Em apenas
dois dias, o governo brasileiro conseguiu minar de maneira preocupante a
credibilidade da economia aos olhos mercado num momento em que o Brasil
tenta atrair investidores de longo prazo para os projetos de
infraestrutura. Há duas razões primordiais para a piora da percepção
externa em relação ao Brasil. Primeiro, a inflação de janeiro recém
divulgada. E, em seguida, pela política de câmbio falsamente flutuante
que está em curso. Não bastassem esses dois fatores, ainda há o
desalinho de mensagens emitidas pelo Banco Central e o Ministério da
Fazenda para justificar a deterioração dos pilares econômicos que
sustentam a economia. O mercado não sabe o que esperar do Brasil.
Segundo o jornal britânico Financial Times, o país se tornou “um
enigma”. Já o Wall Street Journal publicou um artigo nesta sexta-feira
afirmando ser impossível encontrar um meio termo entre as informações
desencontradas enviadas pelas autoridades brasileiras.
A inflação
(de 0,86% em janeiro) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) na quinta-feira mostrou-se acima das estimativas,
elevando a preocupação do mercado em relação à capacidade de o governo
conseguir domar a alta dos preços. No acumulado de 12 meses, o Índice
Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está em 6,15%, o que
mostra que o governo deixou de mirar o centro da meta de inflação, que é
de 4,5%, e tem admitido porcentuais maiores na expectativa de
impulsionar o crescimento econômico. “Há uma clara tolerância em relação
à inflação no Brasil. Já começa pelo nível alto que está no centro da
meta (de 4,5%), enquanto em países como o Chile, Colômbia e México, é de
3%, e no Peru, 2%”, afirmou o economista-chefe do Goldman Sachs para a
América Latina, Alberto Ramos, em comunicado enviado na última semana.
Na mesma
quinta-feira, o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini,
demonstrou inquietação com a alta persistente do indicador, mas avisou
que não prevê utilizar a taxa de juros como forma de equalizar esse mal.
“A inflação nos preocupa a curto prazo, está mostrando uma resiliência
forte, mas não é o caso de descontrole inflacionário. A nossa
expectativa é que ela continue pressionada no primeiro semestre”, disse
Tombini em entrevista à jornalista Miriam Leitão.
Com a
queda da Selic descartada no curto prazo, uma forma lógica de viabilizar
a desaceleração do IPCA seria a desvalorização do dólar – ideia que
ganhou força em meados de janeiro quando o BC começou um movimento
intensivo de venda de contratos de câmbio no mercado futuro, fazendo com
que a moeda americana saísse do patamar de 2,10 e recuasse para menos
de 2 reais em duas semanas. Na manhã desta sexta-feira, após a fala de
Tombini sobre a Selic e a inflação, o dólar chegou a bater 1,95 real
(menor cotação em mais de nove meses), incomodando o ministro da
Fazenda, Guido Mantega – indivíduo que, em teoria, não tem como função
atuar na política cambial, e sim na fiscal.
Mantega,
em seguida, veio a publico dizer que não deixará o dólar cair para algo
próximo de 1,85 real – ignorando que a flutuação cambial é a política
oficial adotada pelo governo desde a gestão de Fernando Henrique
Cardoso. O ministro ameaçou ainda retomar todas as medidas de
protecionismo alicerçadas no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF),
que fizeram o capital estrangeiro fugir do Brasil no último ano e que
estavam sendo desfeitas pelo próprio governo devido, justamente, ao
baixo nível de investimento verificado na economia brasileira em 2012.
“O ideal é que não houvesse intervenção, mas isso é sonho. Agora, se
houver de novo uma tendência especulativa, se o pessoal se animar:
‘vamos puxar esse câmbio para 1,85′, aí estaremos de novo intervindo”,
disse o ministro. “Posso comprar mais reservas e posso reconstituir os
IOFs (que foram reduzidos)”.
Segundo o
analista da Economist Intelligence Unit (EIU), Robert Wood, tal
movimentação desconexa amedronta ainda mais o investidor estrangeiro –
exatamente quando o governo quer estimular o oposto. “As empresas que
estavam esperando um período de estabilidade na taxa de câmbio em torno
de 2 reais, agora se deparam com incertezas. E os últimos dados de
inflação também devem atrasar ainda mais as decisões de investimento no
Brasil”, afirma.



