico”, relatou muitos anos depois, na série de entrevistas transformada em livro por Maria Celina D’Araujo e Celso Castro.
Ao se afastar de “generais amigos, contrários a nós e ligados ao sistema Jango”, Castello se aproximou de Geisel e Golbery do Couto e Silva, que estava na reserva e, como sempre, transitava no fluido mundo das sombras. O general de cintura dura também teve seus momentos de maquiavelismo, já nos estertores do governo Goulart, quando o presidente apoiou em pessoa os sargentos praticamente em estado de sublevação. “Alguns companheiros vieram a mim com a proposta de cercar o acesso ao Automóvel Clube com elementos de confiança e assim impedir a realização da reunião. Fui contrário a isso, dizendo: ‘Deixem que se faça a reunião; agora, quanto pior, melhor para a nossa causa’.”
Geisel e Golbery acompanharam Castello em suas movimentações de 31 de março e 1º de abril, no quartel-general do Exército e entre apartamentos cedidos por simpatizantes que passaram a ser chamados de postos de comando. Ironizada como a “revolução por telefone”, a articulação na verdade foi essencial para aglutinar os diferentes focos de rebelião militar. “Não havia um comando único na revolução. Mas, para o nosso grupo, o chefe era o Castello”, descreveu Geisel.
O outro grupo se inclinava pelo general Arthur da Costa e Silva. Falando com palavras cuidadosamente inteiras, como era de seu feitio, ele resumiu assim a disputa em gestação: “Essa divergência, no meu modo de ver, teve influência muito grande depois”. Mas, nos idos de março de 1964, Castello era o nome mais forte e Ernesto Geisel um de seus homens de total confiança. Passados dez anos, tornou-se presidente com um voto só que realmente contava ─ o de seu antecessor, Emílio Garrastazu Médici ─ e um projeto “lento, gradual e seguro” de retorno à democracia. Demorou mais dez anos. Sua seca e final avaliação: “Foi um erro ter-se ficado tanto tempo”.
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Colaboradores: André Petry, Augusto Nunes, Carlos Graieb, Diogo Schelp, Duda Teixeira, Eurípedes Alcântara, Fábio Altman, Giuliano Guandalini, Jerônimo Teixeira, Juliana Linhares, Leslie Lestão, Otávio Cabral, Pedro Dias, Rinaldo Gama, Thaís Oyama e Vilma Gryzinski.

03 abril 2014

Especial VEJA: Castello Branco ─ A vitória sorriu afinal para o ‘Coronel Y’

