J.R. GUZZO: “Não fui eu”

“A
presidente Dilma daria um enorme passo adiante se deixasse entrar na
própria cabeça a ideia de que um fracasso é apenas um fato, e não um
julgamento moral” (Foto: Dida Sampaio / AE)
Artigo publicado em edição impressa de VEJA
NÃO FUI EU
Nada
como o fracasso para trazer à luz do sol alguns dos defeitos mais
desagradáveis que o ser humano esconde nos subúrbios distantes da sua
alma.
Diz-me como lidas com teus fracassos, e eu te direi quem és — eis aí o
resumo da ópera, numa adaptação do velho provérbio sobre as más
companhias. De fato, é quando as coisas complicam que fica mais fácil
dividir o bom do mau caráter.
Personalidades construídas com material de primeira qualidade sabem
que o fracasso, em si, não é fatal; é apenas o resultado dos erros de
julgamento de todos os dias, e, portanto, deve ser enfrentado com a
disposição de fazer mudanças, adquirir mais conhecimento, ouvir mais
gente e assim por diante.
Mas sabem, também, que o fracasso pode ser um pecado mortal quando o
seu autor não admite que fracassou, ou nega que tenha havido realmente
um fracasso, ou, pior que tudo, põe a culpa do fracasso nos outros. Seu
mandamento principal é uma frase muito ouvida nas salas de aula
infantis: “Não fui eu”. São pessoas fáceis de encontrar. Um dos seus
habitats é o governo.
A presidente Dilma Rousseff, por exemplo, não perde nenhuma
oportunidade de dizer “não fui eu”. O ano de 2013, para ir direto ao
assunto, foi uma droga. O PIB cresceu abaixo de 2,5% — quase metade do
que o governo tinha prometido no começo do ano.
O saldo da balança comercial teve o pior resultado desde 2000, com
uma queda de quase 90% em relação a 2012. Num tipo de molecagem contábil
cada vez mais comum, registrou-se como “exportação” a venda de
equipamento que nunca saiu do território nacional.
Em dólar, mesmo, não entrou um centavo no Brasil. Mas no papelório
oficial consta o ingresso de quase 8 bilhões, sem os quais, aliás, teria
havido déficit na balança de 2013. Outros truques parecidos fazem do
Brasil um aluno promissor da Escola de Contabilidade Cristina Kirchner.
Pela primeira vez em dez anos, caíram as vendas de carros. O
contribuinte pagou 1,7 trilhão de reais em impostos — a maior soma de
todos os tempos. Os brasileiros gastaram cerca de 25 bilhões de dólares
no exterior, quatro vezes mais do que os estrangeiros gastaram aqui — e
qual a surpresa, quando ficou mais barato comprar um enxoval em Miami do
que em Botucatu?
A maior empresa do Brasil, a Petrobras, teve um desempenho
calamitoso: em apenas um ano, de 2012 a 2013, foram destruídos 40
bilhões de reais do seu valor de mercado. O Brasil (que Lula, em 2006,
proclamou “autônomo” em petróleo, e já pronto para “entrar na Opep”)
importou 40 bilhões de dólares em petróleo e derivados em 2013.
A presidente, cada vez mais, dá a a impressão de estar passeando num
outro planeta. Segundo Dilma, 2013 até que foi um ano bem bonzinho, e o
que pode ter acontecido de ruim não foi culpa dela, e sim da “guerra
psicológica” que teria sofrido.
Foram condenados, também, os “nervosinhos” — gente que, segundo o
ministro Guido Mantega, fez cálculos pessimistas para as contas públicas
de 2013. Veio, então, com uns miseráveis decimais acima das tais
previsões — que, de qualquer forma, ficaram muito abaixo da meta
prometida. Os juros foram a 10,5% ao ano, a inflação voltou a roncar e o
Brasil pode perder o seu sagrado “grau de investimento” em 2014.
A estratégia econômica resume-se hoje a repetir a ladainha de sempre
sobre o desemprego de “apenas 4,6%”, que na verdade parece ser de 7%, e o
aumento de renda que levou “milhões de brasileiros” a sair da miséria e
subir à “classe média”.
Chega a ser piada de humor negro misturar dados de desemprego no
Brasil e em países do Primeiro Mundo, para vender a ilusão de que
“estamos melhor que eles”. O que adianta isso, quando o abismo entre
nosso bem-estar e o do mundo desenvolvido continua igual?
Da “subida social” dos brasileiros, então, é melhor nem falar. Falaro
quê, quando o governo decidiu que faz parte da classe média todo
cidadão que ganha de 291 reais por mês a 1019? A presidente quer que
acreditemos no seguinte disparate: a pessoa entra na classe média se
ganhar menos da metade do salário mínimo por mês; se ganhar 1020 reais,
já fica rica.
A presidente Dilma daria um enorme passo adiante se deixasse entrar
na própria cabeça a ideia de que um fracasso é apenas um fato, e não um
julgamento moral. Ninguém se torna um ser humano melhor porque acerta,
ou pior porque erra.
Mas no Brasil o que vale não é enfrentar o fracasso lutando pelo
sucesso. Melancolicamente, o que funciona é negar a derrota e chamar a
marquetagem para dar um jeito nas coisas. O resultado são anos como
2013.