Republico aqui artigo de Veja publicado no blog de Augusto Nunes (Veja.com):
Publicado na edição impressa de VEJA
castello-branco
Depois da parada do carro oficial para uma subida rápida ao apartamento 304 da Rua Jangadeiros, 23, em Ipanema, na tarde de 31 de março, Castello Branco só teria um superior hierárquico, o “Coronel Y”. Castello tinha 63 anos. Ou 66, se verdadeira a plausível história de que o pai, o general Cândido Castello Branco, roubou três anos para garantir a gratuidade do filho no colégio militar. Castello vinha de horas tensas passadas no seu gabinete de chefe do Estado-Maior no quartel-general do Exército, quando, com uma ordem de prisão contra ele sendo protelada por colegas de farda simpatizantes, expediu este telegrama a todos os comandantes de tropa: “Restaurar legalidade. Restabelecer a Federação. Eliminar o desenvolvimento do plano comunista de posse do poder. Defender as instituições militares, que começam a ser destruídas. Estabelecer a ordem para o advento de reformas legais”. O regime de Jango estava liquidado e, apesar de o eterno rival, o general Arthur da Costa e Silva, ter se autodenominado Comandante Supremo da Revolução, Castello Branco era o líder inconteste aos olhos da tropa e dos chefes civis do movimento.
Em casa, antes de seguir para um dos muitos locais secretos preparados para aquele momento, ele tirou pela última vez a farda de general de quatro estrelas e colocou um terno. Obedecia às ordens do Coronel Y. Com esse codinome, ele assinou dez colunas em um jornal carioca nos anos 1930. Nelas traçou a visão do papel do militar da qual não se afastaria nunca mais. Se o menino é o pai do homem, o Coronel Y foi o pai doutrinário de Castello: “O militar-político é um lobisomem, um homem de existência dupla e misteriosa e que mete medo. Passando a desempenhar função civil, é militarmente lógico e individualmente honesto que ele se torne um egresso de sua classe”.
Castello se tornara um egresso de sua classe. Nessa condição foi eleito presidente da República pelo Congresso, prendeu, cassou, mas não permitiu a tortura. Fez uma reforma agrária, criou o Banco Central e o FGTS. Quis devolver o poder aos civis. A linha dura não permitiu. Assinou o Ato Institucional Nº 2 e acrescentou de próprio punho um parágrafo único: “O atual presidente é inelegível”. Morreu em 1967 no céu do seu Ceará em um acidente insólito. O avião em que viajava foi abalroado em pleno ar por um caça da FAB. O piloto militar sobreviveu.
Humberto de Alencar Castello Branco foi o primeiro presidente do ciclo dos generais, que seria fechado 21 anos mais tarde pelo general João Figueiredo. Castello foi também um dos últimos oficiais superiores da estirpe de numes tutelares nascida com a Proclamação da República, em 1889, pela espada do marechal Manoel Deodoro da Fonseca. Cresceu ouvindo do pai general: “Nós militares parimos a república, é nosso dever embalá-la”. Era um tempo em que as famílias cuidavam de ter filho padre e militar. Não para salvar almas ou ganhar guerras. Mas para angariar poder político. Foi para isso que o pai o encaminhou para a farda. Foi por isso que ele a tirou em 31 de março.
Uma contradição em termos, Castello foi o grande legalista, mas deu o golpe. Sendo um empedernido soldado profissional, fez política de tenente a general. Sem chance de competir pelos primeiros lugares com os cadetes teutônicos, louros, altos, atléticos, e os de inteligência natural transbordante, como Luiz Carlos Prestes e Henrique Teixeira Lott ou mesmo Costa e Silva, decidiu superá-los pelo esforço sobre-humano nos estudos e na adesão fundamentalista à disciplina. Sua bússola era o Regulamento Disciplinar do Exército (RDE). “Mas, enquanto os outros militares só faziam o que o RDE permitia, o Castello fazia tudo o que o RDE não proibia. Assim ele conseguiu estar sempre à frente e ter o controle da maioria das situações conflituosas em que se metia”, lembra um de seus recrutas. Isso o ajudou a superar oficiais mais graduados na campanha da Força Expedicionária Brasileira na Itália durante a II Guerra Mundial e a aderir à conspiração a curta distância do quepe de Jair Dantas Ribeiro, ministro da Guerra e fiel a Jango, ao tempo que dava ao superior seguidas provas de apego à hierarquia e à disciplina.
Ribeiro não tinha razões para duvidar de Castello, que sempre rejeitou, um a um, todos os convites anteriores para tomar parte de golpes, quarteladas, motins e revoluções. Tantas vezes colegas esperançosos de que aderisse de última hora não lhe confiaram as senhas desencadeadoras de movimentos como “o bebê nasceu” ou o “trem partiu da estação”. Ele se manteve sempre legalista, racional, disciplinado e obediente à hierarquia, guardião da Constituição ─ democrata, enfim. Colocando em segundo plano as fraternas lealdades da caserna, colecionou antipatias duradouras. Castello combateu a Coluna Prestes nos anos 20. Foi contra a Revolução de 1930. Sem a menor admiração por Getúlio Vargas, foi legalista em 1932. Ficou contra os oficiais que queriam impedir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek, em 1955, por ele ter como vice João Goulart. No levante de Aragarças, de 1959, quando oficiais da Aeronáutica se amotinaram contra Juscelino, sua conduta foi exemplar. Emissários enviados para sondar a possibilidade de obter apoio do então comandante militar da Amazônia ouviram a negativa que ecoava a doutrina do Coronel Y: “É um erro de visão acreditar que o Brasil não pode melhorar dentro do regime constitucional. Só se faz uma revolução dentro de uma ideologia e impelido por uma forte corrente de opinião pública. O Brasil não quer quarteladas”.
Por que em 1964 sua atitude foi diferente? Por que ele resolveu fazer o “creme de abacate”? Essa era a expressão que os oficiais do Exército usavam para ilustrar o fato de que, embora até reconhecessem o papel da Força Aérea e da Marinha, qualquer ação contra o governo Goulart só teria êxito com o predomínio das fardas verdes. Castello aderiu por duas razões. A mais simples e prática decorria do fato de que a vitória era certa. No pior cenário, na avaliação lógica do estrategista da tomada do Monte Castelo na campanha da Itália, a vitória viria em no máximo dois meses. Veio em um dia. A outra se assentava na constatação de que o movimento contra Goulart não era uma quartelada. Não era a pura e simples usurpação do poder. O movimento representava o desejo legítimo de ampla parcela do povo.
A maioria dos generais do Exército selou o destino de Jango depois do comício na Central, no dia 13 de março, quando Leonel Brizola propôs fechar o Congresso e convocar um plebiscito. Castello precisou de mais uma semana para aceitar a inevitabilidade da ação. No dia 20 ele se comprometeu até a medula com o movimento ao emitir uma decisiva nota circular aos oficiais comandantes do Exército: “Não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos”. Usar o Exército como milícia era o plano mestre do núcleo duro em torno de Jango. “Ele nunca elogiou ninguém”, reclamava o general Olympio Mourão Filho, cujas tropas Castello tentou, em vão, fazer voltar aos quartéis em telefonema ao governador mineiro, Magalhães Pinto. Mourão encarnava tudo o que Castello desprezava em um comandante: “Fuja dos generais intuitivos e emocionais. A hecatombe nunca anda longe deles”.
Castello não viu seu triunfo degenerar nos males que julgou vencidos em 1964. Morreu como viveu: respeitado, admirado e temido. Talvez tenha superado as marcas traumáticas da cifose, seu tormento da juventude, que o levaria a usar um corretor postural na última década da vida. Talvez tenha apagado o trauma do telegrama do pai ─ “faça exame” ─, recebido quando era primeiro-tenente no 12º Regimento de Infantaria, em Belo Horizonte. Fazer um exame médico fora a única exigência imposta pelo sogro, o comerciante Arthur Vianna, para entregar-lhe a mão de sua filha Argentina. Vianna temia que Castello fosse portador de uma doença hereditária. O amor foi maior do que a indignação, e o tenente deixou-se examinar, tranquilizando o sogro. Poucos meses depois, casou-se com Argentina, que morreu, em 1963, no Recife. Dois anos mais tarde, dizem, o coração de Castello já encontrava conforto ocasional ao lado de linda e talentosa atriz.
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Colaboradores: André Petry, Augusto Nunes, Carlos Graieb, Diogo Schelp, Duda Teixeira, Eurípedes Alcântara, Fábio Altman, Giuliano Guandalini, Jerônimo Teixeira, Juliana Linhares, Leslie Lestão, Otávio Cabral, Pedro Dias, Rinaldo Gama, Thaís Oyama e Vilma Gryzinski.

02 abril 2014

O que lembro de "1964"

Estava com dez anos de idade quando o idiota do Jango e todos os socialistas ao seu redor empurraram o país para uma ditadura de 21 anos.
Nesta época, eu morava no Careiro da Várzea (AM), a 17 km e a 2,5 h por barco de linha de Manaus - com minha mãe, e meu pai sempre ausente - e não tive qualquer notícia desse evento "1964".
O Careiro da Várzea é uma ilha cercada à esquerda pelo rio Amazonas a partir do Rio Negro, no encontro das águas, e, à direita pelo paraná do Careiro. 
Entre idas e vindas de Manaus ao Careiro, vivi ali por cerca de 13 anos. Até que me mudei definitivamente para Manaus em dezembro1966, com doze anos.
Nasci em Manaus em 1954 e logo minha mãe Alzira me levou de volta para o Careiro, onde morava no terreno deixado por meu avô Guilherme Pinheiro Bastos, oriundo do Ceará.
Em 1960, quando minha irmã Jânia nasceu, meu pai Waldetário Pinheiro, de origem pernambucana, fez minha mãe vender a pequena propriedade e se mudar para Manaus.
Ao chegar em Manaus, lembro que havia cartazes da seleção brasileira por todos os lugares e de nomes como Pelé e Garrincha, mas para mim estes eram ilustres desconhecidos. Nem pelo rádio acompanhei "1958". E pra dizer a verdade, nem mesmo "1962" significou para mim nenhuma novidade.
Aprendi a ler aos sete anos e fazia da leitura uma viagem mágica. Todos os domingos passava no Oratório Domingos Sávio, da paróquia de São José Operário. Fazia da sala de leitura meu lugar favorito.
Vivemos em Manaus até 1964, quando meu pai vendeu a nossa casa e ficamos sem ter onde morar, quando então voltamos novamente para o Careiro - na verdade para o paraná do Cambixe (um paraná que corta a ilha do Careiro do início até o final, por cerca de 150 km) - , onde passamos a morar como caseiros da fazenda do Sr. Adalto Leite, que era conhecido da família. O irmão dele, Oscar Leite, que morava na parte norte, ou baixa, do Cambixe, era meu padrinho de batismo. Para mim, um pai.
Nessa fazenda fiz tudo o que para mim era de um prazer indizível, tal como nadar no rio, pescar e caçar no lago, trabalhar como vaqueiro, andar de cavalo, tocar boiada, tirar leite, fazer queijo, manteiga, etc. Eram atividades lúdicas maravilhosas que me dão imensa saudade. Contudo, nada disso significava para mim o meu "futuro", uma vez que vivia em uma fazenda como de favor.
Daí ter me mudado definitivamente, em dezembro de 1966, para Manaus, eu sozinho, para morar com minha tia Alice Pinheiro, e ali realmente completar a minha alfabetização e prosseguir nos estudos. Minha mãe Alzira ficou na fazenda do Adalto Leite, no Cambixe, juntamente com meus irmãos Renato e Jânia.
De 1967 a 1968, estudei justamente na Escola Industrial Salesiana, que funcionava no meu já querido Oratório Domingos Sávio, da paróquia São José, onde completei minha alfabetização e então, em 1969, dei início ao "ginásio industrial" da Escola Técnica Federal, que corresponde às hoje quinta a oitava séries do ensino fundamental.
Na querida Etfam foi onde percebi com maior proximidade a existência de um regime político duro, pois ali éramos tratados com um rigor quase militar. Éramos obrigados a estudar em regime integral, pois tínhamos que, além das aulas "normais", fazer a cada semestre um curso profissionalizante. Portanto, após quatro anos de ginásio industrial, já tinha feito mais de oito cursos profissionalizantes: eletricidade, encadernação, tipografia e linotipia, marcenaria e carpintaria, serralheria e solda, mecânica de autos e mecânica de máquinas. Sem contar as famosas "horas cívicas" em que éramos obrigados a cantar o hino nacional e astear a bandeira nacional, isso após ouvirmos o professor da disciplina "educação moral e cívica", um "coronel", dizia-se. Algumas vezes um aluno era escalado para falar na hora cívica. Quem fazia isso frequentemente era o hoje pastor Samuel Câmara. Era evidente o medo que reinava entre os professores, os quais se negavam a emitir qualquer opinião sobre a situação geral do país. Não estudavam mulheres na Etfam. Estas foram admitidas apenas em 1970. Acho que para pacificar o clima de "guerra" havida entre os homens, alunos e professores.
Vivíamos um momento ao mesmo tempo difícil politicamente, mas rico nas áreas culturais, na música (bossa nova, jovem guarda, tropicália), no cinema, etc.
Manaus, é óbvio, na verdade estava muito longe dos centros cultural e político do país e pouca coisa se percebia  além dos muros da Etfam. Estou falando de minha própria experiência.
Apenas em 1975, quando o Incra me recrutou na Etfam, eu e mais quatro colegas (José das Graças, Darlindo Alves, Tadashi e Pedro Marçal), para trabalharmos como topógrafos, é que fui me dar conta da estrutura de poder militar que estava comandando o país. O Incra era comandado por um "coronel". Coloco aspas porque nem sempre esses dirigentes eram militares, mas faziam questão de serem conhecidos e reconhecidos como tais.
Em 1976, ainda estudando na Etfam o quarto ano do curso técnico de Estradas, passei no meu primeiro vestibular na UA (hoje Ufam) para Matemática. Não sabia que isso era praticamente "proibido", isto é, não sabia que estudar na Universidade era como receber um "carimbo" de comunista. O certo é que minhas atitudes no Incra também acabaram "ajudando" para esse estereótipo, pois demarcava as terras tanto dos que constavam quanto dos que NÃO constavam dos Projetos de demarcação, causando perplexidade no departamento de cartografia.
Na verdade, comunista existiam aos magotes, tanto na UA quanto no Incra. Um e principal deles era o colega João Pedro Gonçalves, hoje um petista de carteirinha. Éramos colegas de campo, de demarcação de terras. A reforma agrária era um "campo minado" ideologicamente.
Em 1977, sem entender porque, fui transferido "mano militari" do Incra de Manaus para o Incra de Tabatinga, na fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia, onde fiquei "exilado" por dois anos. Isso me rendeu, em 1994, a anistia política e a reintegração ao Incra. Um anos depois, preferi ser professor da Ufam, aprovado que fui em concurso para professor de administração (depois fui credenciado também pela Faculdade de Direito para ministrar as turmas de direito oferecidas para o departamento de administração). Formei em direito em 1992, também na Ufam. Estou até hoje como professor, embora já esteja tecnicamente aposentado desde 2009. Contudo, embora anistiado, não recebo a indenização a que faço jus. A Comissão de Anistia dos "companheiros" não tem interesse pelo meu caso. Ingressei no STJ com Mandado de Segurança. Oremos!
Tenho outras lembranças do meu "1964", mas fica para outros posts.

‘Esquerda tinha ditaduras como modelo’, um texto de Marco Antonio Villa


Publicado no Blog do Marco Antonio Villa
Durante a ditadura, a oposição de esquerda transformou a experiência dos países socialistas em referência de democracia. A ditadura do proletariado foi exaltada como o ápice da liberdade humana e serviu como contraponto ao regime militar. A falácia tinha uma longa história. Desde os anos 1930 brasileiros escreveram libelos em defesa do sistema que libertava o homem da opressão capitalista.
Tudo começou com URSS, Um Novo Mundo, de Caio Prado Júnior, publicado em 1934, resultado de uma viagem de dois meses do autor pela União Soviética. Resolveu escrevê-lo, segundo informa na apresentação, devido ao sucesso das palestras que teria feito em São Paulo descrevendo a viagem. À época já se sabia do massacre de milhões de camponeses (a coletivização forçada do campo, 1929-1933) e a repressão a todas os não bolcheviques.
Prado Júnior justificou a violência, que segundo ele “está nas mãos das classes mais democráticas, a começar pelo proletariado, que delas precisam para destruir a sociedade burguesa e construir a sociedade socialista”. A feroz ditadura foi assim retratada: “O regime soviético representa a mais perfeita comunhão de governados e governantes”. O autor regressou à União Soviética 27 anos depois. Publicou seu relato com o título O Mundo do Socialismo. Logo de início escreveu que estava “convencido dessa transformação (socialista), e que a humanidade toda marcha para ela”.
Em 1960, Caio Prado não poderia ignorar a repressão soviética. A invasão da Hungria e os campos de concentração stalinistas estavam na memória. Mas o historiador exaltava “o que ocorre no terreno da liberdade de expressão do pensamento, oral e escrito”, acrescentando: “Nada há nos países capitalistas que mesmo de longe se compare com o que a respeito ocorre na União Soviética”. E continua escamoteando a ditadura: “Os aparelhos especiais de repressão interna desapareceram por completo. Tem-se neles a mais total liberdade de movimentos, e não há sinais de restrições além das ordinárias e normais que se encontram em qualquer outro lugar.”
Seguindo pelo mesmo caminho está Jorge Amado, Prêmio Stalin da Paz de 1951. Isso mesmo: o tirano que ordenou o massacre de milhões de soviéticos dava seu nome a um prêmio “da paz”. Antes de visitar a União Soviética e publicar um livro relatando as maravilhas do socialismo – o que ocorreu em 1951 -, Amado escreveu uma laudatória biografia de Luís Carlos Prestes. A União Soviética foi retratada da seguinte forma: “Pátria dos trabalhadores do mundo, pátria da ciência, da arte, da cultura, da beleza e da liberdade. Pátria da justiça humana, sonho dos poetas que os operários e os camponeses fizeram realidade magnífica”.
A partir dos anos 1970, o foco foi saindo da União Soviética e se dirigindo a outros países socialistas. Em parte devido aos diversos rachas na esquerda brasileira. Cada agrupamento foi escolhendo a sua “referência”, o país-modelo. O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) optou pela Albânia. O país mais atrasado da Europa virou a meca dos antigos maoistas, como pode ser visto no livro O Socialismo na Albânia, de Jaime Sautchuk. O jornalista visitou o país e não viu nenhuma repressão. Apresentou um retrato róseo. Ao visitar um apartamento escolhido pelo governo, notou que não havia gás de cozinha. O fogão funcionava graças à lenha ou ao carvão. Isso foi registrado como algo absolutamente natural.
O culto da personalidade de Enver Hoxha, o tirano albanês, segundo Sautchuk, não era incentivado pelo governo. Era de forma natural que a divinização do líder começava nos jardins de infância onde era chamado de “titio Enver”. As condenações à morte de dirigentes que se opuseram ao ditador foram justificadas por razões de Estado. Assim como a censura à imprensa.
Com o desgaste dos modelos soviético, chinês e albanês, Cuba passou a ocupar o lugar. Teve papel central neste processo o livro A Ilha, do jornalista Fernando Morais, que visitou o país em 1977. Quando perguntado sobre os presos políticos, o ditador Fidel Castro respondeu que “deve haver uns 2 mil ou 3 mil”. Tudo isso foi dito naturalmente ─ e aceito pelo entrevistador.
Um dos piores momentos do livro é quando Morais perguntou para um jornalista se em Cuba existia liberdade de imprensa. A resposta foi uma gargalhada: “Claro que não. Liberdade de imprensa é apenas um eufemismo burguês”. Outro jornalista completou: “Liberdade de imprensa para atacar um governo voltado para o proletariado? Isso nós não temos. E nos orgulhamos muito de não ter”. O silêncio de Morais, para o leitor, é sinal de concordância. O pior é que vivíamos sob o tacão da censura.
O mais estranho é que essa literatura era consumida como um instrumento de combate do regime militar. Causa perplexidade como os valores democráticos resistiram aos golpes do poder (a direita) e de seus opositores (a esquerda).

01 abril 2014

Vídeo sobre a deflagração do golpe de 1964

Assista ao vídeo feito por Augusto Nunes e publicado no site de veja sobre a deflagração do golpe militar de 1964, do qual já se passaram 50 anos...



50 ANOS DO GOLPE MILITAR: FHC lamenta: “Faltam-nos crença na democracia e grandeza na vida política”

Republico aqui a entrevista de FHC sobre o golpe de 1964:
(Foto: Eduardo Nicolau / Estadão)
O ex-presidente em sua sala no Instituto que leva seu nome, em São Paulo: militares golpistas não tinham projeto (Foto: Eduardo Nicolau / Estadão)
Entrevista concedida à jornalista Laura Greenhalgh, de O Estado de S. Paulo
se entre ser socialista nos modos e marxista nas ideias. E fazia a cabeça da estudantada da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP).
Daí o golpe se consumou e o professor Fernando Henrique teve que sumir. Vazou, como se diz hoje. “Quando os policiais chegaram na Maria Antonia (nome da rua onde ficava a faculdade, em São Paulo) para me prender quase levaram o (filósofo) Bento Prado, achando que era eu”, comenta o ex-presidente ao lembrar de um tempo em que precisou pular de casa em casa, de cidade em cidade, às escondidas, até se fixar no Chile, para onde seguiram a mulher, Ruth Cardoso, e os filhos pequenos.
entrevista que se segue, o trigésimo-quarto mandatário brasileiro reflete sobre a ditadura e conclui que ela não chegou a desmontar o Estado regulador. “Falam tanto em neoliberalismo, mas nunca tivemos isso no País. Já liberalismo político, esse eu até gostaria que houvesse mais”.
A 50 anos do golpe que o levou para o exílio e aos 82 de idade, Fernando Henrique, deixa passar uma nota de amargura: “Não estamos em condição de ensinar democracia a ninguém, porque há muito a aprender. Faltam-nos, sobretudo, crença na democracia e grandeza na vida política.”

Onde o senhor estava quando tudo aconteceu, 50 anos atrás?
Semanas antes do golpe, quando houve aquele comício da Central do Brasil, eu estava no Rio, onde vivia meu pai. Passei pelo comício e embarquei lá mesmo, rumo a São Paulo.
Era 13 março. No trem estavam o (hoje ex-ministro) José Gregori, o (hoje ex-deputado federal) Plínio de Arruda Sampaio, com quem eu acabaria me reencontrando no exílio, e um rapaz chamado Marco Antonio Mastrobuono, que depois viria a casar com a Tutu, filha do Jânio Quadros.
Viemos conversando ao longo da viagem sobre a situação. Ali ninguém era entusiasta do Jango, eu também não era. Embora meu pai fosse um militar nacionalista, que inclusive havia sido deputado pelo PTB.

Seu pai era um nacionalista. E o senhor?
Um socialista. Tivera contato com o comunismo nos anos 1950, mas àquela altura, depois do stalinismo, não sobravam ilusões. Também não tinha ilusão de que o Jango seria algo extraordinário ao país, porque ele era um populista e eu, um acadêmico. E, na universidade, tínhamos a convicção de que as mudanças viriam da luta de classes, não do populismo.
Pois bem, chegando a São Paulo, encontrei um clima de grande agitação. Nessa época o Darcy (Ribeiro) já havia sido nomeado chefe da Casa Civil do Jango. E era muito amigo da minha família.
Nós nos falamos algumas vezes por telefone naqueles dias e isso terminou me trazendo uma dor de cabeça tremenda, pois o aparelho do Darcy estava grampeado e fui grampeado, também.

O que aconteceu exatamente?
O Darcy um dia me disse que viria a São Paulo e eu comentei “vem com cuidado aí com o Grupo dos Onze” (grupo de resistência radical concebido em 1963 pelo então governador gaúcho Leonel Brizola).
Disse aquilo por dizer, sem qualquer intenção, porque havia acontecido uma violência contra o ministro da Reforma Agrária do Jango, em São Paulo, algo assim. Esse comentário grampeado iria me complicar no futuro, quando fui processado na Justiça Militar.
Mas, na noite do golpe, lá na Maria Antonia, havia mesmo muita confusão. Eu exercia certa influência sobre alunos e professores mais jovens, embora fosse jovem também – tinha só 33 anos, mas já fazia parte do Conselho Universitário. Muitos dos meus colegas achavam que o golpe era do Jango e dos generais leais a ele, o Amaury Kruel, o Osvino Ferreira Alves.
A confusão era tanta que eu telefonei para o Luiz Hildebrando da Silva, que era da Medicina da USP e ligado ao Partidão (o então clandestino Partido Comunista Brasileiro), dizendo para ele vir até a Maria Antonia, pois estavam preparando um manifesto contra um golpe do presidente. E não um manifesto contra o golpe no presidente! Veja como estávamos perdidos na USP, isolados da vida política, mergulhados num marxismo teórico.
Vou contar uma passagem estapafúrdia: naqueles dias soubemos que haveria uma resistência armada no Sul e então o Bento Prado, o (cientista social) Leôncio Martins Rodrigues, o Paulo Alves Pinto, que era sobrinho do general Osvino, e eu cogitamos tomar um aviãozinho no Campo de Marte para lutar no Sul.
Ainda bem que não houve luta alguma (ri). Então, assim foi a minha última noite andando pela rua Maria Antonia. No dia seguinte, a polícia apareceu por lá para me prender. Quase levaram o Bento Prado, pensando que fosse eu.

Como escapou de ser preso na Maria Antonia?
Alunos meus ficaram nas esquinas, à espreita, para me avisar que a polícia estava lá, assim que eu me aproximasse. Acabei não indo à faculdade e naquela noite dormi na casa de um amigo, o cineasta Bráulio Muniz. Continuei me escondendo, daí fui para o Guarujá na casa do (fotógrafo) Thomas Farkas, com o Leôncio. E a Ruth (Cardoso), minha mulher, ficou aqui, tentando entender o que se passava.
Ruth procurou o Honório Monteiro, que fora ministro do presidente Dutra e era meu colega no Conselho Universitário. O Honório tentou interferir a meu favor junto ao Miguel Reale, então secretário de Segurança. Mas o Reale respondeu que no meu caso não havia o que fazer, porque “esse professor Cardoso não é só teórico, mas prático também”.
Outro amigo, o (economista, museólogo e autor teatral) Maurício Segall, que já se ocupava de organizar fugas, achou que eu tinha que cair fora, não havia condições de ficar no país. Saí por Viracopos e fui para Argentina, para a casa de um ex-colega meu na França, que mais tarde viria a ser ministro do Kirchner, o José Nun.
Tive convite para lecionar na Universidade de Buenos Aires, mas também convite para trabalhar na Cepal, no Chile. Preferi ir para o Chile. Meses depois Ruth veio ao meu encontro, com as crianças, e lá ficamos anos.

Voltou ao Brasil nesse período?
Duas vezes. Eu me encontrei em Paris com (o professor e crítico literário) Antonio Candido, que dava aulas por lá, e ele me ajudou a voltar ao Rio para ver meu pai. Era 1965. Quando meu pai morreu, eu estava no Chile, mas já com passaporte validado, portanto voltei para o enterro. Houve uma missa com muitos oficiais e um deles chegou perto do meu irmão para dizer, referindo-se a mim: “Ou ele vai embora ou vai ser preso”.
Vim para a casa do (empresário e editor) Fernando Gasparian, em São Paulo, dormi outra noite na casa do (sociólogo) Pedro Paulo Popovic, e regressei ao Chile. Acabei não sendo preso.
Houve o processo contra mim na Justiça Militar, com acusações ridículas, entre as quais aquela envolvendo o telefonema grampeado do Darcy, e outras histórias vindas da universidade, de colegas que naquele momento dedo-duraram bastante, mas depois virariam ultra-esquerdistas.
O general Peri Bevilacqua, neto do Benjamin Constant e homem ligado à minha família, foi quem me deu um habeas corpus anos depois (no Superior Tribunal Militar, de que era ministro). Mais tarde ele seria cassado, também. Pude devolver as medalhas do general para a família dele, quando estava na Presidência.

O que o senhor pesquisava na época do golpe?
O empresariado brasileiro. Foi minha tese de livre-docência, defendi em 1963 e publiquei-a no ano seguinte.
Contestava a visão da esquerda de que havia uma aliança dos latifundiários com os imperialistas, contra a burguesia nacional e o povo. Isso era bobagem. Os empresários tinham ligação com o campo e não eram antiimperialistas, com exceção de dois ou três. A esquerda apostava no papel progressista da burguesia nacional e eu tinha uma visão crítica em relação a isso.

Disse que não se entusiasmava por João Goulart. Como o definiria?
Jango não era de assustar ninguém e hoje seria um político muito mais tranquilo do que qualquer um desses governantes populistas da América Latina. Mas, no contexto da Guerra Fria, e pelos contatos que tinha com os comunistas, representava o horror naquele momento.
Vi isso acontecer de novo no Chile. Allende era um reformista e virou o belzebu. Enfim, Jango era um político brasileiro tradicional, populista, um latifundiário que nunca quis fazer revolução alguma. Levantava a bandeira das reformas de base e ninguém sabia exatamente o que eram.
Olhando sociologicamente: tínhamos o mundo contingenciado pela Guerra Fria, porém o Brasil começava a se encaixar no eixo dos investimentos estrangeiros, desde o Juscelino. Havia crescimento industrial, forte migração campo-cidade e um Estado incompetente para atender às demandas de uma sociedade que crescia.
Então, a população começou a se movimentar e ir para as ruas. Nós, acadêmicos, estávamos tão entretidos com os debates teóricos, que quando nos demos conta as ruas tinham entrado na universidade!

Qual era o projeto dos militares em 1964? Submeter o País a uma modernização imposta de cima para baixo?
Acho que nem tinham projeto. Setores pensavam de forma diferente e foram variando de posição até o final. O general Amaury Kruel (foi ministro da Guerra de Jango), por exemplo, foi um que variou até o momento do golpe. Mesmo o general Mourão, de Minas, não tinha noção do que deveria ser feito.
Quem tinha? Os oficiais da Escola Superior de Guerra, o grupo do Castello Branco. Esses sabiam que seria importante empreender no País a modernização conservadora. Mas, veja só, entregaram a economia ao (Otávio Gouveia de) Bulhões e ao (Roberto) Campos, que por sua vez saíram atrás da modernização capitalista – arrocho fiscal, arrocho salarial, tudo feito a machadinhas, o povo pagando um preço alto.
Implantaram um programa austero, que deu na explosão econômica dos anos 70. Ora, quem fez isso não foram os militares, mas o Bulhões e o Campos. Havia necessidade de modernizar o capitalismo brasileiro. E, consequentemente, frear o avanço do setor estatal. Até porque o Juscelino já tinha feito o enganche do país com o setor produtivo global e os militares sabiam disso.

O senhor acha que o regime, no seu primeiro momento, tratou de sepultar o legado varguista?
O Castello, talvez. A verdade é que os militares já estavam claramente divididos, e isso era visível no Clube Militar: havia o setor ultranacionalista e o setor democrático-liberal. Este se aproximava dos Estados Unidos. E o ultranacionalista, embora não engolindo os russos, achava que eles funcionavam como contrapeso ao poderio americano.
Isso, evidentemente, tem a ver com as posturas “ser Getúlio” ou “ser anti-Getúlio”, levando-se em conta que o Getúlio simbólico foi sempre o nacionalista-estatizante. É interessante notar como era o contexto da época: os militares nacionalistas-estatizantes, que nunca confiaram nas forças do mercado, eram chamados de esquerda, o que era exagero. E os democráticos-liberais eram vistos como direita, outro exagero.

Daí o regime foi se radicalizando.
Exato, foi radicalizando a tendência autoritária. Isso não foi pretendido no começo, mas foi se formando. E virou um monstro que, não fosse o (general Ernesto) Geisel ter-se oposto, justo ele, um nacionalista-estatizante, correríamos o risco de cair numa direita fascista. Uma direita que se justificaria pelo apego à ordem, e não pelo desenvolvimento capitalista.
Cabe ainda muita pesquisa sobre o período, para analisar com objetividade e entender como tudo aconteceu ao largo de um intenso processo de industrialização e urbanização. São Paulo, em meados da década de 70, crescia 5% ao ano. Havia mais de cinco milhões de pessoas vivendo aqui. Tivemos um crescimento econômico que não correspondeu ao social.
Isso começa a ser corrigido com a redemocratização e vem até agora. Penso que hoje, de novo, vivemos algo parecido. Não se tem mais a mobilidade rural-urbana do passado, mas uma intensa mobilidade social. As pessoas querem mais e o Estado não tem como dar.
Instalados no poder, os militares trataram de providenciar uma fachada de legalidade ao regime. Chegaram a falar em “democracia relativa”.De fato, eles nunca aceitaram que o regime não fosse visto como democrático.